Saturday, February 28, 2015

Rui Cardoso Martins e «o osso da borboleta» em tempo de chuva!...

«…O OSSO DA BORBOLETA é um romance sobre um país que não encontra lugar no mundo. Da aflição das pessoas que procuram o amor, de fracasso em fracasso. Comédia humana onde, apesar de tudo, o mal pode morrer e a vida continuar.»


Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015, dia em que choveu copiosamente, em tempo de “reflexão/descompressão” de uma semana extremamente penosa para os “estados da alma”, e prestávamos, ao fim da tarde, a nossa sentida homenagem, à dimensão cosmológica, aos que connosco se cruzaram, partilharam intimidades e familiaridade, numa cumplicidade desinteressada, leal, solidária e arrebatadora – Jaime Gonçalves Enes (1915-2015), S. Salvador da Torre, Viana do Castelo; Maria Augusta Alves Forte Pereira (1953-2015), Vila Boa, Barcelos; Maria Madalena Vieira de Sousa (1922-2015), S. Paio, Arcos de Valdevez –, resolvemos prolongar essa descompressão, participando, à noite, no «À conversa com…», habitual iniciativa da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, que visa promover, em torno do livro, o diálogo e a troca de conhecimentos com escritores contemporâneos, proporcionando a oportunidade de conviver de perto com os autores e a sua obra, e onde se pretende, ao mesmo tempo, que seja um espaço de incentivo à leitura, de divulgação das obras dos autores da actualidade, de promoção da cultura e do conhecimento, e, sobretudo, de interacção entre o público leitor e os escritores.
A chuva permanecia, irritante e desmotivadora. Mesmo assim não resistimos ao desafio lançado pela Biblioteca, para ouvirmos e convivermos, por algumas horas, com o escritor, repórter, cronista e argumentista português, Rui Cardoso Martins. Na “bagagem”, para dois dedos de conversa, trazia o seu mais recente romance «o osso da borboleta», apontado pela editora «Tinta da China» – referimo-la, ética e esteticamente falando, pela qualidade que empresta às suas publicações – como “um romance sobre um país que não encontra lugar no mundo. Da aflição das pessoas que procuram o amor, de fracasso em fracasso. Comédia humana onde, apesar de tudo, o mal pode morrer e a vida continuar”. Era um verdadeiro “handicap” para não faltarmos à chamada.


Acerca de «o osso da borboleta», muito se falou, proporcionando, ao mesmo tempo, excelentes momentos de humor, uma das peculiares características criativas em Rui Cardoso Martins. «O osso da borboleta», como podemos ler em sinopse, procura reproduzir, metaforicamente, “uma cidadezinha atlântica portuguesa, hoje. Praia, casino, pescadores, peixeiras, doutores, bandidos, o rasto dos refugiados judeus da Segunda Guerra. Nesta terra consumida pela grandeza do passado – ou pela falsa memória de que foi grande – um homem escondeu-se do mundo. Onde nem todos os polícias juntos o encontram”, e fala com as pombas e com deusinhos gregos, tem um Olimpo de vitrine: «Aqui, no quarto ao lado, tenho a vitrine dos deusinhos clássicos. Ainda não viste a zona, mas fica por baixo da janela onde se apanham pombos. A parede está forrada de grandes enciclopédias antigas portuguesas, brasileiras, espanholas, francesas, inglesas, etc., que o mundo publicou desde um século. Há muitas diferenças nos mapas antigos e novos. Mudança de tamanho dos países, invasões, anexações, genocídios, desaparecimentos de território, trocas de nome, de línguas oficiais» (p. 35).
A vizinha de baixo arrasta as pantufas da velhice e da solidão, insulta as flores. D. Purificação já foi a mais bela mulher da cidade. O jogo do passado vem ter com a Borboleta. Um deus de província e do dinheiro sujo quer esmaga-lo. Morre o cão, acaba a raiva: «Como ela se zanga com as flores do jardim nas traseiras. Jardim não, pátio. Pátio é exagero, um saguão entre o prédio e o muro» (p. 41). Aqui, em «o osso da borboleta» também gravita o criacionismo: «Porque Deus não sabe se cria mais uma galáxia quando se lembra dela, se é a galáxia que se forma quando a escreve no caderno» (p. 46) e o Universo que partilha o destino de uma chávena de café ou de um lago, e onde “dar a pílula às pombas não lembra ao diabo”. Aqui, há sempre, de facto, «uma história verdadeira sobre um vizinho que não se sabe se aconteceu…» (p. 53), só porque se está bem, tendo reservas no sótão. É do sótão, clausura do homem que se escondeu do mundo, que se avista a janela da D. Purificação: «Ela está na janela da frente. Não vejo. Deste lado do prédio, no sótão, só tenho a couve e o céu com o algeroz da armadilha para pássaros» (p. 67).  
Naquele dia de “reflexão/descompressão”, dia em que choveu copiosamente, apreendemos uma lição: «Há quem viva as memórias de outras pessoas, ouve contar e mais tarde acha que foi consigo que se passou. Há os que aprendem, em criança, que é obrigatório lembrar as memórias dos outros, e nem se lembram de recordar as suas, nunca se atrevem (…) E há essa doença de lembrar todos os dias e horas da vida, e o que disse alguém e como estava vestido nesse instante, se chovia ou não chovia» (p. 135). E por aqui nos ficamos, dado que nesse dia, em local sagrado, frequentado por gente de fé, “roubaram-nos” o guarda-chuva.
Principalmente para os mais distraídos e pouco participativos, convenhamos em dizer que Rui Cardoso Martins nasceu em Portalegre, em 1967. Licenciado em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, é jornalista e cronista do jornal Público desde a sua criação, onde criou a crónica “Levante-se o Réu”, e como repórter cobriu, entre outros acontecimentos, o cerco a Serajevo e Mostar, na Guerra da Bósnia, e as primeiras eleições livres na África do Sul. Recebeu dois prémios Gazeta de Jornalismo. Foi, ainda, um dos fundadores das “Produções Fictícias”, sendo um dos escritores do programa «Contra-Informação», da RTP 1. Foi co-autor de «Herman Enciclopédia», escreveu para «Conversa da Treta» e para o jornal «Inimigo Público». Foi co-autor da série dramática «Sociedade Anónima», da RTP, finalista no Festival Internacional de Veneza. Enquanto argumentista de cinema escreveu o guião de “Zona J” e (em parceria) o da longa-metragem “Duas Mulheres”.
É autor dos romances «E se eu gostasse muito de morrer» (2006); «Deixem passar o homem invisível» (2009), “Grande Prémio de Romance e Novela APE”, eleito um dos livros do ano por várias publicações e críticas, e um dos três nomeados nos prémios SPA; «Se fosse fácil era para os outros» (2012); e «o osso da borboleta» (2014), livro que serviu de mote para os dois dedos de conversa, que decorreu na bem preenchida Sala Couto Viana, apesar do tempo chuvoso não se apresentar muito convidativo à participação dos admiradores da obra deste insigne autor, que, para além de ter alguns dos seus livros traduzidos em inglês, espanhol e húngaro, publicou contos em várias revistas nacionais e internacionais.
Foi uma noite de sexta-feira bem-humorada, positivamente bem-humorada, apesar da aflição das personagens que gravitam pelo romance, que procuram o amor, de fracasso em fracasso. Apesar de tudo, conclui-se, que se trata de uma comédia onde o mal pode morrer e a vida continuar, mesmo que ofuscada pelo tempo de chuva.
          NOTA MÁXIMA! 

Friday, February 20, 2015

Artur Veríssimo e a sua «Rapariga celta sentada num javali»!...

«…Tal como lhe prometi, li o seu Rapariga Celta Sentada num Javali durante a viagem. [...] Li o seu livro num ápice. A escrita agarrou-me logo de entrada. Tem algo de novo, de diferente, uma riqueza verbal e reveladora de uma erudição discreta, que salta nas entrelinhas sem agredir. Uma ironia sagaz percorre todas as narrativas.»

Onésimo Teotónio Almeida

Foi com o maior prazer, diríamos até impulso intelectivo, que acedemos ao convite da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, para estarmos presentes na cerimónia de lançamento do livro «Rapariga celta sentada num javali» de Artur Veríssimo, nascido a 5 de Fevereiro de 1956, em Angra do Heroísmo, Açores. Ligado à acção educativa desde 1975, exerceu, para além da docência, vários cargos de chefia e de formador, tendo sido, também, coordenador e co-autor de manuais escolares de português (1992-2013) e director executivo da revista «(In)Formar». Mestre em Cultura e Literatura Portuguesas, pela Universidade dos Açores, publicou, para além da novela Uma pedra no sapato (1988), as obras didácticas «Registos de observação e Dicionário da Mensagem» (2000). Foi distinguido com o Prémio Literário Almeida Firmino (1988), a que concorreu com o original «A serpente está escondida na relva».
«Rapariga celta sentada num javali», título demasiado sugestivo, quiçá, demasiado místico até, levou-nos a procurar saber algo mais acerca do autor e da sua romanesca inspiração. Ao apresentar-se como “uma História de Amor, de solidão acompanhada e de generosos delírios (muito) académicos”, aumentou em nós uma espécie de pressão “endémica”, cautelosa e defensiva. Estávamos perante um autor que não conhecíamos, mas ao lermos a apreciação “facebookiana” do escritor e ensaísta Urbano Bettencourt, não resistimos ao nosso impulso de inveterado bibliófilo: «Gostei imenso da tua original e surpreendente novela. É bom ver-te pegar numa série de “questões” açorianas e tratá-las pelo reverso; era uma coisa que fazia falta e ajuda a relativizar o mundo. A circulação de textos e o olhar irónico foram talvez dos aspectos que mais me seduziram (acho que o único facto inverosímil consiste em pôr os congressistas na Terceira a beber água mineral de S. Miguel....). O teu livro despertou-me a vontade de escrever sobre ele; vou ver se consigo livrar-me de dois textos que tenho entre mãos e depois consigo mesmo escrever sobre ele». Adquirido o livro, e porque nunca compramos os livros à medida da estante, passamos à sua necessária leitura.


Uma agradável surpresa nos esperava. A chave de todo o enigma, nomeadamente a da Brianda, oradora ruiva, e a do Viriato, “feroz opositor à moeda única europeia, conhecido salteador, com mais fama do que proveito”, era-nos dada, numa nota inicial, pela própria editora: «Rapariga celta sentada num javali é a obra que melhor reflecte a experiência de vida do autor, designadamente a que decorre da sua participação em congressos». A partir dali, em face da “paralelo-mundividência” pelos congressos e obrigações académicas, dispensamos o uso da rede que nos prendia à “pressão endémica”. Leitura sem rede, soava melhor e permitia-nos estabelecer pontes. Da surpresa inicial, passamos ao espanto. Estávamos perante uma das mais brilhantes deambulações literárias, onde somos confrontados com a dificuldade acrescida de sabermos onde começa a ficção e acaba a realidade: «Um javali de médio porte está a ser procurado na praia da Figueira da Foz depois de ter abalroado, esta quinta-feira de manhã, uma viatura numa rua da cidade. (…) Aqui o realismo é apenas isto mesmo, nada tem de mágico. O que é estranho é o tempo em que vivemos, não a procura do javali que há-de desenterrar a trufa do nosso contentamento.» Ironia e humor refinados (uma riqueza verbal e reveladora de uma erudição discreta, que salta nas entrelinhas sem agredir – bebendo nas palavras de Onésimo Teotónio Almeida, com as quais corroboramos), escorados numa escrita de “cátedra”, condimentada através de uma elevada carga metafórica e/ou filosófica, leva-nos, de facto, a imprimir-lhe o mérito de estarmos perante uma bem articulada “história de amor, de solidão acompanhada de generosos delírios (muito) académicos”: É preciso tirar o velho intelectual dos atalhos onde se quer meter ou para onde já o empurrámos involuntariamente. Sem ajuda do narrador, a personagem, na pouca criatividade do desejo que a consome, depressa sentaria a oradora ruiva a seu lado, com luzes apagadas. Daí o surgimento de uma mão fortuita que lhe descesse o fecho da portinhola e lhe entrasse pela abertura franca das ceroulas iria um passo… (p. 29). O que fica do que passa num congresso? Boa pergunta para tantas respostas. Os próprios títulos dos capítulos são, só por si, um hino à criatividade peculiar-caracterizadora do autor, de que é exemplo o quinto capítulo: Onde se prova que o muito falar nos congressos adormece os salteadores de estrada (e os que o não são assim tanto) e se descobre, antes do golo do Pauleta, que D. António, Prior do Crato, conhece as ilhas de bruma (p. 35).
Como seria despropositado e até injusto, para com o autor e para com os hipotéticos (obrigatoriamente, necessários) leitores, desvendar aqui todo o trama deste extraordinário romance, apenas nos ficaremos pela degustação de algumas lexicalizações, que nos fizeram despoletar estados psicológicos e cenários alegóricos (de uma forma séria, rindo a bom rir), das vivências congressistas: “Na sala, os dois amigos figadais de há pouco abraçavam-se” (p. 55); “Estando o congresso atrasado, a sessão decorreu em simultâneo com o intervalo (…) Não foi fácil acomodar as pessoas, muitas das quais nem eram congressistas, que a maioria destes achara o intervalo bem mais apelativo” (p. 79); “A assistência estava rendida. E a vaga de risos, com odor a café, que veio do exterior pela porta que, uma vez mais, se abriu, juntou-se à torrente de boa disposição que varria a sala, como se um espaço fosse o prolongamento natural do outro” (p. 82); “Como numa revoada de patos-bravos a fugir aos tiros dos caçadores, o bando de congressistas precipitou-se para a porta de saída” (p. 89); “Na sala, um conhecido catedrático, meio-surdo, levantou-se, curvado pelo peso da idade, ainda estremunhado de sono, e pediu a palavra” (p. 104); “Uma mulher (é a primeira vez que a vejo) faz a sua entrada na sala no preciso momento em que alguém chama ao palco uma nova conferencista, a professora Anne Reys. Desce parte do corredor central, sob os aplausos do público, que não se apercebe logo de que ela não é a senhora Reys” (p. 135); “Deixo o orador suspenso, de copo na mão, até ao capítulo seguinte, como se o tivesse parado por acção de um comando remoto, carregando no botão «pausa»” (p. 149); “O orador esperou que as gargalhadas diminuíssem de volume e, com um sorriso de orelha a orelha, recomeçou.” (p. 159) – simplesmente, SUBLIME.
E para terminarmos, quase como fazendo jus à “História de Amor”, nada melhor apimentar as vivências congressistas: “Deu por si, de joelhos e mãos no chão, montado pela oradora que bramia um chicote imaginário, os corpos nus cravados na penumbra, à vista dos cortinados que reproduziam uma caçada ao javali. Demasiado literário para ser verdade…” (p. 94). Estava contada a história da “rapidinha ida ao quarto da oradora ruiva”. Dado que o que se sente não se explica… o resto fica com os leitores.
        NOTA MÁXIMA! 

Saturday, February 14, 2015

Obra gráfica de Luís Manuel Gaspar em exposição na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo!...

«… “História natural com parafusos” apresenta-se como uma viagem vertiginosa entre os mundos submersos e os visíveis, as origens e a actualidade, o obscuro e o luminoso.»

Maria José Guerreiro

No último sábado, 7 de Fevereiro de 2015, foi inaugurada na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo (Ala Jorge Amado), uma exposição da obra gráfica editada em livros, revistas e jornais, do artista plástico, poeta e crítico textual, Luís Manuel Gaspar, com o sugestivo título «história natural com parafusos», que, bebendo das palavras de Maria José Guerreiro, «nos leva a uma reflexão individual e introspectiva mas questionadora, sem dúvida, do seu lugar e posicionamento no mundo. Enquanto na língua francesa, utilizamos uma única forma “je suis”, na língua de Camões, declinamos em duas formas “ser” e “estar”. Afinal, nós não somos só, também estamos!» – citamos.


Esta exposição, a quarta sequencial de um projecto que nasceu da acção da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, corporizado na pessoa do seu Chefe de Divisão, Rui A. Faria Viana, e com a cumplicidade – quiçá, conivência – do artista plástico e ilustrador com créditos internacionais, Tiago Manuel, que rapidamente soube transmiti-lo à Vereadora do Pelouro da Cultura, Maria José Guerreiro, que apesar de sensível às dificuldades impostas por uma política governamental economicista, soube contornar alguns obstáculos e sensibilizar o resto do executivo, levando a que o mesmo viesse a assumir por inteiro este mesmo projecto, projecto esse que não se destina só ao público de um modo geral, mas também, e principalmente, à dinâmica escolar, quer a nível do ensino primário, preparatório e secundário, quer mesmo a nível superior. O efeito, segundo Tiago Manuel, tem sido muito positivo. De realçar que, desde que começou este projecto, o ensino secundário tem desenvolvido acções orientadas e a própria dinâmica deste acontecimento é feita, não de uma forma caótica, mas através de uma organização pré-definida. E o “pivot” de todo esta dinâmica escolar tem sido o Tiago Manuel.
Tudo começou com o Tiago Manuel (Viana do Castelo, 1955), revisitado em «diários de sombras», onde foi exposta a sua obra gráfica editada em livros e revistas, de 25 de Maio a 28 de Setembro de 2013. Seguiu-se-lhe João Fazenda (Lisboa, 1979) com «domador de imagens», expondo a sua obra gráfica editada em livros, revistas e jornais, de 4 de Janeiro a 14 de Junho de 2014. André Carrilho (Amadora, 1974), expôs de 19 de Julho a 27 de Dezembro de 2014 «desenhos atrás do espelho», obra gráfica editada em livros, revistas e jornais, onde, segundo João Paulo Cotrim, o mesmo “não resiste nem movimento nem ao labirinto da narrativa, (…), mas a originalidade do seu percurso até aqui joga-se na construção das personagens”, através do cartoon político e social. Agora, com Luís Manuel Gaspar, somos bafejados com um extraordinário artista plástico e poeta, que faz ilustração, principalmente para a área da poesia e prosa-romance. Segundo Tiago Manuel, Luís Manuel Gaspar “tem uma vantagem, e logo muito grande, em relação aos anteriores, dado que o seu trabalho remete para intimismos”. De facto, a literatura precisa sempre de um estímulo, como forma de nos levar a ler. E esse estímulo começa logo pela imagem. Corroboramos da ideia de Tiago Manuel, quando afirma que “a imagem não é literal, de explicar o que está no conteúdo, mas, antes, funciona como um parceiro”. E Luís Manuel Gaspar, enquanto ilustrador, é um escritor, um parceiro do próprio escritor, acrescendo o facto de ser, também, um excelente poeta.


O nosso muito obrigado ao Jorge Silva, parceiro na montagem desta magnífica exposição: Título: história natural com parafusos; Autor: Luís Manuel Gaspar: Projecto: Rui A. Faria Viana; Direcção Artística e Coordenação: Tiago Manuel; Local: Biblioteca Municipal de Viana do Castelo; Data: 7 de Fevereiro a 11 de Julho de 2015. Catálogo – Textos: João Paulo Cotrim; Pintura/Auto-retrato: Luís Manuel Gaspar; Arranjo gráfico e impressão: Jorge Costa; Produção: Tiago Manuel.       
Para terminarmos, e tendo em conta o seu vastíssimo curriculum, o que seria incomportável esmiuçar aqui no espaço limitativo destas nossas deambulações da pena e da mente, tomando por “referência sintética” as notas inseridas num dos painéis da exposição, convenhamos em dizer que Luís Manuel Gaspar nasceu em Lisboa (1960), “é artista plástico, poeta, crítico textual, revisor e secretário de gatos. Publica capas, ilustrações e banda desenhada em livros e periódicos desde 1986. Tem colaborado nas revistas «Ler», «Colóquio/Letras», «Prelo», «Suroeste», «Telhados de Vidro», «Cão Celeste» e «Intervalo». Expôs individualmente em Lisboa (1987), Sines (1993), Viana do Castelo (2011) e, de novo, Lisboa (2012 e 2013). Foi comissário ou consultor de exposições relacionadas com Almada Negreiros, Ramón Gómez de la Serna e o modernismo ibérico. Publicou alguns folhetos de poesia e trabalhou na edição de obras de diversos autores portugueses, entre os quais Francisco Bugalho, Raul Brandão, Alexandre O’Neill, Manuel António Pina, Ruy Belo, Herberto Helder, Carlos de Oliveira, Al Berto e Rui Pires Cabral. Tem sido um dos editores responsáveis pela Obra Literária de José de Almada Negreiros, em publicação na Assírio & Alvim”.
         Obrigatoriamente, uma exposição a visitar! 

Saturday, February 07, 2015

Os «Elogios/Elegias» de Cláudio Lima!...

«Na visão de Cláudio Lima, o canto elegíaco consagra a libertação da lei da morte, para invocar um famoso verso camoniano, daqueles que transcenderam a quotidianidade cinzenta da vida: escritores, sobretudo poetas, artistas plásticos, músicos, pensadores, cientistas, mulheres que muito amaram, santos que serviram, com infinito afecto e sublime dedicação, os pobres, os doentes e os excluídos sociais.»

Vítor Aguiar e Silva

Indubitavelmente, Cláudio Lima é um dos grandes Poetas contemporâneos. E ao “imprimirmos” tal afirmação, ainda que subjectiva para alguns (felizmente, muito poucos), não o estamos a acantonar a uma região, dado que a dimensão universal do pensamento, enquanto objecto da lógica, tem uma realidade formal distinta da que tem quando constitui o objecto de uma ciência. Essa é a nossa percepção, exercício que implica algo distinto da sensação, mas também da intuição intelectual, quando lemos a poesia de Cláudio Lima. E também, porque imbuídos pelo pensamento de Halifax, quando um dia afirmou que «o verdadeiro mérito é como os rios: quanto mais profundo, menos ruído faz», somos obrigados a interiorizar a ideia – como forma da relação com as coisas sensíveis – de que a poesia de Cláudio Lima assenta em rios profundos, rios esses que com as suas afluentes, também elas profundas, acabam por desaguar no oceâneo, alegoricamente marcado pela universalidade do pensamento. Daí, a nossa negação ao acantonamento.
Jamais poderemos esquecer os devaneios de alguns poetas de afluentes ou rios pouco profundos, quando, afirmando-se em inspiração própria, sem influências, porque pouco dados às leituras, se emprestam à ruidosa negação da “douta ignorância” ou do “operário em construção”. Cláudio Lima não é assim. Diremos mesmo que se pressente na sua poesia uma “construção poética” alicerçada na inspiração daqueles – como escreve Vítor Aguiar e Silva em prefácio –, “que transcenderam a quotidianidade cinzenta da vida”. É nesse sentido que entendemos «Elogios/Elegias», o último brado poético de Cláudio Lima, primorosamente editado sob a chancela da Editora Labirinto.


Tal como escreve Vítor Aguiar e Silva, palavras ditas e sentidas, e com as quais corroboramos, «a paronomásia inscrita no título (…) evoca liminarmente dois grandes veios da poesa europeia, desde a sua aurora grega: o canto de louvor, o canto epidíctico de celebração, e o canto de tristeza e dor, o pranto e a lamentação pela perda de alguém», levando a que Cláudio Lima liberte da lei da morte aqueles que, como atrás referimos – citando Aguiar e Silva, “transcenderam a quotidianidade cinzenta da vida”. Ao fazê-lo, ou da maneira que o faz, não poderemos dizer que Cláudio Lima se revê no papel de um inveterado saudosista, mas, antes pelo contrário, o canto elegíaco vai no sentido de consagrar a dita libertação da lei da morte. De facto, só morre quem é esquecido.
Gostamos, de uma forma particular, da perspectiva do “mito sebástico” neste extraordinário brado poético de Cláudio Lima, ao permitir fazer a ponte entre o monarca (D. Sebastião), que deu origem ao estranho messianismo, que levou o povo português – segundo Maria Amália Vaz de Carvalho – a viver dominado pela sua fraqueza, ou a sua força, “em confiar sempre da Providência, do Acaso, do Destino e nunca de um plano raciocinado e assente”: Cortina densa o nevoeiro / vem repetir a infausta saga / do Encoberto. / Cai sobre nós como um presságio, / uma síncope de espera a dilatar-se / em areais funestos. (p. 18), Fernando Pessoa e seus heterónimos: Por dentro do tempo / como um vento / sussurram tuas insónias / heterónimas. / Por dentro do tempo / – túnel por concluir – bruxuleia uma candeia / a se extinguir. (p. 21), e Agostinho da Silva: Tens um nome comum, como convém; / um nome linear de vogais doces / como a doçura que têm / os frutos sumarentos e precoces. / Mas, além-nome, grande Profeta / o Além te elegeu / para traçares a grande linha recta / do sinuoso destino que nos deu. (p. 26). Quiçá, pela pena e pela mente de Cláudio Lima, e através desta ponte, se venha a cumprir o “Quinto Império”: Outra rota? Outro sonho? Outro pendão / noutro mastro? Pouco importa! / A chave de nós está na nossa mão / como também o código da porta. (p. 27). Repetimos, Cláudio Lima não se apresenta como um sebástico-messianista, nem tão pouco como saudosista.

Outros nomes gravitam neste «Elogios/Elegias» de Cláudio Lima: Camilo Pessanha, onde As palavras que levitam são as tuas, / pescador de pérolas doentes. / As Afrodites palpitantes, nuas, / não saem do mar se não consentes. (p. 25); Miguel Torga: Sobre a montanha desci os olhos salgados de / pasmo e de ternura. E disse os fonemas primeiros / de um amor sem ruga, pura embriaguez de terra. (p. 28); Sophia de Mello Breyner Andresen: É em ti / que o verbo se arrepende de ser neutro / e revela tudo quanto sabe. (p. 30); Eugénio de Andrade: Ficarás em pedra e sol / e letras sumárias mas agudas / no inacessível patamar da música. (…) Ficarás em pedra e saudade sob o musgo / do tempo, rumor de asas e de luzes / a lembrar a leveza dos teus versos. (p. 32); Vergílio Ferreira, aquando da sua morte: Não, não vamos deter mais do que um instante / na tua serena máscara final. (p. 33); David Mourão-Ferreira, também pelo mesmo motivo: Um silêncio sepulcral agora incide / sobre as sílabas doces e claras / do teu canto, / essa música tua de vibrações raras / que nos tocava tão no fundo e tanto. (p. 34); José Cardoso Pires, também, aquando da sua morte: E agora, José? / O sorriso malandro / inteligente e arguto / esmoreceu para sempre / em madrugada de luto. (p. 35); Luiz Pacheco, aquele para o qual: A vida é esterco, / percurso / sem remédio. (…) Mesmo assim / do Príncipe Real / uma embaixada de pombos / veio ao funeral. (p. 36); Sebastião Alba, o semi-lúcido: Agora que Carl Sagan morreu / quem fica a mandar nas estrelas / sou eu. (p. 37). Nas páginas deste «Elogios/Elegias» há ainda lugar a requiens por Hilário, António Variações, Zeca Afonso, Amália Rodrigues, Carlos Paredes, Madalena (bíblica): Por bem pouco chorei sobre o meu corpo / rasgado e abandonado ao fim da noite; / e permaneci passiva, assim de borco, / à mercê do pecado e do açoite. (p. 47), Francisco de Assis, Madre Teresa de Calcutá, Carl Sagan, Gabriel Garcia Lorca, Pablo Neruda: Nunca deste ao poema um brilho de domingo. (p. 55), Chopin, Louis Armstrong, Pablo Picasso, Salvador Dalí e Sylvia Plath. Por forma a não influenciarmos eventuais leitores, o que será passível de algum constrangimento interpretativo, vamos ficar mesmo por aqui.
Para terminarmos, e embora sejamos da opinião de que a biografia de um Poeta está na sua obra, não resistimos à tentação de dizer, principalmente para os mais distraídos, que Cláudio Lima é pseudónimo de Manuel da Silva Alves, natural de Calvelo, Ponte de Lima, onde nasceu a 6 de Abril de 1943. Tem formação na área da Filosofia, é casado, pai de dois filhos e está radicado em Braga. Iniciou-se muito jovem nas lides da escrita, colaborando em revistas escolares e suplementos juvenis, entre eles o do “Diário de Lisboa”, que acolheu as primícias de muitos escritos então revelados. Além de estar representado em mais de trinta obras colectivas, tem significativa e variada colaboração dispersa por jornais e revistas de Portugal, Angola, Brasil e Galiza, nas modalidades de poesia, conto, crónica, crítica literária e social, ensaio, diarística, etc. A nível individual, tem mais de uma dúzia de obras publicadas, sendo de realçar que a maior parte delas encontra-se esgotada. Para além de outros, foi agraciado com o Prémio Nacional de Poesia “Fernão de Magalhães Gonçalves” 2008, e com a Medalha de Mérito Cultural pelo Município de Ponte de Lima.  
        «ELOGIOS/ELEGIAS» de Cláudio Lima. Um livro e um autor que se recomendam. Daí, NOTA MÁXIMA!

Friday, January 30, 2015

Debate sobre a Europa em Conferência Internacional!...

«Uma Nova Narrativa para a Europa é um projecto de envolvimento e participação dos cidadãos, a realizar no território nacional, para promover a reflexão, o debate e a proposição de ideias que alimentem uma nova narrativa para a Europa.»

Porque envolvidos no projecto «Uma Nova Narrativa para a Europa», promovido pela Representação da Comissão Europeia em Portugal, tendo como Parceiro Estratégico o Centro de Informação Europeia Jacques Delors (CIEJD/DGAE-MNE) e como como gestor a SETEPÉS, onde podemos reflectir e debater ideais culturais para a Europa de hoje e de amanhã, tão bem expressos na Declaração do Comité Cultural do mesmo projecto, de modo a podermos reajustar as prioridades no quadro da entidade política que é a Europa, à luz desses mesmos ideais, foi com o maior sentido de responsabilidade ética e/ou moral que participamos, na Conferência Internacional «Novo Renascimento e Novo Cosmopolitismo», levada a cabo na grande catedral da cultura nortenha, Casa da Música (Porto), a 23 de Janeiro último.
Maria de Aires Soares, chefe da Representação da Comissão Europeia em Portugal, abriu a Conferência, dando as boas-vindas a todos os participantes, congratulando-se, ao mesmo tempo, pela qualidade dos oradores convidados que se prontificaram, sem qualquer tipo de condicionalismos, a colaborar nesta mesma iniciativa.


Antes de se dar início à referida Conferência, dividida em dois painéis, foi passado um “filme-documentário”, realizado em Barcelona, Bruxelas, Copenhaga, Haia, Lisboa e Praga, onde foram ouvidos alguns dos autores do projecto “Uma Narrativa para a Europa”: Kathrin Deventer, Luísa Taveira, Olafur Eliasson, Paul Dujardin, Peter Matjasic, Sneska Quaedvlieg-Mihailovic e Tómas Seddlácek, sete cidadãos europeus que ofereceram o seu ponto de vista sobre o futuro da Europa, confiantes que o seu testemunho possa estimular o debate entre os cidadãos europeus e as instâncias que governam esta comunidade de mais de quinhentos milhões de pessoas. Para estes autores, um novo renascimento e um novo cosmopolitismo são dois ideais culturais a que aspiram e que consideram vitais para a Europa de hoje e de amanhã, apelando a que “os cidadãos façam ouvir a sua voz e participem no espaço público europeu de debate, partilhando as suas histórias e preocupações. Essas narrativas contarão a história do que significa ser europeu no século XXI”.
Evocando o período europeu dos séculos XV e XVI, em que a sociedade, a arte e a ciência abalaram a ordem estabelecida e criaram os fundamentos e a dinâmica para a actual era da Sociedade do Conhecimento, deu-se início à Conferência, com o propósito de se reflectir e debater ideais culturais, capazes de criar e sustentar a acção política no seio da Europa; incorporar soluções inovadoras que permitam à Europa ser o baluarte da sustentabilidade ambiental no mundo; e, finalmente, assegurar um sentimento de pertença entre os cidadãos europeus. Daí, tendo como relator e moderador, o Embaixador Francisco Seixas da Costa, o primeiro tema – Uma Nova Narrativa para a Europa: Como despertar um Novo Renascimento? –, contou os seguintes oradores: Peter Matjasic, ex-presidente do Fórum Europeu da Juventude (2011-2014) e Membro do Comité Cultural da Declaração “Uma Nova Narrativa para a Europa”, e Marina Costa Lobo, Professora e Investigadora em Ciência Política. Do debate neste primeiro painel, tiramos algumas conclusões que passam pela noção clara de que a Europa é marcada pelo discurso economicista, descorando o plano cultural, numa alegoria à construção do navio à feição dos ventos; falta de princípios de identidade e de natureza ética, contrário à estrutura democrática, levando a alguma desilusão, ou seja, ao aumento da insatisfação dos cidadãos com a UE; a um crescente distanciamento entre os políticos mainstream Europeus e partes substanciais da opinião pública; pressões centrífugas na UE devido a condições económicas assimétricas e políticas de austeridade; aumento considerável do poder das instituições centrais da UE (Comissão, Conselho Europeu, Euro grupos, etc.); emergência de um “dissenso constrangedor”, explicado pelo eurocepticismo político e de políticas, e da erosão do consenso sobre o qual se construiu a UE, enquanto modelo europeu de democracia; uma cidadania passiva mas insatisfeita, vítima do seu próprio sucesso. Em suma: uma Europa dirigida para eurocépticos, que induz à desconfiança e não reforça um processo solidário, e da disfuncionalidade da política agrícola comum. Há, até, uma certa clivagem, porque assente numa espécie de elitismo.


Tendo ainda como relator e moderador, o Embaixador Francisco Seixas da Costa, o segundo tema – Uma Nova Narrativa para a Europa: Pluralismo e Cosmopolitismo? –, contou com os seguintes oradores: Eduardo Paz Ferreira, Professor Catedrático e Presidente do Instituto Europeu da Faculdade de Direito de Lisboa, e Miguel Sousa Ferro, Professor em Direito da União Europeia. Das suas intervenções, tiramos algumas ilações, principalmente quando se fala do choque do terrorismo em Paris, que desencadeou paixões e ódios, levando perigosamente à exclusão de outras culturas; liberdade de expressão, liberdade de imprensa e do poder judicial; sociedade incompatível com a grande cultura europeia; narrativas dos ricos e dos poderosos, assentes na presunção, ainda que errada, de acharmos que somos um continente superior aos outros; os Mídias, como propriedade e sob pressão de determinados grupos económicos; a Europa construída pelas grandes elites e não pelas populações, levando-nos, inadvertidamente, ao desaparecimento da história; a riqueza deveria servir a humanidade e não a humanidade servir a riqueza, numa alusão clara ao Papa Francisco, perspectivando, no entender de Eduardo Paz Ferreira, a aparição do “Euro” como só servisse para criar ódios e rivalidades; e, finalmente, o discurso do fecho de fronteiras tem as suas repercussões dentro das próprias fronteiras.
       Depreendemos desta extraordinária conferência internacional, que há uma prioridade cada vez mais necessária de reflectir e debater ideais culturais para a Europa de hoje e de amanhã, negando a imagem do “bilhete-postal” que nada tem a ver com a realidade, impresso no “asfixiante economicismo” e na mortalidade por exclusão. Só assim, diremos não à Europa que nos dirige para uma desconfiança permanente!

Saturday, January 24, 2015

Publicada 2.ª edição do «retábulo da folia» de Fernando Pinheiro!...

«Uma escrita envolvente, colorida pelo pendor adjectivante e pela incorporação do falar comum, serve a preceito o universo rural das oito estórias deste Retábulo tão cheio de matizes, sortilégios e malícias, ironia, sugestividade»

José Manuel Mendes

Com esta avalista apreciação crítico-literária de José Manuel Mendes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, conceituado escritor e ilustre professor da Universidade do Minho, a nossa tarefa de inveterado leitor, acrescida do circunstancial atrevimento, porque a isso ninguém nos obriga, de passar para o papel a nossa opinião, a propósito de tudo o que Fernando Pinheiro tem produzido a nível literário até hoje, apresenta-se extremamente facilitada, tendo em conta a alta qualidade do seu projecto narrativo, opinião partilhada pelo mesmo José Manuel Mendes, e com a qual comungamos incondicionalmente, quando escreve: De livro para livro, Fernando Pinheiro enriquece e aprofunda o seu projecto narrativo. A efabulação, nascida amiúde de um olhar atento ao quotidiano, desenha-se com crescente argúcia e as personagens, na sua diferenciação procedimental, densificam-se. Bebendo numa locução latina, “Ad augusta per angusta”, diremos nós.
Perguntarão os nossos leitores: porquê toda esta retórica, quando tudo se resumirá a uma, ainda que subjectiva, apreciação a mais um livro, dado à estampa, de Fernando Pinheiro? De facto, não se trata de mais um, mas da 2.ª edição do seu livro de contos «retábulo da folia», editado pela primeira vez, sob a chancela da Autores de Braga, em Fevereiro de 1994. Dez anos depois, «RETÁBULO DA FULIA» aparece com uma nova “roupagem”, títulos e conteúdos ligeiramente revistos e acrescentados à inspiração inicial, desta vez, numa muito bem cuidada edição da Calígrafo. Acresce o facto de aparecer mais um conto, em jeito de monólogo – Os maravilhosos artifícios do Pinta-Ratos que entre outras proezas admiráveis tirou lágrimas verdadeiras aos devotos de Nossa Senhora da Franqueira –, elaborado, segundo Fernando Pinheiro, a partir da reportagem realizada por José de Coelho e Luís Santos, e publicada no jornal Barcelos Popular, em 7 de Dezembro de 1996. Contudo – e dentro do nosso princípio básico, muito pessoal, de que nada se inventa quando tudo está inventado, circunstancialmente assente na percepção de que não devemos escrever o que sentimos quando os outros, anteriormente, já o fizeram por nós –, teremos em dizer que o alto quilate do projecto narrativo mantem-se: Fernando Pinheiro tem o mérito de ser, equilibradamente, vernáculo e clássico à sua maneira, em estilo, com um perfeito domínio da técnica que dá corpo e alma à arte do (belo) conto. É mais uma revelação das potencialidades literárias do autor que o leitor bem pode constatar, mesmo com um suave deste “Retábulo da Folia” (…) pinta o quadro das alegrias e tristezas de um Minho que viveu numa “estúpida obediência” mas que, mesmo sem escola, sabia transformar uma cana num “simplório artefacto” para “silvos musicais tão vibrantes”. – citamos Pedro Leitão, em apontamento crítico no JN (1994).


Pelo «Retábulo da Folia» perpassam as mais díspares e extraordinariamente bem caracterizadas personagens, tais como: o Domingos Pato, “o maior mentiroso das Terras de Aquém e Além-Cávado”, que tinha o vício de “lograr o parceiro com uma laracha e duas tretas”; o Padre Ribeiro, “entre todos o mais douto naquelas paragens”; o senhor Joãozinho da Eira, entre todos o que “não se importava nada de cair nas suas esparrelas, e muito mal ia a vida quando o Pato não tinha nenhuma patranha para seu divertimento”; o Aires Manco, “que lhe disputava a Idalina Tripa, a maior paspalhona de quantas mulheres andavam no jornal naquela casa”; o Lino da Quitéria, “sacristão e tramboleiro de Santo Amaro do Campo”; o Baganha, circunstancial homem da batuta, aquando debilidades várias em Lino da Quitéria; o senhor Luís Aleluia, músico e oleiro, contramestre da Banda Musical de Santo Amaro do Campo; o Padre Joaquim, abade de Santo Amaro do Campo; o Marechala, “famoso tocador de descantes, rusgas e tocatas, conhecido em todo o concelho, desde Balugães a Viatodos, como sendo homem de sete instrumentos”; o Padre Zé, aquele que viria a casar Venturino e Isménia, “ao fim de vinte e um anos, três meses e sete dias de namoro pegado, testemunhado por todo o povo de Parada do Monte e pelas aldeias duas léguas ao redor, que têm o fraco costume de coscuvilhar a vida alheia”, sendo padrinhos Fernando do Souto, chefe da Acção Católica, e Lurdes Campeã, “ainda aparentada à noiva e zeladora do altar-mor (naquela manhã ornamentado a gipsófila branca e cravos vermelhos), e ainda um casal da aldeia para testemunhar”; a Isaura Pontes, dita a Gaga, assim se chamava “por padecer de um pequeno distúrbio de linguagem, que pariu quatro filhos cognatos”, e o pai de seus filhos, Samuel Cachapa, “tão rapidamente entrou na história como saiu dela, pois limitou-se a emprenhar a mulher quatro vezes e a morrer logo depois com os pulmões podres e os fígados inchados”; o Patrocínio Cachapa, filho de Samuel e da Gaga, “o quarto da geração, que herdou do falecido o gosto pela água e o mau sangue”; o Padre Alberto e a Glória Catequista; o José Videira, lavrador, “da muito conhecida Casa da Presa, a mais de uma légua de distância de S. Salvador da Ribeira”; o Domingos Capador, “o mais célebre rei das tabernas de Santo Amaro e além, quando as havia nas encruzilhadas do povo. (…) um bêbedo temido pelos taberneiros, pois todos sabiam o que tinha acontecido ao mixordeiro que um dia lhe dera uma malga de vinho feito a martelo”, e a Maria Piona, levada já prenhe para o casamento por Domingos Capador; o Padre Firmino, sabedor do “episódio insólito” do nascimento do quarto filho de Domingos e Piona, “disse que o cachopo parecia o pequeno José do Egipto a ser exposto pelos irmãos aos mercadores de escravos da Palestina”; o Zé da Glória, conselheiro-mor do sinédrio da aldeia; o Jacob Manuel de Deus Pereira, “nascido, criado e casado em Santa Eulália, livre de todo o serviço militar por estrabismo divergente”; o Padre Carvalho, também ele, tal como o Padre Ribeiro, “entre todos o mais douto da freguesia”; a Rola, “uma rapariga um tanto pascácia de S. Romão, que em toda a sua vida, não foi muito mais além da sua mera, embora própria, condição biológica”; o Irineu Azeiteiro, que andava pelos lugares da aldeia a distribuir o azeite, “numa carroça com a ajuda de uma mula. Tocava numa corneta à porta dos casais, ia a uma torneira de cobre cheia de azebre, e da bilha de zinco tirava qualquer água-ruça para as almotolias”; a Ermelinda da Fonte, tanto tida por santa como por doida; o Padre Agostinho, etc., etc…. Tal como escreveria a professora Manuela Ascensão Correia, “Retábulo da Folia” é «um quadro composto por um fascinante caleidoscópio de seres que, no seu primarismo, se fundem com a terra onde nasceram, barro do mesmo barro, às vezes tão barro que parecem só matéria, mas que, por um olhar, por um gesto, por um desejo, se escapam do barro e ascendem, por um momento, à sublime sacralização humana». Essa é, também, a nossa percepção!...
           NOTA MÁXIMA!

Saturday, January 17, 2015

Alma: mundo sensível, tempo, movimento ou princípio vital?!...

«Para Heraclito o princípio consiste na própria alma, em virtude de ela ser aquela emanação quente pela qual todos os seres são criados. Trata-se, por conseguinte, de uma realidade incorpórea e em mutação contínua: conhece-se o movimento consoante mais se movimenta, sendo sua opinião (e também a de muitos outros) a circunstância de todos os seres se encontrarem em movimento…»

Aristóteles

Fazendo uma pequena pausa na “leitura contemporânea”, nomeadamente dos autores que vamos lendo – e daqueles que ainda estão por ler – semana a semana, resolvemos exercitar as nossas interrogações cognitivas de hoje, à volta do trágico acontecimento, de fim de ano, que levou à “desencarnação” do nosso (familiar) amigo/irmão Manuel António Ferreira Ribeiro (1941-2014).
   

Começaríamos esta nossa modesta “deambulação do intelecto” por Thiago Sinibaldi, principalmente quando afirma que o princípio da vida – e/ou princípio vital – é a força de que emana a vida, exprime a convicção de que a própria vida é um efeito e todo o efeito exige uma causa proporcionada. Para ele, todos os seres vivos possuem um princípio de vida, distinto da matéria organizada. Sinibaldi acha que o princípio da vida deve chamar-se alma, definindo-a, ao mesmo tempo, como um princípio de movimento ou de operação. Afirma, ainda, que o princípio da vida é o princípio de todos os movimentos ou operações imanentes dos seres vivos. Logo, o princípio da vida deve chamar-se alma – “com razão, pois, dá-se a denominação de animados aos seres que possuem a vida, e o de inanimados aos que a não possuem –. À alma deve atribuir-se todas as propriedades, que convêm ao princípio da vida”. Ao lermos Thiago Sinibaldi, constatamos assim o conceito de alma como um princípio de movimento, que pode ser visto sob dois aspectos: enquanto anima o corpo – a alma é o acto primeiro do corpo natural e organizado, capaz de produzir operações imanentes –, e, por outro lado, enquanto é princípio de operações “a alma é o princípio primeiro, pelo qual o sujeito produz operações imanentes”. Por exemplo, na Antiguidade, a alma tem um significado de vida (animação), começando por ser localizada ou implantada no sistema respiratório, sendo que o respirar não se separa do spiritus (espiritual) e a morte ocorre com o último sopro, popularizado como entregar a alma ao criador. O nascimento, como início da existência, reconhece-se pela entrada de ar nos pulmões, permitindo a nossa própria autonomia, quando antes estávamos condicionados pelo sangue e oxigénio maternos. Esta antiga visão animista definiu, assim, a alma como uma espécie de harmonia, sendo ao mesmo tempo causa e efeito. Relevante é o facto de Anaximandro de Mileto (séc. VI a. C.), sendo o primeiro a utilizar o conceito de princípio, para significar, não a água, nem os outros elementos conhecidos, mas uma determinada natureza infinita, defendeu que a alma é de natureza etérea. Anaxímenes de Mileto (séc. VII-VI a. C.), e segundo Pinharanda Gomes, “à semelhança de seu mestre, reconheceu a existência de uma única substância infinita, verdadeiro princípio, mas, em vez de a deixar indefinida, achou que devia dizer qual era, e disse ser o ar”. Outro dos factos relevantes da Antiguidade é que, por exemplo, para os estóicos existia mesmo uma «Alma do mundo», forma através da qual eles explicavam – ou procuravam explicar – a sua organização e a sua continuidade.   
Voltando ao mundo cognitivo antes de Platão, e como o já referimos em anterior apontamento, convenhamos realçar que muitas foram as especulações sobre a ideia de alma, a ponto de, face à complexidade dessas mesmas especulações, em o Fédon – no qual alguns pensadores afirmam melhor transparece a verdadeira natureza da Alma humana, juntamente com os argumentos que fundam a sua imortalidade –, o mesmo filósofo grego acabar por defender um dualismo quase radical do corpo e da alma. A alma por aspirar a libertar-se do corpo era, para ele, uma realidade essencialmente imortal e separável. Assim, a tendência da alma – sendo que a mesma, como alguém um dia afirmou, deve chamar a atenção do filósofo – era de “regressar à sua origem divina e viver, entre as ideias, no mundo inteligível”.
O mesmo Platão, por exemplo, apesar de aceitar a doutrina heraclítica – tudo está em movimento – de que os objectos sensíveis estão em constante movimento, para ele os objectos sensíveis não constituem “todas as coisas” e se afirmamos que “todas as coisas estão em perpétuo movimento”, torna-se impossível o conhecimento. É em o Teeteto que Platão fala sobre o conhecimento em si mesmo, isto é, a essência do conhecimento, sobre a dialéctica e a Anamnesis – acesso à totalidade das ideias –, sendo que esta última é a intermediária entre os dois mundos de Platão: a natureza eterna da alma humana (mundo das ideias) e a existência separada das formas (a existência do homem no mundo sensível), objectos próprios do conhecimento. Assim, Aristóteles ao assumir que as substâncias são as realidades primeiras, no sentido de que todos os outros modos de ser dependem da substância – procurando também demonstrar a existência da substância supra-sensível – acaba por tentar corrigir Platão. Segundo ele, se todas as substâncias fossem corruptíveis, nada existiria de absolutamente incorruptível.
Por outro lado, para Aristóteles, o tempo e o movimento são incorruptíveis, sendo que o primeiro não foi gerado nem se corromperá, tendo em conta o facto de que, na realidade, antes de ser gerado deveria ter existido um antes e posteriormente à destruição do mesmo deveria ter havido um depois. Assim, sendo o antes e depois apenas tempo, para este filósofo grego sempre há tempo antes e depois de qualquer começo ou fim suposto do tempo. Logo, o tempo é eterno. De igual forma podemos falar do movimento, já que o tempo é apenas uma determinação do movimento, e, ao assim se postular, o que leva Giovanni Reale, no seu livro «Introdução a Aristóteles», a concluir que no pensamento aristotélico “não há tempo sem movimento; portanto, a eternidade do primeiro postula igualmente a eternidade do segundo”. Aristóteles, ao referir-se àqueles que defendem que a alma consiste numa harmonia, harmonia essa que seria uma mistura ou uma espécie de combinação entre contrários – do mesmo modo seria o corpo uma combinação de contrários –, resultando da mesma uma proporção de elementos misturados “ou, então, na sua respectiva combinação, diversamente não podendo a alma ser nem uma coisa nem outra”. E por aqui nos ficamos…
    Amigo/irmão Manuel António Ferreira Ribeiro, onde quer que estejas, desculpa-nos esta introspecção, dado sabermos o que pensavas a respeito destas questões. Até sempre!

Friday, January 09, 2015

Publicado o Tomo 48 dos Cadernos Vianenses!...

«A promoção da cultura vianense assume-se, assim, com o objectivo primordial desta edição, que continua a fazer história no panorama editorial de Viana do Castelo, permitindo um conhecimento de inúmeros aspectos de interesse científico e histórico…»

José Maria Costa

Fundados em 1978, sob a orientação de António Dionísio Marques, Severino Costa, Maria Tereza Majer de Faria, Jaime Cepa, Maria Augusta Eça d’Alpuim, J. Baptista Gonçalves da Silva, Maria Emília Sena de Vasconcelos, Rui Pinto e Matias de Barros, os «Cadernos Vianenses» apresentavam-se como uma publicação onde seriam “tratados todos os assuntos que digam respeito às gentes de Viana do Castelo, analisando-as sob o ponto de vista etnográfico e etnológico, somática e culturalmente, tratando de desvendar as suas possíveis etnias, entendidas estas como seus caracteres noológicos; relembrando e evocando o seu passado e, assim, estudando a sua história, quer no aspecto puramente antropológico, quer nas suas manifestações culturais, as mais diversas, desde a arqueologia, a passar pelo folclore, cerâmica, trajos típicos e artesanato e a terminar na pintura, poesia e, até, actividades desportivas” – como escreveria Dionísio Marques, na altura vereador do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Viana do Castelo (editor da publicação), em nota introdutória ao primeiro tomo. Percorridos trinta e seis anos, eis que acaba de ser publicado o seu quadragésimo oitavo tomo, coordenado editorialmente pelo chefe de divisão de Biblioteca e Arquivo municipais, Rui A. Faria Viana (coordenador desde o tomo quarenta e quatro, 2010), e sob a direcção do presidente do município vianense, José Maria Costa.


Com significativas alterações introduzidas, precisamente a partir do tomo 44, os «Cadernos Vianenses», enquanto publicação que se assumiria como arauto do passado e do presente da região de Viana do Castelo, representam hoje, e bebendo das palavras do actual presidente do município, o repositório “das várias abordagens de problemas e de assuntos com interesse transversal para Viana do Castelo nas temáticas da cultura, da etnografia, do património quer natural quer construído”. Essa é a sensação com que ficamos ao longo destes trinta e seis anos percorridos.
O tomo 48 dos «Cadernos Vianenses» foi apresentado no passado dia 27 de Dezembro de 2014, em cerimónia pública que decorreu na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, onde estiveram presentes o presidente do município, José Maria Costa; a vereadora do pelouro da Cultura do mesmo município, Maria José Guerreiro; e o coordenador editorial da mesma publicação, Rui A. Faria Viana, que através duma bem estruturada apresentação, diríamos até minuciosa, deu a conhecer ao público presente os conteúdos deste mesmo tomo 48 dos «Cadernos Vianenses» e os seus autores, realçando a qualidade quer de uns quer de outros. Elogios de circunstância que seriam secundados, a posterior, pela vereadora e pelo presidente do município, aquando do encerramento da sessão. Dois nomes a salientar, porque referidos na sessão, no campo estético e/ou artístico: Rui Pinto, que desde o primeiro tomo tem emprestado muito da sua sensibilidade, enquanto pintor, na elaboração das capas, sendo que as mesmas, só por si só, espelham todo um percurso artístico deste ilustre vianense, e não só; e Rui Carvalho, competentíssimo designer da nossa praça, responsável pela sua apresentação gráfico-estética, desde o tomo quarenta e quatro.


Este número dos «Cadernos Vianenses», com 336 páginas, para além da habitual “Apresentação” do presidente do município, apresenta-se com quatro separadores temáticos (secções): ESTUDOS VÁRIOS – “Viana e o mar”, de Carlos Alberto da Encarnação Gomes; “Talha religiosa de Viana do Castelo: panorama estético”, de Francisco José Carneiro Fernandes; “Breve simbologia do Templo-Monumento de Santa Luzia”, de Ana Marques; “De Viana ao Porto por Esposende até ao século XX: estradas, barcas e pontes”, de Raul de Azevedo Saleiro; “Espaços ajardinados da cidade de Viana do Castelo: contributos para a sua divulgação e importância para a fruição pública”, de José da Cruz Lopes; “Primórdios do ordenamento e planeamento na orla costeira minhota”, de Horácio Faria; “Casa dos Nichos: a utilização da ilustração no seu discurso museológico”, de Hugo Gomes Lopes; FIGURAS E MEMÓRIAS – “António Alfredo Simões Viana (1922): da medicina tropical a um olhar psiquiátrico sob a criança no século XX”, de Porfírio Pereira da Silva; “A citânia de Santa Luzia e o seu espaço envolvente”, de Jorge Alexandre Viana Correia; TERRITÓRIO E CIDADES DO NORTE ATLÂNTICO IBÉRICO (comunicações resultantes do 3.º Seminário realizado em Viana do Castelo, nos dias 25 e 26 de Setembro de 2014) – “A urbanidade no litoral das rías atlánticas”, de Henrique Seoane Prado; “Estratégia Alto Minho 2020: recomendação para uma visão de mudança”, de Vânia Rosa; “Linha do Minho: uma reflexão sobre o serviço de transporte e as interdependências com o território”, de Paulo Silvestre; “A reabilitação e reinvenção dos espaços públicos. As praças como veículos de regeneração urbana”, de Manuel C. Teixeira; “A configuração de Viana do Castelo: uma perspectiva metodológica”, de David Leite Viana; terminando com CONTINUADOS – “Arrolamento dos bens das igrejas”, de António Maranhão Peixoto.
A finalizar, surgem de uma forma resumida algumas notas sobre os colaboradores, com o objectivo de uma melhor identificação de todos os que assinam trabalhos inseridos neste tomo dos «Cadernos Vianenses».
        Mais um número que se recomenda!

Tuesday, December 23, 2014

«Vidadupla» em e com Sérgio Godinho?!...

«Na casa de férias de uma tia minha houve um lençol puído, rasgado e mais de uma vez remendado, debaixo do qual me deitei numa tarde de Verão…»

Sérgio Godinho

Sérgio Godinho esteve entre nós, a pretexto do desafio lançado pela Biblioteca Municipal de Viana do Castelo para connosco estar “À conversa com…”, habitual iniciativa mensal onde a mesma Biblioteca visa promover, em torno do livro, o diálogo e a troca de conhecimentos com escritores contemporâneos, proporcionando a oportunidade de conviver de perto com os autores e a sua obra. E foi isso que aconteceu com Sérgio Godinho, nascido na cidade do Porto, em 1945, e com apenas 20 anos de idade parte para o estrangeiro. Primeiro destino: Suíça, onde estuda psicologia em Genève durante dois anos, antes de tomar a decisão «para a vida» de se dedicar às artes. Mais tarde muda-se para França. Vive o Maio de 68 na capital francesa. No ano seguinte integra a produção francesa do musical Hair, onde se mantém por dois anos. Em Paris priva com outros músicos portugueses, como Luís Cília e José Mário Branco. Sérgio Godinho ensaiava assim as suas primeiras composições, na altura em francês.


Do longo e riquíssimo percurso artístico de Sérgio Godinho – o que seria fastidioso aqui esmiuçar – teremos de salientar o facto de ter sido actor de teatro e ter começado a exercitar a escrita de canções nos finais dos anos 60. O seu primeiro álbum surge em 1971, Os Sobreviventes, seguindo-se mais vinte e sete até aos dias de hoje, o que faz dele um dos músicos portugueses mais influentes dos últimos quarenta anos. Sobre si próprio disse: «Não vivo se não criar, não crio se não viver. Essa balança incerta sempre foi a pedra de toque da minha vida». Ou ainda: «Eu o que faço é tentar contar coisas, falar de coisas, fazer interrogações à minha maneira e saber que há pessoas que são tocadas por isso». Essas interrogações são “contos de um instante”, como canta numa das canções de um dos seus discos, e tanto podem falar de amor (Intermitentemente), como da situação do país e das incertezas do presente (Acesso bloqueado). O seu percurso espelha, precisamente, essa poderosa interacção entre a vida e a arte. Daí, que, mesmo enquanto voz polifónica, levou frequentemente a sua escrita a outras paragens: Guiões de cinema, peças de teatro, séries de televisão, histórias infanto-juvenis (O Pequeno Livro dos Medos), poesia (O Sangue por um Fio), crónicas (Caríssimas Quarenta Canções), entre outros exemplos.
Naquela noite de 12 de Dezembro último, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, estivemos ali para falar de VIDADUPLA (contos), capítulo presente desse estimulante itinerário pessoal de Sérgio Godinho: «O que esconde e o que revela um velho lençol puído sobre a intimidade de uma mulher? Como se prova a inocência quando um álibi incrimina? O que significa a morte na vida de um carrasco, e o que significa a vida no dia da sua morte? Para onde rolam as bicicletas e caminha a história das duas operárias? O que leva um homem a deixar a sua casa, noite após noite, para dormir na rua?» – perguntas para as quais encontramos algumas respostas, através da sua bem estruturada dialéctica, segurança e cultura geral.


Sem que nos proponhamos, pelo despropósito, a explicar os nove contos inseridos em VIDADUPLA: “O lençol”; “O álibi do falso culpado”; “Notas soltas da corda e do carrasco”; “O circo de três pistas”; “O pré-catastrofista”; “O momento mágico”; “Queria só falar da minha história de amor”; “Osmose”; “O sem-abrigo, vida dupla”, atrever-nos-emos em dizer, contudo, que sentimos a magia do espelho, algo que já não é inédito na literatura ao longo dos séculos, como forma de mostrar as duas faces de cada um de nós, sentir e ser na relação com o outro: «A casa era ao pé do mar, e eu tinha trinta e quatro anos e um corpo de rapariga de vinte, pelo menos assim mo diziam os amigos, os amantes e os espelhos. Costumava acreditar que pelo menos estes últimos não me enganavam, ainda que sabendo o quanto é clemente e traiçoeiro o olhar do nosso amor-próprio…» (p. 7); o envelhecer e o rejuvenescer: «Apresentar rugas umas às outras, mudar de rugas ao fim da noite» (p. 9), dissimulando as quarentenas no teatro; o instinto e a inocência; o carrasco que não pretende ser absolvido, dado que «Não mata por convicção e muito menos por instinto. Mata por incumbência…» (p. 23); o desentendimento do corpo e da alma «ao longo de todas as querelas, interiores e exteriores, e assim preparam a sua separação eterna.» (p. 25); o nascer e viver no circo «é andar à volta e ter só uma saída, no lugar e no tempo da próxima entrada…» (p. 31), numa alegoria à própria vida, mesmo quando em três pistas circulares, iguais; o catastrofista, «o tal senhor extravagante e enviesado, que antecipa, por método ou costume ou desvario, as catástrofes iminentes» (p. 43); o momento mágico, ficando sozinho ouvindo os seus ecos pela tarde, «tinha aprendido a gostar de ópera, eu que a tinha desconsiderado, achava-a desadequada, enfática, artificial – tudo o que afinal a vida era e a arte pode ser» (p. 62); o antes e o depois do ser da vida, quando «o meu antes não era lá grande coisa, querer explicar isto é quase perda de tempo…» (p. 70); o enigma da auto-estima, não se julgando inferior aos outros: «Mas isso, só por reconhecer em todos virtudes iguais às minhas. É esse o enigma da auto-estima, não ter nível por onde se aferir.» (p. 79); e, finalmente, o sem-abrigo, vida dupla, enigma que leva um homem a deixar a sua casa, noite após noite, para dormir na rua: «Vou preencher o presente com as esperanças do passado. Não com as sobras do passado, mas com o que ficou. A esperança é o que ficou.» (p. 91).
Ao termos feito esta extrapolação lexical, mais não pretendemos do que “aguçar o apetite” dos possíveis leitores destes maravilhosos contos, reunidos no sugestivo título de VIDADUPLA. Quiçá, o outro lado de Sérgio Godinho.
       NOTA MÁXIMA!

Friday, December 12, 2014

Álvaro Santos Pereira e os “jobs for the boys” de Paulo Portas!...

«Tenho orgulho de ter lutado pelo meu país. Tenho orgulho de ter mostrado que é possível ir contra lóbis e interesses instalados.»

Álvaro Santos Pereira

Por certo que muitos dos habituais leitores destas nossas deambulações literárias estarão recordados quando, em Agosto de 2012, escrevemos que sempre fomos leitores inveterados de teses científicas, em qualquer vertente da teoria do conhecimento, acreditando – ainda que com algumas reservas – naquilo que os seus autores podem trazer de novo ao pensamento universal. E quando essas teses se apresentam como soluções aos acidentes de percurso das áreas a que se confinam, faz aumentar em nós a “curiosidade especulativa”. Na altura, referíamo-nos ao livro «Portugal na hora da verdade: como vencer a crise nacional» da autoria de Álvaro Santos Pereira, aquele que após tomar posse como ministro da Economia, e contrariando os apelativos dos defensores dos prefixos (pão quentinho a sair do forno de Miguel Relvas), aconselhou a que o chamassem de Álvaro, sem o doutor (aplaudimos de pé), livro esse onde procurava mostrar que Portugal vive hoje três grandes crises: a crise das finanças públicas, a crise da competitividade e do crescimento e a crise do endividamento externo. Entre as questões debatidas, incluem-se as seguintes: qual é o verdadeiro estado das nossas finanças públicas? Porque é que o nosso Estado gasta tanto? Quantos institutos e outras entidades públicas existem e quanto gastam? E porque estamos tão endividados? Será a dívida nacional sustentável? Quão grave é o problema de competitividade das nossas exportações? – questões e interrogações pertinentes, reforçadas pelo facto de ele mesmo sublinhar ao longo da mesma “dissertação” que havia fortes indícios de que o nosso Estado estava a matar a economia nacional, afirmando mesmo que os funcionários públicos não eram responsáveis por esta situação: “Uma verdadeira reforma do Estado que torne as nossas contas públicas saudáveis e sustentáveis não deve ser feita contra os funcionários públicos ou contra o serviço público. Muito pelo contrário. Uma verdadeira reforma da administração pública terá de melhorar o serviço público, não piorá-lo. Uma verdadeira reforma da função pública terá de aumentar o prestígio do emprego público, não diminuí-lo. Uma verdadeira reforma do Estado terá de incentivar a auto-estima dos funcionários públicos e fazer com que sejam eles próprios a estimular a mudança de que a nossa administração pública necessita”.


Como era previsível, este tipo de teorização levá-lo-ia à precipitada saída do governo ultraliberal de Passos Coelho. Hoje, voltamos a ser confrontados com uma nova “bomba-relógio”, intitulada «Reformar sem medo: um independente no Governo de Portugal», com 1.ª edição em finais de Novembro deste mesmo ano. Seu autor, Álvaro Santos Pereira, vem agora a “terreiro” afirmar que «durante muitos anos, eu estive na posição confortável de poder criticar à distância. Em livros, em blogues, em artigos de jornal. Além disso, como vivia no estrangeiro, a minha posição era ainda mais cómoda, visto que as minhas críticas certamente não afectavam o meu dia-a-dia. Podia criticar o que quisesse, pois isso não teria consequências para a minha vida privada ou familiar…» (p. 16), numa espécie de preâmbulo ao capítulo de “Uma missão (quase) impossível”. É nesta nova “dissertação” de «Reformar sem Medo», que o ex-ministro da Economia põe o dedo na ferida, abordando de uma forma clara um pouco de tudo: intriga política (sendo Paulo Portas uma das figuras principais), luta contra lóbis e as negociatas de bastidores com a troika: «Quando saí do Conselho de Ministros, pensei que tínhamos dado um importante passo para conseguirmos o IRC a 10% para os novos investimentos. Porém, sabia também que ainda havia muito caminho para andar, até porque Vítor Gaspar claramente não era apologista da medida. Não me enganei. No sábado seguinte, marcámos uma reunião com o Ministro das Finanças, em que estiveram presentes também Carlos Moedas e a minha equipa. O resultado foi desastroso. Vítor Gaspar disse muito claramente que quem tinha a tutela e a responsabilidade das Finanças em Portugal era ele, e que ele não gostava da medida…» (p. 343). Vítor Gaspar e Carlos Moedas, dois nomes sonantes, privilegiados em calendas europeizadas.
«Reformar sem Medo», acusa decepções, ineficiências e, sobretudo, crítica a troika, os lóbis, o “país que venera formalismos” e Paulo Portas: «Se há algo que me orgulho de ter feito durante a minha governação foi a luta contra os lóbis e os interesses instalados. Sei que sou suspeito, mas penso que na nossa democracia não há muitos exemplos de Ministérios da Economia tão independentes como o nosso foi (…) Os lóbis nunca tiveram a minha simpatia. Os aparelhistas partidários também não. No meu Ministério os lóbis ficaram à porta. E os aparelhistas nunca encontraram na nossa equipa quem lhes desse ouvidos» (p. 223) – exame de contrição em louvor próprio, para depois desferir algumas alfinetadas a Paulo Portas: «Neste sentido, um colega do Governo disse-me uma vez que havia a percepção de que as coisas não andavam bem no Ministério da Economia e do Emprego. Perguntei que coisas eram essas. As reformas? Não disse ele, as reformas estavam a ser feitas e até tínhamos feito um bom trabalho. Os cortes das rendas e o combate aos interesses instalados? Não, isso nós também tínhamos feito. A reforma do Estado no que dizia respeito ao Ministério e a reestruturação das empresas públicas? Não, isso também foi alcançado e bem, respondeu-me. Então, o que é que falta?, perguntei. “Sabes”, respondeu ele, “o partido queixa-se que as nomeações nunca mais arrancam, que vocês demoram muito a substituir os socialistas que lá estão.” Foi aí que eu percebi (ou, melhor, confirmei) que a alegada ineficiência do meu Ministério estava na “demora” em nomear os correligionários dos partidos para os cargos existentes nas diferentes empresas públicas e instituto…» (p. 50). O homem do “irrevogável”, aquele que há muitos anos, aquando director do “Independente”, abominava política e políticos, mantinha a mesma serenidade e a mesma “lata” dos “aparelhistas” partidários, na procura de darem emprego a tanta gente cujo único mérito era (e é) o cartão de militante. Daí, não estranharmos o bater da porta do – até aqui líder da concelhia centrista em Viana do Castelo – nosso particular amigo Carlos Meira.
Agora começamos a entender o porquê do nosso livro «Baliza trágica de um naufrágio» ter vários engulhos no seio do corporativismo instalado, o que tem dificultado a sua aceitação nos “aparelhos” editoriais. Há muita coisa por explicar e os “aparelhistas” movimentam-se no sentido de silenciarem quem não alinha no mercantilismo das “consciências aparelhadas”, contrário ao pensamento de Pascal, quando afirma que «a consciência é o melhor livro de moral e o que menos se consulta».
         Até quando democracias assim condimentadas? A pergunta fica no ar!

Friday, December 05, 2014

O «Corpo» e a alma apaziguada de Célia Meira!...

«Nunca estejas completamente desocupado; lê ou escreve, reza ou medita, ou faz qualquer coisa de útil para a comunidade.»

T. Kempis

CORPO, objecto tangível que muitos dizem opor-se ao espírito, à alma. O conhecimento geral da natureza corporal data da distinção da natureza e do mito no pensamento dos pré-socráticos. Leucipo chegou mesmo a afirmar que «o universo está ao mesmo tempo vazio e cheio de corpos». Contudo, e por outro lado, há quem afirme que a distinção radical da «substância pensante» e da «substância extensa», abrindo a possibilidade de um pensamento puramente objectivo da natureza corporal, sublinha por outro lado a heterogeneidade da alma e do corpo. Para Descartes, por exemplo, a essência da matéria que se manifesta sob a forma de corpos, reside na extensão: «A natureza da matéria, ou do corpo tomado em geral, não consiste no facto de ser uma coisa dura ou com peso, ou colorida, ou que toca os nossos sentidos de uma outra forma, mas somente em que é uma substância que se estende em comprimento, largura e profundidade» – citamos do “Princípios da Filosofia”.
Mas, o que nos traz aqui hoje é o CORPO na sua verdadeira existência, como o corpo que somos, e não o corpo que temos, totalidade indivisa, que caracteriza o nosso ser no mundo… O CORPO, sujeito, em Célia Meira, nascida em Deão, Viana do Castelo, a 19 de Abril de 1982, jovem formada em engenharia civil pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e a desempenhar actualmente funções no Controlo de Qualidade em obra. Editou o seu primeiro brado poético, «poesia das letras», em 2012.


Já por várias vezes afirmamos que nunca foi nosso propósito (nem a tal nos atreveríamos) comentar ou explicar poesia, dado que nem uma coisa nem outra se coadunam com o nosso princípio estético da arte e da literatura pelo gosto. Ao desafio lançado pelo bom amigo Gonçalo Fagundes Meira, em apresentarmos o mais recente brado poético da jovem Célia Meira, CORPO, que diz sentir o bichinho das palavras desde que se lembra de si e é na escrita que se encontra, teremos de confessar que sentimos algum receio em permitirmo-nos percorrer tão lentamente este mesmo brado, chamado CORPO, precisamente na dúvida de não estarmos à altura de percorrê-lo “tão lentamente, que o tempo parece pairar…”. Mas como só os fracos não aceitam desafios, resolvemos alinhar no contraditório da distinção radical da «substância pensante» e da «substância extensa», abrindo assim a possibilidade do pensamento puramente objectivo da conciliação, «união substancial» em Descartes. Daí, naquela tarde de 29 de Novembro último, com Célia Meira, termos aceite tal desafio, percorrendo o CORPO “tão lentamente, que o tempo parece pairar…”.
Ouvimos dizer tantas vezes que não é poeta quem quer, mas quem pensa, sente e vive. E a nosso modesto ver, Célia Meira reúne estes três requisitos, porque valoriza o SER existencial: «Piso terra solta, / Piso rocha, piso mar… / O corpo a balançar, / Espírito que navega / E a alma a flutuar! / Sou eu, sou outra…» (p. 13). Neste CORPO poético perpassamos pela Terra em pose imaterial, transfigurando-nos; sentimos o desmoronar de um presente que já foi passado; o coser com afinco «um simples pano amarrotado, / Que carrega agora a dor ao peito / E o meu coração bordado!» (p. 17), numa alusão ao lenço dos namorados; cartas escritas, onde não se sente o receio de escaparem as palavras ou a caneta ficar sem tinta; a incongruência do racional: «Esta incongruência do racional / Que me faz ser só animal / Faz-me bem… / Faz-me tão mal…» (p. 21); o sentir do Alentejo, no calor do silêncio e onde o sol imerso deixa o corpo repousar; regressos que jamais virão e onde pairam olhos de segredo e medo; encontramos expressões matemáticas com letras do poeta, «sem sentido rebuscado / Só lógica aritmética… / Sem significados dúbios / Ou pontuação desordenada, / Somo letras do poeta / Em conclusão desconcertada…» (p. 27); encruzilhadas do destino, onde só a vontade do poeta domina; o negrume do escurecer; o desejo do «corpo em flamejo / Do teu corpo em mim…» (p. 43); a necessidade do estar, intocável, acreditando no acontecer do amor.


Neste “celiano” CORPO poético há ainda memórias; irritações a estados de complacência «em que ocultamos quem somos, / Julgando-nos tão só pela aparência / agindo pelos outros…» (p. 49); formas de ser livre quanto refém de si mesmo; inevitáveis ilusões, condimentadas pelo Amor «que em frémito se dispam os nossos corpos…» (p. 57); ser sem o outro aquém de si próprio; soma de erros e incertezas, subtracção de medos, multiplicação de decisões, divisão de segredos, redundando «Em valor absoluto… / na incógnita do limite do infinito!» (p. 63); prelúdios de dores anunciadas, até que as mesmas adormeçam; cheiro de café no ar; perfume de promessas; pratos e espelhos partidos; tinta da caneta que ensurdece a mão e música que emudece o papel; coração assoberbado em corpo despedaçado: «O choro degola o papel / No silêncio revolto da pele…» (p. 71); dores no olhar, inspirando avidamente o medo; horas que ditam o fim; nada ter para além do pensar: «E o meu coração já era teu / Antes de to querer dar…» (p. 85)     
E poder-se-á perguntar, quem é Célia Meira? Ela mesmo responde: «Não sou voz nem fado, / Nem trago arrependimento / Sou um som cantado / Em silêncio cimento… (…) Não sou bem nem mal / Nem palavra catalogada / Sou só animal e alma apaziguada…» (p. 83). E por aqui nos ficamos, por forma a não condicionarmos a livre interpretação dos potenciais leitores de Célia Meira.
Parabéns Célia Meira! Continua na senda do teu amor livre, porque como propriamente dizes: «É vontade, é querer, / É partilha e felicidade / É vaidade e orgulho, / É saudade…» (p.87).
        Gostamos do que lemos, e isso nos bastou!