Friday, January 30, 2015

Debate sobre a Europa em Conferência Internacional!...

«Uma Nova Narrativa para a Europa é um projecto de envolvimento e participação dos cidadãos, a realizar no território nacional, para promover a reflexão, o debate e a proposição de ideias que alimentem uma nova narrativa para a Europa.»

Porque envolvidos no projecto «Uma Nova Narrativa para a Europa», promovido pela Representação da Comissão Europeia em Portugal, tendo como Parceiro Estratégico o Centro de Informação Europeia Jacques Delors (CIEJD/DGAE-MNE) e como como gestor a SETEPÉS, onde podemos reflectir e debater ideais culturais para a Europa de hoje e de amanhã, tão bem expressos na Declaração do Comité Cultural do mesmo projecto, de modo a podermos reajustar as prioridades no quadro da entidade política que é a Europa, à luz desses mesmos ideais, foi com o maior sentido de responsabilidade ética e/ou moral que participamos, na Conferência Internacional «Novo Renascimento e Novo Cosmopolitismo», levada a cabo na grande catedral da cultura nortenha, Casa da Música (Porto), a 23 de Janeiro último.
Maria de Aires Soares, chefe da Representação da Comissão Europeia em Portugal, abriu a Conferência, dando as boas-vindas a todos os participantes, congratulando-se, ao mesmo tempo, pela qualidade dos oradores convidados que se prontificaram, sem qualquer tipo de condicionalismos, a colaborar nesta mesma iniciativa.


Antes de se dar início à referida Conferência, dividida em dois painéis, foi passado um “filme-documentário”, realizado em Barcelona, Bruxelas, Copenhaga, Haia, Lisboa e Praga, onde foram ouvidos alguns dos autores do projecto “Uma Narrativa para a Europa”: Kathrin Deventer, Luísa Taveira, Olafur Eliasson, Paul Dujardin, Peter Matjasic, Sneska Quaedvlieg-Mihailovic e Tómas Seddlácek, sete cidadãos europeus que ofereceram o seu ponto de vista sobre o futuro da Europa, confiantes que o seu testemunho possa estimular o debate entre os cidadãos europeus e as instâncias que governam esta comunidade de mais de quinhentos milhões de pessoas. Para estes autores, um novo renascimento e um novo cosmopolitismo são dois ideais culturais a que aspiram e que consideram vitais para a Europa de hoje e de amanhã, apelando a que “os cidadãos façam ouvir a sua voz e participem no espaço público europeu de debate, partilhando as suas histórias e preocupações. Essas narrativas contarão a história do que significa ser europeu no século XXI”.
Evocando o período europeu dos séculos XV e XVI, em que a sociedade, a arte e a ciência abalaram a ordem estabelecida e criaram os fundamentos e a dinâmica para a actual era da Sociedade do Conhecimento, deu-se início à Conferência, com o propósito de se reflectir e debater ideais culturais, capazes de criar e sustentar a acção política no seio da Europa; incorporar soluções inovadoras que permitam à Europa ser o baluarte da sustentabilidade ambiental no mundo; e, finalmente, assegurar um sentimento de pertença entre os cidadãos europeus. Daí, tendo como relator e moderador, o Embaixador Francisco Seixas da Costa, o primeiro tema – Uma Nova Narrativa para a Europa: Como despertar um Novo Renascimento? –, contou os seguintes oradores: Peter Matjasic, ex-presidente do Fórum Europeu da Juventude (2011-2014) e Membro do Comité Cultural da Declaração “Uma Nova Narrativa para a Europa”, e Marina Costa Lobo, Professora e Investigadora em Ciência Política. Do debate neste primeiro painel, tiramos algumas conclusões que passam pela noção clara de que a Europa é marcada pelo discurso economicista, descorando o plano cultural, numa alegoria à construção do navio à feição dos ventos; falta de princípios de identidade e de natureza ética, contrário à estrutura democrática, levando a alguma desilusão, ou seja, ao aumento da insatisfação dos cidadãos com a UE; a um crescente distanciamento entre os políticos mainstream Europeus e partes substanciais da opinião pública; pressões centrífugas na UE devido a condições económicas assimétricas e políticas de austeridade; aumento considerável do poder das instituições centrais da UE (Comissão, Conselho Europeu, Euro grupos, etc.); emergência de um “dissenso constrangedor”, explicado pelo eurocepticismo político e de políticas, e da erosão do consenso sobre o qual se construiu a UE, enquanto modelo europeu de democracia; uma cidadania passiva mas insatisfeita, vítima do seu próprio sucesso. Em suma: uma Europa dirigida para eurocépticos, que induz à desconfiança e não reforça um processo solidário, e da disfuncionalidade da política agrícola comum. Há, até, uma certa clivagem, porque assente numa espécie de elitismo.


Tendo ainda como relator e moderador, o Embaixador Francisco Seixas da Costa, o segundo tema – Uma Nova Narrativa para a Europa: Pluralismo e Cosmopolitismo? –, contou com os seguintes oradores: Eduardo Paz Ferreira, Professor Catedrático e Presidente do Instituto Europeu da Faculdade de Direito de Lisboa, e Miguel Sousa Ferro, Professor em Direito da União Europeia. Das suas intervenções, tiramos algumas ilações, principalmente quando se fala do choque do terrorismo em Paris, que desencadeou paixões e ódios, levando perigosamente à exclusão de outras culturas; liberdade de expressão, liberdade de imprensa e do poder judicial; sociedade incompatível com a grande cultura europeia; narrativas dos ricos e dos poderosos, assentes na presunção, ainda que errada, de acharmos que somos um continente superior aos outros; os Mídias, como propriedade e sob pressão de determinados grupos económicos; a Europa construída pelas grandes elites e não pelas populações, levando-nos, inadvertidamente, ao desaparecimento da história; a riqueza deveria servir a humanidade e não a humanidade servir a riqueza, numa alusão clara ao Papa Francisco, perspectivando, no entender de Eduardo Paz Ferreira, a aparição do “Euro” como só servisse para criar ódios e rivalidades; e, finalmente, o discurso do fecho de fronteiras tem as suas repercussões dentro das próprias fronteiras.
       Depreendemos desta extraordinária conferência internacional, que há uma prioridade cada vez mais necessária de reflectir e debater ideais culturais para a Europa de hoje e de amanhã, negando a imagem do “bilhete-postal” que nada tem a ver com a realidade, impresso no “asfixiante economicismo” e na mortalidade por exclusão. Só assim, diremos não à Europa que nos dirige para uma desconfiança permanente!

Saturday, January 24, 2015

Publicada 2.ª edição do «retábulo da folia» de Fernando Pinheiro!...

«Uma escrita envolvente, colorida pelo pendor adjectivante e pela incorporação do falar comum, serve a preceito o universo rural das oito estórias deste Retábulo tão cheio de matizes, sortilégios e malícias, ironia, sugestividade»

José Manuel Mendes

Com esta avalista apreciação crítico-literária de José Manuel Mendes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, conceituado escritor e ilustre professor da Universidade do Minho, a nossa tarefa de inveterado leitor, acrescida do circunstancial atrevimento, porque a isso ninguém nos obriga, de passar para o papel a nossa opinião, a propósito de tudo o que Fernando Pinheiro tem produzido a nível literário até hoje, apresenta-se extremamente facilitada, tendo em conta a alta qualidade do seu projecto narrativo, opinião partilhada pelo mesmo José Manuel Mendes, e com a qual comungamos incondicionalmente, quando escreve: De livro para livro, Fernando Pinheiro enriquece e aprofunda o seu projecto narrativo. A efabulação, nascida amiúde de um olhar atento ao quotidiano, desenha-se com crescente argúcia e as personagens, na sua diferenciação procedimental, densificam-se. Bebendo numa locução latina, “Ad augusta per angusta”, diremos nós.
Perguntarão os nossos leitores: porquê toda esta retórica, quando tudo se resumirá a uma, ainda que subjectiva, apreciação a mais um livro, dado à estampa, de Fernando Pinheiro? De facto, não se trata de mais um, mas da 2.ª edição do seu livro de contos «retábulo da folia», editado pela primeira vez, sob a chancela da Autores de Braga, em Fevereiro de 1994. Dez anos depois, «RETÁBULO DA FULIA» aparece com uma nova “roupagem”, títulos e conteúdos ligeiramente revistos e acrescentados à inspiração inicial, desta vez, numa muito bem cuidada edição da Calígrafo. Acresce o facto de aparecer mais um conto, em jeito de monólogo – Os maravilhosos artifícios do Pinta-Ratos que entre outras proezas admiráveis tirou lágrimas verdadeiras aos devotos de Nossa Senhora da Franqueira –, elaborado, segundo Fernando Pinheiro, a partir da reportagem realizada por José de Coelho e Luís Santos, e publicada no jornal Barcelos Popular, em 7 de Dezembro de 1996. Contudo – e dentro do nosso princípio básico, muito pessoal, de que nada se inventa quando tudo está inventado, circunstancialmente assente na percepção de que não devemos escrever o que sentimos quando os outros, anteriormente, já o fizeram por nós –, teremos em dizer que o alto quilate do projecto narrativo mantem-se: Fernando Pinheiro tem o mérito de ser, equilibradamente, vernáculo e clássico à sua maneira, em estilo, com um perfeito domínio da técnica que dá corpo e alma à arte do (belo) conto. É mais uma revelação das potencialidades literárias do autor que o leitor bem pode constatar, mesmo com um suave deste “Retábulo da Folia” (…) pinta o quadro das alegrias e tristezas de um Minho que viveu numa “estúpida obediência” mas que, mesmo sem escola, sabia transformar uma cana num “simplório artefacto” para “silvos musicais tão vibrantes”. – citamos Pedro Leitão, em apontamento crítico no JN (1994).


Pelo «Retábulo da Folia» perpassam as mais díspares e extraordinariamente bem caracterizadas personagens, tais como: o Domingos Pato, “o maior mentiroso das Terras de Aquém e Além-Cávado”, que tinha o vício de “lograr o parceiro com uma laracha e duas tretas”; o Padre Ribeiro, “entre todos o mais douto naquelas paragens”; o senhor Joãozinho da Eira, entre todos o que “não se importava nada de cair nas suas esparrelas, e muito mal ia a vida quando o Pato não tinha nenhuma patranha para seu divertimento”; o Aires Manco, “que lhe disputava a Idalina Tripa, a maior paspalhona de quantas mulheres andavam no jornal naquela casa”; o Lino da Quitéria, “sacristão e tramboleiro de Santo Amaro do Campo”; o Baganha, circunstancial homem da batuta, aquando debilidades várias em Lino da Quitéria; o senhor Luís Aleluia, músico e oleiro, contramestre da Banda Musical de Santo Amaro do Campo; o Padre Joaquim, abade de Santo Amaro do Campo; o Marechala, “famoso tocador de descantes, rusgas e tocatas, conhecido em todo o concelho, desde Balugães a Viatodos, como sendo homem de sete instrumentos”; o Padre Zé, aquele que viria a casar Venturino e Isménia, “ao fim de vinte e um anos, três meses e sete dias de namoro pegado, testemunhado por todo o povo de Parada do Monte e pelas aldeias duas léguas ao redor, que têm o fraco costume de coscuvilhar a vida alheia”, sendo padrinhos Fernando do Souto, chefe da Acção Católica, e Lurdes Campeã, “ainda aparentada à noiva e zeladora do altar-mor (naquela manhã ornamentado a gipsófila branca e cravos vermelhos), e ainda um casal da aldeia para testemunhar”; a Isaura Pontes, dita a Gaga, assim se chamava “por padecer de um pequeno distúrbio de linguagem, que pariu quatro filhos cognatos”, e o pai de seus filhos, Samuel Cachapa, “tão rapidamente entrou na história como saiu dela, pois limitou-se a emprenhar a mulher quatro vezes e a morrer logo depois com os pulmões podres e os fígados inchados”; o Patrocínio Cachapa, filho de Samuel e da Gaga, “o quarto da geração, que herdou do falecido o gosto pela água e o mau sangue”; o Padre Alberto e a Glória Catequista; o José Videira, lavrador, “da muito conhecida Casa da Presa, a mais de uma légua de distância de S. Salvador da Ribeira”; o Domingos Capador, “o mais célebre rei das tabernas de Santo Amaro e além, quando as havia nas encruzilhadas do povo. (…) um bêbedo temido pelos taberneiros, pois todos sabiam o que tinha acontecido ao mixordeiro que um dia lhe dera uma malga de vinho feito a martelo”, e a Maria Piona, levada já prenhe para o casamento por Domingos Capador; o Padre Firmino, sabedor do “episódio insólito” do nascimento do quarto filho de Domingos e Piona, “disse que o cachopo parecia o pequeno José do Egipto a ser exposto pelos irmãos aos mercadores de escravos da Palestina”; o Zé da Glória, conselheiro-mor do sinédrio da aldeia; o Jacob Manuel de Deus Pereira, “nascido, criado e casado em Santa Eulália, livre de todo o serviço militar por estrabismo divergente”; o Padre Carvalho, também ele, tal como o Padre Ribeiro, “entre todos o mais douto da freguesia”; a Rola, “uma rapariga um tanto pascácia de S. Romão, que em toda a sua vida, não foi muito mais além da sua mera, embora própria, condição biológica”; o Irineu Azeiteiro, que andava pelos lugares da aldeia a distribuir o azeite, “numa carroça com a ajuda de uma mula. Tocava numa corneta à porta dos casais, ia a uma torneira de cobre cheia de azebre, e da bilha de zinco tirava qualquer água-ruça para as almotolias”; a Ermelinda da Fonte, tanto tida por santa como por doida; o Padre Agostinho, etc., etc…. Tal como escreveria a professora Manuela Ascensão Correia, “Retábulo da Folia” é «um quadro composto por um fascinante caleidoscópio de seres que, no seu primarismo, se fundem com a terra onde nasceram, barro do mesmo barro, às vezes tão barro que parecem só matéria, mas que, por um olhar, por um gesto, por um desejo, se escapam do barro e ascendem, por um momento, à sublime sacralização humana». Essa é, também, a nossa percepção!...
           NOTA MÁXIMA!

Saturday, January 17, 2015

Alma: mundo sensível, tempo, movimento ou princípio vital?!...

«Para Heraclito o princípio consiste na própria alma, em virtude de ela ser aquela emanação quente pela qual todos os seres são criados. Trata-se, por conseguinte, de uma realidade incorpórea e em mutação contínua: conhece-se o movimento consoante mais se movimenta, sendo sua opinião (e também a de muitos outros) a circunstância de todos os seres se encontrarem em movimento…»

Aristóteles

Fazendo uma pequena pausa na “leitura contemporânea”, nomeadamente dos autores que vamos lendo – e daqueles que ainda estão por ler – semana a semana, resolvemos exercitar as nossas interrogações cognitivas de hoje, à volta do trágico acontecimento, de fim de ano, que levou à “desencarnação” do nosso (familiar) amigo/irmão Manuel António Ferreira Ribeiro (1941-2014).
   

Começaríamos esta nossa modesta “deambulação do intelecto” por Thiago Sinibaldi, principalmente quando afirma que o princípio da vida – e/ou princípio vital – é a força de que emana a vida, exprime a convicção de que a própria vida é um efeito e todo o efeito exige uma causa proporcionada. Para ele, todos os seres vivos possuem um princípio de vida, distinto da matéria organizada. Sinibaldi acha que o princípio da vida deve chamar-se alma, definindo-a, ao mesmo tempo, como um princípio de movimento ou de operação. Afirma, ainda, que o princípio da vida é o princípio de todos os movimentos ou operações imanentes dos seres vivos. Logo, o princípio da vida deve chamar-se alma – “com razão, pois, dá-se a denominação de animados aos seres que possuem a vida, e o de inanimados aos que a não possuem –. À alma deve atribuir-se todas as propriedades, que convêm ao princípio da vida”. Ao lermos Thiago Sinibaldi, constatamos assim o conceito de alma como um princípio de movimento, que pode ser visto sob dois aspectos: enquanto anima o corpo – a alma é o acto primeiro do corpo natural e organizado, capaz de produzir operações imanentes –, e, por outro lado, enquanto é princípio de operações “a alma é o princípio primeiro, pelo qual o sujeito produz operações imanentes”. Por exemplo, na Antiguidade, a alma tem um significado de vida (animação), começando por ser localizada ou implantada no sistema respiratório, sendo que o respirar não se separa do spiritus (espiritual) e a morte ocorre com o último sopro, popularizado como entregar a alma ao criador. O nascimento, como início da existência, reconhece-se pela entrada de ar nos pulmões, permitindo a nossa própria autonomia, quando antes estávamos condicionados pelo sangue e oxigénio maternos. Esta antiga visão animista definiu, assim, a alma como uma espécie de harmonia, sendo ao mesmo tempo causa e efeito. Relevante é o facto de Anaximandro de Mileto (séc. VI a. C.), sendo o primeiro a utilizar o conceito de princípio, para significar, não a água, nem os outros elementos conhecidos, mas uma determinada natureza infinita, defendeu que a alma é de natureza etérea. Anaxímenes de Mileto (séc. VII-VI a. C.), e segundo Pinharanda Gomes, “à semelhança de seu mestre, reconheceu a existência de uma única substância infinita, verdadeiro princípio, mas, em vez de a deixar indefinida, achou que devia dizer qual era, e disse ser o ar”. Outro dos factos relevantes da Antiguidade é que, por exemplo, para os estóicos existia mesmo uma «Alma do mundo», forma através da qual eles explicavam – ou procuravam explicar – a sua organização e a sua continuidade.   
Voltando ao mundo cognitivo antes de Platão, e como o já referimos em anterior apontamento, convenhamos realçar que muitas foram as especulações sobre a ideia de alma, a ponto de, face à complexidade dessas mesmas especulações, em o Fédon – no qual alguns pensadores afirmam melhor transparece a verdadeira natureza da Alma humana, juntamente com os argumentos que fundam a sua imortalidade –, o mesmo filósofo grego acabar por defender um dualismo quase radical do corpo e da alma. A alma por aspirar a libertar-se do corpo era, para ele, uma realidade essencialmente imortal e separável. Assim, a tendência da alma – sendo que a mesma, como alguém um dia afirmou, deve chamar a atenção do filósofo – era de “regressar à sua origem divina e viver, entre as ideias, no mundo inteligível”.
O mesmo Platão, por exemplo, apesar de aceitar a doutrina heraclítica – tudo está em movimento – de que os objectos sensíveis estão em constante movimento, para ele os objectos sensíveis não constituem “todas as coisas” e se afirmamos que “todas as coisas estão em perpétuo movimento”, torna-se impossível o conhecimento. É em o Teeteto que Platão fala sobre o conhecimento em si mesmo, isto é, a essência do conhecimento, sobre a dialéctica e a Anamnesis – acesso à totalidade das ideias –, sendo que esta última é a intermediária entre os dois mundos de Platão: a natureza eterna da alma humana (mundo das ideias) e a existência separada das formas (a existência do homem no mundo sensível), objectos próprios do conhecimento. Assim, Aristóteles ao assumir que as substâncias são as realidades primeiras, no sentido de que todos os outros modos de ser dependem da substância – procurando também demonstrar a existência da substância supra-sensível – acaba por tentar corrigir Platão. Segundo ele, se todas as substâncias fossem corruptíveis, nada existiria de absolutamente incorruptível.
Por outro lado, para Aristóteles, o tempo e o movimento são incorruptíveis, sendo que o primeiro não foi gerado nem se corromperá, tendo em conta o facto de que, na realidade, antes de ser gerado deveria ter existido um antes e posteriormente à destruição do mesmo deveria ter havido um depois. Assim, sendo o antes e depois apenas tempo, para este filósofo grego sempre há tempo antes e depois de qualquer começo ou fim suposto do tempo. Logo, o tempo é eterno. De igual forma podemos falar do movimento, já que o tempo é apenas uma determinação do movimento, e, ao assim se postular, o que leva Giovanni Reale, no seu livro «Introdução a Aristóteles», a concluir que no pensamento aristotélico “não há tempo sem movimento; portanto, a eternidade do primeiro postula igualmente a eternidade do segundo”. Aristóteles, ao referir-se àqueles que defendem que a alma consiste numa harmonia, harmonia essa que seria uma mistura ou uma espécie de combinação entre contrários – do mesmo modo seria o corpo uma combinação de contrários –, resultando da mesma uma proporção de elementos misturados “ou, então, na sua respectiva combinação, diversamente não podendo a alma ser nem uma coisa nem outra”. E por aqui nos ficamos…
    Amigo/irmão Manuel António Ferreira Ribeiro, onde quer que estejas, desculpa-nos esta introspecção, dado sabermos o que pensavas a respeito destas questões. Até sempre!

Friday, January 09, 2015

Publicado o Tomo 48 dos Cadernos Vianenses!...

«A promoção da cultura vianense assume-se, assim, com o objectivo primordial desta edição, que continua a fazer história no panorama editorial de Viana do Castelo, permitindo um conhecimento de inúmeros aspectos de interesse científico e histórico…»

José Maria Costa

Fundados em 1978, sob a orientação de António Dionísio Marques, Severino Costa, Maria Tereza Majer de Faria, Jaime Cepa, Maria Augusta Eça d’Alpuim, J. Baptista Gonçalves da Silva, Maria Emília Sena de Vasconcelos, Rui Pinto e Matias de Barros, os «Cadernos Vianenses» apresentavam-se como uma publicação onde seriam “tratados todos os assuntos que digam respeito às gentes de Viana do Castelo, analisando-as sob o ponto de vista etnográfico e etnológico, somática e culturalmente, tratando de desvendar as suas possíveis etnias, entendidas estas como seus caracteres noológicos; relembrando e evocando o seu passado e, assim, estudando a sua história, quer no aspecto puramente antropológico, quer nas suas manifestações culturais, as mais diversas, desde a arqueologia, a passar pelo folclore, cerâmica, trajos típicos e artesanato e a terminar na pintura, poesia e, até, actividades desportivas” – como escreveria Dionísio Marques, na altura vereador do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Viana do Castelo (editor da publicação), em nota introdutória ao primeiro tomo. Percorridos trinta e seis anos, eis que acaba de ser publicado o seu quadragésimo oitavo tomo, coordenado editorialmente pelo chefe de divisão de Biblioteca e Arquivo municipais, Rui A. Faria Viana (coordenador desde o tomo quarenta e quatro, 2010), e sob a direcção do presidente do município vianense, José Maria Costa.


Com significativas alterações introduzidas, precisamente a partir do tomo 44, os «Cadernos Vianenses», enquanto publicação que se assumiria como arauto do passado e do presente da região de Viana do Castelo, representam hoje, e bebendo das palavras do actual presidente do município, o repositório “das várias abordagens de problemas e de assuntos com interesse transversal para Viana do Castelo nas temáticas da cultura, da etnografia, do património quer natural quer construído”. Essa é a sensação com que ficamos ao longo destes trinta e seis anos percorridos.
O tomo 48 dos «Cadernos Vianenses» foi apresentado no passado dia 27 de Dezembro de 2014, em cerimónia pública que decorreu na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, onde estiveram presentes o presidente do município, José Maria Costa; a vereadora do pelouro da Cultura do mesmo município, Maria José Guerreiro; e o coordenador editorial da mesma publicação, Rui A. Faria Viana, que através duma bem estruturada apresentação, diríamos até minuciosa, deu a conhecer ao público presente os conteúdos deste mesmo tomo 48 dos «Cadernos Vianenses» e os seus autores, realçando a qualidade quer de uns quer de outros. Elogios de circunstância que seriam secundados, a posterior, pela vereadora e pelo presidente do município, aquando do encerramento da sessão. Dois nomes a salientar, porque referidos na sessão, no campo estético e/ou artístico: Rui Pinto, que desde o primeiro tomo tem emprestado muito da sua sensibilidade, enquanto pintor, na elaboração das capas, sendo que as mesmas, só por si só, espelham todo um percurso artístico deste ilustre vianense, e não só; e Rui Carvalho, competentíssimo designer da nossa praça, responsável pela sua apresentação gráfico-estética, desde o tomo quarenta e quatro.


Este número dos «Cadernos Vianenses», com 336 páginas, para além da habitual “Apresentação” do presidente do município, apresenta-se com quatro separadores temáticos (secções): ESTUDOS VÁRIOS – “Viana e o mar”, de Carlos Alberto da Encarnação Gomes; “Talha religiosa de Viana do Castelo: panorama estético”, de Francisco José Carneiro Fernandes; “Breve simbologia do Templo-Monumento de Santa Luzia”, de Ana Marques; “De Viana ao Porto por Esposende até ao século XX: estradas, barcas e pontes”, de Raul de Azevedo Saleiro; “Espaços ajardinados da cidade de Viana do Castelo: contributos para a sua divulgação e importância para a fruição pública”, de José da Cruz Lopes; “Primórdios do ordenamento e planeamento na orla costeira minhota”, de Horácio Faria; “Casa dos Nichos: a utilização da ilustração no seu discurso museológico”, de Hugo Gomes Lopes; FIGURAS E MEMÓRIAS – “António Alfredo Simões Viana (1922): da medicina tropical a um olhar psiquiátrico sob a criança no século XX”, de Porfírio Pereira da Silva; “A citânia de Santa Luzia e o seu espaço envolvente”, de Jorge Alexandre Viana Correia; TERRITÓRIO E CIDADES DO NORTE ATLÂNTICO IBÉRICO (comunicações resultantes do 3.º Seminário realizado em Viana do Castelo, nos dias 25 e 26 de Setembro de 2014) – “A urbanidade no litoral das rías atlánticas”, de Henrique Seoane Prado; “Estratégia Alto Minho 2020: recomendação para uma visão de mudança”, de Vânia Rosa; “Linha do Minho: uma reflexão sobre o serviço de transporte e as interdependências com o território”, de Paulo Silvestre; “A reabilitação e reinvenção dos espaços públicos. As praças como veículos de regeneração urbana”, de Manuel C. Teixeira; “A configuração de Viana do Castelo: uma perspectiva metodológica”, de David Leite Viana; terminando com CONTINUADOS – “Arrolamento dos bens das igrejas”, de António Maranhão Peixoto.
A finalizar, surgem de uma forma resumida algumas notas sobre os colaboradores, com o objectivo de uma melhor identificação de todos os que assinam trabalhos inseridos neste tomo dos «Cadernos Vianenses».
        Mais um número que se recomenda!

Tuesday, December 23, 2014

«Vidadupla» em e com Sérgio Godinho?!...

«Na casa de férias de uma tia minha houve um lençol puído, rasgado e mais de uma vez remendado, debaixo do qual me deitei numa tarde de Verão…»

Sérgio Godinho

Sérgio Godinho esteve entre nós, a pretexto do desafio lançado pela Biblioteca Municipal de Viana do Castelo para connosco estar “À conversa com…”, habitual iniciativa mensal onde a mesma Biblioteca visa promover, em torno do livro, o diálogo e a troca de conhecimentos com escritores contemporâneos, proporcionando a oportunidade de conviver de perto com os autores e a sua obra. E foi isso que aconteceu com Sérgio Godinho, nascido na cidade do Porto, em 1945, e com apenas 20 anos de idade parte para o estrangeiro. Primeiro destino: Suíça, onde estuda psicologia em Genève durante dois anos, antes de tomar a decisão «para a vida» de se dedicar às artes. Mais tarde muda-se para França. Vive o Maio de 68 na capital francesa. No ano seguinte integra a produção francesa do musical Hair, onde se mantém por dois anos. Em Paris priva com outros músicos portugueses, como Luís Cília e José Mário Branco. Sérgio Godinho ensaiava assim as suas primeiras composições, na altura em francês.


Do longo e riquíssimo percurso artístico de Sérgio Godinho – o que seria fastidioso aqui esmiuçar – teremos de salientar o facto de ter sido actor de teatro e ter começado a exercitar a escrita de canções nos finais dos anos 60. O seu primeiro álbum surge em 1971, Os Sobreviventes, seguindo-se mais vinte e sete até aos dias de hoje, o que faz dele um dos músicos portugueses mais influentes dos últimos quarenta anos. Sobre si próprio disse: «Não vivo se não criar, não crio se não viver. Essa balança incerta sempre foi a pedra de toque da minha vida». Ou ainda: «Eu o que faço é tentar contar coisas, falar de coisas, fazer interrogações à minha maneira e saber que há pessoas que são tocadas por isso». Essas interrogações são “contos de um instante”, como canta numa das canções de um dos seus discos, e tanto podem falar de amor (Intermitentemente), como da situação do país e das incertezas do presente (Acesso bloqueado). O seu percurso espelha, precisamente, essa poderosa interacção entre a vida e a arte. Daí, que, mesmo enquanto voz polifónica, levou frequentemente a sua escrita a outras paragens: Guiões de cinema, peças de teatro, séries de televisão, histórias infanto-juvenis (O Pequeno Livro dos Medos), poesia (O Sangue por um Fio), crónicas (Caríssimas Quarenta Canções), entre outros exemplos.
Naquela noite de 12 de Dezembro último, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, estivemos ali para falar de VIDADUPLA (contos), capítulo presente desse estimulante itinerário pessoal de Sérgio Godinho: «O que esconde e o que revela um velho lençol puído sobre a intimidade de uma mulher? Como se prova a inocência quando um álibi incrimina? O que significa a morte na vida de um carrasco, e o que significa a vida no dia da sua morte? Para onde rolam as bicicletas e caminha a história das duas operárias? O que leva um homem a deixar a sua casa, noite após noite, para dormir na rua?» – perguntas para as quais encontramos algumas respostas, através da sua bem estruturada dialéctica, segurança e cultura geral.


Sem que nos proponhamos, pelo despropósito, a explicar os nove contos inseridos em VIDADUPLA: “O lençol”; “O álibi do falso culpado”; “Notas soltas da corda e do carrasco”; “O circo de três pistas”; “O pré-catastrofista”; “O momento mágico”; “Queria só falar da minha história de amor”; “Osmose”; “O sem-abrigo, vida dupla”, atrever-nos-emos em dizer, contudo, que sentimos a magia do espelho, algo que já não é inédito na literatura ao longo dos séculos, como forma de mostrar as duas faces de cada um de nós, sentir e ser na relação com o outro: «A casa era ao pé do mar, e eu tinha trinta e quatro anos e um corpo de rapariga de vinte, pelo menos assim mo diziam os amigos, os amantes e os espelhos. Costumava acreditar que pelo menos estes últimos não me enganavam, ainda que sabendo o quanto é clemente e traiçoeiro o olhar do nosso amor-próprio…» (p. 7); o envelhecer e o rejuvenescer: «Apresentar rugas umas às outras, mudar de rugas ao fim da noite» (p. 9), dissimulando as quarentenas no teatro; o instinto e a inocência; o carrasco que não pretende ser absolvido, dado que «Não mata por convicção e muito menos por instinto. Mata por incumbência…» (p. 23); o desentendimento do corpo e da alma «ao longo de todas as querelas, interiores e exteriores, e assim preparam a sua separação eterna.» (p. 25); o nascer e viver no circo «é andar à volta e ter só uma saída, no lugar e no tempo da próxima entrada…» (p. 31), numa alegoria à própria vida, mesmo quando em três pistas circulares, iguais; o catastrofista, «o tal senhor extravagante e enviesado, que antecipa, por método ou costume ou desvario, as catástrofes iminentes» (p. 43); o momento mágico, ficando sozinho ouvindo os seus ecos pela tarde, «tinha aprendido a gostar de ópera, eu que a tinha desconsiderado, achava-a desadequada, enfática, artificial – tudo o que afinal a vida era e a arte pode ser» (p. 62); o antes e o depois do ser da vida, quando «o meu antes não era lá grande coisa, querer explicar isto é quase perda de tempo…» (p. 70); o enigma da auto-estima, não se julgando inferior aos outros: «Mas isso, só por reconhecer em todos virtudes iguais às minhas. É esse o enigma da auto-estima, não ter nível por onde se aferir.» (p. 79); e, finalmente, o sem-abrigo, vida dupla, enigma que leva um homem a deixar a sua casa, noite após noite, para dormir na rua: «Vou preencher o presente com as esperanças do passado. Não com as sobras do passado, mas com o que ficou. A esperança é o que ficou.» (p. 91).
Ao termos feito esta extrapolação lexical, mais não pretendemos do que “aguçar o apetite” dos possíveis leitores destes maravilhosos contos, reunidos no sugestivo título de VIDADUPLA. Quiçá, o outro lado de Sérgio Godinho.
       NOTA MÁXIMA!

Friday, December 12, 2014

Álvaro Santos Pereira e os “jobs for the boys” de Paulo Portas!...

«Tenho orgulho de ter lutado pelo meu país. Tenho orgulho de ter mostrado que é possível ir contra lóbis e interesses instalados.»

Álvaro Santos Pereira

Por certo que muitos dos habituais leitores destas nossas deambulações literárias estarão recordados quando, em Agosto de 2012, escrevemos que sempre fomos leitores inveterados de teses científicas, em qualquer vertente da teoria do conhecimento, acreditando – ainda que com algumas reservas – naquilo que os seus autores podem trazer de novo ao pensamento universal. E quando essas teses se apresentam como soluções aos acidentes de percurso das áreas a que se confinam, faz aumentar em nós a “curiosidade especulativa”. Na altura, referíamo-nos ao livro «Portugal na hora da verdade: como vencer a crise nacional» da autoria de Álvaro Santos Pereira, aquele que após tomar posse como ministro da Economia, e contrariando os apelativos dos defensores dos prefixos (pão quentinho a sair do forno de Miguel Relvas), aconselhou a que o chamassem de Álvaro, sem o doutor (aplaudimos de pé), livro esse onde procurava mostrar que Portugal vive hoje três grandes crises: a crise das finanças públicas, a crise da competitividade e do crescimento e a crise do endividamento externo. Entre as questões debatidas, incluem-se as seguintes: qual é o verdadeiro estado das nossas finanças públicas? Porque é que o nosso Estado gasta tanto? Quantos institutos e outras entidades públicas existem e quanto gastam? E porque estamos tão endividados? Será a dívida nacional sustentável? Quão grave é o problema de competitividade das nossas exportações? – questões e interrogações pertinentes, reforçadas pelo facto de ele mesmo sublinhar ao longo da mesma “dissertação” que havia fortes indícios de que o nosso Estado estava a matar a economia nacional, afirmando mesmo que os funcionários públicos não eram responsáveis por esta situação: “Uma verdadeira reforma do Estado que torne as nossas contas públicas saudáveis e sustentáveis não deve ser feita contra os funcionários públicos ou contra o serviço público. Muito pelo contrário. Uma verdadeira reforma da administração pública terá de melhorar o serviço público, não piorá-lo. Uma verdadeira reforma da função pública terá de aumentar o prestígio do emprego público, não diminuí-lo. Uma verdadeira reforma do Estado terá de incentivar a auto-estima dos funcionários públicos e fazer com que sejam eles próprios a estimular a mudança de que a nossa administração pública necessita”.


Como era previsível, este tipo de teorização levá-lo-ia à precipitada saída do governo ultraliberal de Passos Coelho. Hoje, voltamos a ser confrontados com uma nova “bomba-relógio”, intitulada «Reformar sem medo: um independente no Governo de Portugal», com 1.ª edição em finais de Novembro deste mesmo ano. Seu autor, Álvaro Santos Pereira, vem agora a “terreiro” afirmar que «durante muitos anos, eu estive na posição confortável de poder criticar à distância. Em livros, em blogues, em artigos de jornal. Além disso, como vivia no estrangeiro, a minha posição era ainda mais cómoda, visto que as minhas críticas certamente não afectavam o meu dia-a-dia. Podia criticar o que quisesse, pois isso não teria consequências para a minha vida privada ou familiar…» (p. 16), numa espécie de preâmbulo ao capítulo de “Uma missão (quase) impossível”. É nesta nova “dissertação” de «Reformar sem Medo», que o ex-ministro da Economia põe o dedo na ferida, abordando de uma forma clara um pouco de tudo: intriga política (sendo Paulo Portas uma das figuras principais), luta contra lóbis e as negociatas de bastidores com a troika: «Quando saí do Conselho de Ministros, pensei que tínhamos dado um importante passo para conseguirmos o IRC a 10% para os novos investimentos. Porém, sabia também que ainda havia muito caminho para andar, até porque Vítor Gaspar claramente não era apologista da medida. Não me enganei. No sábado seguinte, marcámos uma reunião com o Ministro das Finanças, em que estiveram presentes também Carlos Moedas e a minha equipa. O resultado foi desastroso. Vítor Gaspar disse muito claramente que quem tinha a tutela e a responsabilidade das Finanças em Portugal era ele, e que ele não gostava da medida…» (p. 343). Vítor Gaspar e Carlos Moedas, dois nomes sonantes, privilegiados em calendas europeizadas.
«Reformar sem Medo», acusa decepções, ineficiências e, sobretudo, crítica a troika, os lóbis, o “país que venera formalismos” e Paulo Portas: «Se há algo que me orgulho de ter feito durante a minha governação foi a luta contra os lóbis e os interesses instalados. Sei que sou suspeito, mas penso que na nossa democracia não há muitos exemplos de Ministérios da Economia tão independentes como o nosso foi (…) Os lóbis nunca tiveram a minha simpatia. Os aparelhistas partidários também não. No meu Ministério os lóbis ficaram à porta. E os aparelhistas nunca encontraram na nossa equipa quem lhes desse ouvidos» (p. 223) – exame de contrição em louvor próprio, para depois desferir algumas alfinetadas a Paulo Portas: «Neste sentido, um colega do Governo disse-me uma vez que havia a percepção de que as coisas não andavam bem no Ministério da Economia e do Emprego. Perguntei que coisas eram essas. As reformas? Não disse ele, as reformas estavam a ser feitas e até tínhamos feito um bom trabalho. Os cortes das rendas e o combate aos interesses instalados? Não, isso nós também tínhamos feito. A reforma do Estado no que dizia respeito ao Ministério e a reestruturação das empresas públicas? Não, isso também foi alcançado e bem, respondeu-me. Então, o que é que falta?, perguntei. “Sabes”, respondeu ele, “o partido queixa-se que as nomeações nunca mais arrancam, que vocês demoram muito a substituir os socialistas que lá estão.” Foi aí que eu percebi (ou, melhor, confirmei) que a alegada ineficiência do meu Ministério estava na “demora” em nomear os correligionários dos partidos para os cargos existentes nas diferentes empresas públicas e instituto…» (p. 50). O homem do “irrevogável”, aquele que há muitos anos, aquando director do “Independente”, abominava política e políticos, mantinha a mesma serenidade e a mesma “lata” dos “aparelhistas” partidários, na procura de darem emprego a tanta gente cujo único mérito era (e é) o cartão de militante. Daí, não estranharmos o bater da porta do – até aqui líder da concelhia centrista em Viana do Castelo – nosso particular amigo Carlos Meira.
Agora começamos a entender o porquê do nosso livro «Baliza trágica de um naufrágio» ter vários engulhos no seio do corporativismo instalado, o que tem dificultado a sua aceitação nos “aparelhos” editoriais. Há muita coisa por explicar e os “aparelhistas” movimentam-se no sentido de silenciarem quem não alinha no mercantilismo das “consciências aparelhadas”, contrário ao pensamento de Pascal, quando afirma que «a consciência é o melhor livro de moral e o que menos se consulta».
         Até quando democracias assim condimentadas? A pergunta fica no ar!

Friday, December 05, 2014

O «Corpo» e a alma apaziguada de Célia Meira!...

«Nunca estejas completamente desocupado; lê ou escreve, reza ou medita, ou faz qualquer coisa de útil para a comunidade.»

T. Kempis

CORPO, objecto tangível que muitos dizem opor-se ao espírito, à alma. O conhecimento geral da natureza corporal data da distinção da natureza e do mito no pensamento dos pré-socráticos. Leucipo chegou mesmo a afirmar que «o universo está ao mesmo tempo vazio e cheio de corpos». Contudo, e por outro lado, há quem afirme que a distinção radical da «substância pensante» e da «substância extensa», abrindo a possibilidade de um pensamento puramente objectivo da natureza corporal, sublinha por outro lado a heterogeneidade da alma e do corpo. Para Descartes, por exemplo, a essência da matéria que se manifesta sob a forma de corpos, reside na extensão: «A natureza da matéria, ou do corpo tomado em geral, não consiste no facto de ser uma coisa dura ou com peso, ou colorida, ou que toca os nossos sentidos de uma outra forma, mas somente em que é uma substância que se estende em comprimento, largura e profundidade» – citamos do “Princípios da Filosofia”.
Mas, o que nos traz aqui hoje é o CORPO na sua verdadeira existência, como o corpo que somos, e não o corpo que temos, totalidade indivisa, que caracteriza o nosso ser no mundo… O CORPO, sujeito, em Célia Meira, nascida em Deão, Viana do Castelo, a 19 de Abril de 1982, jovem formada em engenharia civil pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e a desempenhar actualmente funções no Controlo de Qualidade em obra. Editou o seu primeiro brado poético, «poesia das letras», em 2012.


Já por várias vezes afirmamos que nunca foi nosso propósito (nem a tal nos atreveríamos) comentar ou explicar poesia, dado que nem uma coisa nem outra se coadunam com o nosso princípio estético da arte e da literatura pelo gosto. Ao desafio lançado pelo bom amigo Gonçalo Fagundes Meira, em apresentarmos o mais recente brado poético da jovem Célia Meira, CORPO, que diz sentir o bichinho das palavras desde que se lembra de si e é na escrita que se encontra, teremos de confessar que sentimos algum receio em permitirmo-nos percorrer tão lentamente este mesmo brado, chamado CORPO, precisamente na dúvida de não estarmos à altura de percorrê-lo “tão lentamente, que o tempo parece pairar…”. Mas como só os fracos não aceitam desafios, resolvemos alinhar no contraditório da distinção radical da «substância pensante» e da «substância extensa», abrindo assim a possibilidade do pensamento puramente objectivo da conciliação, «união substancial» em Descartes. Daí, naquela tarde de 29 de Novembro último, com Célia Meira, termos aceite tal desafio, percorrendo o CORPO “tão lentamente, que o tempo parece pairar…”.
Ouvimos dizer tantas vezes que não é poeta quem quer, mas quem pensa, sente e vive. E a nosso modesto ver, Célia Meira reúne estes três requisitos, porque valoriza o SER existencial: «Piso terra solta, / Piso rocha, piso mar… / O corpo a balançar, / Espírito que navega / E a alma a flutuar! / Sou eu, sou outra…» (p. 13). Neste CORPO poético perpassamos pela Terra em pose imaterial, transfigurando-nos; sentimos o desmoronar de um presente que já foi passado; o coser com afinco «um simples pano amarrotado, / Que carrega agora a dor ao peito / E o meu coração bordado!» (p. 17), numa alusão ao lenço dos namorados; cartas escritas, onde não se sente o receio de escaparem as palavras ou a caneta ficar sem tinta; a incongruência do racional: «Esta incongruência do racional / Que me faz ser só animal / Faz-me bem… / Faz-me tão mal…» (p. 21); o sentir do Alentejo, no calor do silêncio e onde o sol imerso deixa o corpo repousar; regressos que jamais virão e onde pairam olhos de segredo e medo; encontramos expressões matemáticas com letras do poeta, «sem sentido rebuscado / Só lógica aritmética… / Sem significados dúbios / Ou pontuação desordenada, / Somo letras do poeta / Em conclusão desconcertada…» (p. 27); encruzilhadas do destino, onde só a vontade do poeta domina; o negrume do escurecer; o desejo do «corpo em flamejo / Do teu corpo em mim…» (p. 43); a necessidade do estar, intocável, acreditando no acontecer do amor.


Neste “celiano” CORPO poético há ainda memórias; irritações a estados de complacência «em que ocultamos quem somos, / Julgando-nos tão só pela aparência / agindo pelos outros…» (p. 49); formas de ser livre quanto refém de si mesmo; inevitáveis ilusões, condimentadas pelo Amor «que em frémito se dispam os nossos corpos…» (p. 57); ser sem o outro aquém de si próprio; soma de erros e incertezas, subtracção de medos, multiplicação de decisões, divisão de segredos, redundando «Em valor absoluto… / na incógnita do limite do infinito!» (p. 63); prelúdios de dores anunciadas, até que as mesmas adormeçam; cheiro de café no ar; perfume de promessas; pratos e espelhos partidos; tinta da caneta que ensurdece a mão e música que emudece o papel; coração assoberbado em corpo despedaçado: «O choro degola o papel / No silêncio revolto da pele…» (p. 71); dores no olhar, inspirando avidamente o medo; horas que ditam o fim; nada ter para além do pensar: «E o meu coração já era teu / Antes de to querer dar…» (p. 85)     
E poder-se-á perguntar, quem é Célia Meira? Ela mesmo responde: «Não sou voz nem fado, / Nem trago arrependimento / Sou um som cantado / Em silêncio cimento… (…) Não sou bem nem mal / Nem palavra catalogada / Sou só animal e alma apaziguada…» (p. 83). E por aqui nos ficamos, por forma a não condicionarmos a livre interpretação dos potenciais leitores de Célia Meira.
Parabéns Célia Meira! Continua na senda do teu amor livre, porque como propriamente dizes: «É vontade, é querer, / É partilha e felicidade / É vaidade e orgulho, / É saudade…» (p.87).
        Gostamos do que lemos, e isso nos bastou!

Friday, November 28, 2014

Viajando das «Outonias» aos «Poemas Tardios» com Domingos da Calçada!...

«Em “Outonias”, obra de poesia, publicada já no distante ano de 1988, Domingos da Calçada não se desterra da paisagem onde levanta o seu memorial, que é a sua aldeia-presépio de Durrães, rincão edénico onde se fez homem e poeta, do qual vive uma saudade antessentida e sofrida…»

Fernando Pinheiro

Já aqui uma vez escrevemos (Junho de 2013), a propósito de uma magnífica obra intitulada “Gente do Vale”, obra que premiaria a importância e a preponderância memorialista de Domingos da Calçada, um dos maiores – senão o maior – contistas que conhecemos até à presente data. Afirmamo-lo, na altura, com tal convicção, que não tememos a rotulação de uma presumível leviandade, que alguém nos pudesse imputar – tal a nossa estética convicção, da arte e literatura pelo gosto –, dado que já conhecemos os seus escritos há mais de trinta anos a esta parte, contextualmente tomada em boa conta, aquando da saída da obra de grande fôlego «Vale do Neiva: Subsídios monográficos» (1982), hoje uma raridade bibliográfica, onde Domingos da Calçada deixaria impressos seis magníficos trabalhos e um soneto. Esse soneto, qual “Senhor do Lírio” (…Agora, brilha ali bem mais escura / a luz que se desprende lá da altura / contra a muralha – ultraje do martírio / que dum recanto puro, abençoado, / sujou da mancha odiosa dum pecado / sem reparar, contra o Senhor do Lírio.) fazia antever a sensibilidade e a alma “Mater” de um poeta que, respirando, vivendo e sentindo, no dizer de Fernando Pinheiro, a sua “aldeia-presépio” de Durrães: Adoro-te, cantinho onde nasci, / jardim de virgens flores perfumadas, / sacrário aonde guardo as mais sagradas / recordações das horas que vivi! – citamos de «Outonias», p. 39, nos propõe em fazer desfilar “diante de nós na sua castiça espontaneidade, tão próprio do minhoto, e preenchem as suas cantantes parlengas com preciosos localismos que enchem a alma a quem gosta de ser seduzido pelas novidades semânticas e pela fantasia da linguagem”, paráfrase arrancada à nota introdutória ao brado poético «Poemas Tardios», magnanimamente assinada por Fernando Pinheiro, e com a qual corroboramos inteiramente.
Domingos da Calçada, pseudónimo literário – quiçá, de guerra – de Domingos de Castro Barbosa Maciel, nascido em Durrães, Barcelos, a 18 de Fevereiro de 1931, foi publicamente homenageado, em 4 de Julho do corrente ano, por altura da XXXII Feira do Livro de Barcelos, pela edilidade barcelense, na pessoa do seu presidente Miguel Costa Gomes, com o Grau Prata, Medalha de Mérito Cultural. Nesse mesmo dia, com a anuência da «Tertúlia Barcelense», foi dada à estampa «Poemas Tardios», pérola da poética regional, porque genuína, perfeita, sentida e saída do espelho da alma. Em segredo, numa cumplicidade assumida com o amigo comum, Mota Leite, já o havíamos lido em «Outonias» (conteúdo que, face à raridade, seria por nós fotocopiado e delicadamente encadernado). «Poemas Tardios», com dedicatória a preceito, ainda que exagerada nas suas deferentes considerações, admiração e estima, acaba por confirmar a nossa percepção, da elevadíssima dimensão de carácter, nobreza, humanismo e sensibilidade criativa em Domingos da Calçada: «Nascer Filho d’Algo ou pobre / que mais tem? Entendo eu / que na falta de Alma Nobre / até o mais nobre é plebeu…», porque «Há palácios brasonados / a atestar, na fidalguia / de ancestrais antepassados, / a mais torpe vilania.» – Verdade cirúrgica, ajustada à nossa condição de virmos todos ao mundo «à sombra do mesmo Fado: / – ladrão nobre, é porco imundo, / pobre sério, é Nobre e Honrado!» (p. 41).


«Poemas Tardios» é um magnífico livro de poesia, escrito por um não menos magnífico poeta – sim, não é poeta quem quer… –, porque, à boa maneira aristotélica, “encontra-se na epopeia e na tragédia e também na comédia e no ditirambo, bem como em grande parte na música da flauta e da cítara” (1441a 13-16): «Orgulho da minha Raça, / o Doce Rio, ao passar, / dando um ar da sua graça / nunca deixa de entoar / melodias de encantar, / como não consigo ouvir / em qualquer outro lugar / pois, este Rio, ao passar / no seu manso deslizar, / incapaz de se calar…» (p. 11), ou “realiza-se pelo ritmo, pela linguagem e pela melodia”, parecendo que «Poesia é virgindade, grito, anseio / de quem nasceu com alma inconformista / e grava doloroso historial, / burilando palavras escolhidas / e muito raramente compreendidas, / para compor estrofes / que são pedaços d’alma, a ressoar / em gritos de mudez interior / cristalizados no poema…» (p. 14) – simplesmente, sublime. Aqui, nestes «Poemas Tardios», a nosso modesto ver, não há temporalidades, porque da cinza reacendem-se primaveras, denunciando-se, ao mesmo tempo, falsos moralismos e hipocrisias, esses sim, intemporais: «Conheço ilustres senhores / que com toda a hipocrisia / se tornaram ditadores / a pregar democracia. / Há quem chame democratas / aos palhaços palradores, / que simulam as bravatas / engodando os eleitores…» (p. 26). E o Pavão expedito, que passa «a espenujar com jactância / o seu brio da distância / entre o zero e o infinito!» (p. 31), condimentado com o “cão rafeiro”, “camaleões” em trasmuda, “zaganeiros” (ratos enormes) de proa «da ladina rataria, / foram parar a Lisboa / aos cargos de Alta chefia.» (p. 36), e pessoas «em vaidosa presunção, / valem menos que a postura / ou a sombra do meu Cão / e, pensando nessa gente / embusteira, que conheço, / aumento ainda o apreço / pelo meu Cão da corrente!» (p. 37).
E porque seria despropositada a nossa suposta presunção de deambularmos de uma forma minuciosa pelo conteúdo desta maravilhosa poética, e porque achamos que a poesia não se explica (alheado ao facto de que não se pode inventar, o que inventado está), terminaremos citando o escritor-poeta e editor Fernando Pinheiro: “Ao longo de décadas, Domingos da Calçada foi coligindo histórias ouvidas directamente da boca do povo, para as fixar num registo literário que ultrapassa o plano da ficção propriamente dita, mercê do realismo com que estão impregnadas as personagens, as situações relatadas, os locais descritos. Quer isto dizer que a realidade não precisou de ser inventada, porque ela vive e permanece nas páginas das obras de Domingos da Calçada, e a sua representação simbólica permite ao leitor um emocionante com a experiência histórica de um povo que contra ventos e marés sofreu a canga da exploração, combateu as injustiças e lutou pelo seu progresso”. Subscrevemos inteiramente: «Da panóplia dos punhais / a embeber-me o coração / penetram muitos mais / os da pérfida traição!» (p. 38), sumula comportamental de uns tantos “Escariotes”, que “remordem de inveja / por eu ser quem quero ser / e não quem querem que eu seja!”. Assim é o saudável AREJO de Domingos da Calçada, escritor-cronista e poeta do Vale do Neiva, mas cidadão do aquém e além-mundo: «Ninguém como um poeta, sentirá / nos voos d’alma para além do aquém, / que o sonho vive lá, na zona etérea / e, para aquém do além, tudo é matéria» (p. 15). Matéria-prima, de alto quilate, diremos nós!   
          NOTA MÁXIMA!

Friday, November 21, 2014

«Biografia involuntária dos amantes», a procura do “Outro” em João Tordo!...

«Talvez João Tordo seja um escritor existencial, já que esta antiga palavra engloba simultaneamente os aspectos espirituais, sociais e materiais da realidade…»

Miguel Real

Recorrente da brilhante iniciativa da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, «À conversa com…», de trazer até nós um dos escritores portugueses (a par de outros, mas muito poucos…) com quem mais nos identificamos, João Tordo, eis que damos conta da nossa habitual empatia por tudo o que escreve, deixando-nos seduzir, mais uma (e desta) vez, pelo seu último romance «Biografia involuntária dos amantes».


Para os menos atentos, convenhamos em lembrar que João Tordo, aliado ao facto da circunstancial consanguinidade, por ser filho do cantor Fernando Tordo (sem que isso possa constituir qualquer tipo de condicionante ou sombra à sua excepcional e nata criatividade), nasceu na cidade das sete colinas, Olisipo de Tagus, em 28 de Agosto de 1975. Formou-se em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou como freelancer em vários jornais. Estudou Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e Nova Iorque, onde viveu intensamente e cultivou a sua “memória selectiva”, como costuma dizer.  Foi vencedor do Prémio José Saramago 2009 com o romance «As Três Vidas» (2008) depois de, em 2001, ter vencido o prémio Jovens Criadores na categoria de Literatura. Foi finalista do prémio Melhor Livro de Ficção Narrativa da Sociedade Portuguesa de Autores em 2011 com o romance «O Bom Inverno» (2010), do Prémio Portugal Telecom 2011 com «As Três Vidas», publicado no Brasil, e ainda do Prémio Fernando Namora com «Anatomia dos Mártires». Trabalha como cronista, tradutor, formador em workshops de ficção dedicados à Escrita Criativa e ao Romance, e guionista, onde participou em várias séries de televisão, incluindo «O Segredo de Miguel Zuzarte» (RTP), «4» (RTP) e «Liberdade XXI» (RTP). Para além de ter participação em diversas antologias literárias, publicou sete romances, alguns dos quais estão traduzidos em diversos países, nomeadamente em França, Itália, Brasil, Sérvia e Croácia: «O Livro dos Homens Sem Luz» (2004), «Hotel Memória» (2007), «As Três Vidas» (2009), «O Bom Inverno» (2010), «Anatomia dos Mártires» (2011), «O Ano Sabático» (2013) e, finalmente, «Biografia involuntária dos amantes» (2014), livro esse que serviu de mote a mais dedos de conversa, na última sexta-feira, 14 de Novembro do corrente ano.


Em «Biografia involuntária dos amantes», tudo começa numa estrada (AP-9) adormecida da Galiza, onde dois homens atropelam um javali: Mas o animal atravessou-se no nosso caminho, correu para o desastre e destruiu o pára-choques do carro, projectando fragmentos de si próprio, satélites desgovernados em torno de dois sóis que eram as luzes dianteiras. O focinho bifurcado do mamífero explodiu de sangue… (p.13). “A visão do animal morto na estrada levará um deles — Saldaña Paris, um jovem poeta mexicano de olhos azuis inquietos — a puxar o primeiro fio do novelo da sua vida. Instigado pelas confissões desconjuntadas do poeta, o seu companheiro de viagem — um professor universitário divorciado — irá tentar descobrir o que está por trás da persistente melancolia de Saldaña Paris. A viagem de descoberta começa com a leitura de um manuscrito da autoria da ex-mulher do mexicano, Teresa, que morreu há pouco tempo e marcou a vida do poeta como um ferro em brasa. O narrador não poderia adivinhar (porque nunca podemos saber as verdadeiras consequências dos nossos actos) que a leitura desse manuscrito teria o mesmo efeito sobre a sua vida. As páginas escritas por Teresa revelam a sua adolescência no seio de uma família portuguesa contaminada pela desilusão: um pai ausente e alcoólico, um tio aventureiro e misterioso, uma mãe demasiado protectora” – podemos ler em sinopse.
João Tordo, é a primeira vez que tem uma narradora no feminino – Chamo-me Teresa de Sousa Inútil. O segundo apelido é inventado. Esta história que vou contar é sobre o meu tio e é também sobre mim, embora os narradores muitas vezes se escondem por trás de outras pessoas, como Alice se escondeu por trás de um espelho (p. 109) –, o que, na nossa modesta opinião, se reflecte numa tentativa do autor em passar para o outro lado do espelho, por forma a ultrapassar a dificuldade em compreender o ser humano do ponto de vista masculino. E é o próprio João Tordo que nos revela esse mesmo inquietante desafio, quando, numa entrevista a Luís Ricardo Duarte (JL), imprimiu o lado feminino, ao sentir uma grande intimidade com a Teresa: “A prosa engrenou (…). Há até alguns pormenores que saltam à vista. Essa parte tem uma linguagem diferente, uma cadência mais pausada, outra pontuação…” – corroboramos com as palavras do autor, porque foi isso que sentimos. Mesmo permitindo-se a correr riscos, João Tordo – quiçá, o Jaime de Teresa (Sei que o olhei com a certeza de que aquele rapaz gago, tímido e desajeitado seria o meu único amor verdadeiro. Nenhum de nós, até àquele dia, sequer provara uma cerveja ou um beijo) – arriscou em sair da sua zona de conforto. Intimidades femininas, são sempre intimidades femininas: A única pessoa a quem contei que o meu pai aparecera na televisão e no jornal foi a Julieta, a primeira rapariga da nossa turma a quem apareceu a menstruação. Na altura, era a minha única amiga. Eu detestava as raparigas. Odiava os risinhos de escárnio, desprezava os grupinhos, evitava as conversas no balneário do ginásio. No primeiro ano naquela escola, uma das nossas colegas descobriu um penso higiénico na mochila da Julieta (p. 121), em tempos em que se cheirava a pastilhas Gorila, a tabaco, a after-shave, a suor, a ranço, “a sexo (alguns cheiravam a sexo) e, pior do que todas essas coisas, a perfume”.  
“A vida adulta”, “o manuscrito de Bríon”, “o tempo peleja contra os seus lírios e as suas rosas”, “dezoito” – Guardei o manuscrito numa gaveta do quarto de Andrea e prometi não voltar a tocar-lhe. Supersticiosamente, tapei-o com a roupa de infância da minha filha, como se assim pudesse estancar o mal que aquelas páginas tinham feito (p. 225) –, “o eco dos fantasmas no papel”, “o grito dos velhos terrores”, e “a sombra dos nossos passos”, são percursos (capitulares), desvelando o passado, para que este não contamine irremediavelmente o futuro. A nosso ver, à semelhança do «Ano Sabático», João Tordo tenta perceber até que ponto é possível colocar-se no lugar do “Outro”, através de lugares e emoções comuns a qualquer um de nós. No fundo, uma viagem “filosófica”, onde “continuamos a procurar um sentido para as coisas; quão longa essa quimera, quão árduo esse caminho em busca de uma resposta. Talvez essa resposta seja como no sonho de Saldaña Paris: um lugar em que se flutua. Sim, é possível que seja isto: uma incógnita ou um sem-número de possibilidades, todas inatingíveis; a tal sístole poderosa que nos esmaga e depois nos dispara em todas as direcções até aos confins do espaço” (p. 415). Aqui fica o convite: «Agora entramos». Sim, a entrarem na «Biografia involuntária dos amantes», dado que há muito mais para revelar.
Um autor que se recomenda.  
         NOTA MÁXIMA!

Saturday, November 15, 2014

«Escritas desencarceradas» de Orlando Ferreira Barros!...

«…As macieiras da sua infância, ali mesmo à beirinha de casa, germinavam no silêncio retraído de um pomar abandonado, meio selvagem, dono sem-dono.»

Orlando Ferreira Barros

Tarde de 8 de Novembro (sábado), tarde profundamente emocional, a vivida na Sala Couto Viana da Biblioteca Pública Municipal de Viana do Castelo, com a grande responsabilidade, ainda que imerecida, de apresentarmos as quatro primeiras «Escritas desencarceradas» do excelso escritor vianense – porque, apesar de ter nascido em Leiria (1942), em 1969 emprenha-se de Viana do Castelo, onde, neste momento, acha que daqui nunca saiu. Vive feliz, na fronteira Meadela/Perre (numa solidão acompanhada), com a família e mais duas canadianas que juraram nunca abandoná-lo (as juras, mesmo as de amor, são para se cumprir) – ORLANDO FERREIRA BARROS: "Mater", "O Pedido da Velha Messalina", "O Delito de Octávio Bernardes" e "Visto-me para Desafiá-los".
Foi mais um dia em que preenchemos o espaço vazio, como vazia será a nossa vida sem os livros e a memória daqueles que, apesar de viverem noutras Galáxias, foram ali recordados pelo bom amigo Orlando Ferreira Barros, através da sua escrita e da sua memória (solum moritur homo qui oblitus est). Este SENHOR HOMEM, inspiração nossa em Marlene Ferraz e na titular comenda à inglesa, apanha as primeiras palmatoadas, aos seis anos de idade, por escrever “tecto” sem “c” e Primavera com minúscula; é chamado à polícia, em 1959, por causa dos seus textos da récita de finalistas; vai estudar para Lisboa em 1960 e, no ano seguinte, apaixona-se irremediavelmente (tal como a Espanca); em 1962 participa nas manifes universitárias e é preso com o Medeiros Ferreira e o “Cenoura” (Mais tarde veio a ser conhecido como Jorge Sampaio); em 1969 vem para Viana do Castelo; em 1972 nasce a sua filha loira; em 1973 começa a escrever a sério e recebe o seu primeiro prémio literário: Teatro Universitário do Porto; em 1988 nasce a sua filha morena; em 2010 deixou de ver os canais portugueses de TV; em 2011 nasce o seu neto macho; em 2012 nasce a sua neta fêmea; em 2013 fez as contas e somou seis prémios literários; em 2014 ganhou mais um prémio (vindo de além Atlântico) e continua a escrever, o que lhe dá sentido a vida; em 2026, segundo a previsão de uma cigana decifradora das linhas enigmáticas da palma da mão, parte para outra galáxia, lúcido e satisfeito porque a vida mereceu ser vivida.


Apesar de nos sentirmos demasiadamente pequeninos para falarmos deste grande escritor nosso, Orlando Ferreira Barros, quais vistinhas coladas “no duplo espelho para sentir a picada de asco contra mim próprio”, foi com o maior orgulho que resolvemos não resistir à “remordida maquinação”, potenciada por esse mesmo espelho, quando o bom amigo e MESTRE Orlando, no sentido escolástico de peripatéticos que somos, entendeu dar oportunidade a Miranda Rebôlo, aquele que (segundo um iluminado, erudito, cá do burgo de Atrium) escreve melhor que nós, para desencarcerar escritas suas em Mater poesia, a pedido da Velha Messalina, causa-efeito (suporte de transformação e transmissão de movimento) do Delito de Octávio Bernardes, onde irei Vestir-me para desafiá-los, naquele momento, não a estarem presentes, dado que já lá estavam, mas para partilharmos o pensamento, não entregues a nós próprios, dado que depressa descobriríamos a inanidade e a vaidade da existência, num mundo em que Orlando acredita que «ainda há livros e versos / a marginar a solidão da tua ausência / ainda há estragos, inquietações / a roer a pele dos deserdados…», memorial poético a recordar o eterno Fernando Canedo, a viver numa outra Galáxia.
Foi de Orlando Ferreira Barros, a viver feliz em Viana do Castelo, que naquela maravilhosa tarde de sábado, a pedido da Velha Messalina, também resolvemos sentarmo-nos naquelas cadeiras, até ali vazias, da Sala Couto Viana chique, coroada de odores dulcificados, pedindo num murmúrio arrastado de brandura treinada nos dias anteriores (os que antecederam aquele acto solene), uma maçã “porta da loja”, fruta portuguesíssima, rural e valente, desdenhadora de sulfatagens e químicas envenenadoras, descascada e cozida. Foi assim que nos sentimos naquele dia.
É evidente que, nesse mesmo dia, não aceitamos aquele desafio para explicar os conteúdos das primeiras quatro «Escritas desencarceradas», encarceradas, circunstancialmente, numa artesanal caixinha, à espera de outras tantas escritas desencarceradas, até preencherem o espaço vazio, como vazia será a nossa vida sem os livros e a memória daqueles que, apesar de viverem noutras Galáxias, foram ali recordados pelo bom amigo e excelso escritor, Orlando Ferreira Barros: sua mãe Edmeia, onde «todo o tempo é de amor maternal / desde o cintilar do dia / até à chegada do temporal…»; Mestre Pinto, «Meu irmão, mestre, meu amigo, / bravejando com a emoção / dos inquietos e dos convictos…»; Eduardo Freitas (Para tão longo esplendor tão curta vida), «Este mundo é tão grande, Eduardo, / mas não sabe / das ondas do mar…»; Fernando Canedo, onde «ainda há o teu paciente deslizar / a pé, pelos ingratos atalhos do saber…»; Lucilo Valdez, onde «sozinho no escuro, sem medo / como herói desgarrado, aguerrido, / que se ergue do mortal degredo / renovado e moço…»; Pedro Fins, «Se eu morrer antes de ti, / Pedro, / vou sentir na imperfeição da tua ausência / o outono a escurecer...»; A Taberna da Espanhola, na rua do Vilarinho, onde se soltam «eferreás alcoólicos, embriagados / da boca da estudantada, vozearia sem nexo, / um casal de jovens levanta-se, adormentado, / vai-se aliviar no único wc, tipo unissexo…»; e, finalmente, quem não se lembra do Toca Tone, sob a inspiração poética de Eugénio Monteverde, «Esse castiço vianês? / Com concertina-trombone / Fez-nos vibrar tanta vez / A concertina tão velhinha / Já sem rés, fás, mis, dós / Dava o pouco que tinha / Mas ele ajudava com a voz…». De facto, Orlando Ferreira Barros faz-nos sentir que “continuamos vivos, aqui ou numa Galáxia”.
E mais não nos apraz dizer, sem que antes vos apele ao contraditório do delito de Octávio Bernardes «quando o brado rasgou o silêncio duro da sala de aula, sentimo-nos atravessados por um terror sísmico. Nas carteiras, mais cagados que poleiro de galinhas, percebemos o lobo a farejar a vítima»… Não, Orlando Ferreira Barros nunca teve necessidade de se pirar daqui, porque aqui pensa, escreve e vive feliz.
        NOTA MÁXIMA! 

Saturday, November 08, 2014

«O Tempo Morto é um Bom Lugar» com Manuel Jorge Marmelo!...

«…Ainda que não me veja muito conveniente remexer neste assunto, acabei por perder algum do meu precioso tempo morto a cogitar a possibilidade de algum dos meus agiotas ser impiedoso e cruel ao ponto de ter assassinado Soraya.»

Manuel Jorge Marmelo

À conversa com… é uma iniciativa da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, que visa promover, em torno do livro, o diálogo e a troca de conhecimentos com escritores contemporâneos, proporcionando a oportunidade de conviver de perto com os autores e a sua obra. Com a mesma iniciativa, que embrionariamente remonta a Outubro de 2009, cujo primeiro convidado foi o escritor angolano Luandino Vieira, pretende-se que seja um espaço de incentivo à leitura, de divulgação das obras dos autores da actualidade, de promoção da cultura e do conhecimento, e, sobretudo, de interacção entre o público leitor e os escritores.
Na última sexta-feira, 31 de Outubro, dia em que se prestou uma singela homenagem ao Professor José Bento (1951-2014), membro do Clube de Leitura da mesma Biblioteca Municipal, e que nos deixou órfãos no corrente ano – «À volta da mesa seremos sempre dezoito», numa alusão clara à memória de José Bento, como um dos dezoito membros do Clube de Leitura, num texto escrito e lido por Carlos Ponte: (…) E quando a fome e o cansaço nos vencerem, sentámo-nos à mesa. E no fim, os dezoito, porque à volta da mesa seremos sempre dezoito, de pé, com o melhor vinho ribeiro das fráguas galegas, brindaremos à amizade que nos une, à vida e aos livros –, o convidado foi o escritor Manuel Jorge Marmelo, nascido na cidade do Porto em 1971. Jornalista deste 1989, estreou-se na literatura em 1996, com o livro «O Homem Que Julgou Morrer de Amor». Com mais de vinte títulos publicados, a sua criatividade literária passa pelos romances, crónicas, livros infantis e contos. Conquistou, em 2005, o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco com o livro «O Silêncio de um Homem Só» e, no corrente ano (2014), foi galardoado com Prémio Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa, pelo romance «Uma Mentira Mil Vezes Repetida». Manuel Jorge Marmelo tem participado em várias publicações e antologias, e, desde Julho de 2001, o seu nome consta do “Dicionário de Personalidades Portuenses do Século XX”, da Porto Editora, sendo o mais jovem dos nomes biografados.


Naquele dia, o mote para dois dedos de conversa foi o seu mais recente romance «O Tempo Morto é Um Bom Lugar» onde, segundo a crítica, se misturam vários géneros literários, desde o policial à autobiografia, rejeitando-se uma ligação umbilical a qualquer um deles. É um livro feito de pontas soltas, dividido em três partes, onde o leitor tem o papel decisivo de deslindar os mistérios que surgem nas suas páginas e que são, felizmente, muitos.
Sem nos enredarmos em grandes considerações crítico-literárias, dado que não é esse o nosso propósito, apenas diremos que o trama deste extraordinário livro gira à volta de Herculano Vermelho, um jornalista desempregado que um dia acorda ao lado do cadáver de Soraya, «uma inquietação com pernas» e estrela televisiva de um qualquer reality show, de quem aceitou tornar-se ghost writer para escrever uma autobiografia. Herculano não tem memória de nada, mas entrega-se à polícia como se a ida para a prisão fosse um desígnio pessoal a cumprir, vivendo o tempo morto da prisão com uma grande dose de alegria, num lugar onde não há contas para pagar, não existem apresentações periódicas obrigatórias no centro de emprego e não se sentem pressões de qualquer espécie de uma ex-mulher que, ainda assim, sempre mostrou ter paciência de santa. É ele – será mesmo? – que nos conta, na primeira pessoa, o primeiro andamento do livro: Antes de ter ficado desempregado não costumava lembrar-me do que acontecia nos sonhos, ou então, é o mais certo, tinha outras coisas em que pensar e acabava por esquecê-los sem lhes atribuir qualquer importância (p. 45) …Egoísta e indiferente a quase tudo, assalta-me frequentemente a ideia, agora não tão absurda quanto isso, de que posso transformar-me – enquanto envelheço, ou quando sair da prisão, que não há-de durar para sempre – numa daquelas pessoas que morrem solitárias e rodeadas apenas pelo silêncio dos seus gatos (p. 49). É na prisão que a sua avaliação psiquiátrica é inconclusiva e que conclui que o país está endividado e dependente de ajuda externa para pagar as quantias absurdas de fundos públicos, transferidos para os bolsos de empresas, consórcios e fundações assessoradas por advogados e economistas, messias que nos garantiam estar a agir no melhor interesse dos cidadãos. É este o recluso que se sente incapaz de reconstruir o fio das conversas com a Soraya, numa dicotomia entre a memória e a imaginação, com noites de atormentadas insónias, impressas a giz no quadro negro de lousa ou a esferográfica Bic: Quando durmo mal, o que acontece quase sempre, desperto muito cedo no silêncio duro da minha cela e fico a lembrar-me da crioulinha (p. 65). Um paralelo entre o desempregado e o presidiário? – uma interrogação que colocamos, a pretexto de eventuais detectáveis alegorias filosóficas.


A segunda parte é a surpreendente autobiografia de Soraya, um relato fantasmagórico de um narrador não identificado, que nos conta a breve história de ascensão e queda de uma linda mulher que, por detrás de um belo corpinho, esconde muito mais do que a aparente futilidade: Todas as minhas recordações de infância são imprecisas. Nelas a terra tem um tom entre o castanho e o cinzento, áspero, que se infiltra e contamina as memórias que me restam. Tudo o que me lembro está submerso no sépia suave daquele pó de ilha nua (p. 140); Estar na televisão assemelha-se a mudar de país (p. 143); Agora que penso nisso, é irónico que a Maria tenha sido a única a quem a escola serviu para alguma coisa. Tirou o curso de advogada e tem um emprego num banco (p. 147) – sentido estético de uma ironia refinada, que Manuel Jorge Marmelo nos leva a uma escrita criativa da mais apurada mestria, onde, no dizer de Ana Dias Ferreira, se pressentem jogos literários e artifícios que permitem elevar tudo acima da mundanidade: Máscara por cima de máscara, até à terceira parte em que se desmonta tudo, Manuel Jorge Marmelo constrói um romance que dinamita a noção de verdade e que confirma: nem ele é um fantasma sem voz própria, nem o prémio atribuído nas Correntes d'Escritas foi uma aparição.
De facto, a terceira parte pertence a João António Abelha, um jornalista veterano que, um ano depois da morte de Soraya e com as montras repletas de exemplares de “O Segredo de Soraya”, decide investigar por conta própria quem terá sido o autor da fotografia da capa e, em última instância, quem será, afinal, o autor do próprio livro: A seguir, e sem que isso tenha surpreendido minimamente João António Abelha, Soraya e Naninha fundiram-se num só corpo no momento em que iam cruzar-se no centro do ringue, dando origem a uma única mulher muito bela e doce, um pouco tímida, que vestia um fato de banho quase infantil, preto e estampado com cerejas (p. 274-275). E por aqui nos ficamos… O resto, é com os necessários e/ou hipotéticos leitores de Manuel Jorge Marmelo. Um autor que se recomenda.

NOTA MÁXIMA!