Wednesday, September 30, 2026

BRUMAS DO TEMPO (LXVI)

Há homens que passam pela vida sem fazer ruído, mas deixam na cidade uma espécie de luz que o tempo não consegue apagar. Carolino Ramos (1897-1961) foi um desses homens. Junto à antiga Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, hoje Escola Secundária de Monserrate, o seu monumento – da autoria do seu discípulo Salvador Vieira – parece recordar-nos que a memória também se constrói em aço, embora só sobreviva quando permanece viva no coração dos homens.

Pintor, desenhador, professor e criador, Carolino Ramos entregou à Arte muito mais do que o talento: entregou-lhe a própria existência. Nos cartazes, nas ornamentações, nos carros alegóricos, nas ilustrações e nos murais, ajudou a dar forma à alma festiva de Viana. E talvez a Arte seja precisamente isso: a tentativa humana de tornar visível aquilo que, dentro de nós, não sabe dizer-se por palavras. Homem de sapiência discreta e humildade quase envergonhada, foi mestre de nosso pai antes da partida para “além-mar”. Dessa relação ficou-nos uma memória que o tempo, esse escultor invisível, não conseguiu desfazer. Preferiu muitas vezes o risco da criação à segurança da rotina. A construção civil podia oferecer-lhe o sustento; a Arte oferecia-lhe, porém, aquilo que nenhum salário compra: a liberdade de criar. Mas talvez seja esse o paradoxo do artista: viver entre a necessidade e o sonho, entre o reconhecimento que tarda e a obra que permanece. Os artistas nem sempre são compreendidos pelos seus contemporâneos. A crítica pode aprisionar aquilo que nasceu para ser livre; o gosto alheio pode diminuir aquilo que só pede espaço para existir. Carolino Ramos conheceu, certamente, essas contradições. Ainda assim, continuou a criar. E talvez seja essa a verdadeira medida de um homem: não o aplauso que recebeu, mas aquilo que, apesar do silêncio, decidiu deixar ao mundo.

Hoje, quando Viana celebra a Senhora d’Agonia e as ruas recuperam a cor, o movimento e a alegria, é justo lembrar quem também ajudou a desenhar essa festa. Porque as cidades não são feitas apenas de casas, ruas e monumentos. São feitas, sobretudo, pelas pessoas que lhes acrescentaram beleza. E, enquanto houver quem se detenha diante da sua obra e pergunte quem foi aquele homem, Carolino Ramos continuará, de algum modo, a viver.

A Arte tem esse estranho privilégio: desafia o tempo. E há memórias que, como a boa Arte, recusam simplesmente desaparecer.

(A Aurora do Lima, Ano 171, Número 31, quinta-feira, 24 de setembro de 2026, p. 17)

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