Numa
manhã cinzenta de Bruxelas, onde as instituições europeias parecem viver
permanentemente entre a solenidade e a ansiedade histórica, o secretário-geral
da NATO, Mark Rutte, ousou dizer o que muitos pensam, mas poucos verbalizam:
que a Europa pode continuar a sonhar com a independência estratégica em matéria
de segurança, mas que, na realidade, esse sonho permanece distante. As palavras
foram proferidas no Parlamento Europeu e, como tantas vezes acontece na
política internacional, não demoraram a provocar uma tempestade de
interpretações.
Para
alguns eurodeputados, a frase soou quase como uma reprimenda paternalista, como
se a velha dependência europeia em relação aos Estados Unidos fosse não apenas
inevitável, mas também desejável. Para outros, tratou-se apenas de um
reconhecimento pragmático de uma verdade inconveniente: a Europa continua a
viver sob o guarda-chuva estratégico de Washington. A polémica reacendeu um
debate antigo – o da chamada autonomia estratégica europeia – num momento em
que o mundo parece regressar, perigosamente, a uma lógica de blocos e de
confrontação.
O pano
de fundo era, por si só, suficientemente explosivo. O presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, tinha desencadeado uma crise diplomática insólita ao
pressionar a Dinamarca para ceder a ilha da Gronelândia – território autónomo,
mas sob soberania dinamarquesa – numa tentativa que muitos classificaram como
um gesto de geopolítica do século XIX. O episódio colocou a histórica aliança
atlântica, criada em 1949, numa das suas mais delicadas encruzilhadas.
Durante
alguns dias, pareceu que o impensável poderia acontecer: uma fratura aberta
dentro da própria NATO. No entanto, como frequentemente sucede na diplomacia, a
crise acabou por ser absorvida por um compromisso técnico – um acordo de
segurança no Ártico, mediado pelo próprio Mark Rutte. Foi uma solução elegante,
ainda que disfarçasse a realidade: na sua intervenção perante os eurodeputados,
o secretário-geral não hesitou em reafirmar o papel central dos Estados Unidos
na defesa da Europa.
Mas se
a política internacional fosse um romance, dificilmente encontraria personagem
mais imprevisível do que Donald Trump. No dia seguinte ao debate europeu, o
presidente americano anunciou, abruptamente, que uma “Armada” estava a caminho
do Irão. A retórica era familiar: “o tempo está a acabar”, dizia, pressionando
Teerão a negociar um acordo definitivo sobre a posse de armas nucleares.
A declaração vinha na sequência de um episódio ainda mais grave: os bombardeamentos realizados em junho de 2025 contra instalações nucleares iranianas. Para Trump, sempre atento à dramaturgia política e ao simbolismo das grandes decisões, tratava-se de mais um passo naquilo que descrevia como uma estratégia pela paz – uma paz que, curiosamente, parecia exigir demonstrações permanentes de força militar.
Nos
bastidores, porém, a realidade era menos teatral e mais inquietante. As forças
armadas americanas reforçavam a sua presença no Golfo, enviando um grupo de
ataque liderado por um porta-aviões. Ao mesmo tempo, autoridades iranianas
advertiam que qualquer novo ataque seria interpretado como uma “guerra total”.
A retórica escalava em ambos os lados, como se cada palavra fosse um degrau na
escada da confrontação.
Se a história nos ensinou alguma coisa, é que os colapsos raramente acontecem de forma súbita. Eles começam quase sempre assim: com discursos ambíguos, alianças tensas, navios que se deslocam discretamente para regiões sensíveis e líderes convencidos de que ainda controlam o curso dos acontecimentos.
Talvez seja por isso que a verdadeira pergunta não seja se o mundo irá colapsar. A pergunta, mais inquietante, é outra: quando as grandes potências acreditam que a força é novamente o argumento decisivo, quem ainda tem poder para travar a lógica do abismo?
(In, Amanhecer das Neves, N.º 375, março de 2026, p. 20)
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