Friday, April 22, 2016

A rota para a “ciência normal” em Thomas Kuhn!...

«A criação de jornais especializados, a fundação de sociedades de especialistas e a reivindicação de um lugar especial nos currículos de estudo, têm geralmente estado associadas com o momento em que um grupo aceita pela primeira vez um paradigma único…»

Thomas Kuhn

Um pequeno debate acerca da Ciência e da actual política de atribuição de bolsas para doutoramento pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), levou-nos a fazer uma pequena reflexão à volta de determinados conceitos ou paradigmas que nos ajudam a compreender certas articulações de atribuição ou não dessas mesmas bolsas.
Tomando por referência o conceito “ciência normal”, tendo em conta que para Thomas Kuhn tal conceito «significa a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas», estaremos perante a constatação de que essas realizações são reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior. Segundo o mesmo filósofo, presentemente, essas realizações são relatadas pelos manuais científicos elementares e avançados, que expõem o corpo da teoria, ilustram as aplicações bem-sucedidas e comparam-nas, com observações e experiências exemplares. E há exemplos ao longo da história, sendo que esses manuais – ou livros – se tornaram populares no começo do século XIX. Thomas Kuhn destaca: A «Física» de Aristóteles, o «Almagesto» de Ptlomeu, os «Principia» e a «Óptica» de Newton, a «Electricidade» de Franklin, a «Química» de Lavoisier e a «Geologia» de Lyell, obras que, por algum tempo, serviram para definir e legitimar os problemas e métodos de um campo de pesquisa, para gerações posteriores de praticantes da ciência. E Thomas Kuhn aponta duas características essenciais para que isso tivesse acontecido:
1 – Suas realizações foram suficientemente sem precedentes para atrair um grupo duradouro de partidários, afastando-os de outras formas de actividade científica dissimilares;
2 – Simultaneamente, suas realizações eram suficientemente abertas para deixar toda a espécie de problemas para serem resolvidos pelo grupo redefinido de praticantes da ciência.
Thomas Kuhn refere-se às realizações que partilham essas duas características como «paradigmas», termo que, como ele afirma, está estreitamente relacionado com a «Ciência Normal». A partir daqui, importa saber como é que são criados os «paradigmas» e em que medida contribuem para a investigação científica?
No discorrer deste ensaio, o autor sugere-nos alguns exemplos aceites na prática científica, que incluem, ao mesmo tempo, lei, teoria, aplicação e instrumentação: “Astronomia Ptlomaica” (ou “Copernicana”), “Dinámica Aristotélica” (ou “Newtoniana”) e “Óptica Corpuscular” (ou “Óptica Ondulatória”). E poderiam ser citados outros exemplos.
Voltando aos «paradigmas», Kuhn defende que o estudo dos mesmos paradigmas é o que prepara os estudantes para serem membros de uma determinada comunidade científica, na qual exercerão mais tarde a sua prática. Uma vez inseridos na comunidade científica, esses mesmos estudantes aprendem e são orientados por investigadores – que aprenderam as bases de seu campo de estudo a partir dos mesmos modelos concretos – cuja prática subsequente raramente irá provocar desacordo declarado sobre pontos fundamentais. No fundo, há um indubitável compromisso com as regras e padrões para a prática científica, porque baseado em «paradigmas» partilhados. Segundo Kuhn, esse compromisso – ou comprometimento – e o consenso aparente que produz são pré-requisitos para a «ciência normal», isto é, para a «génese e a continuação de uma tradição de pesquisa determinada».


Face à necessidade de acrescentar algo mais sobre as razões da introdução do conceito de «paradigma», Thomas Kuhn deixa no ar duas interrogações: Por que a realização científica, como um lugar de comprometimento profissional, é anterior aos vários conceitos, leis, teorias e pontos de vista que dela podem ser abstraídos? Em que sentido o paradigma partilhado é uma unidade fundamental para o estudo do desenvolvimento científico, uma unidade que não pode ser totalmente reduzida a componentes atómicos lógicos que poderiam funcionar em seu lugar? – remetendo-nos para «A Ciência Normal como resolução de quebra-cabeças».
Na certeza, porém, de que os «paradigmas» auxiliam as comunidades científicas, as respostas a estas questões e outras similares demonstrarão ser básicas para a compreensão, tanto da «ciência normal», como do conceito associado de «paradigma», sendo que o «paradigma» é essencial e relevante para a investigação científica. O exemplo de que se um historiador, ao seguir, desde a origem, a pista do conhecimento científico de qualquer grupo, seleccionar os fenómenos interligados, provavelmente encontrará alguma variante menor de um padrão. Por isso, e parafraseando Kuhn, «nenhuma história natural pode ser interpretada na ausência de, pelo menos, algum corpo implícito de convicções teóricas e metodológicas entrelaçadas que permitam a selecção, avaliação e a crítica». Ainda segundo Kuhn, na ausência de um paradigma, os historiadores deparar-se-ão com sérias dificuldades, a ponto de todos os factos que possivelmente são pertinentes ao desenvolvimento de determinada ciência têm a probabilidade de parecerem igualmente relevantes.
Nova questão se coloca: Como são criados os «paradigmas» e como é que as revoluções científicas ocorrem? Porque achamos relevante à compreensão desta problemática, começaremos por citar Thomas Kuhn, quando se refere às escolas características dos primeiros estágios do desenvolvimento de uma ciência que, circunstancialmente, aos tempos de hoje, nos omitem detalhes que cientistas posteriores considerariam fontes de iluminações importantes – afirma que «se esse corpo de crenças já não está implícito na colecção de factos — quando então temos à disposição mais do que “meros factos” — precisa ser suprido externamente talvez por uma metafísica em voga, por outra ciência ou por um acidente pessoal e histórico». E prossegue: «Não é de admirar que nos primeiros estágios do desenvolvimento de qualquer ciência, homens diferentes confrontados com a mesma gama de fenómenos — mas em geral não com os mesmos fenómenos particulares os descrevam e interpretem de maneiras diversas. É surpreendente (e talvez também único, dada a proporção em que ocorrem) que tais divergências iniciais possam em grande parte desaparecer nas áreas que chamamos ciência». Com o desenvolvimento da ciência da natureza, onde através de um indivíduo ou grupo, se produz uma síntese capaz de atrair os praticantes de ciência que os prosseguem, gradualmente, as escolas mais antigas começam a desaparecer. Aí, dá-se a conversão dos seus adeptos ao novo «paradigma». Aqueles que se mantiverem aferrados às concepções mais antigas, são meramente excluídos e os seus trabalhos ignorados, dado que, no dizer de Thomas Kuhn, o novo «paradigma» implica uma definição nova e mais rígida do campo de estudos.
Convém aqui realçar que ao desaparecimento das escolas antigas se deve o triunfo das escolas pré-paradigmáticas e que, ao competirem entre si, fazem emergir um novo «paradigma». Aqui, Kuhn diz-nos que o novo «paradigma» implica uma definição nova e mais rígida do campo de estudos, a ponto de aqueles que não desejarem vincular-se ao mesmo, vêem-se na contingência de procederem isoladamente ou unirem-se a um outro grupo. O mesmo filósofo da ciência vai mais longe, ao afirmar que «historicamente, tais pessoas têm frequentemente permanecido em departamentos de Filosofia, dos quais têm brotado tantas ciências especiais». E os «paradigmas» passam a estar na génese da transição de um conceito de grupo para o conceito de profissão ou disciplina. Dará para compreender? Talvez!

Monday, April 18, 2016

A Arte em Fernando Hilário com «Desenhos para Pessoa»!...

«A ideia teve o seu começo involuntário. O Poeta tem razão: “Todo o começo é involuntário”. Depois, desceu sobre a ideia alguma luz e descobriu-se-lhe alguma forma…»

Fernando Hilário

Quando anuímos ao convite do Professor Doutor Fernando Hilário, para estarmos no dia 9 de Abril do corrente ano, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, com o sentido de darmos o nosso modesto contributo emocional, perante esta maravilhosa matéria-prima que resultou neste não menos maravilhoso produto acabado «DESENHOS PARA PESSOA», teremos de confessar que tememos um pouco pela nossa “integridade intelectual”, já que aliada à circunstância de padronizarmos a arte pelo gosto (emergente da natureza dos seres humanos), sempre pensamos, por defeito de formação – os filósofos não são os únicos a desenvolver teorias de arte –, que o valor da arte está necessariamente ligado ao prazer estético ou à satisfação; estamos, também, perante uma das grandes referências da Literatura e da Arte, em Portugal. Sim, de uma forma sintetizada, Fernando Hilário licenciou-se em Letras e doutorou-se em Teoria da Literatura e Literatura Comparada; foi professor do ensino secundário e do ensino superior privado e público; trabalhou na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto e com a Faculdade de Letras da Universidade do Porto na área da formação pedagógica de professores; é membro investigador do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; co-fundador do Centro de línguas e literaturas da Universidade Fernando Pessoa, Ponte de Lima; tem obra publicada nas áreas do Modernismo português, das Artes plásticas e da Literatura angolana; actualmente, desenvolve trabalho de investigação na área da Poesia de expressão significante.


E poderíamos ficar por aqui. Mas não! Onde ficava a ideia do belo e do juízo estético, situado por Kant entre o logicamente necessário (teoremas matemáticos) e o puramente subjectivo (expressões de gosto pessoal)?...
Assim sendo, e tendo em conta que a subjectividade resulta da aparência de um juízo cognitivo, porque exprime um sentimento de aprovação pessoal, depressa nos atrevemos a saltar essa temerosa barreira do jogar à defesa, intelectualmente falando, por noção clara de que a beleza precisa de ser apreciada subjectivamente. Hans-Georg Gadamer (1900-2002), filósofo alemão considerado como um dos expoentes máximos da hermenêutica filosófica (interpretação de textos escritos, formas verbais e não verbais), uma das nossas redes neste “trapézio” da Arte, apesar de ter defendido que a abordagem à arte através da “experiência do gosto estético é relativamente externa e… algo redutora”, escreveu, também, a dado momento, que «Uma obra de arte… exige ser construída pelo espectador ao qual é apresentada. Não é… algo que possamos simplesmente usar para um fim particular, nem uma coisa material da qual possamos fabricar alguma outra coisa. Pelo contrário, é qualquer coisa que apenas se manifesta e se exige quando é reconstruída pelo espectador» – citamos. Ainda, segundo Gadamer, é por isso que o juízo estético e a produção artística andam de mão dada, sendo que a criatividade do artista precisa de público e, para o público (condição nossa, naquele momento e agora), a arte criativa oferece «a experiência que melhor cumpre o ideal de um deleite “livre” e desinteressado» – voltamos a citar Gadamer. Luís Filipe Castro Mendes, diplomata e poeta (ora nomeado Ministro da Cultura), que conhecemos nas Correntes d’Escritas deste ano, por exemplo, referiu-se a Fernando Pessoa como um dos grandes desafiadores da modernidade. Segundo Castro Mendes, o poeta é aquele que mais inspira do que é inspirado e o seu ganho está nos leitores, sinal acrescido dessa sensação de ganho, quando tem alguém que o leia. Aí, a perda é como uma irreversibilidade melancólica. 


Com «DESENHOS PARA PESSOA» de Fernando Hilário, estamos perante a expressão da emoção e a ideia de a Arte ser uma fonte de entendimento, quando o artesão sabe o que quer fazer antes de o fazer, passando aos outros – nomeadamente aos espectadores –, no dizer de Tolstoi, «intencionalmente e por meio de certos sinais externos, sentimentos que ele viveu e de os outros serem infectados por estes sentimentos e também os experimentarem»; e perante um livro com várias vertentes artísticas, que conjugadas no plural deixa de ser “simplesmente arte”, para ser, no dizer e na acção de Fernando Hilário, um «Baú da Arte-Toda», um legado ao Mundo de Fernando António Nogueira Pessoa, no plano literário, poético, estético e filosófico. No fundo, a actividade artística, inspiradamente experienciada por uma profunda emoção, usando a aptidão com palavras e desenhos, numa rigorosa expressão estética e emoção geradora, cujo sucesso desse esforço, acaba por resultar no estímulo da mesma emoção geradora e do rigor estético no seu público, circunstancialmente, os espectadores-receptores. Sentimos em «DESENHOS PARA PESSOA», o propositado propósito de omissão dos títulos, forma de libertação, até cronológica, com o fim do exercício de livre expressão estética. Só assim, no dizer de Tolstoi, é que os artistas comunicam a sua experiência emocional, não no sentido de profetizarem, mas de levar-nos ao modo distinto de entendimento da experiência humana!
«DESENHOS PARA PESSOA» é de facto um livro maravilhoso, e porque não dizer magnífico, porque agrega a forma significante e a expressão de emoção. Há uma perfeita relação entre os desenhos do Hilário para Pessoa, e os textos de Pessoa em Pessoa, conjugando-se harmoniosamente, também, as cores e a articulação do espaço.  
Ambos, os “Fernandos” – em Pessoa e em Hilário –, conseguiram captar a atenção do público, manifesta convicção nossa de que uma boa ou grande Obra de Arte – nesta circunstância apelativa de «DESENHOS PARA PESSOA» em Fernando Hilário –, estimula e dirige as percepções da audiência e não é apenas objecto passivo de apreciação. Daí dizermos que gostamos, e isso nos basta.

NOTA MÁXIMA!  

Friday, April 08, 2016

Jean-Paul Sartre e o existencialismo ateu em tempo de Páscoa!...

«Ce qui veut dire que je ne puis ni chercher en moi l’état authentique qui me poussera à agir, ni demander à une moral eles concepts qui me permettron d’agir…»

Jean-Paul Sartre

Na “longa estada” caseira, por altura da Páscoa e em tempo de algumas fragilidades cognitivas (motivadas por hircos exteriores à nossa consciência), resolvemos reler Charles Leslie Stevenson (1908-1979), quando, ao tempo de obrigações e compromissos académicos, nos propôs uma reflexão a propósito de sete teorias (rivais) sobre a Natureza Humana, e pelas quais perpassamos Platão (O Governo dos Sábios); Cristianismo (A Salvação Divina); Marx (A Revolução Comunista); Freud (A Psicanálise); eis que nos confrontamos com Sartre e «O Existencialismo Ateu». Stevenson, ao passar de Freud para Sartre, chama a nossa atenção para o facto de transpormos a temporalidade da Viena de fins do séc. XIX, para Paris da década de 30 e 40 do séc. XX. Ao lado psicológico da medicina em Freud, despontaria a filosofia expressa tanto em termos literários quanto académicos, em Sartre. No entanto, há algo em comum entre as duas visões, que se revela na preocupação com os problemas do indivíduo, e particularmente com a natureza da consciência. Estamos perante os chamados “existencialistas”, denominação dada a muitos escritores, filósofos e mesmo teólogos. Procurando discernir uma base comum para o existencialismo, Stevenson apresenta-nos três preocupações ou teorias fundamentais que nos ajudam a identificar esse mesmo conceito:
1 – O ser humano enquanto indivíduo, e não com as teorias gerais sobre homem. Acredita-se que tais teorias deixam de lado a coisa mais importante de cada indivíduo — o seu carácter único.
2 – Uma preocupação com o sentido ou o objectivo das vidas humanas, mais do que com verdades científicas ou metafísicas sobre o universo. Assim, a experiência interior ou subjectiva considerada mais importante do que a verdade “objectiva”.
3 – Uma ênfase na liberdade dos indivíduos como a sua propriedade humana distintiva mais importante. Os existencialistas acreditam na capacidade de todo o indivíduo de escolher as suas atitudes, objectivos, valores e formas de vida.
Apesar da base comum do existencialismo poder ser encontrada através da descrição de detalhes concretos de personagens e situações específicas, em romances e peças de teatro, o filósofo só pode ser considerado existencialista se tentar fazer afirmações gerais sobre a condição humana (mesmo se esta afirmação consiste em negar a possibilidade ou a importância de outras afirmações de carácter geral!) – citamos Stevenson.


Outro factor a destacar e que nos é revelado por Charles Leslie Stevenson é o de que, apesar das diversas formas de divisão das filosofias existencialistas, a mais radical assenta sob o ponto de vista religioso e ateu. E são citados Kierkegaard (considerado o primeiro existencialista moderno) que, tal como Marx, rejeitou o sistema teórico abstracto como sendo uma grande mansão onde não se vive na realidade, e sustentou a importância suprema do indivíduo e das suas escolhas, distinguindo as três principais formas de vida — estética, ética e religiosa; Nietzsche (considerado agressivamente ateu), sendo que o seu traço mais característico é a sua ênfase na nossa liberdade em mudar a base dos nossos valores, e a sua visão do “super-homem” do futuro, que rejeitará os actuais valores passivos, baseados da religião, por valores mais reais baseados numa humana “vontade de potência”.
No século XX, para além dos ateus, há também existencialistas cristãos. O existencialismo assume uma força importante na teologia, tanto protestante quanto católica, assim como na filosofia. O movimento filosófico localiza-se na Europa, nomeadamente na Alemanha e na França, tendo muito menos influência, por exemplo, sobre os países de língua inglesa. Apesar de podermos apontar as suas origens em Soren Kierkegaard (1813-1855) e em Nietzsche (1844-1900), teremos que ter em linha de conta a influência do método da “fenomenologia” do filósofo de língua alemã Edmund Gustav Husserl (1859-1938), método filosófico que tentou encontrar um ponto de partida não problemático através da descrição dos “fenómenos” tais como eles parecem ser, sem nenhum pressuposto de como eles sejam na verdade. Segundo Stevenson, por exemplo, Husserl provocou dessa forma uma viragem subjectiva, quase psicológica na filosofia, transformando-a no estudo da consciência humana. Outra das grandes referências é Martin Heidegger (1889-1976), o mais importante filósofo alemão, cuja preocupação central é a existência humana e a possibilidade de uma vida “autêntica” quando se encara a própria posição no mundo a inevitabilidade da própria morte – citamos.
Para Sartre o Universo, o mundo como um todo, é a própria negação da existência de Deus. Ele não argumenta a favor dessa conclusão negativa, embora defenda que a ideia de Deus é contraditória em si. Sartre ao considerar que a negação de Deus já fora amplamente demonstrada por pensadores anteriores a ele, a partir dali, na sua obra, preocupa-se em examinar as suas consequências. Assim como Nietzsche, Sartre sustenta que a ausência de Deus é de importância fundamental para todos nós; o ateu não difere do cristão simplesmente numa questão metafísica, mas tem uma visão profundamente diferente da existência humana. Se Deus não existe, então tudo é permitido (como afirmara Dostoiévski). Não há valores transcendentes ou objectivos determinados, nem tão pouco leis divinas ou ideias platónicas ou qualquer outra coisa. Não há um sentido ou propósito último inerente à vida humana; neste sentido a vida é “absurda”, Estamos “abandonados” no mundo e temos de cuidar de nós mesmos. Sartre insiste que o único fundamento para qualquer valor é a liberdade, e que não pode haver uma justificativa externa ou objectiva para os valores que alguém adopta como uma escolha própria.
Sartre nega que haja uma “natureza humana”, afirmação pela qual rejeita o existencialismo de cunho generalizado. Para ele, a existência do homem precede a sua essência, que o mesmo será dizer que não fomos criados com nenhum objectivo, nem por Deus nem pela evolução nem por qualquer outra coisa. A asserção central da condição humana é, naturalmente, a liberdade humana. Para Sartre a liberdade reside na consciência de que existimos e termos de decidir o que fazer de nós mesmos. Apesar disso não pretende negar a existência de certas propriedades universais inerentes à sobrevivência, como é exemplo, a necessidade de comer.
       E não é que, em tempo de Páscoa, esta releitura levou-nos a concluir, que, tal como em Jean-Paul Sartre, a má-fé como tentativa de fugir da angústia acaba por se nos revelar numa “fuga” ilusória, dado que a nossa própria liberdade é uma verdade necessária!

Tuesday, March 29, 2016

Das «Curiosidades do Vaticano» ao anunciado Prémio Literário Luís Miguel Rocha!...

«Luís Miguel Rocha prezava particularmente o contacto com os leitores e raramente recusava um convite para uma apresentação, uma palestra, uma sessão com o público. Respeitava cada opinião, cada comentário e fazia questão de responder a todas as perguntas sobre os seus livros e sobre o que se passava “para lá dos altos muros do Vaticano”…»

Nota do editor (Porto Editora)

Apesar da nossa aparente instabilidade cognitiva, de umas semanas a esta parte, sempre fomos acondicionando algumas energias para pudermos recordar o Luís Miguel Rocha, nas datas precisas do seu espaço temporal (1976-2015), porque sempre creditamos as nossas capacidades cognitivas de viajar no tempo, tornando-o intemporal.
O Luís Miguel (da Silva) Rocha, apesar de ter nascido na Maternidade Júlio Dinis, da cidade Invicta, em 14 de Fevereiro de 1976, veio para Mazarefes (Viana do Castelo) com apenas quinze dias de vida. Frequentou a escola primária local, sendo a sua professora a dona Maria Augusta Paulino, de quem guardava as mais gratas recordações. Depois passou dois anos lectivos na Frei Bartolomeu dos Mártires e três anos no Monte da Ola. Completou o secundário (Humanidades) no antigo Liceu de Viana, na altura, já denominado de Escola Secundária de Santa Maria Maior.
Aos 16 anos escreveu o primeiro capítulo daquele que viria a ser, anos mais tarde, o livro “Um País Encantado”. Aos 20 anos, Luís Miguel Rocha, estreou-se profissionalmente como operador de câmara numa produtora que assegurava a transmissão das missas dominicais na TVI, mas sempre garantiu que não foi esta experiência que lhe fez interessar tanto pelas conspirações religiosas que trata nos teus thrillers. Depois rumou a Londres onde exerceu funções como guionista, tradutor e, por fim, iniciou-se na actividade literária. Como a escrita foi sempre a sua paixão, decidiu recuperar 40 páginas que, como atrás referimos, havia produzido, depois de ter lido “Memorial do Convento”, de José Saramago, autor que tanto admirava e continua a admirar, agora que ambos estão na mesma dimensão extra-sensorial: A essência de um povo espremida com mãos de mestre, numa narração cruel, porém divertida, irónica, porém verdadeira, elegante, porém realista. Uma voz portuguesa que vai, com certeza, dar que falar. – escreveu Bernard Cornwell, um dos mais importantes escritores britânicos da actualidade, em 14 de Julho de 2005. Infelizmente, este seu romance passou praticamente despercebido.


Mas o seu sucesso internacional chegou, em 2006, com «O ÚLTIMO PAPA» que percorreu o mundo e o tornou no primeiro escritor português a ser bestseller do prestigiado Top do New York Times. Este thriller foca-se na estranha morte do Papa João Paulo I – o “Papa do Sorriso” –, morte envolta em mistério desde o primeiro minuto e o Vaticano nunca fez nada para clarear, sendo que o mesmo Papa, supostamente, terá sido assassinado porque iria substituir membros da Cúria Romana, que estavam envolvidos em negócios de lavagem de dinheiro, com a Loja Maçónica italiana P2 e outros órgãos internacionais, como a CIA. Partindo das evidências documentais sobre os estranhos acontecimentos que ocorreram na noite do falecimento do Papa, Luís Miguel Rocha, mescla ficção e realidade – como a lista de nomes que estava com João Paulo I antes de ele ser assassinado e que a personagem Sarah pretendeu desvendar o que havia por trás dela e qual a relação dessas pessoas com a morte do pontífice. Histórias paralelas se entrelaçam e trazem à luz muito do que ficou escondido nos porões do Vaticano.
Em 2007, seguiu-se o livro «BALA SANTA», onde se nos coloca várias interrogações: Que acontecimentos estiveram por detrás da tentativa de assassinato ao Papa na praça do Vaticano em 1981? Quem é, e o que sabia verdadeiramente o turco que disparou contra João Paulo II? Que forças ocultas gerem os destinos da igreja católica e conseguem nomear e destronar Papas, ocultando impunemente as suas acções? Em suma, o trama envolve uma jornalista internacional, um ex-militar português, um muçulmano que vê a Virgem Maria, um padre muito pouco ortodoxo que trabalha directamente sob as ordens do sumo-pontífice, vários agentes dos serviços secretos mais influentes do mundo e muitos outros personagens dos quatro cantos do globo, envolvem-se numa busca pela verdade e descobrem que ela nem sempre é útil. Pelo menos não o foi para João Paulo II. Em «BALA SANTA», as dúvidas sobre os factos se misturam com as respostas oferecidas pela sua imaginação (se é que se pode chamar imaginação). O resultado é uma trama hipnotizante, que faz pensar: será esta apenas uma obra de ficção?
E para quem achava que a polémica acabava por aqui, em 2011, é editado «A MENTIRA SAGRADA», numa edição da “Porto Editora”, sendo que através deste seu romance pretendeu perpassar a história de Jesus, numa perspectiva histórica e não religiosa, baseada num manuscrito antigo, de um particular que lhe facultou o acesso: Será que Jesus foi mesmo crucificado? Terá tudo acontecido como a Bíblia descreve? Na noite da sua eleição para o Trono de São Pedro, o Papa Bento XVI, como todos os seus antecessores, tem de ler um documento antigo que esconde o segredo mais bem guardado da História – a Mentira Sagrada. Em Londres, um Evangelho misterioso na posse de um milionário israelita contém informações sobre esse segredo. Se cair nas mãos erradas pode revelar ao mundo uma verdade chocante. Rafael, um agente do Vaticano, é enviado para investigar o Evangelho e descobre algo que pode abalar não só a sua fé mas também os pilares da Igreja Católica. Com estes livros (BALA SANTA e A MENTIRA SAGRADA), Luís Miguel Rocha liderou também as tabelas de vendas no Reino Unido. Pelo meio, em 2009, republicou o primeiro livro com o título que sempre idealizou, chamado «A VIRGEM», na editora Mill Books, projecto que optou por criar, em 2008, mas que por circunstâncias várias não vingou.
 Em 2013, surge com «A FILHA DO PAPA», sexto livro na sua carreira, quarto na linha dos anteriores, onde se revela um profundo conhecedor sobre os meandros do Vaticano, lugar-comum onde se expressou na saga do fantástico e empolgante (como fazia questão de salientar), do princípio ao fim. De facto, em “A FILHA DO PAPA”, ficamos a conhecer os meandros do Vaticano, os possíveis segredos que são escondidos e todos os jogos de interesses que são feitos, em prol da beneficiação de alguém importante. É aí que reside o fascínio da sua criatividade literária: Até onde termina a realidade e começa a ficção? Nunca chegaremos a saber!... O que nos parece é que das suas mãos e da sua mente as insignificâncias ganham o cunho da perfeição, sem que a perfeição venha a cair nas malhas da insignificância. Daí, os seus livros, o mistério prende-nos do princípio ao fim. Daí, o próximo livro – e por sua promessa – ter por título «A RESIGNAÇÃO» – ele estará por aí –, seguimos-lhe os passos mas perdemos-lhe o rasto, fechando-se assim um ciclo sobre os meandros políticos do Vaticano. Para já, ficamos com as «CURIOSIDADES DO VATICANO» e, por proposta do Município de Viana do Castelo, na pessoa do seu presidente, José Maria Costa, anunciado o «Prémio Literário Luís Miguel Rocha», que, por certo, contará com o apoio da Porto Editora.
         QUANTUM MUTATUS AB ILLO!

Thursday, March 10, 2016

Desencarnou o jornalista e enófilo José António Salvador!...

«O jornalista e especialista em vinhos José António Salvador morreu domingo, 31 de Janeiro, na sequência de problemas cardíacos. Salvador trabalhou em diversos jornais, na SIC e foi, até há poucos meses, colaborador da VISÃO. Durante vários meses chegou a estar internado, em Paris e em Lisboa, e estava actualmente à espera de um transplante de coração. Recentemente, voltou a ser internado com alguns problemas de saúde, identificados após uma consulta de rotina. Viria a falecer vítima de paragem cardíaca.…»

Visão, 1.02.2016 às 12h19

Há pessoas que passam pela nossa vida e que nos marcam profundamente, mormente quando falamos pela força do carácter, sentido ético e expressão viva de um acto permanente de humildade, só visível nos “maiores e mais bem formados intelectualmente”, e solidariedade para com os outros. Uma dessas pessoas era, precisamente, José António Salvador, jornalista apaixonado pela enofilia e a obra de Zeca Afonso. Foi «Zeca Afonso – Livra-te do Medo», sua última obra, que nos levaria a estabelecer a ponte da amizade, ao ponto de termos feito a sua apresentação em Viana do Castelo (acto referido, à data, em anterior crónica), e que mereceu da parte do José Salvador um imerecido autógrafo, pecadoramente elogioso: «Para o Porfírio Silva com um abraço de gratidão pelo modo como apresentou este livro… (ass.)». Foi para nós extremamente gratificante este encontro, em Abril de 2014. Comemorava-se os 50 Anos da «Grândola, vila morena» (1964-2014).
        

Sem mais rodeios, vamos ao que interessa: José António Salvador nasceu em Espinho em 1947, frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde integrou a Direcção Geral da Associação Académica de Coimbra durante a crise estudantil de 1969. Jornalista a partir deste ano iniciou a sua actividade profissional no «Comércio do Porto». Foi também colaborador do jornal «A Voz Portucalense, órgão da Diocese do Porto, fundado por D. António Ferreira Gomes, após o seu regresso do exílio em 1969.
Integrou sucessivamente as redacções dos jornais «Diário de Lisboa» (1976/75), «República» (1975), «Gazeta da Semana» (1976/77), «Nô Pintcha» (Guiné-Bissau – 1977/78), «Diário Popular» (1978/1988 com interregnos nos países lusófonos), «Voz di Povo» (Cabo Verde – 1984), agência de noticias ANOP (também na Guiné-Bissau, 1985/86) e «O Jornal» (1988/1992) antes de ingressar na SIC. Foi também colaborador da BBC (a partir da Guiné-Bissau para o serviço de África daquela estação britânica, enquanto dirigiu a ANOP em Bissau) e do semanário «Expresso», onde iniciou as suas crónicas semanais de vinho (1980). Actualmente publicava na revista «Visão» uma crónica semanal sobre vinhos desde 2001.
No «Diário Popular» dedicou-se sobretudo à temática cultural, tendo coordenado o suplemento literário daquele vespertino lisboeta. Neste período entrevistou José Saramago, João Hogan, Júlio Pomar, António Ramos Rosa, Luiza Neto Jorge, José Afonso, José Mário Branco e Fausto, entre outros.
Em 1992, foi fundador da SIC, onde durante dois anos programou a informação. Desenvolveu posteriormente a cobertura jornalística de temas culturais até 2002, período durante o qual entrevistou Paula Rego, Costa Pinheiro, Graça Morais, René Bértholo, João Vieira, Jorge Martins, Siza Vieira, Júlio Resende, João Cutileiro, João Botelho, Vitorino, Janita Salomé, Sérgio Godinho, Camané, Cruzeiro Seixas, Sá Nogueira, Eugénio de Andrade, Germano Almeida, Urbano Tavares Rodrigues, Alice Vieira, Cláudio Torres, José Manuel Rodrigues, Eduardo Gageiro, José Maria Soares Franco, João Portugal Ramos, António Agrellos e outros. Durante esta década, assinou também quatro grandes reportagens/documentários, em 1994, sobre o Verão quente («À lei da bomba – do 25 de Abril à rede bombista», esta reportagem em parceria com Celestino Amaral), sobre as FP 25 de Abril – à lei da bomba»), sobre a PIDE-DGS (PIDE-DGS, policia sem lei») e «11 de Março – a matança da Páscoa». Durante este período ainda sobressaem os seus roteiros etno-gastronómicos e de vinhos emitidos semanalmente na SIC desde 1994 a Novembro de 2002, realizou mais de duas centenas de roteiros semanais sobre gastronomia e vinhos emitidos às sextas-feiras, com a rubrica «Roteiros de fim-de-semana».
Em 2003 realizou uma série de 50 roteiros de Portugal para a RTP sobre vinhos, gastronomia e património nacionais, transmitidos nos quatro canais da televisão pública (RTP Internacional, RTP África, RTP N e RTP 2) entre 2003 e 2006.
Na literatura de vinhos e gastronomia publicou também 13 roteiros anuais dos vinhos portugueses (de 1991 a 2003 inclusive) sob o título «Roteiros dos vinhos portugueses», e quatro «Roteiros gastronómicos» (2002 a 2003).
A editora Terramar publicou em 1993 o «Roteiro de vinhos da Bairrada». O jornal Público editou e distribuiu «Os 100 melhores vinhos portugueses» de 1997 a 2000 e o Jornal de Noticias publicou em 2005 o seu livro «16 castas portuguesas». Além disso escreveu três álbuns sobre vinhos portugueses «O livro dos vinhos», (com fotografias de Luís Ramos) da editora Fragmentos, Lisboa, 1989; «Os grandes vinhos portugueses», editora Livros Cotovia, Lisboa, 1987 e «Os autores dos grandes vinhos portugueses», edições Afrontamentos, Porto 2003.
Publicou o livro «Livra-te do medo – Estórias & andanças do Zeca Afonso», edição Regra do Jogo, Lisboa, 1984; «Zeca Afonso – O rosto da utopia», edições Afrontamento, 4ª edição, Porto, 2006; «Cabo Verde – Viagem pela história das ilhas», com Germano Almeida (texto) e José A. Salvador (fotos), Editorial Caminho, Lisboa, 2004; «Portugal, vinhos, cultura e tradição, obra em seis volumes, edição Circulo de Leitores, Lisboa, 2006-7; «Douro, rio de patrimónios, edição CTT, Lisboa, 2012 e «Zeca Afonso – Livra-te do Medo» - 1964-2014 - 50 anos Grândola.    
O Clube de Imprensa distinguiu-o por duas vezes, em 1987 e 1991, com o 1º Prémio Viagem pelas reportagens «Tejo, por este rio a cima» e «Cabo Verde, o sonho das ilhas», publicadas respectivamente no «Expresso» e em «O Jornal».
A Academia Portuguesa de Gastronomia atribuiu-lhe o Prémio Cultural e Literatura Gastronómica 2004 pelo conjunto da sua obra na área dos vinhos e da gastronomia.
O José António Salvador desencarnou em 31 de Janeiro de 2016, realizando-se o seu funeral na terça-feira, 2 de Fevereiro, às 13 horas, saindo da Igreja de S. João de Deus, à Praça de Londres, em Lisboa (onde o seu féretro esteve em câmara-ardente), para o Cemitério dos Olivais.
Descansa em paz, bom Amigo José A. Salvador.
         ATÉ SEMPRE!

Sunday, February 28, 2016

106 ANOS DEPOIS: O drama dos cardeais permanece…

«O homem nunca poderá vir a ultrapassara sua “verdadeira essência”. Bem pode imaginar, por meio da fantasia, indivíduos de uma outra espécie supostamente superior, mas nunca poderá abstrair do seu género, da sua essência…»

Ludwig Feuerbach

Tal como escrevemos há oito anos, por altura no 98.º Aniversário do jornal CARDEAL SARAIVA, e por acharmos que as anacrónicas circunstâncias em nada mudaram ao longo deste oito anos – com passagem pelo centenário em 2010 –, voltaremos a repetirmo-nos pela afirmação de que, inevitavelmente, o homem é o responsável pelas transformações físicas dos espaços onde gravita; onde mastiga e dejecta – “defeca”, para os mais desprevenidos, morfologicamente –; onde se relaciona ou hostiliza, cuspindo, circunstancialmente, no prato que outrora tenha comido; onde se masturba ao sabor das preeminentes necessidades; onde faz amigos e os mastiga como pastilhas elásticas (saborosas, enquanto detentoras da goma “melificada”); onde avança e recua, em moldadas projecções do homem pelo homem; onde, ilusoriamente, pensa eternizar-se em “poderes” efémeros, cintados por espartilhos revestidos a chita (ordinário tecido, apenas aureolado pelas cores); onde se banqueteia, chafurdando no seu próprio lameiro. Contudo, homens há que, por se não deixarem ludibriar, são grandes no seu tempo e, intelectualmente, eternos na sua essência. Os seus nomes permanecem no tempo – e para lá do tempo –, pelos seus pensamentos, verticalidade de carácter e, sobretudo, subtileza, essa sublime finura que só se consegue através de muita humildade e respeito pelos outros. Será o eterno confronto entre o heroísmo de uns e a cobardia de outros; entre a vassalagem viscosa de muitos e a fidelidade transparente de uns poucos.
     

Vem isto a propósito – neste dia de aniversário (seis depois do centenário) –, da necessidade de nos “colarmos” à figura de D. Francisco Saraiva [N. Ponte de Lima, 1766 – m. Lisboa, 1845], insigne limiano tão ostracizado pelo poder local e não só, um dos pais da Constituição Liberal de 1820, reitor da Universidade de Coimbra (1821), guarda-mor da Torre do Tombo, conselheiro de Estado, presidente das cortes, ministro e secretário de Estado, Cardeal-patriarca de Lisboa, para acendermos as cento e seis velas do jornal CARDEAL SARAIVA. Esta figura ímpar da cultura limiana é o patrono do centenário órgão de informação regional, cujo passado se reveste de um ideal de luta pelos mais amplos direitos e liberdades das gentes do Alto Minho. Só por isso – e mesmo que haja gente que tem medo da sua própria sombra, que tema quem pensa pela sua própria cabeça e/ou se dê ao trabalho de ouvir as vozes dos amordaçados –, vale a pena desempoeirar as arrelias de circunstância e pensar que o homem é circunstância da sua própria existência. Só se eternizarão aqueles que cultivarem a verticalidade de carácter, de que são exemplo, entre outros, os nossos Cardeal Saraiva, António Feijó, Norton de Matos, Júlio de Lemos, Teófilo Carneiro, António Ferreira, Domingos Tarrozo, Conde d’Aurora, Aníbal Marinho, Augusto Castro Sousa, entre outros, o que seria fastidioso aqui enumerar.
      Neste dia de aniversário, aqui vai um abraço do tamanho do mundo a todos aqueles que continuam a ler, a laborar e/ou a elaborar o jornal CARDEAL SARAIVA. Mesmo com todos os obstáculos ou contratempos, vale a pena acreditar nas causas da liberdade, da democracia, da verdadeira essência humana. Ainda que permaneça o drama dos cardeais!...

Wednesday, February 10, 2016

Professor Doutor Manuel Curado (Universidade do Minho) apresentou «Baliza Trágica de um Naufrágio»

APRESENTAÇÃO DA OBRA
BALIZA TRÁGICA DE UM NAUFRÁGIO, DE MIRANDA REBÔLO
(Braga, Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, 30 de Janeiro de 2016, 15h30)

Ex.ma senhora Directora da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva
Dr.ª Aida Alves
Ex.mo autor Miranda Rebôlo
Querido amigo Porfírio Pereira da Silva

Estimadas amigas e estimados amigos

Acordamos todas as manhãs e, abrindo a janela, procuramos os sinais do dia que nos espera. Indirectamente, temos necessidade de saber o que está guardado para nós. Hoje é o dia 30 de Janeiro, e os poderes que regem este mundo, entenderam por bem dar-me a grata tarefa de dizer umas palavras sobre um livro. Esses poderes ainda não me juntaram a outras milhões de coisas que poderiam acontecer, ainda não me juntaram, por exemplo, a um convite para ser recebido por Sua Santidade, o Papa Francisco, nem para dar um salto à distante América para cumprimentar o já histórico Presidente cessante. Tantas coisas poderiam acontecer. O bom destino que vela por nós, nos seus desígnios insondáveis, entendeu que é o que deve ser que nos encontremos para falar sobre um assunto muito estranho, um livro.


De facto, é estranho porque, quando falamos de livros, nunca falamos de assuntos importantes sobre esses livros. Ainda na última quinta-feira, fui entrevistado para uma revista local a propósito do encerramento de uma loja alfarrabista de Braga. A amável jornalista, que recolheu o meu testemunho de cliente habitual da casa, quis saber o que me atrai ao mercado do livro velho. O que lhe disse então é também o que me atrai à maternidade dos livros novos, como as cerimónias de lançamento, ou as editoras, ou as vésperas dos livros, quando eles ainda não existem e só estão a começar a nascer devido a uma conversa ou devido a uma ideia que surgiu de repente. Tantos pilares tem a casa de um livro! O pilar da arte do tipógrafo, o pilar da perícia do encadernador, o pilar do papel que se irá encontrar com os nossos dedos, o pilar do cheiro do livro novo e do perfume hipnótico do livro velho… A encimar todos estes pilares está um céu sempre difícil de abarcar, o céu do significado, o céu estranho que não se confunde com as próprias palavras em que o livro está escrito, o céu dos sentidos de que nunca somos donos verdadeiros, o céu Daquilo Que O Escritor Nos Quis Dizer.


30 de Janeiro é, pois, o palco para celebrarmos o nascimento de um bebé de cultura que irá certamente ter uma vida mais longa do que qualquer um de nós, e até uma vida mais longa do que a soma de todas as nossas idades nesta altura da vida, e mais longa do que a soma, impossível de fazer neste momento, de todos os anos que teremos para viver. Os livros são uma das formas conhecidas de imortalidade possível que parece estar ao nosso alcance. Nós não atravessaremos os séculos, mas o livro enigmático de Miranda Rebôlo, sim, poderá ou não atravessar os séculos; se o conseguir, dará a alguém do futuro uma imagem de como é viver em Portugal no início do século XXI.
O dia 30 de Janeiro já viu nascer muitas coisas grandes e pequenas, boas, más e terríveis para além da imaginação: a morte de Damião de Góis, o grande humanista português; a assinatura do Tratado de Paz de Vestefália, na cidade de Münster; o assassinato de Mahatma Gandhi por um extremista hindu; o último concerto dos Beatles antes de se separarem; o nascimento de duas escritoras portuguesas, Teolinda Gersão e Maria Filomena Mónica, e do grande actor norte-americano Gene Hackman.


É, pois, neste palco do tempo e nesta cidade mais velha do que o país que todos constituímos, para mim uma alegria muito grande ter a honra de dizer umas palavras públicas sobre um livro que antes de o lermos já nos está a ler a nós.
Já tinha tido anteriormente oportunidade de fazer a apresentação de um outro livro de Porfírio Pereira da Silva, com o título Agramonte, num sábado maravilhoso e cheio de sol na bonita Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, em Abril de 2012. Pouco mais de um ano depois, no Verão de 2013, fiz o elogio público da obra cultural vasta do Porfírio, assinalando os seus trinta anos de actividade literária.


Tenho, como se vê, alguma informação sobre as inclinações do nosso escritor. Não posso dizer que conheça o seu coração generoso, tão vasto ele é. Em Agosto de 2013 poderia ter tido, a quem quer que mo perguntasse, que não me surpreenderia o próximo romance do Porfírio Pereira da Silva. Como tontos simplórios, julgamos sempre esgotar um assunto a partir de uma amostra desse assunto. Não poderia estar mais errado se dissesse essas palavras nesse dia de Verão. Assim como o romance Agramonte me surpreendeu em relação aos anteriores livros, assim também o presente Baliza Trágica de um Naufrágio me causa surpresa em relação aos mais de dez livros do Porfírio e aos mais de setecentos artigos que saíram da sua pena. Eu não estava à espera deste objecto literário. Confesso a todos, em público, que ainda me sinto um pouco abalado com a sua leitura.


De que é que se trata neste romance? Não terei eu esgotado tudo o que há a dizer quando deixei cair a palavra auto-explicativa de ‘romance’? Ouvindo isto, qualquer pessoa pensará imediatamente numa narrativa imaginada sem ligação com a grande realidade das coisas, tendo apenas um fio fino a prendê-la à parte pequena do mundo, os nossos desejos. Vendo de imediato as epígrafes de toda a obra, encontramos os nomes pouco literários, que empobrecendo a nossa imaginação também empobreceram um bocadinho as nossas vidas, de Martin Schulz, do Parlamento Europeu, do Presidente Aníbal Cavaco Silva, de Carlos Costa, Governador do Banco de Portugal, do ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, e de figuras internacionais como o ex-ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, e do presidente americano Barack Obama. Esta primeira página é o modelo de todas as outras trezentas e cinquenta que se seguem. O romance é um imenso livro de recortes de notícias de jornal, de programas televisivos, de colóquios culturais que aconteceram recentemente e de apontamentos de aulas universitárias. Figuras públicas, instituições, empresas, apresentadores de programas de televisão, autores internacionais, particulares com quem se cruzou o autor, tudo isto povoa as páginas desta Baliza Trágica.


Este estranho livro de recortes procura fixar uma realidade muito rápida de eventos e de notícias em avalanche constante. Temendo perder a sua identidade nessa avalanche, Gaspar, o alter ego de Miranda Rebôlo que é o alter ego de Porfírio Pereira da Silva, tenta o gesto impossível de tentar agarrar o que acontece nos dias que tem de viver.
Não sentimos a urgência de nós próprios fazermos o nosso livro de recortes ou algum equivalente seu, como a velha arte do diário íntimo e da análise de consciência ao final de cada dia, com tradição multissecular com provável origem pitagórica e, mais tarde, estóica, porque tudo na nossa vida gira em torno de uma ficção simpática, a ficção de que somos uma pessoa autónoma que vive no palco do mundo. Nós estamos aqui, o mundo está ali. Para chegarmos ao coração deste romance temos de imaginar o que seria se andássemos, desde que acordamos até que nos deitamos, com um gravador ou uma câmara fotográfica a fazer registos constantes do que nos chega aos ouvidos e aos olhos. Se tivéssemos esse registo para compensar a fragilidade da nossa atenção e da nossa memória, veríamos que muitos textos entram no fluxo da nossa consciência. É difícil imaginar que temos algo mais íntimo do que aquela voz que nos acompanha o dia todo, e que na falta de melhor rótulo designamos como a Voz da Consciência, ou o nosso eu. Este romance minhoto dá-nos um raio X complicado para a nossa auto-estima. Esse raio X é o de que talvez já não tenhamos nenhuma voz pessoal a falar na nossa consciência. Quem fala, então? Quem fala são os discursos públicos. Aliás, poderíamos fazer um teste. Neste sábado, que tipo de palavras secretas nos foi acompanhando ao longo do dia? A ideia de Miranda Rebôlo é a de que as manchetes de jornais que vimos nos quiosques, as notícias de televisão e a pequena infinidade de outras fontes discursivas vão construindo uma narrativa compósita. O conceito parece ser este: cada um vive numa realidade construída em grande medida por discursos públicos. A matéria-prima da vida humana parece ser derivada da palavra.


Miranda Rebôlo sabe perfeitamente que a facilidade com que a palavra constrói realidades paga-se a um preço muito elevado. Pode acontecer que, ao lado dos discursos intocáveis que formam o carácter, derivados da grande literatura, dos gestos e cuidados das pessoas que se preocupam connosco, e das grandes narrativas religiosas, estejam discursos arregimentados ao serviço de tiranos, tiranetes e tiraninhos, de grandes e de pequenos interesses particulares. Miranda Rebôlo sofre por não ser capaz de separar uns dos outros, e, por isso, cola os discursos no seu livro de recortes. Eis um exemplo das muitas dezenas com que este livro é construído:
«Enquanto lanchava a sua habitual sanduíche de fiambre … acompanhada pelo não menos habitual sumo de manga, passava na televisão … o ecléctico Vice-presidente da Câmara do Porto que tivera a coragem de assumir o degelo das consciências: O Urbanismo é na maioria das câmaras, a forma encapotada e sub-reptícia de transferir bens públicos para a mão de privados. A palavra para isto é ‘roubo’. É a subversão da democracia


Centenas de discursos como este vão-nos entrando pelos ouvidos ao longo do dia, ao longo da vida. Já ninguém se lembra do que ouviu ontem ou na semana passada, tal o ritmo com que somos bombardeados a toda a hora. Miranda Rebôlo não se conforma com o olvido; teme perder o sentido do real e a sua identidade. Corre, pois, a fixar no seu vasto álbum de recortes o discurso que, tendo entrado no abraço da sua atenção, por momentos foi parte de si. Esta é uma homenagem que o escritor faz às palavras públicas que, como células do corpo, são a células da nossa alma.


Como é evidente, teríamos que perguntar se esse livro de recortes de palavras que chegam aos nossos ouvidos nos dá a verdadeira realidade. Miranda Rebôlo não é atormentado por esta pergunta irritante. Afinal, se os livros de recortes da nossa vida podem ser tão diversificados quanto os discursos que povoam as horas e os minutos que temos para viver, poder-se-ia perguntar se os livros de recortes de cada um de nós são os livros certos, ou se, para grande desgraça nossa, passa-se algo de fundamentalmente errado com os nossos recortes. Miranda Rebôlo diria que isso é uma preocupação inútil, a procura de uma realidade em que nunca teremos os pés. É nesta realidade que vivemos, com estas ruas, com estas paredes, com estas pessoas, com estes protagonistas da cena pública. O combate que devemos travar não é o de ingenuamente procurarmos o livro de recortes que tenha os recortes certos para uma vida feliz; o combate principal para este autor é o que se trava contra o ácido que tudo corrói do esquecimento.


Este romance ocupa-se de um dos traços mais notáveis da cultura portuguesa desde o século XIX, o século do Mapa Cor-de-Rosa e do Ultimato Inglês. Esse traço é a obsessiva reflexão sobre a vida portuguesa, algo que poderíamos descrever como o ensimesmamento narcísico da vida do nosso país. Relembrando os dois mitos que, segundo António José Saraiva, estruturam a cultura portuguesa, o Mito da Cruzada e o Mito da Decadência, durante os muitos e dolorosos anos recentes em que vivemos sob este Mito da Decadência parece que só interessa aos Portugueses o seu próprio espelho. Diz o narrador a certa altura, «os três amigos sentiam-se indignados pelo estado desmoralizante em que tinha caído este país de brandos costumes, cujos governantes e uma grande parte dos políticos procuravam atenuar imagens e incapacidades, com a crise mundial».


Quem são os nossos cicerones por esta viagem à realidade portuguesa? Temos Gaspar da Rocha Malheiro, formado em leis; Edmundo Azevedo da Silva, já nosso conhecido dos romances Ermida e Agramonte, figura com inclinações filosóficas; a companheira de Gaspar, de nome Maria Pereira; a companheira de Edmundo, de nome Anne Ellington. A apimentar com pulsão de vida existências esmagadas por recortes que não conduzem à felicidade de ninguém, surge «a esbelta, trintona, pele cor de chocolate com leite, de lábios carnudos e pernas roliças», de nome Ana Paula. Só a energia do amor parece conseguir atenuar a falta de rumo que os protagonistas deste romance parecem sofrer. Gaspar, em especial, não sendo um símbolo do Portugal dos nossos dias, porque luta pela memória e pela compreensão do sentido último dos eventos, sofre da falta de criatividade que, por contágio, vem de fora. Tem uma «insatisfação pela frustração de nada o motivar ou inspirar à criatividade literária». É curiosa a maleita, e é ainda mais curiosa a panaceia que sempre escapa. A matriz deriva do Portugal oitocentista em que, à falta de novas descobertas nas Índias e Brasis, o português aspirava a uma redenção literária. Uma frase como «insatisfação pela frustração de nada o motivar ou inspirar à criatividade empresarial, ou técnica, ou militar, ou agrícola» nunca poderia ser escrita e apreciada no tempo de Camilo, ou de Eça de Queirós. Miranda Rebôlo, em linha com a cultura portuguesa da Geração de 70, muito literária e culturalmente bem formada, aspira a uma salvação literária e culturalista. Também neste sentido, o romance Baliza Trágica de um Naufrágio é um símbolo da nossa época. Se se reparar nos rios de dinheiro e nos discursos públicos sobre a alegada importância da Educação, verificaremos imediatamente que continuamos sintonizados com as velhas ideias do Portugal oitocentista. Já colocámos tanto dinheiro e energia no assunto, e o diabo da salvação pela Educação, pela Literatura ou pela Cultura nunca mais chega.


A contrabalançar esta ideia de uma salvação pela cultura, atravessa este enorme romance uma estima intensa por lugares de convergência de centenas de pessoas, instituições e empresas. O trabalho talvez não tenha sido muito amado nas letras portuguesas, com a eventual excepção do Neo-realismo. A Baliza Trágica de um Naufrágio conta a história dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Onde está esta empresa que tanto deu ao país, poderia estar qualquer outra, já que ela é símbolo do Portugal industrioso que sempre viu no trabalho a salvação possível. Andamos pelas ruas das nossas cidades sem conhecer os rostos e as mãos que lhe deram origem. Caminhamos pelos parques sem saber o nome das árvores e das plantas. Este alheamento em relação ao que está à nossa volta faz com que vivamos dentro de um escafandro, de uma redoma de imagens. É um sinal claro de como estamos distantes das coisas, e vivemos vidas mentais, cerebrais, talvez um bocadinho inautênticas. Miranda Rebôlo olha para a vida de modo diferente. Com orgulho na obra dos Estaleiros, compraz-se a dissecar a sua história esforçada de lutas constantes contra o sentimento de que não valia a pena construir uma empresa de construção naval nessa parte do país. Estaleiros e fábricas são lugares de convergência em que acontece a vida humana. Ligamos a televisão e boa parte dos canais passa histórias de culturas que não nos dizem nada. Os sítios onde de facto nós vivemos passam invisíveis durante décadas. Temos poucas monografias com estudos de casos sobre empresas portuguesas. A sua presença na literatura é então verdadeiramente marginal. O debate célebre que opôs José Régio e o então jovem Álvaro Cunhal sobre o umbilicalismo da literatura portuguesa parece que ainda não desapareceu. A uma literatura sobre estados de alma, contrapõe Miranda Rebôlo uma literatura de palavras que se inspira na literatura de martelos, maçaricos e suor dos estaleiros navais. Só podemos desejar que este exemplo frutifique.


Há referências preciosas que vão aparecendo nas páginas da Baliza Trágica de um Naufrágio. Como é evidente a escolha que irei fazer diz mais sobre mim do que sobre o romance. Quero sublinhar o modo como a percepção cultural tem um cânone secreto que elege os autores da nossa literatura que devem ser consagrados e que em gesto simétrico condena ao esquecimento injusto muitos autores. O livro de Miranda Rebôlo está cheio de sugestões para enriquecermos o nosso cânone literário. Sabe-se que na época de um Camilo ou de um Eça muitos outros grandes escritores ficaram injustamente na sombra. João da Rocha é aqui um símbolo desses vultos da sensibilidade portuguesa que ainda estão à espera de serem conhecidos e amados. Quando Miranda Rebôlo nos propõe a releitura de um génio das trevas injustamente esquecido e não reeditado como esse autor de Diário de um Médium ou dos contos espantosos reunidos no volume com o título Angústias, só poderemos agradecer a feliz lembrança. E porque não agradecer também o convite para a releitura da escritora injustamente esquecida Maria Amália Vaz de Carvalho?


Noutros países há um debate intelectual muito grande sobre o cânone. No Brasil, Flávio Kothe tem feito esse trabalho para a literatura brasileira que, em muitos séculos foi também literatura portuguesa (de um Gregório de Matos, por exemplo, a um Padre António Vieira). Em Portugal, a questão parece que só se coloca a propósito dos autores que deverão constar dos manuais do ensino secundário. O assunto parece que se limita às famílias com filhos em idade escolar. Não parece ser assunto importante do debate intelectual português, e, de um modo, todos aceitamos um cânone que foi proposto por alguém a determinada altura. Essas escolhas, que não são as nossas, têm vantagens e defeitos: com as primeiras, temos luz; com os segundos, muitas sombras.


Há pouco dizia que os livros atravessam séculos e que um leitor futuro da Baliza Trágica um Naufrágio terá aqui um resumo da alma portuguesa da primeira década do século XXI. O Professor José Gil já tentou captar essa alma no ensaio arguto Portugal Hoje: O Medo de Existir. Outros grandes ensaístas, como Eduardo Lourenço, também o tentaram fazer. Miranda Rebôlo oferece-nos um retrato da alma portuguesa dos nossos dias. Parece ser uma alma a quem se roubou a esperança. Os sentimentos do protagonista são o símbolo dessa alma desesperançada. Persegue-o a vontade de fazer algo que fique, de autorar um romance decisivo. Sabe muito, viveu muito, prestou atenção às entrelinhas da história. Contudo, atormenta Gaspar um mal de vontade, um mal de querer, uma má disposição.
Gaspar é símbolo da perplexidade dos Portugueses que assistem impotentes a escândalos com figuras públicas, ao colapso de grandes bancos que sempre foram ícones de respeitabilidade, à intervenção estrangeira nas finanças públicas nacionais e a uma lista longa de situações que envergonhariam o Portugal da Conquista de Ceuta, da descoberta do Brasil, do Caminho Marítimo para a Índia ou da ideia que nos acalenta o coração de um Portugal espiritual do Quinto Império. Estamos a anos-luz dessa grandeza, de tal forma que já não a reconhecemos como nossa. O próprio título do romance, que deriva de um texto do publicista e historiador Carlos Malheiro Dias, antepassado de Gaspar, em que se descreve a sucessão de eventos tenebrosos que culminaram com o regicídio de el-rei D. Carlos: «O regicídio é a baliza trágica de um naufrágio». É esta a ideia que atravessa o romance em que a metáfora náutica dá rosto à realidade portuguesa. Diz Miranda Rebôlo a certa altura que «Gaspar da Rocha Malheiro e sua companheira Maria Pereira assistiam ao fim político de Portugal, desmoronamento do conceito de independência e autonomia levaria à baliza trágica de um naufrágio».


Há sinais de esperança para o futuro dos Portugueses neste romance? O tal leitor, que encontrará este debate de Gaspar e de Edmundo num dia qualquer dos séculos que hão-de vir, como olhará para a nossa esperança? As três palavras maiores do título resumem tudo: Baliza, Tragédia e Naufrágio. É assim que Miranda Rebôlo vê a realidade portuguesa. Poderíamos perguntar se estamos a ler correctamente o seu pensamento. Contra essas três palavras, há evidentemente razões para ter esperança. O que é que este romance nos mostra? Mostra-nos que ainda há pessoas que não adormecem ao som dos cantos financeiros das novas Sereias, que há um húmus riquíssimo na cultura portuguesa profunda; que há autores que merecem ser redescobertos; que há liberdade para criticar as figuras públicas… Estes são sinais indubitavelmente positivos. Miranda Rebôlo, contudo, confronta-nos com a falta de Esperança, com maiúscula. O Portugal minhoto que ele representa, que vê à distância os dislates dos governantes que têm ocupado o Terreiro do Paço, S. Bento e o Palácio de Belém, não nos dá energia para alimentarmos a fome de Esperança. Reparemos na vida de presépio, vida não de Teatro Nacional ou de Ópera, mas vida de teatrinho de fantoches para crianças, vida pequenininha, de Gaspar. O país em que vive não o satisfaz, e a única centelha de paixão que o anima é embaraçosa. Frequentando um café, cruza-se com a empregada de balcão desse café, a Ana Paula. Um destes dias, ao fazer zapping nos canais da televisão por cabo, reparei em como o humor está cada vez mais deselegante. Já não há sedução, corte ou enamoramento nas séries de televisão. É quase tudo de uma obscenidade mentecapta: sexo e violência sem fim, como se fôssemos todos atrasados mentais que só precisam de uma dose de estímulos animalescos porque já não têm sofisticação para assistir ao cinema de um Fellini, ou de um Ingmar Bergamn. Já não aguentamos hoje assistir a alegorias da condição humana, como O Sétimo Selo, ou a arqueologias das almas de cada um, como em Persona. Neste mundo em que já não há sublimação romanesca, mas só obscenidade primária, Gaspar nem perde tempo a fazer a corte à sua mulher legítima, nem sequer a uma amante. Símbolo da falta de alma da nossa época, é a própria empregada de balcão do café que, sem corte nem elegância amorosa, propõe a Gaspar sexo imediato, não se detendo sequer perante o matrimónio de Gaspar, prometendo que é só coisa de uma noite e não mais do que uma noite. Não há romance. Não há sublimação do Amor. Não há Esperança. Aqui e ali, com algumas alusões à elevação metafísica propiciada pelo amor tântrico, aponta-se para algo mais. O Leitor fica desesperado com tudo isto. Quer e precisa de algo mais, mas o que Miranda Rebôlo lhe oferece é amorzinho adúltero, impulso primário que até parece ficar satisfeito com a morte por acidente de Maria Pereira, esposa de Gaspar, o que evita que ele tenha de dar justificações de como só uma noite se multiplicou por muitos dias.


Estes símbolos da nossa época de luxúria rápida, não sublimada, não espiritualizada, são certamente embaraçosos para todos nós. Há verdade nisto, uma verdade cruel. Precisamos de escritores e de ensaístas para nos explicarem o Funeral do Amor em Portugal. Já não falo do modo como o Estado quer pôr o bedelho naquilo que é a esfera de acção das famílias, com a questão polémica da Educação Sexual nas Escolas. Penso, em particular, nas notícias recentes do site de encontros adúlteros Ashley Madison. Um jornalista teve acesso aos números de participação de homens e de mulheres casadas neste site de encontros de adultério. São números astronómicos apropriados a um epitáfio do Amor Romanesco em Portugal. Um amigo meu, chocado com os números de esposos portugueses que se atraiçoam mutuamente, inventou uma personagem e inscreveu-se no site Ashley Madison. Em menos de meia hora recebeu propostas de encontros sexuais de senhoras casadas. A grande Hannah Arendt falava da banalidade do Mal; em contexto completamente diferente, podemos hoje falar da banalização do Amor e do funeral do romance em Portugal.
Estaremos a ver bem as coisas? Responder a esta pergunta é uma das nossas justificações para ler livros. Procuramos nas suas páginas mais informação e mais esperança. O retrato da vida portuguesa que Miranda Rebôlo nos dá em Baliza Trágica de um Naufrágio não é agradável, certamente. Mas não agradável para quem? Talvez para mim, rato de biblioteca em que uma vida sem livros e grande literatura é impensável. Mas nem Miranda Rebôlo nem eu representamos esta época. Somos os dois um bocadinho patéticos, porque muito anacrónicos. Eu, como professor universitário, surpreendo-me por os meus alunos não lerem Proust, ou Camões ou D. Francisco Manuel de Melo, e fico chocado ao reparar nos cemitérios onde estamos a colocar o Amor Sublimado, a Esperança e a Vida Portuguesa. Pode acontecer que tudo isto seja velhice precoce. Diz-se que uma senhora da realeza portuguesa de há séculos atrás causou escândalo quando, ao descer de uma carruagem, mostrou o tornozelo. Hoje está tudo mostrado, e já sinto saudade da época em que os tornozelos enchiam a imaginação.


Para terminar, queridos Amigos, deixem-me resumir o meu pensamento sobre este romance anómalo das letras portuguesas contemporâneas. É uma Cavalo de Tróia literário: disfarçado de romance, é, de facto, uma meditação sobre a vida portuguesa desta época. A concepção filosófica do mundo que está nas suas páginas é um espelho cruel mas verdadeiro de uma certa forma de viver, sem Quinto Império e com a mão estendida à Alemanha e à Troika. Atravessa-o uma suspeita conspiratória de que a realidade política tem agentes nas trevas que orientam os destinos colectivos segundo interesses de difícil identificação. Esta visão conspiratória do mundo diz muito sobre os Portugueses de hoje, e diz, sobretudo, que não sentem que sejam os donos das suas vidas.
Este não é um resultado menor. Todos os livros que nos ensinam a ver a realidade são preciosos. Com tudo isto, em consciência só posso fazer duas coisas. A primeira é agradecer a Miranda Rebôlo ter-nos dado este tesouro literário e esta reflexão, diria ao modo oitocentista de um Antero de Quental, sobre a realidade portuguesa. Deu-nos muito. Obriga-nos a pensar em muito. Abro, pois, o meu coração e, na presença de todos, agradeço ao Porfírio Pereira da Silva aquilo que o seu alter ego Miranda Rebôlo nos ensinou a ver.
Peço, pois, ao público uma salva de palmas para o Miranda e para o Porfírio, que tanto nos deram.
Tenho dito!

Professor Doutor Manuel Curado

(ILCH-Universidade do Minho)