Apenas
uma semana antes da defesa da nossa Tese de Doutoramento em Estudos Políticos e
Humanitários, o tempo fez-nos sentir, uma vez mais, a sua paradoxal pedagogia:
enquanto nos preparávamos para afirmar uma investigação sobre a condição
humana, chegava a notícia da desencarnação de Edgar Morin, aos cento e quatro
anos. Não foi apenas o desaparecimento físico de um dos maiores pensadores do
nosso tempo; foi o silêncio de uma consciência que nunca deixou de interrogar o
mundo, mesmo quando o mundo julgava possuir respostas suficientes.
Há
existências que não terminam; transformam-se em horizonte. Morin pertence a
essa rara linhagem de espíritos que compreenderam que pensar é um ato de
responsabilidade ética antes de ser um exercício intelectual. A sua obra jamais
procurou oferecer sistemas fechados ou verdades definitivas. Pelo contrário,
ensinou-nos que toda a verdade é provisória, que todo o conhecimento é
inacabado e que a realidade resiste obstinadamente às simplificações com que
tentamos domesticá-la.
Vivemos
numa época fascinada pela fragmentação. Multiplicam-se os saberes,
especializam-se as disciplinas, aperfeiçoam-se as técnicas, mas empobrece
frequentemente a compreensão do todo. Conhecemos cada vez mais acerca de cada
vez menos, esquecendo que o sentido não habita as partes isoladas, mas as
relações que entre elas se estabelecem. É precisamente neste ponto que o
pensamento de Morin adquire uma atualidade quase profética: pensar globalmente
não significa pensar vagamente, mas reconhecer que tudo participa de uma vasta
teia de interdependências, onde o destino de cada ser se entrelaça com o
destino da humanidade e da própria Terra.
A
complexidade não é um obstáculo ao conhecimento; é a sua condição mais
profunda. O universo não se deixa reduzir a fórmulas lineares, tal como o ser
humano não pode ser explicado apenas pela biologia, pela sociologia ou pela
psicologia. Somos, simultaneamente, natureza e cultura, razão e emoção,
liberdade e determinação, memória e projeto. Somos essa realidade trinitária de
que Morin nos fala: indivíduo singular, ser social e membro da espécie humana.
Separar uma destas dimensões é mutilar a própria humanidade.
Talvez
o maior legado de Morin resida precisamente na coragem de aceitar a incerteza.
Num tempo sedento de certezas instantâneas, ele recordou-nos que a dúvida não é
fraqueza, mas maturidade do espírito. Apenas quem aceita a complexidade do real
pode resistir às tentações do fanatismo, das ideologias redutoras e das falsas
evidências que tantas vezes alimentam a violência e a exclusão.
Pensar
globalmente é, antes de tudo, um exercício de humildade. Significa reconhecer
que nenhuma cultura esgota a verdade, que nenhuma ciência possui todas as
respostas e que nenhum ser humano existe isoladamente. Cada decisão individual
repercute-se na comunidade; cada transformação social modifica o destino das
pessoas; cada gesto de cuidado ou de indiferença altera, ainda que
impercetivelmente, a arquitetura moral do mundo.
A
educação, por isso, não poderá limitar-se à transmissão de competências ou de
informação. A sua missão maior continuará a ser formar consciências capazes de
ligar, compreender, dialogar e discernir. Ensinar será sempre muito mais do que
informar: será despertar a capacidade de relacionar aquilo que aparenta estar separado,
reconciliando conhecimento, ética e esperança.
Ao
partir, Edgar Morin deixa-nos uma herança que nenhuma cronologia poderá
encerrar. A sua voz permanece como convite permanente à vigilância intelectual
e à responsabilidade humana. Talvez seja essa a verdadeira imortalidade dos
grandes pensadores: continuarem a fazer perguntas quando já não podem
responder.
No
limiar da defesa da nossa investigação, esta coincidência temporal adquire um
significado que ultrapassa o mero acaso. Recorda-nos que o conhecimento só
encontra a sua plenitude quando se converte em consciência, que a ciência
apenas se justifica quando permanece ao serviço da dignidade humana e que
pensar é, inevitavelmente, um compromisso com o futuro.
Num
mundo marcado pela velocidade, pela dispersão e pela polarização, a lição de
Morin permanece intacta: compreender exige religar; conhecer exige humanizar;
viver exige reconhecer que somos parte de uma realidade infinitamente mais
vasta do que nós próprios. E talvez seja precisamente nessa consciência da
nossa pertença ao Todo que resida a mais elevada expressão da sabedoria
filosófica.
(In, Amanhecer das Neves, N.º 377, julho de 2026, p. 16)

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