Saturday, October 11, 2014

A expiação da injustiça em Anaximandro!...

«1. Tudo se dissipa nisso de onde provém, e todas as coisas se dissipam em virtude do grau de culpabilidade, porque retribuem umas às outras o castigo e a expiação pelas injustiças, consoante o tempo determina. / 2. O ilimitado (apeiron) é eterno. / 3. O ilimitado é imortal e indissolúvel.»

Fragmentos de Anaximandro
In GOMES, Pinharanda – Filosofia Pré-Socrática. p. 126.

Anaximandro [N. Mileto, c. 610 – m. 546 a.C.], filósofo grego, sucessor de Tales na direcção da Escola de Mileto, criador do conceito de apeiron (άπειρου), cujo significado, levado à letra, nos aponta para o infinito, “não no sentido matemático, mas no de ilimitação ou indeterminação”, insere-se na conexão do nascimento da filosofia naturalista e que, sendo tomado como exemplo, é apontado por Werner Jaeger como a figura mais imponente dos físicos milesianos. José Nunes Carreira vai mais longe, ao vincular Anaximandro à criação da noção do cosmos, quando afirma uma ordem das coisas correspondente à que existe entre os homens: «donde advém a origem ao ser, no mesmo sentido vai o acaso, segundo as determinações do destino; pois um ao outro deve pagar castigo e pena, de acordo com a sentença do tempo».
A tradição atribui a Anaximandro a autoria de um livro com o título padrão Sobre a Natureza (c. 547 a.C.), a construção de um mapa-mundo, de uma carta celeste, de um modelo esférico para representar os corpos celestes, o primeiro a descobrir o equinócio e os solstícios e a introduzir o gnómon – já conhecido na Babilónia – na Grécia, mas o que chegou até nós é indirecto e fragmentário. Referimo-nos ao fragmento – no fundo, uma reconstrução de um texto tardio – que se revelou no que há de mais enigmático na filosofia grega. G. S. Kirk dá-nos conta que parte da informação fornecida por Teofrasto sobre a matéria originadora de Anaximandro encontra-se em Simplício. No entanto, ainda hoje se discute se o mesmo recebeu estes e outros extractos doxográficos semelhantes directamente de uma versão de Teofrasto, ou por intermédio do comentário de Alexandre, hoje perdido sobre a Física.
Luciano Crescenzo define Anaximandro através dos seus fragmentos, cuja interpretação “deve ter colocado em apuros mais que um historiador de filosofia”, como aquele que concebeu os elementos como deuses sempre prontos a atacar os seus opostos: o Calor gostaria de dominar o Frio, o Seco gostaria de dominar o Húmido e vice-versa, mas a necessidade domina-os a todos e impõe-lhes que certas proporções permaneçam inalteráveis. E aqui, se nos referimos ou aludimos à justiça, teremos que entender apenas o respeito pelos limites estabelecidos, o ver mais longe do que um simples equilíbrio entre elementos diferentes, como a «necessidade» e a «expiação», revelando no seu pensamento o desejo místico de uma ordem suprema. Disso nos dá testemunho Plutarco, quando descreve a visão do filósofo da escola Mileto, acerca do nascimento do Universo: «Ele afirma que do Eterno se separaram o calor e o frio e que uma esfera de fogo se espalhou em torno do ar que envolvia a Terra como a cortiça envolve a árvore; depois, a esfera partiu-se e separou-se em círculos e assim se formaram o Sol, a Lua e os astros».


Não é por acaso que para Werner Jaeger, a concepção da Terra e do mundo em Anaximandro é uma vitória do espírito geométrico. Segundo o mesmo autor, o mundo de Anaximandro é construído segundo rigorosas proporções matemáticas. Num dos relatos de Teofrasto, atribuído a Hipólito, afirma-se que o filósofo de Mileto dizia que o princípio material das coisas que existem era uma natureza do apeiron, de que provêm os céus e o mundo neles contidos e, esta natureza, para além de envolver todos os mundos, é eterna e não envelhece. Daí, concluirmos que há uma pluralidade de inúmeros mundos coexistentes, e a fonte da geração das coisas – citando Simplício – que existem é aquela em que se verifica também a destruição «segundo a necessidade; pois pagam o castigo e retribuição umas às outras, pela sua injustiça, de acordo com o decreto do Tempo».
Um facto curioso é que José Trindade dos Santos ao referir-se aos filósofos Milénios, dá-os como os iniciadores da reflexão filosófica na Grécia, mas, sempre vai dizendo que de Tales, de Anaximandro, ou de Anaxímenes não nos chegou qualquer texto, com a possível excepção de um fragmento atribuído a Anaximandro. No entanto, a importância destes pensadores é inegável e universalmente reconhecida por todos os estudiosos da tradição reflexiva grega, nomeadamente por Aristóteles, quando a eles se refere, englobando-os no grupo dos «primeiros filósofos», com a denominação de «físicos» ou «fisiólogos».
  Embora muitos autores afirmem que do pouco que resta do pensamento de Anaximandro nos impede de saber, de um modo certo e objectivo, o que realmente pretendeu teorizar – ou dizer –, fica-nos a sensação de uma concepção pré-científica do mundo. Para Copleston, a doutrina de Anaximandro supõe um avanço em relação à doutrina do seu antecessor, Tales, que ao superar a designação de um elemento determinado como primordial, chega a conceber um infinito indeterminado, de que provêm todas as coisas, permitindo, ainda, pelo menos responder de algum modo à velha questão de como o mundo evolui a partir daquele «elemento primeiro».
Uma sugestão para os pseudo-divinizados (quiçá, até na política) deste jardim à beira-mar plantado: Leiam um pouco dos fragmentos de Anaximandro e talvez cheguem à conclusão que ele não confere qualquer lugar às divindades dos mitos, dado que tende apenas a humanizar o seu apeiron, a fim de explicar a ordem do mundo. Daí, o princípio devia estar para lá de toda a realidade observável e limitada, pois o apeiron sendo indeterminado é infinito na duração, imortal e indestrutível, em movimento perpétuo, sem ser infinitamente criador, nem infinito no espaço, revelando-se numa espécie de enorme massa matricial que nela engendra o mundo (cosmos) e o «orienta», o governa divinamente.

Não devemos ficar só pelo De audito!   

Friday, October 03, 2014

Zoroastro: entre o ocidente e o oriente!...

“Os crentes de todas as religiões, junto com os homens de boa vontade, abandonando qualquer forma de intolerância e discriminação, estão convocados a construir a paz”.

João Paulo II

O título desta nossa crónica remete-nos para um desafio lançado, aquando das nossas vivências académicas, a propósito de um Simpósio sobre Filosofias Orientais, condimentado com o contraditório de alguns participantes que colocavam a inexistência do conceito filosófico em Zoroastro ou mesmo em Santo Agostinho, sendo que deste último, alguns teimam em o acantonar, nomeadamente nas prateleiras das bibliotecas, na área da religião, quando «A Cidade de Deus» é um verdadeiro tratado filosófico: A respeito dos deuses, há quem julgue que uns são bons e outros maus. Mas há quem, fazendo deles o melhor conceito, lhes atribua honra e glória tais que não se atreve a pensar que haja algum deus mau. Mas os que afirmaram que havia deuses bons e deuses maus, também aos demónios deram nome de deuses; e às vezes, embora raramente, também deram o nome de demónios aos deuses – reconhecendo que o próprio Júpiter, de quem eles fazem o rei e chefe dos outros deuses, foi alcunhado de demónio por Homero. – citamos do filósofo santo. E questiona-se Santo Agostinho se entre os demónios, que são inferiores aos deuses, haverá alguns bons sob cuja protecção possa a alma humana alcançar a verdadeira felicidade?  
Mas, voltando ao nosso raciocínio “percurso-titular”, teremos em dizer que Zoroastro (ou Zaratustra), reformador do masdeísmo – terá sido a religião dos Persas a partir da época dos Arqueménidas até à queda dos Sassânidas (651 a.C.), que recebe também o nome de Zoroastrismo –, foi considerado um profeta misterioso ou mago, segundo a acepção oriental, tendo apregoado o dualismo dos princípios do bem e do mal compreendidos num Deus único.


Ao contrário do bramanismo, as comunidades de Jina (Jainismo) e do Buda (Budismo), por exemplo, sendo irmãs na sua concepção, dado terem nascido no mesmo meio geográfico e social – daí, o paralelismo vivencial – parece terem sido constituídas sobre uma certa influência da reforma iraniana, instaurada por Zoroastro, idênticas no repúdio dos cultos rituais, manifestando-se apenas a preocupação de luz e de pureza. Numa delas, existe mesmo uma liberdade quase total em relação à tradição védica.
O paralelismo com a comunidade – sendo que alguém a denomina de seita – de Zoroastro, espelha-se na iniciativa inteiramente humana. A única diferença é que, enquanto Zoroastro se apresenta como porta-voz de um deus, Jina e Buda se apresentam como guias, e não deuses, semi-deuses ou mesmo profetas, quando nos é dado saber que a função de Zoroastro era claramente definida: é aquele que vem anunciar o super-homem e o eterno retorno – «O homem foi feito para ser ultrapassado» e «o curso do mundo não se dirige para nenhum fim: retorna incessantemente para si próprio como se fosse um jogo gratuito».
Outro facto relevante da influência de ideias zoroastrianas, reporta-nos a três anos após a sua morte (541 a.C.), quando o Rei Persa Ciro capturou a Babilónia, incorporando-a no Império Persa. Foi nessa altura que se tornou possível aos exilados judeus o seu regresso, espaço de tempo em que, circunstancialmente, o ensinamento religioso e filosófico de Zaratustra exercera uma ampla influência na Pérsia, a ponto dos exilados judeus terem ficado profundamente impregnados pelas suas ideias. E aqui, teremos que ter em conta que a Pérsia era o verdadeiro Médio Oriente, o ponto de encontro entre o oriente e o ocidente. Não é por acaso que foi precisamente no Médio Oriente que três grandes religiões monoteístas mundiais tiveram início: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.
Nietzsche, numa das suas obras mais famosas, «Assim falava Zaratustra» – …Ele desceu da montanha e, falando ao povo, disse – Anuncio-vos o Super-Homem, Aquele que há-de dominar a Terra –, tenta retomar o conceito zoroastriano do dualismo dos princípios do bem e do mal compreendidos num Deus único, situando-o, no entanto «para além do bem e do mal». De facto, na vasta produção literária de Nietzsche, este poema filosófico, na figura de Zaratustra, é geralmente considerado como obra fundamental para qualificar a complexa personalidade do apaixonado filósofo. Os princípios de um nietzschiano, como alguém aventaria, "encontram aqui, mais do que em qualquer outra obra, a sua expressão num estilo vigoroso que ora lembra a solenidade dos profetas bíblicos, ora recorda a contundência cáustica e a mordacidade dos enciclopedistas". Nietzsche pensava que este livro seria eminentemente importante para a humanidade.
Nestes tempos conturbados em que vivemos, onde deuses feitos demónios e demónios feitos deuses partilham do mesmo espaço, e são tronco do mesmo tronco, a luta pelos estados, na figura do monoteísmo tripartido (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), através da violência e da morte em muito vem contrair o pensamento de Zaratustra: Mas como poderá morrer a tempo aquele que nunca viveu a tempo? Mais valera que nunca tivesse nascido! É o conselho que dou aos que estão a mais – reflexão necessária quando alguém reclama por um Estado religioso-monoteísta, degolando inocentes e ameaçando pacifistas.
       E, tal como Zaratustra, também nós entramos em nós próprios e tornamo-nos a sentar na enorme pedra, reflectindo e questionando: Estado de quê? Guerra Santa de demónios ou de deuses? Homens superiores em quê? – E acredita-me, caro tumulto infernal! Os maiores acontecimentos não são as nossas horas mais barulhentas, mas os nossos instantes mais silenciosos (…) E acrescento ainda para os destruidores de colunas: não há maior loucura que deitar sal no mar e colunas no lodo… – assim falou Zaratustra!

Monday, September 29, 2014

International Symposium MEDICINE IN NAZI GERMANY



Decorre de 22 a 24 de Outubro de 2014, um Simpósio Internacional, dirigido a professores, historiadores, médicos, pedagogos e investigadores, subordinado ao tema «Medicina na Alemanha Nazi: perspectivas históricas e reflexões éticas», em Berlim, Orienburg e Brandenburg-Havel.


Neste simpósio prevê-se a participação de conferencistas de França, Alemanha, Israel, Estados Unidos, Polónia, Reino Unido e Espanha.
As apresentações e workshops realizar-se-ão em locais emblemáticos relacionados com a medicina ao tempo do nazismo, como House Conference Wannce, no Campo de Concentração de Sachsenhausen e Centro de Extermínio de Brandenburg.
Para mais informações, consultar programa em:

Thursday, September 18, 2014

«Voando nas asas de um pombo verde» com Helena Osório!...

“A escrita da Helena Osório é uma tela de cores tão variadas e coloridas, de um calor abrasador, de manhãs e entardeceres dolentes, de noites de sonhos e desejos”.

Fernando Sá Monteiro
(Historiógrafo, Investigador e Publicista)

Não encontramos melhor forma de iniciarmos esta nossa crónica, do que nos sentirmos expectadores à mesma varanda e à chuva “que, em Novembro é de gelo, miro ao longe o castelo e igreja meio árabe meio faroleira. Não muito longe do mar”, desfrutável visão com que Helena Osório inicia o seu romance «Voando nas asas de um pombo verde», o Kuti Kuria dos tempos de Angola. De facto, não há melhor maneira poética de iniciar um romance, com chuva e pombos nos beirais, misturando sonhos com sono, num apego ao rio grande e ao mar, despertando fantasmas de “vidas entrelaçadas, em que vou trocando os tempos, num presente passado, desmistificado no final”. Tudo isto no silêncio de uma noite húmida, fazendo renascer algo do qual se pretende desligar. Mas, porque “na escrita tudo vem da alma”, Helena Osório recorre à intemporalidade como forma de viajar por Angola e Portugal (1917-2013): «Mais do que a narração entre o real e o imaginado Voando nas asas de um pombo verde, chama a atenção para o paradoxo das vivências num país e no outro. Exalta o período que medeia as duas grandes guerras e a revolução de Abril de 1974, sensibilizando para aqueles que são devolvidos das antigas colónias à metrópole» – podemos ler em sinopse ao livro de uma exilada, que, tal como “milhares de vítimas com vidas destruídas que se levantam (ou não)”, experimentou na pele o flagelo de um passado destruído.


Helena Osório (Benguela, Angola 1967) jornalista desde 1989, licenciada em Estudos Europeus (Universidade Moderna de Lisboa), pós-graduada e mestre em Artes Decorativas (Universidade Católica Portuguesa), doutoranda em Estudos da História da Arte e da Música (Universidade de Santiago de Compostela), com oito livros publicados na área da literatura infanto-juvenil, faz-nos voar agora através das asas de um pombo verde (Kuti Kuria) e nos ensina a aprender que na vida “tão depressa se é, como se deixa de ser”.
Com ilustração de Isabel Mourão (Oeiras, Portugal), licenciada em Economia pela Universidade Católica Portuguesa, pós-graduada em Marketing Internacional pelo ISCTE, «Voando nas asas de um pombo verde» apresenta-nos, para além da viagem por Angola e Portugal, algumas estórias da vida real, mescladas com outras ficcionadas, uma espécie “in memoriam” de Helena Osório aos filhos que gostaria de ver crescer livres de amarras; à avó que sempre a inspirou com cantinelas e histórias de Angola e Portugal; à mãe, natural do Lobito, com 30 anos de Angola, pelo apoio condicional; ao Carlos Gaspar, adestrador de pombos; a Angola, terra-mãe, que canta com saudades de um tempo extinto e com nostalgia de uma nova Angola revisitada. Aqui, os pombos, por se afeiçoarem às pessoas, ganham lugar de relevo, mesmo ao tempo em que a nudez era uma vergonha: «Deus nos livre e guarde de tomar sem a bendita camisa! Sorte é os portugueses estarem espalhados pelo mundo e assimilarem outras ideias mais modernas que são bem recebidas em Lisboa» (p. 22), e a imaginação erótico-poética de Cândida (sem que haja forçosamente candura, quando do nome levado à letra) voava nas asas dos pombos e se sente “relaxada com o pensamento. Imagina uma longa piscina de pedra, a terminar no infinito. Quase adormece com o banho quente sonhado, aromatizado por pétalas de rosa. Deixa-se ir… Sem camisa, às escondidas de todos. Abre as pernas, uma para cada lado, e atira os braços para trás, tentando aliviar o peso dos seios redondos. (…) Toca os mamilos hirtos como se não fossem seus, desliza os dedos, contorce as pernas, risca o horizonte com os olhos e deixa voar o pensamento» (p. 32-33), numa relação selvagem com o mar. Nós, enquanto leitores, preferimos a Cândida sonhadora, mesmo quando exausta da subida até ao sótão onde, intemporalmente, vive só, e se senta na poltrona em frente à janela, de pernas e ventre pesados, sonolenta, sempre enjoada, apetecendo-lhe parar e contemplar o umbigo a crescer. «Não é o caso do sótão da rua Augusta onde as madeiras conversam aos estalidos e as pombas arranham as telhas vivas de sonhos» – diz-nos a autora. Simplesmente sublime, diremos nós.


É evidente que, os hipotéticos leitores deste extraordinário romance de Helena Osório, não estarão à espera que venhamos a esmiuçar toda a narrativa, dado que se o fizéssemos estaríamos a guindá-los para interpretações muito pessoais e/ou subjectivas, o que, intelectualmente, seria desonesto da nossa parte. No entanto, e com os devidos pedidos de desculpa, atrevemo-nos em dizer que este romance, onde os pombos parecem todos iguais – iguais como são os homens novos, ou como são os homens velhos, despidos das suas roupagens e artifícios (p. 61) –, transporta uma grande carga sensual de esperança, cheiros perfumados, encontros e desencontros – Cândida quer convencer-se de que há um amor de perdição como o de Camillo Castello Branco (p. 53) –, saudades, ecos do coração, lamentos e festejos, a felicidade como um bem maior, orquestras do outro lado da caixinha de madeira, o silêncio sem irregularidade, chão humedecido de transpiração e espasmos, memórias iluminadas, aconchegos – Aperta-a contra o corpo dele. As mãos deslizam e intrometem-se. Cândida não se mexe. Tudo o que sente é novo. O fogo crepita cada vez mais impaciente, faiscando tons fervorosos de laranja, vermelho, azul e verde. A luz dourada aquece-a aos tremeliques, criando reflexos na pele semiencoberta pela camisa de linho (p. 103) –, aromas de rio massacrado, etc., etc., como costumamos dizer, complexo lexical em que deveríamos, de contínuo, ter usado aspas, visto que extraído dos textos. Mas, há muito mais do que isto: qual preocupação de um pai que vê sua filha partir para Angola, sendo sempre melhor “vê-los partir do que ficar a filha viúva e a neta órfã de um genro louco que resolve ser pombo”, perpassando por slides de terror, fortes emoções e as diáspora dos “mártires aqueles que partem, mártires os que ficam. O povo angolano é sofredor. Choro com ele”. E o cais de Lisboa enche-se de caixotes vindos de além-mar. Não faltam roubos. No aeroporto as pessoas dormem sobre malas, gente diferente com roupas coloridas, ar triste, mulheres de calças e minissaias, o escândalo… (p. 237), a ruína a meio da existência. Como te entendemos Helena Osório: Adeus pombo verde, o teu papel já foi representado. Unidos de novo. Podes partir, voar para bem longe livre de amarras do tempo! Ai estas vontades da vida (ou destino quiçá), ninguém as consegue controlar… (p. 304-305). Lemos este extraordinário romance na varanda da nossa casa, como um homem controlado pela maravilhosa escrita (e não só) da Helena Osório, vislumbrando ao longe o voo circular dos pombos freados do vizinho columbófilo, com anilha, para não poisarem no nosso telhado e “ganharem vícios fatais”. Infelizmente, aqui, os pombos não são verdes.   
Uma leitura que se recomenda, sentado na poltrona em frente à janela. Se possível, em dia de chuva, depois de se visitar o sótão das recordações.
E, por aqui nos ficamos.

NOTA MÁXIMA!

Friday, September 12, 2014

Pintomeira expõe fotografia (somewhere) em Viana do Castelo!...

Somewhere é um álbum de fotografias sobre objectos, um álbum que nos dá a ver composições de objectos, dispostos ordenadamente numa tela, pela mão de um pintor. Trata-se de composições conceptuais, com uma figura de mulher, erotizada, de um modo geral, nus os pés, pernas, braços e ombros, uma figura de longos cabelos, cintilantes…”.

Moisés de Lemos Martins
(Professor da Universidade do Minho)

Depois de termos participado, em 26 de Julho do corrente ano, no «XI Sarau Cultural 2014 PINTOMEIRA» – apesar de nenhuma forma de vida ser por si só totalmente boa, estes maravilhosos encontros permitem-nos reconhecer, e parafraseando Sydney Harris, que a própria vida é a arte de misturar ingredientes em proporções toleráveis, tornando-a melhor – que teve lugar Terreiro das Artes, Estrada de Santiago, Deocriste (Terra de nossos ancestrais), Viana do Castelo, onde assistimos a uma extraordinária conferência do Professor Doutor Mariano Gago, perpassando pela música, poesia, escultura e pintura, forma positiva de contrariarmos o mundo friamente calculista em que vivemos, não podíamos deixar de assistir, no pretérito dia 5 de Setembro, a convite da Santa Casa da Misericórdia de Viana do Castelo, à inauguração da Exposição “Pintomeira Somewhere”, que estará patente ao público, na Galeria desta instituição, até ao dia 5 de Outubro. Era um compromisso obrigatório, pelo facto de não termos podido estar presentes em Braga, aquando a mesma aí esteve patente.
E porque já por várias vezes aqui nos referimos a Pintomeira, enquanto um dos artistas, a par de outros (ainda que muito pucos), da nossa preferência, não nos iremos debruçar sobre o seu riquíssimo percurso no campo das artes, mas expressar, única e exclusivamente, as nossas impressões acerca desta exposição que, como ele faz questão de salientar, marca uma consequente transição da pintura para a fotografia.
Como se pode depreender pelo catálogo, interpretação com a qual corroboramos, SOMEWHERE é, agora, o título escolhido para um trabalho produzido no Estúdio de PINTOMEIRA, com modelos agenciados. A escolha de modelo, neste caso feminino, para o sujeito central deste trabalho fotográfico, foi determinada pelo facto de, na sua pintura, a figura humana ser, na maior parte das vezes, também, o seu elemento principal. Assim, como atrás referimos, a transição da pintura para a fotografia foi consistente e consequente, produzindo, numa e noutra, um trabalho figurativo que está presente em quase toda a sua obra. Estas fotografias, tal como acontece nos seus últimos trabalhos de pintura sobre tela, como é o caso “Interiores – Exteriores” (motivo de uma das nossas anteriores crónicas), têm, também, alguns elementos (influências) das artes gráficas, do design, da publicidade e da pop art.


Esta exposição, composta de quarenta e quatro fotografias, fazem parte trinta e uma a preto e branco e treze a cores. Colaboraram, neste trabalho, quatro modelos agenciadas: Claudia Monteiro, Filipa Vilaça, Rebecca Jager e Angela Silva, e duas modelos não agenciadas: Patrícia Alves e Madalena Magalhães. Como dados técnicos podemos acrescentar que no Estúdio, foram utilizados um fundo branco e um fundo preto; flashes com softboxes octagonais e rectangulares, sombrinhas, beauty dish e reflectores na iluminação; câmara DSLR com sensor de formato FX de 36,3 megapixels e objectivas zoom 24-70mm f/2.8G ED e 28-300mm f/3.5-5.6G ED VR e a prime AFS 50mm f/1.8G. Na edição e pós processamento foram utilizados diversos programas (software).
Levando à letra o título da exposição, em qualquer lugar (somewhere), o que mais (what else) nos impressiona, e aí teremos de concordar com o Professor Moisés Martins, é que “a figura feminina não é distinta dos objectos que compõem o quadro fotográfico, ou pictórico, tanto faz, seja sofás em exposição numa vitrina, caixotes do lixo, ou malas de viagem, seja embalagens de iogurte, escadotes ou bancos de escritório, estendedores de roupa ou baldes de limpeza. Hidrata-se na tela com estes objectos do quotidiano, mistura-se neles, em poses de puro deleite, por vezes não convencionais, numa ligação erótica, dando a ver a publicidade como uma arte que se alimenta do sex-appeal dos objectos e que o reactiva em permanência”. Acrescendo a tudo isto, de facto, a legendagem, em inglês, de muitas das fotografias [então o que? (so what?), deixe ser (let it be), quem se importa (who cares), não importa (never mind), tão longe (so far away), frágil (fragile), sonhadora (dreamily), profundamente (deeply), ir para ele (go for it), sentindo tão cinza (feeling so grey), evidentemente (evidently), altamente (highly), para onde ir (nowhere to go), o que quer (whatever), de jeito nenhum (no way), indo a lugar nenhum (going nowhere), apenas me diga (just tell me), preto no branco (black n white), simplesmente (simply), definitivamente (definitely), positivamente (positively), absolutamente (absolutely), azul sentido (feeling blue), azul verdade (true blue), acho que não (I guess not), dá-me um tempo (give me a break), adivinhem (guess what)], não se cinge à funcionalidade instrumental, mas à abertura do nosso sentido estético-interpretativo, numa abordagem filosófica e sociológica muito pessoal, pensando sempre, tal como para alguns filósofos, que o valor da arte está necessariamente ligado ao prazer ou à satisfação, porque, argumentam, dizer que uma obra é boa é o mesmo que dizer que é agradável ou aprazível. A «agradabilidade» defendida por David Hume, por exemplo: “Procurar a verdadeira beleza, ou a verdadeira deformidade, é uma investigação infrutífera, como seria procurar o verdadeiro doce ou o verdadeiro amargo”, encontra eco nesta SOMEWHERE.
 Gostamos muitíssimo, e isso nos basta para acusarmos a nossa fruição com a Arte de Pintomeira. Transpondo as interrogações Guida Loureiro para afirmações, diremos que Pintomeira desnuda a luz, o tempo, o carácter, a objectiva do ser e do acontecer. E sendo no feminino, a emoção é ainda maior.       
          NOTA MÁXIMA!

Friday, September 05, 2014

“Lûmbu: a democracia no antigo Kôngo” de Patrício Batsîkama!...

“Até agora, nenhum livro sobre o antigo reino do Kongo abordou a questão, essencial, do lugar da democracia no governo deste Estado. Usando os testemunhos semânticos e orais disponíveis, Patrício Batsîkama mostra que a democracia desempenhou um papel de primeiro plano através do funcionamento do conselho legislativo e judicial…”.

Jan Vansina
(Professor Emérito Wisconsin University, EUA)

Toda a gente sabe da nossa inveterada paixão – quase doentia – pelo antigo Reino do Congo, dado aí termos vivido um dos melhores momentos da nossa juventude, nomeadamente no centro nevrálgico desse multimilenar Estado, M’Banza Congo, que ora o bom amigo/irmão angolano nascido no Quibocolo (Maquela do Zombo) – primeira povoação para onde fomos com três anos de idade –, Patrício Batsîkama, professor de História das Artes Africanas, na Faculdade de Ciências Sociais, da Universidade Agostinho Neto, nos traz ao conhecimento desse antiquíssimo reino, através de um, ainda que sucinto, estudo baseado na linguística histórica comparativa, assente em dois objectivos: contribuir, de alguma forma, para o enriquecimento da candidatura de “M’Banza Congo como Património da Humanidade” e, segundo o mesmo Patrício, «treinar os nossos estudantes universitários nesta metodologia (Vansina, 1985; Batsîkama, 2010; Coelho, 2010), que é fundamental para esclarecer o nosso passado pré-lusitano. O actual Lûmbu – que integra os “suportes culturais” por preservar e que nada tem a ver com o sobado – era a instituição para a Harmonia das diversas tribos Kôngo».
Patrício Batsîkama pretende assim responder a várias questões que lhes foram colocadas, tendo em conta a sua afirmativa convicção, face ao estudo efectuado, sobre a democracia no velho Congo: “como se diria democracia em Kikôngo? Caso não exista o termo, seria falacioso sustentar a sua suposta existência no antigo Kôngo; como funcionava na verdade e quais materiais a certificariam? Como seria possível que um povo sem escrita pudesse ter Constituição, leis que sistematizassem a democracia?”. E, através deste seu estudo, nunca foi sua pretensão esgotar o tema, dado ter como principal objectivo de aconselhar o desenvolvimento de trabalho de campo para que se venha a criar um debate sério e baseado no conhecimento empírico, de modos a comparar com tudo aquilo que está arquivado nos depósitos de fontes e dados. Desta forma, Patrício Batsîkama abre perspectivas para que outros teóricos “possam eventualmente retrabalhar sobre as antigas civilizações bantu em geral e as populações angolanas em particular”. Daí, ser importante salientar as fontes e a metodologia utilizadas neste magnífico (diremos nós) trabalho: Fontes: língua; testemunhos de padres e outros nos séculos passados; depoimentos de algumas autoridades tradicionais; Tradição oral. Metodologia: linguística comparada; paremiologia (Batsîkama, 2010); crítica histórica.


Sem nos enredarmos em meticulosas descrições, o que seria intelectualmente incorrecto da nossa parte, face ao limite de espaço nesta crónica e à complexidade que o tema requer em termos de conhecimento, diremos que o mesmo trabalho se divide em seis capítulos: I. Fundação do KôngoOrigem meridional, “(…) Provavelmente antes do século VII a.C., os Mugahângala, oriundos das regiões setentrionais do Zimbabwe, ocuparam o Sudeste de Angola. Foi nessa região que se terá posteriormente formado um dos primeiros Estados (Posnansky, 2010, 591) pré-Kôngo” – Origem setentrional, que passa pelos proto-Bantu que “construíram vários Estados entre Douala e os Mbum, entre os Kota e Fang, entre os Teke e os Benga, ao Sul. Talvez aeja por isso que Greenberg e Gurthie terão visto aqui a origem das populações que falam a língua bantu” – Origem oriental, com a descrição da geografia humana desta região – Ocupação de Mbânz’a Kôngo, levando à afirmação do autor que “quando as populações ocuparam as regiões actuais de Mbânz’a Kôngo, duas instituições já estariam desenvolvidas, pois permitiram a união das populações (…) provenientes de diferentes regiões; II. MFÛMU: Instituição da Autoridade; III. LÛMBU: Instituição da democracia, recordando que Lûmbu era a instituição máxima do país: definia as tipificações do poder, a hierarquia militar, a democracia social, e instituía os órgãos da sistematização do Poder, simbolizando, ao mesmo tempo, “a coesão de uma vasta população repartida em várias terras distantes umas das outras”; IV. Organização Social e Divisão de Poderes, por forma a gerir a sua organização na concórdia, doze clãs simbólicos das 144 tribos fundadoras, através dos poderes legislativo, executivo e militar; V. Mbânz’a Kôngo: Espaço da União, onde se conclui que todo o espaço habitado impõe uma dupla realidade: historicidade de espaço (habitado, explorado, utilizado, planificado, vivido e compreendido) e o habitante; VI. “Mfokolo” (conclusão).
Por certo que muito haveria a dizer acerca deste magnífico trabalho, cientificamente irrepreensível, que termina com a descrição bibliográfica de doze testemunhos orais (Fontes primárias), quarenta e um autores consultados, mas mais de meia centena de obras (Fontes escritas) e, o percurso por sete Arquivos, enquanto espaços físicos, repartidos por Bélgica, Itália, Portugal, França e Angola.
Terminaremos com a mesma convicção do Pe. Daniel Quiala Malamba: “Os Kôngo eram bem organizados antes da chegada dos europeus. Eles tinham um governo com todas as instituições em funcionamento”. E é isso que Patrício Batsîkama tenta provar neste “Lûmbu: a democracia no antigo Kôngo”.
NOTA MÁXIMA!

Thursday, August 28, 2014

A Falar de Viana e D. Frei Bartolomeu dos Mártires!...

“Falar de Frei Bartolomeu dos Mártires é falar de uma figura que marcou a Igreja Católica e que marca, ainda hoje, as gentes de Viana do Castelo. O seu espírito e a sua doutrina marcaram o século XVI e a sua vida simples e regrada, de dádiva e entrega é, ainda hoje, um exemplo”.

José Maria Costa

Por termos estado envolvidos em dois projectos editoriais é evidente que não vamos arriscar, nem tecer, qualquer tipo de comentário crítico-literário acerca dos mesmos, pois, se a tal nos atrevêssemos, entraríamos em contraditório com a máxima de Bertrand Russel quando afirma que “os homens são como as palavras; se não se põem no seu lugar perdem o seu valor”. É nesse sentido que apenas nos atrevemos a descrever os conteúdos e a agradecer a todos os colaboradores que, através de um incondicional empenhamento, deram corpo a magníficos textos no âmbito da história, da antropologia, da etnografia, da arte e da religião, não esquecendo as vertentes literária e turística.
Começamos pelo primeiro projecto «A Falar de Viana» (Volume III, Série 2), apresentado ao público no dia 19 de Julho, por altura da abertura da XXXIV Feira do Livro de Viana do Castelo, que na prossecução dos objectivos definidos para esta publicação, iniciada em 2012, tem uma mensagem da artista de créditos internacionais, Joana Vasconcelos (Presidente de Honra), e apresenta-se com orientação e alinhamento de conteúdos da seguinte forma: Memória – com trabalhos de Rui A. Faria Viana (As festas no despoletar da Grande Guerra) e de Bernardo da Silva Barbosa (As festas há 100 anos); Registo – com reprodução de alguns trabalhos publicados no «Portugal Ilustrado: Grande Álbum de Turismo», numa edição da Revista Terras de Portugal, N.º 1, 1928; Antologia Poética – com poesia de Correia de Oliveira (Viana eu sou), Eugénio Monteverde (Amor divulgado), Euclides Rios (Procissão de Nossa Senhora da Agonia), Fernando Castro Sousa (Viana – de Agosto e Mar), Luís Pedro Viana (A minha história), e Carla Mesquita (Viana); Colectânea – com trabalhos de Paulo Gomes (Maria… da Agonia), Artur Coutinho (Falar de Viana), Matias de Barros (Senhora d’Agonia protectora do mar de Viana), José da Cruz Lopes (Notas biográficas de Monsenhor Daniel Machado, 1912-1978), Manuel António Fernandes Moreira (A ligação do Santuário d’Agonia à Rede Pública de Água e Luz), Elisabete Pinto (A Festa e o Teatro), Gonçalo Fagundes Meira (A representação de Castelo do Neiva na Romaria da Senhora d’Agonia), Álvaro Campelo (Entre o campo e o terreiro da feira. Gado bovino e a Sociedade Camponesa do Minho), Mota Leite (Afinidades d’Avianense com as Festas d’Agonia), Joaquim José Peres Escaleira (Contributo para o estudo das esculturas no espaço público de Viana do Castelo), Manuel Rodrigues de Freitas (Corações e brincos de Viana), António Martins da Costa Viana (Iate “Nova Albina” – entre a fúria do mar e o fogo do castelo: episódio marítimo e militar no contexto da Patuleia), António Joaquim Monteiro da Cunha Leal e outros (O Forte de Santiago e a defesa da barra de Viana do Castelo), Manuel de Oliveira Martins (O Porto de Viana e a Junta Autónoma), António José Barroso (Delitos da ingratidão debatidos pelos favores do Céu, e manifestos na relação de um horroroso e admirável caso, de três ladrões sucedido na vila de Viana da Província do Minho), José Rodrigues Lima (Asturianos em Viana “Maria da Glória Gonzalez Rio Tinto”), Francisco Sampaio (O Alto Minho no ano turístico de 1990), Américo Carneiro (Os Lunas de Viana), Reis Ribeiro (Nossa Senhora em Beato Bartolomeu dos Mártires), Sebastião Pires Ferreira (Frei Luís de Sousa e Frei Raul de Almeida Rolo: a “Bíblia” Bartolomeana), David F. Rodrigues (Pedro Homem de Melo no “Roteiro de Viana”), Francisco José Carneiro Fernandes (Reavivar memórias: José Fernandes Martins arquitecto da modernidade vianense), Manuel Inácio Rocha (Dois vianenses de vulto), Domingos da Calçada (Gen. L. A. Pimentel Pinto á volta de uma pintura), Porfírio Pereira da Silva (José Gomes da Cunha, 1891-1976, um vianense na I Guerra Mundial), Henrique Rodrigues (Vianenses mortos na primeira Guerra Mundial), André Torres Costa (Uma Necrópole em Geraz do Lima, Santa Maria), Casimiro Puga (A casa dos “Direitos de Portagem” Santa Cristina de Afife), e, finalmente, António Rodrigues França Amaral (O reino suevo – S. Martinho de Dume e o Pagus de Ovínia).


O segundo projecto editorial «D. Frei Bartolomeu dos Mártires: colectânea de textos», apresentado no dia 2 de Agosto, pelo Monsenhor Sebastião Pires Ferreira, Vigário Geral da Diocese de Viana, assinala as comemorações dos 500 anos do nascimento do Beato Bartolomeu dos Mártires, e nele são reproduzidos alguns dos melhores textos publicados nos Cadernos Vianenses e noutras publicações, de grandes autores e estudiosos bartolomeanos. São eles: Luiz de Figueiredo da Guerra (O Arcebispo Santo D. Fr. Bartholomeu dos Martyres, onde se incluem também a história do Convento de S. Domingos e a descrição dos títulos das obras completas), José Marques (Frei Bartolomeu dos Mártires: vida e obra), João Francisco Marques (O prelado, o povo e a conjuntura: solidariedade social e solicitude de D. Frei Bartolomeu dos Mártires), António Matos Reis (Itinerário de Braga a Roma seguido por D. Frei Bartolomeu dos Mártires), Manuel António Fernandes Moreira (O beato Bartolomeu dos Mártires e o Mosteiro de São Salvador da Torre), Felipe Fernandes (D. Frei Bartolomeu dos Mártires em Viana e Breves apontamentos biográficos de D. Frei Bartolomeu dos Mártires), Pe. Armando de Jesus Esteves Rodrigues (Convento de Santa Cruz “S. Domingos” de Viana do Castelo), José Luís Branco com oito trabalhos, dos quais se destacam o “processo de canonização” e a “reforma dos cardeais”, Ana Rita Batista Raposo (A arca da fé: estudo, diagnóstico e tratamento de um altar portátil), Jorge Alves Barbosa (A música na acção pastoral de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires), Alberto Antunes Abreu (A imagem do beato Bartolomeu dos Mártires), Rui A. Faria Viana (“A Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires” – uma raridade bibliográfica impressa em Viana no séc. XVII), Fr. Miguel dos Santos, O.P. (A beatificação de D. Frei Bartolomeu dos Mártires e os Dominicanos), D. José Augusto Pedreira (Bartolomeu dos Mártires, bispo de todos os tempos), D. Jorge Ortiga (Fr. Bartolomeu dos Mártires: memória e profecia), D. Manuel Clemente (O martírio de Frei Bartolomeu), e, finalmente, António Manuel Couto Viana (Prece da Ribeira a Frei Bartolomeu).
Parabéns ao Município de Viana do Castelo e ao coordenador geral das duas publicações, Rui A. Faria Viana. Excelente o trabalho do designer Rui de Carvalho, porque esteticamente perfeito e irrepreensível, forma e qualidade a que já nos vem habituando, a uns anos a esta parte.
        O resto, fica para apreciação dos seus hipotéticos leitores!

Sunday, August 17, 2014

A poesia em “assento doméstico” de Fernando Pinheiro!...

“Nunca estejas completamente desocupado; lê ou escreve, reza ou medita, ou faz qualquer coisa de útil para a comunidade”.

T. Kempis

Para assinalarmos o nosso regresso a este sentir e viver «ao correr da pena e da mente…», não poderia ser doutra forma se não deambularmos pelo «assento doméstico», último brado poético do nosso particular amigo Fernando Pinheiro, nascido em 1949 na aldeia de Ucha, Barcelos, cujo orago é S. Romão (mártir cristão que no séc. IV morreu às mãos do imperador Galério). Sem nos alongarmos muito pelo seu vastíssimo – diríamos até riquíssimo – curriculum, contudo, e principalmente para os leitores deste nosso modesto deambular literário, convenhamos em acrescentar algumas notas biográficas, por forma a percebermos a sua meritória qualidade (num patamar superior) enquanto dramaturgo, escritor e poeta.
Fernando Pinheiro, com quem contactamos pela primeira vez há mais de três décadas (por circunstância de lides e compromissos radiofónicos), fez exame da 4.ª classe na escola de Galegos (S. Martinho), obteve o curso secundário no Liceu Nacional Sá de Miranda, Braga, e licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Dedicou-se ao ensaio e à animação cultural, tendo sido professor até 1998, quase sempre no concelho de Barcelos, e técnico superior de acção cultural da Câmara Municipal de Braga até 2011, ano em que se aposentou. É conhecida a sua ligação ao teatro, desde a sua mais tenra juventude, e em particular ao grupo amador “A Capoeira”, de que foi fundador com outros companheiros da década de 70, e que entretanto se transformou num dos mais importantes grupos de teatro do norte do país. Remonta também à década de 70 a sua ligação à literatura, tendo começado por editar colectâneas de poesia infanto-juvenil, até lançar títulos seus nos domínios da poesia, romance, conto e ensaio (monografias). O teatro, original ou adaptado, encontra-se fora de mercado.


«Assento Doméstico», que constitui o seu sexto título de poesia, apresenta-se, tal como nos apraz registar na simpática dedicatória que se nos dirigiu, como “uns quantos protestos de alma contra a decadência, venalidade e a incôndita procura do homem por tudo quanto é espúrio e corruptor”, por onde perpassam homens de sucesso, envoltos em manuais, qual contraste entre o “andar na berra / arrasta a bainha pelo chão / põe o cós a roçar nos joelhos / a braguilha desce prós artelhos / que as calças agora são / um saco com pernas dentro…” e o “como poderei sair à praça / com casaco e gravata / calças de cinta alta / sem jóias nas orelhas / nem ténis nos pés / sem óculos de massa / nem cachecol de lã (…) / para ser um pós-moderno / em tudo igual aos mais famosos / era capaz de tudo, das orelhas / das tatuagens, das botas / da cinta descaída / do desleixo, da barba mal feita / do ar liberal e da madeixa / mas aquele leque / a abanar no rabo…”; gentes como o Zeca “amigo maior que o pensamento / já vem toldado o sol que vai nascendo”; a libertação dos noivos, que “por costume, antigamente / ajoelhavam na terra do cemitério / e juravam ante os mortos amar eterno”; o ser “politicamente correcto até à cova / e porta-estandarte do idealismo generoso / que há-de gerar a alma da cidade nova / reclamada pelos poetas libertadores…”, levando a gravata até ao túmulo; a última tarefa de já não ir “a tempo de ser santo: / pelos antros da corrupção e da contubérnia / incólume passarei com a minha veste de gardénia / e no ilimite do céu aberto / como um anjo velho / sem mácula / voarei”; e o esgueirar dos mentirosos pelos buracos da justiça, “que fazer neste parlamento / nesta civitas de rapina / se a batota que era crime / virou ciência política?”.


Em «assento doméstico» – que de doméstico nada tem, mesmo quando, alegoricamente, fala do seu gato Rufino que “nunca deixa nada por fazer: / come, dorme, passeia, caça… / é um gato metódico”, tornando-se universal no comportamento, porque igual a todos os outros gatos –, há ainda observações; remissões; lições; expiações; dilemas; desejos; perdões alados; naufrágios; desejos insensatos; elogios da decisão e da mentira; teorias de rejeição, do invisível e de indefinição; telúricos desejos; desalento; e renúncia de a essa ilha não ir, “algum Circe não vá / transformar-me / em porco / e eu não sou / um plytropos / como Ulisses / que destruiu / a acrópole de Tróia / com uma tramóia / de pau (…) / a essa ilha não vou / alguma Circe não vá / em porco mudar-me!”. Assim é a Poesia de Fernando Pinheiro, Poesia que se nega a morrer, “porque o eterno / não se mete numa urna!” e que tira o tédio ao S. Pedro, “que já leva dois milénios / de chaves na mão / coitado do porteiro do céu / que nunca viu um ciclista / a cortar a meta no paraíso / a bicicleta está pronta / a morte pode vir…”. Simplesmente, sublime!
Por certo que os nossos leitores não estariam à espera de mais devaneios crítico-literários à volta deste extraordinário brado poético de Fernando Pinheiro, dado que nunca tivemos aspirações para tal e a poesia não se explica, sente-se: e o primeiro homem criado / à minha imagem e semelhança / não seria um Adão progenitor / mas um “homo horribilis” / capaz de matar o criador (…) se não o gesto, fique a intenção / e dou-me por liberto: / o “big-bang”, sim / o resto, não – comungamos, plenamente, com o Fernando Pinheiro.   

NOTA MÁXIMA!

Saturday, July 19, 2014

José Ribas Fernandes volta a reunir antigos colegas e professores da “Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo”!...

“Para nós, que nos educamos no culto do respeito pelo homem, têm muito valor os simples encontros que se transformam, por vezes, em festas maravilhosas”.

Saint-Exupery

Para comemorarmos a nossa centésima (100) crónica «ao correr da pena e da mente…», nada melhor que a pura coincidência de nesse mesmo fim-de-semana, mais concretamente, no sábado, 12 de Julho de 2014, se realizar o IV Encontro de antigos colegas e professores do – também hoje professor – José Ribas Fernandes, com assento escolástico na Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo (EICVC), hoje Escola Secundária de Monserrate, cujas raízes remontam à Escola de Desenho Industrial de Viana do Castelo, passando por Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, tendo, em 1979, passado a designar-se pelo nome como é conhecida actualmente.


Tendo como lema «Que sou eu sem os outros?», título de uma mensagem recuperada e trazida pela Professora Rosa Figueiredo, inspirada em Phil Bosman: «Sem os outros, a vida, o amor e a felicidade não passam de utopias. Estamos todos interligados por uma infinidade de fios. Uma vida depende doutra e nenhuma se desenvolve sem as outras», este quarto encontro começou com uma visita guiada à referida Escola, pelos professores Bouça Morais e Vitorino, hoje com entrada pela Avenida do Atlântico, depois de obras de reestruturação e ampliação, proporcionando novas polivalências e ofertas opcionais.


A brilhante, porque irrepreensível, intervenção caracterizou-se pela construção de novos edifícios na nova frente de escola onde se instalam os espaços administrativos, espaços sociais, a nova biblioteca e o novo espaço desportivo, tendo-se procedido à remodelação dos edifícios existentes, garantido a satisfação das atuais exigências de conforto, segurança e acessibilidade. O bloco oficinal existente foi remodelado, introduzindo novas valências como os laboratórios de ciências e salas TIC e de artes. Relativamente às instalações desportivas, procedeu-se à requalificação do ginásio existente e à construção de instalações desportivas de apoio (balneários, vestiários e espaços de apoio). Os espaços exteriores da escola foram remodelados, nomeadamente zonas de lazer e desportivas.


O quarto convívio culminaria com um jantar num dos restaurantes sito nas proximidades da Princesa do Lima – qual delicioso bacalhau regado com vinho ao gosto de cada um, exceptuando-se os motores movidos a água, por imperativo das “mazelas cinquentando” –, tendo respondido à chamada os alunos Adélio Lima da Cruz, Domingos Carvalhido da Ponte, Ilídio de Jesus Reina de Morais, José Maria Riba Fernandes, Porfírio Pereira da Silva, Guterres Fernandes Brás, Carlos Martins da Silva Araújo, José Lima Damião, Adriano de Passos Gonçalves Pires, António Casa Nova Ramos, Luís Gabriel Baptista Lima, José Augusto da Silva Portela, Fernando Couto Alves, Fernando Lei Monteiro da Rocha, Victor Manuel Esteves Montes Pinto, Manuel Alberto A. de Passos Fernandes, José Fernando Ferreira da Costa, João Paulo da Rocha Carvalhido, Mário Américo Franco Alves; e os professores Bouça Morais, Pedro Vasconcelos, Franklim Carvalho e Rosa Figueiredo, sendo que esta última ofereceu a todos os presentes o poema completo de Phil Bosman, extraído do seu livro Felicidade, o qual acabaríamos por ter a ousadia de o ler. Todos acabaram por reconhecer que «a vida vive-se com os outros. / Viver com os outros significa / que tenho que partilhar tudo com eles. / Nada lhes pode acontecer por minha culpa. / Tenho que os aceitar, / acolher, querer». E a nossa amizade, que perdura há mais de quarenta anos, só pode desenvolver-se com a ajuda de todos, porque tivemos professores eticamente bem formados e possuidores de uma profunda cumplicidade para com os alunos.
         Daí, para o ano, voltarmos a acender uma vela, em vez de amaldiçoarmos a escuridão, porque, como diria Helen Keller, «a única treva sem luz é a noite da ignorância e da insensibilidade». 

Friday, July 11, 2014

500 Anos dos Forais da Terra da Nóbrega e de Lindoso!...

“Um bem-haja ao Agrupamento de Escolas, ao seu Director, professores, alunos e demais profissionais de ensino envolvidos nesta celebração, por serem parceiros fundamentais em muitos momentos da nossa história colectiva”.

António Vassalo Abreu

Para assinalar os 500 anos (1513-2013) da outorga do Foral da Terra da Nóbrega, o Agrupamento de Escolas de Ponte da Barca, com o patrocínio do Município local, dinamizou, ao longo da semana de 21 a 25 de Outubro de 2013, um conjunto de actividades abertas à comunidade, que passou por uma exposição “Terra da Nóbrega: uma viagem no tempo…”, organizada pela Biblioteca Escolar em articulação com o Grupo de Artes Visuais; apresentado um documentário com o mesmo nome, da autoria de Pedro Cerqueira e de Luís Arezes, e a gravura “500 anos do Foral da Terra da Nóbrega”, de Emanuel Cruz; e promovido um colóquio com o Doutor António Matos Reis, subordinado ao tema «Forais manuelinos da Terra da Nóbrega e de Lindoso», tema que viria a dar corpo ao livro «500 anos dos Forais da Terra da Nóbrega e de Lindoso», dado à estampa em Maio do presente ano, e que às nossas mãos chegou, numa gentil, ainda que imerecida, oferta do maior especialista da Época Medieval do Alto Minho, nosso particular amigo Doutor António Matos Reis.


Tal como escreve Carlos Alberto Martins de Sousa Louro, Director do Agrupamento de Escolas de Ponte da Barca, “a publicação deste livro é a homenagem ao Concelho, às pessoas e às instituições de Ponte da Barca. É a forma que encontramos para todos felicitar. Partilhando informação. Esperançados que também ela possa ser o princípio de novos conhecimentos. Que ajude a explicar este mundo que integramos”. Palavras sensatas, revestidas de alguma humildade, mas que representam muito mais do que uma simples iniciativa comemorativa: Com a publicação desta obra, desejamos proporcionar um contributo à valorização da História e da Identidade locais, recuperando um passado multissecular, de notável grandeza, construído por gente de nobres valores e de princípios sagrados, que soube lançar os fundamentos das origens e também projectar com solidez o futuro de uma Terra – assim se pode ler em Nota de Abertura, assinada pela Escola Básica e Secundária de Ponte da Barca. Com iniciativas desta natureza é assim que nasce a consciência evolutiva de cada região, da comunidade, do indivíduo ou da memória colectiva, embrionária do conceito socrático, quando afirma que “a maneira mais fácil e mais segura de vivermos honradamente, consiste em sermos, na realidade, o que parecemos ser”. Quem trabalha assim, fá-lo pelo ser, sem o parecer.
Esta obra dos «500 anos dos Forais da Terra da Nóbrega e de Lindoso», numa edição conjunta do Agrupamento de Escolas de Ponte da Barca e do Município de Ponte da Barca, com fotografia de Pedro Cerqueira, conta na apresentação com textos de Carlos Louro e António Vassalo Abreu, por nós já atrás referidos, seguindo-se a Nota de Abertura; dois textos de Luís Arezes: “A Terra da Nóbrega na Viragem de Quinhentos”, onde ressaltam temáticas histórico-religiosas da origem e limites, as 32 freguesias, os “ecos” da Capital do Reino, a erecção da Paróquia de S. João Baptista de Ponte da Barca, D. Manuel e(m) Ponte da Barca, os mosteiros de S. Salvador de Bravães e de S. Martinho de Castro, Santa Maria Virgem de Vila Nova de Muía: um cavalo e uma mula, os castelos da Nóbrega e de Lindoso, terra de heróis de poderosos conselheiros do rei, a Dinastia dos Magalhães, Fernão de Magalhães, a maioridade da Terra da Nóbrega na viragem de Quinhentos, terminando com algumas fantasias… ou narrativas pitorescas – e “Terra da Nóbrega: uma viagem no tempo”; um pequeno texto de Emanuel Cruz «Gravura “500 anos do Foral da Terra da Nóbrega”, onde é explicada a linguagem artística do referido documento régio; e, finalmente, o bom amigo e ilustre medievalista António Matos Reis com a explicação aturada d’“Os Forais Manuelinos da Terra da Nóbrega e de Lindoso”, cientificamente irrepreensível, como, aliás, nos vem habituando, perpassando historicamente por cinco capítulos: 1. Terras, municípios, julgados e forais, 2. Os forais manuelinos, 3. O foral novo da Terra da Nóbrega: 3.1 – Quadro histórico e geográfico, 3.2 – Conteúdo do foral, 4. O Foral Manuelino de Lindoso, 5. Tabela de portagens, acabando por transcrever os dois forais, fielmente reproduzidos também em fotografia.
Tal como podemos ler em António Matos Reis: “No foral manuelino da Terra da Nóbrega não está incluída a freguesia de Lindoso, que é a mais extensa do actual concelho, embora a maior parte do seu território corresponda a uma zona de montanha. A ancestralidade do povoamento deste local é testemunhada pela existência de uma ara romana dedicada a Hérculos, e por outros achados arqueológicos. / A importância de Lindoso advém da sua localização numa área de fronteira, junto de uma das vias de passagem, que acompanhava o curso do rio Lima…”, assim ficamos a entender melhor, em linhas gerais, as origens das freguesias, também estudadas num outro seu apontamento, publicado na Revista de Administração Local, n.º 255, Maio-Junho 2013, p. 297-307: A sobrevivência e o desenvolvimento das comunidades locais constituem os pilares da verdadeira democracia, e a freguesia é o primeiro órgão de que dispõe o cidadão para participar na vida pública e zelar desse modo pelos interesses da comunidade a que pertence (p. 307). Pena é que as arrelvadas deambulações do Miguel, se tenha esquivado à leitura dos especialistas na matéria, e se firmasse, única e exclusivamente, na pertença ou erudita sapiência de equivalências várias…
Esteticamente perfeito, «500 anos dos Forais da Terra da Nóbrega e de Lindoso», uma leitura que, obrigatoriamente, se recomenda. Nesta magnífica obra, os ventos da História correm à feição do Tempo. Mesmo do tempo que está para lá dos tempos, porque Memória e Identidade do Povo.

NOTA MÁXIMA!       

Friday, July 04, 2014

Livre Arbítrio ou Liberdade?!...

“Uma vez que a liberdade de acção é a liberdade de fazer aquilo que queremos fazer, o livre arbítrio é a liberdade de querer o que queremos querer”.

Susan Wolf

O conceito de Livre Arbítrio ou Liberdade, apesar da sua complexidade, é sempre um tema que nos induz à possibilidade de autodeterminação e de escolha. Mas, se tomarmos em conta essa mesma complexidade – considerada em si e na sua própria história –, logo constataremos dificuldades de vária ordem. Tendo em vista o lado do sujeito, entendê-la-emos como, já atrás referimos, possibilidade de autodeterminação e de escolha, acto voluntário, espontaneidade, indeterminação, ausência de interferência, liberdade de impedimentos, realização de necessidades, direcção prática para uma meta, propriedade de todos ou alguns actos psicológicos, ideal de maturidade, autonomia sapiencial e ética, razão de ser da própria moralidade – citamos Joaquim de Sousa Teixeira. No entanto, pelo lado do objecto, o conceito de Liberdade apresenta-se-nos privada ou pessoal, pública, política, moral e social. Isto se tivermos em conta a liberdade de acção, de ideias, de pensamento, de circulação, de comércio, de palavra, de culto, de associação, etc. Com estas e outras designações, a Liberdade prende-se, entre outros, com os conceitos de livre arbítrio, razão, acto, autonomia, vontade, “boa vontade”, consciência moral, dever, determinação, determinismo, indeterminismo, indiferença, compatibilismo e incompatibilismo, responsabilidade moral, etc.


No seu carácter histórico e/ou antropológico, a Liberdade pode aplicar-se analogicamente ao mundo animal. Contudo, dada a vida animal não passar de uma sucessão de comportamentos (reage), e só a vida humana se apresentar como actividade ritmada (age), a ideia de Liberdade só ganha significado quando aplicada ao homem. A propósito de tudo isto – e tendo em conta a diferença entre o agir e o reagir –, Joaquim de Sousa Teixeira, alega que muitas são as questões antropológicas que se colocam: Foi o homem sempre livre? Quando e por que é que se deu o «salto» para a racionalidade e liberdade fundamentais como hoje as entendemos? Na caminhada ascensional da Humanidade para a Liberdade, como é que se interligam os fenómenos mutantes fisiológicos e ambientais? Assim, e tendo em conta este raciocínio, tornar-se-á impossível falar de humanidade sem uma racionalidade e liberdade radicais. Por isso é que, nos tempos que correm, e ainda segundo Joaquim de Sousa Teixeira, “a liberdade na sua essência e como valor, sobretudo pelas necessárias implicações metafísicas que acarreta, não pode ser abordada por métodos positivos de verificação”.
Apesar de já Aristóteles ter admitido que todos os «seres físicos» têm uma espontaneidade real, pois contêm em si o princípio dos seus actos, sem o pressuposto da racionalidade não se pode falar de vontade e de liberdade, mas de impulso ou apetite animal e de espontaneidade decorrente de uma natureza. Abordando o conceito de liberdade pelo lado da racionalidade, facilmente seremos levados a afirmações como a de que o homem é tanto mais livre quanto mais responsável for. Esta e outra afirmações desta natureza – e tal como afirmara São Tomás de Aquino: “a raiz última da Liberdade é a razão”, só fazem sentido quando pertencentes ao plano ético, moral e mesmo político.
Até chegarmos à contemporaneidade, muitos foram os que se debruçaram sobre o conceito de Liberdade e de que são exemplo, entre outros, Santo Agostinho; René Descartes – Se eu conhecesse sempre o que é verdadeiro e bom, … seria inteiramente livre, sem ser, jamais, indiferente; Leibniz – Qualquer substância tem perfeita espontaneidade, que se torna liberdade nas substâncias inteligentes; Espinosa; Auguste Comte – A verdadeira liberdade consiste em fazer prevalecer as boas inclinações sobre as más; Immanuel Kant; Henri Bergson; Jean-Paul Sartre – A liberdade não tem essência; ao contrário, é ela que constitui a base de todas as essências. A liberdade apresenta-se-nos, assim, tão difícil de definir, constituindo no entanto, para cada um de nós uma experiência e/ou uma representação tão familiar quanto indiscutível.
Se tomarmos em linha de conta que ser livre, por exemplo, significa não ser impedido de fazer o que se quer ou dizer sem receio o que se pensa; a ausência de qualquer coacção externa; somos confrontados com o seu sentido original. Segundo Élisabeth Clément [et al.], por exemplo, os estóicos esforçaram-se por pensar a liberdade independentemente de qualquer condição exterior. A concepção estóica orienta, desta forma, a reflexão teórica numa direcção nova e fecunda, a ponto de toda a filosofia clássica afirmar a liberdade como a independência interior e a capacidade moral de se determinar seguindo unicamente os conselhos da razão e da inteligência não revelada pela paixão. Hoje, coloca-se outras tantas interrogações adicionais de modo a que a nossa liberdade “obedece” ao princípio da lei da causalidade, que rege todos os fenómenos, supressora de qualquer indeterminação, ou seja, da ciência experimental segundo o qual existem relações necessárias entre os fenómenos, de tal forma que cada fenómeno é rigorosamente condicionado pelos que o precedem ou acompanham (Determinismo) – Assim, os exemplos tipo Frankfurt têm a importante função de «afastar» o «debate» de considerações acerca da relação entre determinismo causal e possibilidades alternativas. O que agora se torna importante é considerar se o determinismo causal na sequência efectiva pode com plausibilidade ser visto como eliminando «directamente» a responsabilidade moral, independentemente de considerações relativas às possibilidades alternativas – citamos John Martin Fischer; ou, antes pelo contrário, a liberdade é estabelecida pela vontade humana (Indeterminismo), e de que é exemplo, essa «vontade de poder» que Nietzsche afirmaria. É precisamente nesse sentido, e perante muitas das interrogações colocadas, que um dia nos propusemos a estabelecer um “confronto saudável” entre a noção da «liberdade da vontade e o conceito de pessoa» em Harry G. Frankfurt e «a sanidade mental e a metafísica da responsabilidade» em Susan Wolf. E acreditem que a viagem até à contemporaneidade, através destes dois autores de gerações diferentes, foi uma experiência maravilhosa.
        Para terminarmos, uma questão fica no ar: Será que a liberdade de fazer é o mesmo que a liberdade de querer?