Há homens que passam pela vida sem fazer ruído, mas deixam na cidade
uma espécie de luz que o tempo não consegue apagar. Carolino Ramos (1897-1961) foi
um desses homens. Junto à antiga Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo,
hoje Escola Secundária de Monserrate, o seu monumento – da autoria do seu
discípulo Salvador Vieira – parece recordar-nos que a memória também se
constrói em aço, embora só sobreviva quando permanece viva no coração dos
homens.
Pintor, desenhador, professor e criador, Carolino Ramos entregou à Arte
muito mais do que o talento: entregou-lhe a própria existência. Nos cartazes,
nas ornamentações, nos carros alegóricos, nas ilustrações e nos murais, ajudou
a dar forma à alma festiva de Viana. E talvez a Arte seja precisamente isso: a
tentativa humana de tornar visível aquilo que, dentro de nós, não sabe dizer-se
por palavras. Homem de sapiência discreta e humildade quase envergonhada, foi
mestre de nosso pai antes da partida para “além-mar”. Dessa relação ficou-nos
uma memória que o tempo, esse escultor invisível, não conseguiu desfazer. Preferiu
muitas vezes o risco da criação à segurança da rotina. A construção civil podia
oferecer-lhe o sustento; a Arte oferecia-lhe, porém, aquilo que nenhum salário
compra: a liberdade de criar. Mas talvez seja esse o paradoxo do artista: viver
entre a necessidade e o sonho, entre o reconhecimento que tarda e a obra que
permanece. Os artistas nem sempre são compreendidos pelos seus contemporâneos.
A crítica pode aprisionar aquilo que nasceu para ser livre; o gosto alheio pode
diminuir aquilo que só pede espaço para existir. Carolino Ramos conheceu,
certamente, essas contradições. Ainda assim, continuou a criar. E talvez seja
essa a verdadeira medida de um homem: não o aplauso que recebeu, mas aquilo
que, apesar do silêncio, decidiu deixar ao mundo.
Hoje, quando Viana celebra a Senhora d’Agonia e as ruas recuperam a cor, o movimento e a alegria, é justo lembrar quem também ajudou a desenhar essa festa. Porque as cidades não são feitas apenas de casas, ruas e monumentos. São feitas, sobretudo, pelas pessoas que lhes acrescentaram beleza. E, enquanto houver quem se detenha diante da sua obra e pergunte quem foi aquele homem, Carolino Ramos continuará, de algum modo, a viver.
A Arte tem esse estranho privilégio: desafia o tempo. E há memórias que, como a boa Arte, recusam simplesmente desaparecer.
(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 31, quinta-feira, 24 de setembro de 2026, p. 17)
No comments:
Post a Comment