«Foi poeta na nobre e elegante
acepção da palavra. Foi escritor com grande variedade de aptidões, de entre as
quais se não deve olvidar a têmpera espontânea e forte do jornalista, ferindo
todas as notas que podem convencer ou emocionar as pessoas que leem. E até
falando – coisa em que poucos reparavam –, ele encontrava sempre a fórmula
sábia e eloquente que exprime, através das claridades da estratificação verbal,
conceitos profundos e acertados.»
(António José d’Almeida, Presidente da República – 1919-1923)
Sábado, 19 de Junho
de 2021, teve lugar na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do
Castelo, de forma afetiva e por obrigação, o Colóquio Comemorativo do
Centenário da Morte de JOÃO DA ROCHA (1921-2021), ressuscitando-o sob o lema:
LITERATURA, HISTÓRIA E INTERVENÇÃO CÍVICA, numa organização do Dr. António José
Barroso (Agrupamento de Escolas de Abelheira de Viana do Castelo); Prof. Doutor
Manuel Curado (Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do
Minho); e Dr. Rui A. Faria Viana, enquanto Chefe de Divisão da Biblioteca
Municipal de Viana do Castelo, entidade promotora (a par com a Câmara
Municipal) deste mais que oportuno evento comemorativo. Por aqui perpassaram as
seguintes comunicações: “João da Rocha como Historiador das Descobertas” pelo
Professor Doutor João Oliveira e Costa (FCSH da Universidade Nova de Lisboa);
“Quatro publicações periódicas dirigidas por João da Rocha” pelo Dr. António
José Barroso (AEA de Viana do Castelo); “João da Rocha ou a discreta aliança
entre Cultura e Civismo” pelo Professor Doutor Artur Anselmo (FCSH da
Universidade Nova de Lisboa e Presidente da Academia de Ciências de Lisboa);
“João da Rocha como Filósofo: Limites do Positivismo e Cosmologia Metafísica”
pelo Professor Doutor Manuel Curado (ILCH da Universidade do Minho); e “O destino
de João da Rocha” pelo Dr. Joaquim Domingues (AE Sá de Miranda, Braga). A nossa
modesta contribuição foi dada no «2.º Painel: Espiritualidade e Literatura»,
tendo como moderador o Dr. António Pimenta de Castro, e onde ladeamos a Dra.
Cláudia Costa (Doutoranda ILCH da Universidade do Minho), com a comunicação
“Abraços Invisíveis: A Ciência do Espírito em João da Rocha e no Visconde de
Figanière”; e o Professor Doutor José Carlos Seabra Pereira (Faculdade de
Letras da Universidade de Coimbra), com a comunicação “João da Rocha e «a sede
do que nos foge»”, onde falamos sobre a “Biblioteca e Obra de João da Rocha”.

Com as iniciais
e indubitáveis palavras de António José d’Almeida, ao tempo Presidente da
República, do qual João da Rocha fora seu secretário particular até se finar na
noite de 31 de Janeiro para 1 de Fevereiro, de há 100 anos que ora comemoramos:
«Quando ocupei um lugar da mais alta
responsabilidade política, ele esteve em constante e íntimo convívio comigo, e,
se mais não teve, acompanhando-me até ao fim de uma jornada acidentada e tantas
vezes tumultuosa, foi porque a morte o surpreendeu, fulminando-o. É certo,
porém, que, durante os meses que trabalhou comigo, apreciei de conhecimento
directo as excelências do seu espírito, que era consistente e fulgurante, e, a
um tempo, rígido e maleável.» – iniciamos a nossa comunicação, sob a égide
da «Biblioteca e Obra de João da Rocha (1868-1921)».

Estava definida
a personalidade de João da Rocha que, por virtude da sua modéstia, falava
pouco, sabia ouvir, mercê da atenção de Vicente Almeida d’Eça pelas qualidades
tão raras naquele tempo, extensivas aos nossos dias, em que “tanto se fala… e
muitas vezes tão pouco se acerta…” – Aplicação ao estudo, modéstia e primorosa
cortesia. Raul Brandão, por exemplo, acolitava no elogio, perante a figura
desse homem modesto e apagado, “de olhos explodindo azul como duas granadas”,
que os seus amigos conheciam pelo nome de Frei. Perante o seu féretro, Raul
Brandão, interroga-o: «De que te serviu
viveres uma existência de estudo e de trabalho? Desapareceste quase sem ninguém
dar por ti. Sabias tudo – e ignoraste o principal. Triunfaram e exibiram-se os
que não valiam o pó dos teus sapatos, e tu recolheste à sombra dos livros para
magicares num sonho inútil. Foste um homem modesto, o que é um erro que se paga
muito caro. Quem sabe, sabe; quem pode, pode, e é sempre uma tolice deixar os
outros subirem e mostrarem-se, passando-nos adiante quando o lugar nos pertence.»
Dizem as
crónicas à época que João da Rocha nunca podia ser um bom militar. Era artista
e erudito. Cláudio Basto, seu confidente e admirador, profundo conhecedor da
sua personalidade e obra, revela-nos que “o seu anseio era a soledade
contemplativa, meditar, sonhar; o seu trabalho gostoso era o estudo e a investigação.
A vida era-lhe agradável entre livros e documentos ou entre árvores e flores.”
Infelizmente,
tudo o que se possa recolher sobre o que João da Rocha escreveu, está longe de
retratar o escritor, tendo em conta que os trabalhos impressos estão longe de
representar a sua produção literária. Deixou trabalhos manuscritos, uns
completos e outros incompletos, e deixou, espalhada por jornais, revistas e
números-únicos, vastíssima colaboração. Disso nos dá conta Cláudio Basto: «Necessário é reunir tudo isso, carinhosamente,
– e, depois de tudo isso publicado com método, é que se verá quem foi João da
Rocha e o que ele viria a ser, se a morte o não fulmina precisamente quando o
seu cérebro prometia entrar na fase do mais perfeito labor.»
Temos de referir
ainda o facto de, infelizmente, boa parte dos seus trabalhos se perdeu, – uns
porque ele os não arquivou, outros porque, após a sua morte, se extraviaram.
A Biblioteca de
João da Rocha, adquirida pela Câmara Municipal de Viana do Castelo, a 2 de
Abril de 1922, na arrematação judicial, por 20.182$00 (vinte mil cento e
oitenta e dois escudos), composta de um incunábulo, 5.725 obras completas e 183
incompletas em 466 volumes, além de 65 lotes de revistas científicas e
literárias, é muito variada, nela havendo obras dos mais diversos ramos
científicos e das mais diversas literaturas. Como escreveu Cláudio Basto, em
1929: «Era Biblioteca de artista e
estudioso ávido de saber de tudo, na qual se acumulavam não só livros de
especialidades a que João da Rocha se dedicava como ainda outros de
especialidades que ninguém esperaria ver ali tão representadas.»

Nestas
extraordinárias jornadas científicas, que contaram com a presença do Presidente
da Câmara, Eng.º José Maria Costa, foi ainda apresentado o livro “A Sabedoria
da Paciência: antologia do centenário de João da Rocha (1868-1921), de Manuel
Curado, pela Dra. Cláudia Costa (ILCH/ Universidade do Minho) e pelo Professor
Doutor José Eduardo Franco (Universidade Aberta).
Por isso, também por obrigação, compete-nos exaltar tão nobre
iniciativa!
(In, Amanhecer das Neves, N.º 352, Agosto de 2021, p. 20)