Tuesday, August 11, 2026

O PENSAR GLOBAL EM EDGAR MORIN (1921-2026)

Apenas uma semana antes da defesa da nossa Tese de Doutoramento em Estudos Políticos e Humanitários, o tempo fez-nos sentir, uma vez mais, a sua paradoxal pedagogia: enquanto nos preparávamos para afirmar uma investigação sobre a condição humana, chegava a notícia da desencarnação de Edgar Morin, aos cento e quatro anos. Não foi apenas o desaparecimento físico de um dos maiores pensadores do nosso tempo; foi o silêncio de uma consciência que nunca deixou de interrogar o mundo, mesmo quando o mundo julgava possuir respostas suficientes.

Há existências que não terminam; transformam-se em horizonte. Morin pertence a essa rara linhagem de espíritos que compreenderam que pensar é um ato de responsabilidade ética antes de ser um exercício intelectual. A sua obra jamais procurou oferecer sistemas fechados ou verdades definitivas. Pelo contrário, ensinou-nos que toda a verdade é provisória, que todo o conhecimento é inacabado e que a realidade resiste obstinadamente às simplificações com que tentamos domesticá-la.

Vivemos numa época fascinada pela fragmentação. Multiplicam-se os saberes, especializam-se as disciplinas, aperfeiçoam-se as técnicas, mas empobrece frequentemente a compreensão do todo. Conhecemos cada vez mais acerca de cada vez menos, esquecendo que o sentido não habita as partes isoladas, mas as relações que entre elas se estabelecem. É precisamente neste ponto que o pensamento de Morin adquire uma atualidade quase profética: pensar globalmente não significa pensar vagamente, mas reconhecer que tudo participa de uma vasta teia de interdependências, onde o destino de cada ser se entrelaça com o destino da humanidade e da própria Terra.

A complexidade não é um obstáculo ao conhecimento; é a sua condição mais profunda. O universo não se deixa reduzir a fórmulas lineares, tal como o ser humano não pode ser explicado apenas pela biologia, pela sociologia ou pela psicologia. Somos, simultaneamente, natureza e cultura, razão e emoção, liberdade e determinação, memória e projeto. Somos essa realidade trinitária de que Morin nos fala: indivíduo singular, ser social e membro da espécie humana. Separar uma destas dimensões é mutilar a própria humanidade.

Talvez o maior legado de Morin resida precisamente na coragem de aceitar a incerteza. Num tempo sedento de certezas instantâneas, ele recordou-nos que a dúvida não é fraqueza, mas maturidade do espírito. Apenas quem aceita a complexidade do real pode resistir às tentações do fanatismo, das ideologias redutoras e das falsas evidências que tantas vezes alimentam a violência e a exclusão.

Pensar globalmente é, antes de tudo, um exercício de humildade. Significa reconhecer que nenhuma cultura esgota a verdade, que nenhuma ciência possui todas as respostas e que nenhum ser humano existe isoladamente. Cada decisão individual repercute-se na comunidade; cada transformação social modifica o destino das pessoas; cada gesto de cuidado ou de indiferença altera, ainda que impercetivelmente, a arquitetura moral do mundo.

A educação, por isso, não poderá limitar-se à transmissão de competências ou de informação. A sua missão maior continuará a ser formar consciências capazes de ligar, compreender, dialogar e discernir. Ensinar será sempre muito mais do que informar: será despertar a capacidade de relacionar aquilo que aparenta estar separado, reconciliando conhecimento, ética e esperança.

Ao partir, Edgar Morin deixa-nos uma herança que nenhuma cronologia poderá encerrar. A sua voz permanece como convite permanente à vigilância intelectual e à responsabilidade humana. Talvez seja essa a verdadeira imortalidade dos grandes pensadores: continuarem a fazer perguntas quando já não podem responder.

No limiar da defesa da nossa investigação, esta coincidência temporal adquire um significado que ultrapassa o mero acaso. Recorda-nos que o conhecimento só encontra a sua plenitude quando se converte em consciência, que a ciência apenas se justifica quando permanece ao serviço da dignidade humana e que pensar é, inevitavelmente, um compromisso com o futuro.

Num mundo marcado pela velocidade, pela dispersão e pela polarização, a lição de Morin permanece intacta: compreender exige religar; conhecer exige humanizar; viver exige reconhecer que somos parte de uma realidade infinitamente mais vasta do que nós próprios. E talvez seja precisamente nessa consciência da nossa pertença ao Todo que resida a mais elevada expressão da sabedoria filosófica.

(In, Amanhecer das Neves, N.º 377, julho de 2026, p. 16)

No comments: