Friday, October 09, 2015

Exposição de escultura e fotografia “in memoriam” de José Dantas!...

«Durante anos atravessou a vida com as esculturas às costas, num saco de vagabundo ou de poeta, mostrando-as em qualquer parte onde houvesse alguém para ver, nos sítios que eram seus…»

Vítor Silva Barros

Apesar de não termos conhecido pessoalmente o artista limiano José Manuel Dantas de Melo (1 de Julho de 1948 – 13 de Fevereiro de 1975), vulgo Zé Micamé, dado o seu prematuro passamento, sempre ouvimos da boca daqueles que lhe eram mais próximos que “a sua compleição física, aliada a um temperamento rebelde, faziam dele um líder que todos aceitavam”. E, para além disso, tinha a elevada particularidade de, ainda que autodidacta, ser Artista.


Dado o facto de não o termos conhecido pessoalmente, e por forma a interiorizarmos o dicotómico “objecto ético-estético”, servimo-nos de um pequeno apontamento que, circunstancialmente, abrilhanta o pequeno prospecto (catálogo) da magnífica exposição que tem estado patente na Torre da Cadeia Velha, Ponte de Lima, de 4 de Setembro até 2 de Outubro: …Gostava dos pequenos, dos mais desprotegidos, das crianças, dos mendigos e até dos animais. / Não tinha medo de nada. Tratava o rio, as ruas e praças por tu, enfrentava a “Vaca Cordas” como se o touro fosse um bezerro. / Crescemos a admirar esse misto de generosidade e destemor. A liberdade que sempre sonhou tinha expressão na permanente inquietação. Lugares fechados e rigores de mestres não o faziam feliz. / O caminho que escolheu iluminou os melhores anos da sua curta existência. A arte e a liberdade chegaram quase ao mesmo tempo. / Na escultura pôde expressar o que lhe ia na alma e por lá encontrou formas de comunicar até aí impossíveis. Depois veio a fotografia. / Retratou tudo o que gostava e mais o que necessitava para sobreviver. Deixou a marca do seu enorme talento nos retratos que fazia. As crianças, os desfavorecidos da sorte e os animais voltam a preencher a sua vida. O que guardava da infância e dos primeiros anos da adolescência vem povoar a sua expressão artística. / Não viveu muito tempo. A vida mede-se, mas o talento não tem limites e é aqui que reencontramos o nosso amigo e todos voltamos a partilhar as inquietudes e os anseios de uma geração que o Zé personificou à perfeição… – descrição precisa e objectiva, facilitou em muito o nosso percurso estético-emocional, pela magnífica exposição.


Sem que tenhamos a soberba presunção de nos alvorarmos em “objectores de consciência” ou “críticos de arte”, tomamos a liberdade – assente no princípio de que o juízo estético e a produção artística andam de mão dada – de apreciarmos a Arte do Zé Micamé, com a consciência plena de que para se apreciar uma obra de arte não precisamos de trazer connosco seja o que for da vida, qualquer conhecimento das suas ideias e assuntos, qualquer familiaridade com as suas emoções. A criatividade do artista precisa sempre de público e, como um dia escreveria H. Gadamer, para o público, a arte criativa oferece «a experiência que melhor cumpre o ideal de um deleite “livre” e desinteressado». Foi desta forma livre e desinteressada que nos achamos no “direito” de percorrer “o elemento figurativo” em Zé Micamé, levando como único conhecimento relevante, e exigível, que o observador precisa de ter: sentido da forma, da cor e do espaço tridimensional.
Tomando como nossas as palavras de L. Tolstoi, quando afirma, escrevendo, que “os artistas são pessoas inspiradas por uma experiência de profunda emoção e usam a sua aptidão com palavras, ou desenho, ou música, ou mármore, ou movimento, para dar corpo a essa emoção numa obra de arte. A marca do sucesso nesse esforço é o estímulo da mesma emoção no seu público”. Se lhe subtrairmos o mármore e lhe acrescentarmos a madeira, o transbordar espontâneo de um poderoso sentimento emocional, esteve bem patente naquela magnífica exposição “in memoriam” de Zé Micamé. Tudo magnífico!


Não queríamos terminar esta nossa modesta opinião sem referirmos o extraordinário e irrepreensível trabalho de investigação, levado a cabo ao longo de mais de dois anos a esta parte, pela Dra. Catarina Lima, que de uma forma altruísta (só as pessoas bem formadas ética e intelectualmente, são portadoras desta humildade e princípio moral), procurou rodear-se dos apoios necessários, por forma a lhe dar um cunho institucional. Daí, o timbre da Associação «Comunidade Artística Limiana» como pano de fundo de um querer e sensibilidade pessoal: A Associação Cultural CAL agradece a todas as pessoas e entidades que possibilitaram esta homenagem ao artista, através da cedência de peças, fotografias, instalações, material de apoio, testemunhos e outros suportes que beneficiaram a exposição. Ainda um especial agradecimento à família e amigos do artista pelo apoio na realização do evento.


Sábado, 26 de Setembro de 2015, espaço-convívio deambulando por terras de António Feijó e Cardeal Saraiva, na companhia de Amândio Sousa Vieira, um dos mais ilustres limianistas que mais admiramos e respeitamos, viajando até ao âmago de Zé Micamé, o primeiro a usar calças de ganga quando os outros usavam de terylene, cuja obra revela, de facto, “uma elevada qualidade de alguém muito atento à realidade e às desigualdades sociais do seu tempo”. Enalteça-se quem assim viveu e deu testemunho do seu SER. Tal como nos confidenciara Amândio Sousa Vieira, afirmação com a qual corroboramos, esta exposição foi “um momento alto de cultura que muito dignifica Ponte de Lima”. Algo do melhor que se fez nesta área, nos últimos anos em Ponte de Lima, diremos nós.
NOTA MÁXIMA! 

Sunday, September 20, 2015

Mazarefes (Viana do Castelo, Portugal): Artur Rodrigues Coutinho, reconhecido publicamente com o título de Mérito Cultural e Social

Manhã de 19 de Setembro de 2015 (Sábado), vivenciamos um dos momentos culturais mais gratificantes, nomeadamente daqueles que exigem de nós o hábito da gratidão, enquanto disposição do ente, que nada nos poderia impedir de estarmos presentes. Impunha-se a construção evolutiva da nossa existência, à qual se une a essência do Ser, com a acrescida responsabilidade de fazermos o Elogio de circunstância pelo Reconhecimento Público de Mérito Cultural e Social ao Pe. Dr. Artur Coutinho, pela Associação Social, Cultural e Desportiva da Casa do Povo de Mazarefes. E dissemos: Quando nos pediram para falarmos do Pe. Artur Coutinho, nesta data memorável em que a nossa e sua Terra Natal, através da Associação Social, Cultural e Desportiva da Casa do Povo de Mazarefes, resolveram homenageá-lo como Cidadão de Mérito Cultural e Social, aliviamos a nossa apreensibilidade (apenas pela demora), reconhecendo de imediato que mais vale tarde do que nunca.

Artur Rodrigues Coutinho (Homenageado), Ana Margarida Silva (Câmara Municipal de Viana, Pelouro de Acção Social) e Francisco Barros (Presidente da Assembleia da União das Freguesias de Mazarefes e Vila Fria)

E para facilitarmos a nossa tarefa, recorremos a um texto que escrevemos há dez anos, numa coluna que mantivemos durante cinquenta e três semanas, no velhinho «A Aurora do Lima», onde manifestávamos a extrema dificuldade em falar do Pe. Artur Coutinho, sem nos deixarmos levar pelo profundo sentimento de proximidade física – porque ambos nascemos nesta ancestral freguesia de S. Simão da Junqueira de Mazarefes – e pelos laços de consanguinidade que “partilha” com a nossa alma gémea. Se outras razões não subsistissem, o respeito e a admiração que por ele nutrimos era mais que suficiente para plasmarmos esta meia dúzia de palavras.

Manuel Dias Viana Barreto (Presidente da Direcção da ASCDCPM), usando da palavra na abertura da Sessão Solene.

A sua acção em prol da comunidade extravasa o mundo das “futilidades”, a que muita “boa gente” se agarra, por inerência da falta de humanismo ou má formação moral. O Pe. Artur Coutinho não vive de futilidades, porque é humanista e Igreja, num sentimento universalista, à dimensão da “humanidade” civilizada e solidária. A trivial indiferença de uns tantos (ou quase todos) faz-nos prostrar, em reverência à sua dimensão espiritual. Mas, quem é este cidadão de mérito vianense (1998), que, em 1997, comemorou as suas Bodas de Prata Sacerdotais?
    
Público atento e solidário com o homenageado.

Artur Rodrigues Coutinho, filho legítimo de Manuel Ribeiro Coutinho e de Deolinda Rodrigues de Araújo Amorim, nasceu na freguesia de Mazarefes, Viana do Castelo, em 7 de Janeiro de 1947. Feita a instrução primária na sua (e nossa) terra natal, rumou aos Seminários de Braga onde cursou Humanidades, Filosofia e Teologia, terminando os estudos eclesiásticos em Outubro de 1971. Esses estudos foram mais tarde complementados, em ordem à habilitação para a docência, com exames de Introdução aos Estudos Históricos, de Literatura Portuguesa V e VI, na Universidade do Porto e de Linguística Portuguesa I, na Universidade de Coimbra, tendo também frequentado o Curso de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. No sector da preparação académica e actualização científica e pedagógica, participou em dezenas de cursos, seminários, simpósios, conferências, jornadas, e congressos.

Até que chegou a nossa vez de fazer o Elogio de circunstância ao Pe. Artur Rodrigues Coutinho.

Terminado o Curso Teológico estagiou durante alguns meses, como cooperador da paróquia de Balazar, Póvoa de Varzim, e, logo a seguir, nomeado director interino da Casa dos Rapazes, em Viana do Castelo, após o que foi ordenado sacerdote, em cerimónia realizada na igreja paroquial da Apúlia, em 9 de Julho de 1972. Foi com o maior orgulho e satisfação que assistimos à sua «Missa Nova», cerimónia realizada na Capela de Nossa Senhora das Boas Novas (Mazarefes), em 13 de Agosto de 1972.

Artur Rodrigues Coutinho agradecendo a homenagem que lhe acabavam de prestar.

Paroquiou de 9 de Setembro de 1972 a Agosto de 1978, as três freguesias de Argas (Arga de Baixo, Arga de Cima, Arga de S. João) e Dem, tendo publicado em 1980 o “Cancioneiro da Serra d’Arga”, uma obra de maior importância que reflecte a cultura e a ancestralidade de um povo (Literatura, Folclore, História, Toponímia, Etnografia, Humorismo, numa recolha de Quadras Populares). Esgotada a 1.ª edição, em Janeiro de 1982, é publicada uma 2.ª edição. Ali impulsionou a restauração das igrejas das três paróquias das Argas, onde também conduziu a reparação das capelas de Nossa Senhora da Rocha, de S. João, de Santo Antão, todas também nas Argas, e da capela de Nossa Senhora das Neves, em Dem.

Diana Correia, jovem estudante de Filosofia e fadista de circunstância, medalhada pela vereadora Ana Margarida.

Em 2 de Setembro de 1978, é-lhe confiada por D. Júlio Tavares Rebimbas, Bispo da Diocese de Viana do Castelo, a paróquia citadina de Nossa Senhora de Fátima, em regime experimental, que só em 1985 seria canonicamente constituída, e onde se mantém. Ocupando toda a faixa oriental da cidade, principal zona de expansão da mesma, ali convivem diferentes modos de vida, de cariz urbano e rural, de mistura com uma população deslocada e desenraizada, que vem ocupar os novos bairros habitacionais, em permanente surgimento. Foi esta realidade que o Padre Coutinho veio encontrar, e para a qual, com a dedicação que lhe é conhecida e reconhecida, se empenhou, desde o início, em procurar respostas adequadas. Escreveu um dia o nosso particular amigo Euclides Rios: «É digna de registo a profícua actividade apostólica, desenvolvida na modernização da catequese, na atenção dedicada aos movimentos de formação juvenil, na organização de diversas acções de formação cristã para adultos, na modernização e adequação das cerimónias litúrgicas, nos cuidados dispensados aos doentes e idosos e na construção e melhoria das estruturas físicas para desenvolvimento de todas estas actividades.
Mas a marca mais característica e identificadora da acção do P.e Artur Coutinho é o seu trabalho de solidariedade social que, sendo uma prova edificante do seu fervor evangélico, é, sobretudo, a demonstração de um carácter profundamente humanista, de um coração generoso e de uma grande abertura de espírito que o leva a fazer o bem sem olhar a quem».

Estávamos longe de imaginar que também seríamos contemplados com uma medalha de reconhecimento.

Mais palavras seriam desnecessárias, se não tivéssemos que acrescentar a este seu modo de SER, nasceram numerosas obras de beneficência e assistência social que conferiram à sua paróquia, e até à cidade, a verdadeira dimensão solidária que toda a comunidade cristã deveria ter. Um novo projecto, à dimensão do seu coração, tem-lhe tirado horas de sono, e nem as debilidades genéticas o fazem desistir de estar ao serviço dos outros, incondicionalmente. 
Em 1986, publicou «A Cidade de Viana, no Presente e no Passado», editado pela Paróquia de Nossa Senhora de Fátima. Tem coordenado outros trabalhos editados pela Paróquia como Devocionários e o Organigrama Paroquial, desenvolvido e explicado por ocasião dos 25 Anos da fundação da Paróquia. Em 1996, publicou o livro «Mosaicos da Serra d’Arga» que, praticamente se encontra esgotado. Em 1998 fez a 2.ª edição (revista e aumentada) do livro «A Cidade de Viana, no Presente e no Passado». Em 1999, com Natália Castelejo, publicou «Rugas... testemunho da geração, do saber, do amar...» para comemorar os 20 anos do Centro de Dia da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima. Em 2000 é dada à estampa a 3.ª edição do «Cancioneiro da Serra d’Arga»; «Famílias com Rosto» em três volumes, publicados em 2005, 2008 e 2011; «Costumes e Tradições Populares», em 2012, entre outras obras que seria fastidioso aqui referir.

Outras medalhas seriam atribuídas a gente de trabalho e acção efectiva.

Por fim, não queríamos terminar, sem deixar de referir o seu livro «Abrindo Portas», numa edição esteticamente bem conseguida do Centro de Estudos Regionais (CER), por se tratar de um trabalho (premeditadamente) sequencial da sua assoberbada paixão pela etnografia, etnologia e antropologia social ou cultural. Embora saibamos das ligeiras diferenças de conteúdo, de objecto, do método e de orientações, estaremos em dizer que, como um dia aventaria Claude Rivière, essas diferenças assentam muitas vezes e/ou apenas nas próprias tradições. Se a etnografia corresponde a um trabalho descritivo de observação e de escrita; a etnologia, “ao elaborar os materiais fornecidos pela etnografia, visa, após análise e interpretação, construir modelos e estudar as suas propriedades formais a um nível de síntese teórica, tornando possível pela análise comparativa”; a antropologia acaba por se apresentar ainda mais generalizadora do que a etnologia. Tudo isto para concluirmos que as ligeiras diferenças de conteúdo se sintetizam numa única disciplina, o que nos leva à plena convicção (afirmativa) de que este trabalho do Pe. Artur Coutinho é por assim dizer um abrir de portas – e fazendo nossas as palavras de Fabíola Silva, no prefácio – “aos curiosos e dá as ferramentas básicas para que todos possam partir para a descoberta da porta, desde objecto tão banal, mas que na realidade é tão essencial no nosso quotidiano”.

Artur Rodrigues Coutinho ladeado pela vereadora Ana Margarida Silva. Terminava assim o Reconhecimento Público de Cidadão de Mérito Cultural e Social, pela Associação Social, Cultural e Desportiva da Casa do Povo de Mazarefes.

A sintetização a que aludimos (ou constatamos) neste «Abrindo Portas», está bem patente na minuciosidade descritiva empregue pelo autor, através de pormenores particulares (profusamente ilustrados) – e que por vivermos numa globalidade exasperada, os ignoramos ou desconhecemos – contidos no universal de uma porta: ferrolhos, batentes, aldravas, puxadores, fechaduras, chaves, dobradiças, trancas, protectores de cantarias, raspadeiras do calçado (vulgo “limpa-pés”), visores, gateiras, caixas de correio e argolas para prisão de cavalos. Artur Coutinho é um antropólogo cultural e social atento, levando-nos a olhar as portas de uma forma diferente.
Neste magnífico trabalho, Artur Coutinho fala-nos ainda d’A CASA: ESPAÇO E FRONTEIRA (Capítulo I), sendo que esta, segundo o autor, “representa o nosso espaço, onde nos sentimos a nós próprios com consciência ou sem ela, com tranquilidade, com serenidade, com segurança e a presença dos nossos que nos são muito queridos”; d’A PORTA NA BÍBLIA (Capítulo II), apresentando-se a mesma como um local singular e anunciador de algo que se passa dentro, qual alegoria ao facto de que “uma porta é sempre uma porta para o bem ou para o mal” ou – citando o próprio autor – “o acto de abrir a porta deve ser um acto de escuta, de proximidade, de intimidade, mas muitas vezes, distraídos com as coisas do mundo a fechamos para ela não se abrir com facilidade às coisas de Deus”…
E esta nossa interpretação, quiçá assente numa hermenêutica tautológica, ainda que o faça inadvertidamente, revestindo-a de alguma subjectividade da nossa parte (sim, as nossas interpretações são sempre subjectivas aos olhos dos outros), define a dimensão humanista e intelectual do Pe. Artur Coutinho.
Agora sim, e para terminarmos, diremos que o Pe. Artur Coutinho é membro da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Alto Minho (AJHLAM); sócio fundador do Centro de Estudos Regionais (CER) de Viana do Castelo; foi director do Mensário “Serra e Vale”; e, presentemente, é director / fundador do jornal “Paróquia Nova”. Desde os seus tempos do Seminário que tem participado em trabalhos de pesquisa – com destaque para a futura “Monografia de Mazarefes” – e colaborado em algumas revistas.

E por aqui ficamos, porque nos falta arte e engenho para falarmos da verdadeira dimensão humana deste ilustre filho de S. Simão da Junqueira de Mazarefes!                 

Friday, August 21, 2015

O papel da religião perante a ciência e vice-versa!...

«A fé não era uma coisa importante na minha infância. Tinha uma ideia vaga sobre o conceito de Deus, mas as minhas interacções com Ele limitavam-se a momentos ocasionais de negociação sobre algo que eu queria que Ele fizesse por mim…»

Francis S. Collins

Um dia destes, quando alguém nos questionava a propósito da nossa opinião acerca de uma abrangente interrogação – plasmada em livro – «Porquê Deus se existe a Ciência?», feita por Manuel Curado (Org.), Alfredo Dinis (infelizmente, já desencarnado), Álvaro Balsas, Artur Galvão, Francisco Teixeira, Miguel Vieira, Paulo Alexandre e Castro e Sofia Reimão, condimentada pelo carácter polimórfico da experiência e multiplicidade epistemológica, assente na história das relações entre a fé e ciência, quando a mesma “está marcada por conflitos e equívocos de diversa ordem, mas também por consonâncias fecundas” (cit. Álvaro Balsas), veio-nos à memória o tema de uma conferência – promovida, em 2007, pela «Fundação Bracara Augusta» – com o título «O papel da religião na sociedade contemporânea perante a ciência e a explicação racional do mundo», conferência essa que decorreu no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, e na qual foram principais oradores (palestrantes) Alexandre Quintanilha (Doutorado em Física Teórica) e Anselmo Borges (Filósofo /Teólogo), sendo moderadores o ex-Reitor da Universidade do Minho (UM) e também catedrático, Licínio Chainho Pereira, e o então director do Departamento de Filosofia e Cultura (DFC) – e, presentemente, Professor Catedrático da Universidade do Minho, Manuel Gama, trouxe à discussão a problemática da dicotomia entre a Ciência e a Religião.
Na altura, pelo que nos foi dado constatar, o “confronto” nessa conferência saldou-se por um saudável equilíbrio de ideias, havendo mesmo, face à complexidade da vida humana, uma certa complementaridade e/ou articulação entre ambas. Se a Ciência abre novos caminhos de conhecimento, levada à capacidade de ser falsificada – ou refutada, porque admite a revisão e aperfeiçoamento –, a Religião, nomeadamente através da Bíblia, mesmo não sendo um livro de ciência, e tomando como referência, neste caso concreto, o cristianismo, ao desdivinizar o mundo abriu espaço à investigação científica (cit. Anselmo Borges). Por isso, a Ciência não pode (ou não deveria) reivindicar o monopólio da verdade, ou seja, não pode ter a exclusividade da racionalidade. Ficamos com a sensação, mesmo face às diferenças, de que a Ciência e a Religião são complementares, porque podemos chegar à articulação de outros saberes, outras vias, outros modos.


O extraordinário exemplo trazido pelo Professor Manuel Gama vinha-nos através de Francis S. Collins e de, na altura, a sua mais recente obra «A linguagem de Deus» (2007), quando perante a elaboração do primeiro esboço do genoma humano, se viu confrontado com a surpreendente complexidade da informação contida em cada célula do corpo humano, a ponto de tal complexidade, a fazer-se uma leitura efectiva desse código ao ritmo de uma letra por segundo, levaria trinta e um anos a realizar (Collins, 2007: 11). Tal exaltação da Ciência conduziria o então presidente dos Estados Unidos da América, Bill Clinton, à afirmação da sua reverência cada vez maior pela complexidade, a beleza e o prodígio da dádiva mais divina e sagrada de Deus (Collins, 2007: 12). Tendo em mente o “deslumbramento” deste ilustre estadista, estaremos em recordar o antagónico pensamento de Pierre Rousseau quando um dia afirmou que a Ciência é o grande Sol que, não só dissipa as trevas da nossa ignorância e ilumina os mais pequenos recantos do universo, como nos desvenda a sua harmonia incomparável. Tal linearidade do conhecimento experimental e racional leva-nos – a páginas tantas – a que este autor nos “obrigue” a reflectir na relação einsteiniana de equivalência entre a matéria e a energia. No fundo, um olhar físico sobre as estrelas e sobre o próprio universo. É neste tipo de contextos que Francis S. Collins nos chama à atenção para os fundamentalismos: Se há fundamentalistas religiosos que atacam a ciência como perigosa e indigna de confiança, apontando para uma interpretação literal dos textos sagrados como único meio fidedigno de discernir a verdade científica, alguns, do lado da Ciência, também dentro do seu fundamentalismo, formulam a fé como a grande escapatória, a grande desculpa para se fugir da necessidade de pensar e de avaliar as provas (Collins, 2007: 13). Por isso, face à impossibilidade da síntese potencial das concepções científica e espiritual do mundo, discutir-se a Ciência e a Religião requer alguma capacidade em incorporarmos no nosso dia-a-dia a validade dessas duas concepções do mundo, e não aquilo que Bertrand Russell consideraria como objecções intelectuais e morais, tendo em conta que, para ele, não há qualquer razão para supor que algumas das religiões seja verdadeira; e, os preceitos morais remontam a uma época em que se era mais cruel do que actualmente, e porque as religiões tendem a perpetuar as crueldades que a nossa consciência reprova.
Apesar de vivermos tempos em que se explora as “dúvidas” de qualquer um de nós, e onde somos postos à prova com rebatidos conceitos de que para fazer Ciência não é preciso Deus para nada, apercebemo-nos, no entanto, de alguma complementaridade ou, quiçá, simbiose entre a Ciência e Religião. Face à complexidade da vida humana, poderá ser uma “incongruência” não usar da tolerância de um cientista rigoroso que, para além dessa condição, goza, também, do “privilégio” de ser uma pessoa que acredita num Deus que se interessa por cada um de nós: Começarei por explicar como um cientista que estuda genética passou a acreditar num Deus ilimitado no tempo e no espaço, que se interessa pessoalmente pelos seres humanos. Algumas pessoas poderão pensar que essa atitude decorre de uma educação religiosa severa, profundamente instilada pela família e a cultura, e, portanto, impossível de evitar posteriormente. Mas de facto não foi isso que me aconteceu (Collins, 2007: 15).
 Apesar das objecções contra a religião, apontadas, de um modo particular, por Bertrand Russell, e da enorme complexidade que as separa – falar de religião é muito mais complexo do que falar de ciência (cit. Anselmo Borges) – há uma certa articulação entre ambas, tendo em conta que todos os homens relacionam-se (ou deveriam relacionar-se) com o todo. E o todo só é possível, conscientemente, com a necessária bipolarização: a ciência por um lado, vocacionada para a exploração da natureza; e o domínio de Deus (Religião) que se situa no mundo espiritual, numa esfera impossível de explorar com as ferramentas e a linguagem da ciência. Deve ser perscrutado com o coração, a mente e a alma – e a mente terá de descobrir uma maneira de abarcar ambos os reinos (Collins, 2007: 14).
         Apesar desta nossa modesta explanação, carregada aqui e acolá de subjectividades, a pergunta mantém-se: Porquê Deus se existe a Ciência?

Friday, August 14, 2015

Publicada a revista «A Falar de Viana» de 2015!...

«A Romaria da Agonia é, já, também, um ícone do próprio país que começa a ser conhecido por todo mundo. Estas Festas são o espelho onde todos melhor nos revemos e nos sentimos, por inteiro, como povo».

Judite Cardoso
(Presidente da Comissão de Honra das Festas da Agonia)

No primeiro dia do mês de Agosto, em cerimónia pública realizada na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, foi lançado o Volume IV, Série 2, do «A Falar de Viana». Dado o nosso papel activo nesta publicação, coadjuvando Rui A. Faria Viana na sua coordenação, é evidente que não nos deixaremos enredar pelo elogio fácil, pois tal postura ou atrevimento poder-nos-ia remeter para a velha máxima de Hermógenes: «Contra a tendência para a vaidade evoco sempre o que um amigo me ensinou – “Hoje pavão, amanhã espanador!”». Sentimentos e precauções auto-elogiosas à parte, apraz-nos dizer que esta publicação, após “percorridos quatro anos da 2.ª série (…), é com a maior satisfação que sentimos uma extraordinária receptividade, manifestamente positiva, tendo em conta as inúmeras mensagens de incentivo que até nós têm chegado, transformando esta publicação numa das mais procuradas, face à sua importância no panorama histórico-cultural da nossa cidade e da própria região. / É neste contexto que assumem um papel importante todos aqueles autores que, ao longo destes quatro anos, têm colaborado connosco brinda-nos com os seus valiosíssimos trabalhos, quer em prosa quer em poesia, por forma a contribuírem para a divulgação e até promoção da história, da antropologia, da etnografia, da arte e da religião, como anteriormente temos vindo a referir, não esquecendo as vertentes literária e turística…” – escrevemos ambos na «Apresentação».
 E porque o A Falar de Viana está, por assim dizer, intimamente ligado às Festas de Nossa Senhora da Agonia, reforçando um ancestral sentimento popular de exaltação e expressão de arte e fé, que extravasa as fronteiras da região e do país, estamos em crer que a mesma publicação irá, por certo, corresponder às expectativas criadas à volta da mesma. Com a presença do Vigário-Geral da Diocese de Viana do Castelo, Sebastião Pires Ferreira; do Presidente da Câmara, José Maria Costa; da Vereadora do Pelouro da Cultura, Maria José Guerreiro; e do Presidente da Comissão Executiva da Romaria da Nossa Senhora da Agonia, Francisco Sampaio, coube a Rui A. Faria Viana, enquanto coordenador geral da mesma publicação, fazer uma síntese, bastante abrangente e bem estruturada – aspecto reconhecido por todos os presentes na mesa, e não só – de todos os trabalhos e de seus autores que, face à elevadíssima qualidade das suas “penas”, fazem antever o rigor e a qualidade científica dos mesmos.


Como será incomportável, diríamos até impossível, fazermos aqui uma síntese pormenorizada de todos os trabalhos, ficar-nos-emos apenas pelos títulos e autores, com intuito de despertarmos um interesse maior pelos seus conteúdos, tendo em conta que no plano estético será inquestionável o extraordinário trabalho realizado por Rui Carvalho, magnífico designer, portador de uma grande humildade e assoberbada tolerância, qualidades que o colocam à dimensão dos grandes.


Apostados numa cronologia temática – aliás, como vem sendo habitual –, este volume comporta, para além da mensagem da Presidente de Honra e da nossa apresentação, quatro separadores: MEMÒRIA: com trabalhos de Rui A. Faria Viana, “A Cidade e As Festas em 1915” (p. 11-23), e de Bernardo Silva Barbosa, “As Festas d’Agonia de há 100 Anos vistas pelo «A Aurora do Lima»” (p. 25-29); REGISTO: com um trabalho de Abúndio da Silva, publicado no IV Volume da «Illustração Portugueza» de 21 de Outubro de 1907, com o sugestivo título “O Minho Pittoresco: As Festas da Senhora da Agonia” (p. 33-39); ANTOLOGIA POÉTICA: onde nos é revelada a inspiração poética de Carla Mesquita com “Deste meu traje…” (p. 42), de Eugénio Monteverde com “A Cidade e o Lima” (p. 43), de Euclides Rios com “Os lírios da Senhora d’Agonia” (p. 44-45), de Fernando Castro e Sousa com “Terra Minha” (p. 46) e de Luís Pedro Viana, pseudónimo literário e artístico de Firmino Moreira da Cunha, com “Princesa ou Rainha” (p. 47); COLECTÂNEA: com trabalhos de Paulo Gomes, “Maria… de Fátima, da Agonia que leva a Deus e ao Irmão” (p. 51-53), de Reis Ribeiro, “A Festa no Ensino do Beato Bartolomeu” (p. 55-57), de Manuel António Fernandes Moreira, “O Campo da Foz e o Sagrado” (p. 59-63), de José da Cruz Lopes, “Senhora d’Agonia na vida da população piscatória vianense e a acção do Monsenhor Daniel Machado: 1912-1978” (p. 65-81), de Artur Coutinho, “A Falar de Viana” (p. 83-85), de Gonçalo Fagundes Meira, “Os Fogos nas Festas: a disputa entre a pirotecnia vianense” (p. 87-97), de António Martins da Costa Viana, “Folclorista da Bahia viu as Festas d’Agonia” (p. 99-105), de Mota Leite, “As Festas da Senhora d’Agonia na memória das Gentes do Vale do Neiva” (p. 107-109), de Ricardo Simões, “A procissão ao mar de Viana do Castelo: géneses e futuro de uma encenação comunitária” (p. 111-117), de Álvaro Campelo, “Na Senda do Ouro: vendedores ambulantes e a representação do Ouro na sociedade minhota” (p. 119-137), de António José Barroso, “Exposição de Ourivesaria Portuguesa em Viana do Castelo” (p. 139-147), de Manuel Rodrigues Freitas, “Arrecadas de Afife” (p.149-151), de Horácio Faria, “Sargaceiras de Afife” (p. 153-157), de Maria Sameiro Rodrigues Lima, “Traje usado, traje vivo: defesa do futuro do nosso património cultural” (p. 159-165), de Armando Rodrigues Dias, “Uma invejável cidade monumental” (p. 167-169), de Vasco Gonçalves, “A fachada-retábulo da Igreja de S. Domingos (Santa Cruz) e a Porta do Céu” (p. 171-175), de Francisco José Carneiro Fernandes, “Património de Viana do Castelo: azulejos da Igreja de São Bento” (p. 177-185), de Manuel Oliveira Martins, “Ramal da Doca” (p. 187-193), de Henrique Rodrigues, “Arquivar a própria vida – documentos da Casa Malafaia de Viana” (p. 195-207), de Manuel Inácio Rocha, “Recordações Únicas” (p. 209-225), de David Rodrigues, “Camilo atravessa o Alto Minho pela primeira vez em 1836” (p. 227-229), de Ana Maria Ribeiro Barros e Orlando Ferreira Barros, “A Premonição” (p. 231-233), de Sebastião Pires Ferreira, “Frei Luís de Granada: o primeiro devoto do Beato Bartolomeu dos Mártires” (p. 235-247), de Porfírio Pereira da Silva, “In Memoriam: no Centenário do Nascimento (1915-2015) de Maria Augusta d’Alpuim” (p. 249-255), de Domingos da Calçada, “Pitta Soares: ecos duma antiga romaria, um caso com oitenta e quatro anos” (p. 257-261), de Artur Anselmo, “Para um retrato do arqueólogo Manuel Sousa d’Oliveira: 1916-2001” (p. 263-267), de José Rodrigues Lima, “Artista Albino Rodrigues Lima: de modelador a escultor” (p. 269-275), de Casimiro Puga, “Figuras Afifenses: João da Fonseca – Mestre Pintor e Fingidor” (p. 277-281), de Joaquim José Peres Escaleira, “Espaços e Gentes de Viana em gravações audiovisuais” (p. 283-293), de António Matos Reis, “O Foral Manuelino de Geraz do Lima – Nos 500 Anos da sua outorga” (p. 295-301), de Torres Costa, “V Centenário do Foral Manuelino do Concelho das Terras de Geraz do Lima” (p. 303-307), de António Rodrigues França Amaral, “A Carta de Couto de Cabanas e a Via-Sacra de Areosa: novas interpretações” (p. 309-313), de José Aníbal Marinho Gomes, “Para a História da Nobreza Titulada de Viana do Castelo: Viscondes da Barrosa” (p. 315-327), de Américo Carneiro, “A Armaria e o caso vianense e da Ribeira-Lima” (p. 329-337), de Matias de Barros, “Pedro Homem de Mello escreveu, Amália Rodrigues cantou, Alain Oulman orquestrou” (p. 339-341), e, finalmente, de Francisco Sampaio, “As Indústrias Criativas e o Turismo Criativo” (p. 343-349).
        Quase quatrocentas páginas para ler, saborear e viver… As Festas, claro!

Friday, August 07, 2015

«Ponto de Encontro» com José Eduardo Agualusa e o Livro dos Camaleões»!...

«Agualusa diverte-se e diverte-nos com o facto de ter talento para a felicidade. E não haverá, na língua portuguesa contemporânea, outro caso tão flagrante e abrangente. Esse talento está nos seus livros, escritos para raptar o leitor à primeira vista».

Alexandra Lucas Coelho (Público)

É indisfarçável a venerável admiração – sistemicamente quase doentia – que sentimos pelo excelso escritor angolano José Eduardo Agualusa. Tal adjectivada afirmação nunca será exagerada porque o Agualusa é dos poucos escritores que nos faz respirar África, sentir o cheiro e ter o rio “colado ao horizonte, cintilante e mudo, como uma miragem”. Uma agradável miragem, porque sonhada e vivida.
   

De uma forma sucinta, lembrando-nos d’A sombra da mangueira em «O livro dos camaleões», onde também nós, tal como o Construtor de Castelos fechamos “os olhos o tempo suficiente para que o capim crescesse e engolisse tudo, e quando os voltava a abrir encontrava o mundo igual”, teremos de dizer, principalmente para os mais distraídos, que José Eduardo Agualusa nasceu no Huambo, Angola, em 1960. Estudou Silvicultura e Agronomia em Lisboa, Portugal. Os seus livros estão traduzidos em 25 idiomas. É autor de uma obra que percorre o romance, novela, contos e literatura infantil. Conquistou numerosos prémios, entre os quais o “Grande Prémio de Conto da APE” e o “Grande Prémio de Literatura para Crianças da Fundação Calouste Gulbenkian”. Escreveu várias peças de teatro: “Geração W”, “Aquela Mulher”, “Chovem amores na Rua do Matador” e “A Caixa Preta”, estas duas últimas juntamente com Mia Couto. Beneficiou de três bolsas de criação literária: a primeira, concedida pelo Centro Nacional de Cultura em 1997 para escrever «Nação crioula», a segunda em 2000, concedida pela Fundação Oriente, que lhe permitiu visitar Goa durante 3 meses e na sequência da qual escreveu «Um estranho em Goa» e a terceira em 2001, concedida pela instituição alemã «Deutscher Akademischer Austauschdienst». Graças a esta bolsa viveu um ano em Berlim, e foi lá que escreveu «O Ano em que Zumbi Tomou o Rio».
No início de 2009 a convite da Fundação Holandesa para a Literatura, passou dois meses em Amesterdão na Residência para Escritores, onde acabou de escrever o romance, «Barroco tropical». É membro da União de Escritores Angolanos e tem mais de uma dezena de romances publicados, dos quais destacamos os cinco últimos: «Milagrário Pessoal» (2010); «Teoria Geral do Esquecimento» (2012); «A Vida no Céu» (2013); «A Rainha Ginga» (2014); e, mais recentemente, «O Livro dos Camaleões» (2015), qual caminho para África onde “cruzam-se personagens em busca de uma identidade, ou em trânsito de identidade, atravessando várias épocas, do século XIX aos nossos dias, e diversas geografias, das savanas do sul de Angola às ruidosas ruas do Rio de Janeiro”. Neste magnífico livro juntam-se contos que permaneceram por vários anos dispersos em jornais, revistas e antologias, físicos e virtuais, em Portugal e no Brasil: Lendo Agualusa ficamos entre o gozo do espaço onírico, do não real, e de surpreendentes retratos de personalidades já conhecidas – e que reconhecemos –, obra de pequenos delírios, de magníficas citações adaptadas à vida dita normal, ao quotidiano, para logo sermos entregues, abandonados, à crueza rude dos referenciais históricos, por exemplo das últimas décadas angolanas (António Loja Neves – In, Revista do Expresso, Edição 2230).


Segundo se pode ler em sinopse, “algumas destas personagens são arrancadas à realidade ou inspiradas em figuras reais. Não se trata de saber onde termina a realidade e começa a ficção. Trata-se de questionar a própria natureza do real”, perpassando pela “primeira noite”; “a sombra da mangueira”; “esquecimento”; “o rio sem nome”; “a boneca cantora”; “o caminho para África”; “o marinheiro e os mascarados”; “a importância de um chapéu”; “a virgem sem cabeça”; “as virtudes da discrição”; “o bom déspota”; “flamantes flamingos, flamengos e flamboyants”; “a Rainha das Abelhas”; e “a última noite”, onde, tal como Sofia, vestimos um casaco e saímos para a rua. No dia em Agualusa se sentia cansado e um pouco triste. De facto, a nossa mãe é a única pessoa que nos ama sem impor condições (…).
Naquele sábado, 25 de Julho de 2015, fomos jantar e tivemos o «Ponto de Encontro» (Sessão de autógrafos) com José Eduardo Agualusa, onde falamos de literatura, da nossa Angola, de sabedorias e paradoxos, de globalismo e tentáculos da corrupção, e de personagens em busca de identidades. Sentimos que tudo está por pontas, em estádio de ruptura, dado que, como diria M. Twain, “a civilização é uma ilimitada multiplicação de necessidades desnecessárias”. Causa-nos sofrimento sentir a nossa Angola sofrer, quase como «A primeira noite» em «O livro dos camaleões», onde “os ritmos tropicais pareciam deslocados, como um filme de terror com a banda sonora de uma comédia romântica”. Noite maravilhosa, onde tomamos consciência plena de que não devemos descer ao nível dos outros, mas facilitar-lhes a aproximação ao nosso.
         Há noites assim!

Saturday, July 25, 2015

Cristina Valadas expõe «vida desenhada à mão» em Viana do Castelo!...

«Seus olhos, portugueses e castanhos? De gazela. E vêem com a pureza do olhar primeiro e o mundo na luminosidade do acabado de nascer, porque não pinta a realidade do que nos rodeia, embora essa realidade também possa estar presente…».

Luísa Dacosta

No sábado, 18 de Julho de 2015, na Ala Jorge Amado da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, foi inaugurada uma exposição de Cristina Valadas, artista plástica e ilustradora de renome, que vive e trabalha no Porto, tendo-se licenciado em Pintura, em 1992, pela Escola Superior de Belas-Artes da mesma cidade, e, em 1994, concluiu a pós-graduação em Design Têxtil. Expôs o seu trabalho individualmente quase duas dezenas de vezes, tendo também integrado várias exposições colectivas a partir de 1988.
Cristina Valadas, para quem «o mais importante é mesmo o momento presente e a intensidade com que vivo os momentos e a alegria que deles retiro», foi distinguida, entre outros, com o Prémio Maluda (2001). Recebeu também uma menção honrosa no Salão da Primavera (1999), o Prémio Almada Negreiros (1997), o Grande Prémio Gulbenkian de Ilustração (2000) e o Prémio Nacional de Ilustração (2007), que é, tão só, a mais importante distinção na área da ilustração em Portugal. Para além disso, Cristina Valadas tem várias obras publicadas para a infância, com especial destaque ilustrações para textos de Luísa Dacosta (“Robertices” ou “Sonhos na palma da mão”); de Jorge Sousa Braga (“Poemas com asas”); de Manuel Alegre (“Pó de Estrelas”); e de outros escritores como Valter Hugo Mãe, Eugénio de Andrade, José António Gomes, Sérgio Godinho, Álvaro Magalhães, entre outros.


Como diria Rui A. Faria Viana, Chefe de Divisão da Biblioteca e Arquivo Municipais, numa pequena cerimónia de abertura na Sala Couto Viana, a “Exposição de Obra Gráfica” é um projecto de exposições, pelo mesmo liderado, cujo tema é a obra de um artista convidado, de reconhecido valor, publicada em livros, jornais e revistas por editoras e instituições nacionais e estrangeiras, iniciado em Maio de 2013, com a exposição “diário de sombras” de Tiago Manuel (director artístico e coordenar do projecto), seguindo-se, em Janeiro de 2014, a exposição “domador de imagens” de João Fazenda, em Julho desse mesmo ano “desenhos atrás do espelho” de André Carrilho e, em Janeiro de 2015, “história natural com parafusos” de Luís Manuel Gaspar, exposição que antecedeu aquela que naquele dia foi inaugurada, “vida desenhada à mão” de Cristina Valadas.
Rui A. Faria Viana referiu ainda que o mesmo projecto, que se tem evidenciado pela sua coerência e, também já pela sua consistência, dado tratar-se da quinta exposição, que se reflecte não só na estrutura das exposições como também nos próprios catálogos. Agradeceu, ainda, ao Tiago Manuel, enquanto director artístico e coordenador, pelo trabalho realizado numa atitude de enorme profissionalismo e dedicação, e imprescindível no bom êxito deste projecto, já muito apreciado pelos vianenses e muitos visitantes.


Tiago Manuel, por seu lado, reafirmou a sua convicção, sem “rodriguinhos”, de que em Cristina Valadas não há um acto gratuito, dado que as suas mãos são um bem significativo da grande qualidade que coloca na Arte, onde tem procurado a dinâmica de vários saberes. Daí, ele mesmo ter escolhido o título para esta exposição «vida desenhada à mão», dado que, segundo Tiago Manuel, «nós os artistas desenhamos a vida à mão»; são as mãos que acariciam e sentem os objectos. Ainda para Tiago, e porque não para nós (?), Cristina Valadas, mulher que desenha com os olhos, através das suas ilustrações, nunca procurou infantilizar as crianças, mas valorizar as suas inteligências. Não é por acaso que Luísa Dacosta, a voz mais importante das mulheres que tinham voz, aquela que mais lutou contra a violência doméstica e “aplicou” a deferência ao sexo das mulheres sem cair na anedota, teve como sua grande ilustradora Cristina Valadas, dando voz a quem nos ajuda a sermos melhores pessoas: – A nossa importância reside naquilo que deixamos! – afirmação contextualizada e oportuna de Tiago Manuel, a terminar, numa aferência clara aos que vivem e actuam pela aparência na Arte, de serem sem o Ser.
Maria José Guerreiro, vereadora do pelouro da Cultura, saudou Cristina Valadas pelo facto de trazer a esta exposição a beleza e singularidade das suas ilustrações, que já perfumaram muitos livros, acrescendo ainda o facto de trazer consigo a força e a plenitude de Luísa Dacosta, a mulher que nos espanta e nos afaga com a sua escrita” – disse.
Catarina Valadas, aquando do deambular explicativo da exposição e da dinâmica dos seus vários saberes – na ilustração de livros para crianças, por exemplo, recorre habitualmente à técnica mista, combinando a pintura, o desenho e a colagem em que sobressaem temáticas associadas à fantasia e à natureza –, evidenciou a cumplicidade que sempre manteve com Luísa Dacosta, ao ponto de afirmar, alegoricamente, que ela e a Luísa Dacosta haviam casado, quase como marido e mulher. Esta cumplicidade elevou-se a tal ponto de “exigência” que Cristina Valadas, para além de criar ilustrações para os textos de Luísa Dacosta, chegou a colocar a hipótese (concretizada) de a mesma Luísa Dacosta criar o texto a partir das suas ilustrações. Foi, para ambas, uma espécie de partilha de saberes.         
Esta exposição é uma homenagem de Cristina Valadas à escritora Luísa Dacosta (1927-2015), recentemente falecida, e estará patente ao público na Ala Jorge Amado da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, até ao dia 31 de Dezembro do corrente ano. Uma exposição que se recomenda e se impõe a obrigatoriedade de a visitar.   
         Nota máxima!

Tuesday, July 14, 2015

À conversa com Afonso Reis Cabral.

Prosseguindo com a divulgação da iniciativa da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, À conversa com…, através da qual se propõe promover, em torno do livro, o diálogo e a troca de conhecimentos com escritores contemporâneos, proporcionando a oportunidade de conviver de perto com os autores e a sua obra, esteve entre nós, no pretérito dia 19 de Junho, o jovem Afonso Reis Cabral, trineto de Eça de Queiroz, o quinto de seis irmãos, nascido em Lisboa em 1990 e cresceu no Porto, Prémio LeYa 2014, com o livro «O MEU IRMÃO», já na 4.ª edição.


Este jovem/HOMEM, que escreve desde os 9 anos, publicou, em 2005, o livro Condensação, no qual reuniu poemas escritos até aos 15 anos. Publicou textos em diversos periódicos. Em 2008 ficou em 8.º lugar no “7th European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature”, entre mais de 3500 concorrentes de 551 escolas europeias e mexicanas. Foi o único português a concorrer.
Afonso Reis Cabral é licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo recebido o Prémio Mérito e Excelência atribuído ao melhor aluno do curso. Na mesma instituição fez o mestrado em Estudos Portugueses com a dissertação A Orquestra Oculta – Os Estudos da Consciência e a Literatura. Foi bolseiro no Centro de História da Cultura (FCSH-UNL), onde desenvolveu investigação sobre a editora Romano Torres.


«O MEU IRMÃO» é um romance notável e de grande maturidade literária que, tratando o tema sensível da deficiência, nunca cede ao sentimentalismo, oferecendo-nos um retrato social objectivo e muitas vezes até impiedoso. Um livro feito de afectos, inspirado no agreste, não assente no descobrir, mas no criar. Para Afonso Reis Cabral, e a propósito do seu livro, a literatura vive do confronto, da imperfeição, onde toda a narrativa é visto por um narrador. Afonso Reis Cabral revelou-nos que se sente muito inseguro a escrever, mas isso é muito bom para ele, porque o obriga a reformular: – Ninguém escreve para concorrer a prémios! – disse a determinada altura.

Excelente sarau cultural, com um escritor que promete e se recomenda!




Nota à margem:Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome Down. É então que o irmão - um professor universitário divorciado e misantropo - surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilham na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados - e o maior de todos chama-se Luciana.
Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.   

Friday, July 03, 2015

A Europa e os sacrifícios para salvar os bancos?!...

«Se somos capazes de mobilizar milhões de euros para estabilizar o sistema bancário e temos de negociar com 28 chefes de Estado durante meses e meses por causa de seis mil milhões de euros para combater o desemprego... Compreendo os que pensam que isto não é uma sociedade justa».

Martin Schulz

Há muita gente que é muito pouco dada à reflexão sobre a sua própria condição, enquanto cidadão europeu, dessa Europa que se pauta – ou faz questão de querer parecer pautar-se – pelos princípios assentes nos valores de respeito da dignidade humana, de liberdade, de democracia, de igualdade, de Estado de Direito e de respeito dos direitos do Homem. Afirmação impressa, por convicção dos mentores do paraíso, acolchoados na retórica da mentira e da hipocrisia: Estes valores, que são enunciados no artigo I-2.°, são comuns aos Estados-Membros. Além disso, as sociedades dos Estados-Membros caracterizam-se pelo pluralismo, pela tolerância, pela justiça, pela solidariedade e pela não discriminação. Estes valores desempenham um papel importante, nomeadamente em dois casos concretos. Primeiramente, o respeito destes valores constitui uma condição prévia para a adesão de qualquer novo Estado-Membro à União, de acordo com o procedimento enunciado no artigo I -57.°. Em segundo lugar, o incumprimento destes valores pode conduzir à suspensão dos direitos de membro da União em relação a um Estado-Membro (artigo I -58.°). Constatação nossa de dissimulações, pelas palavras e não pelas acções práticas, quando “prometem” que os objectivos principais da União são doravante a promoção da paz, dos seus valores e do bem-estar dos seus povos. Artigos que se anulam uns aos outros, antevendo a imagem da “caverna” em Platão ou a “realidade medieval” do rei que vai nu.
Se somos capazes de mobilizar milhões de euros para estabilizar o sistema bancário e temos de negociar com 28 chefes de Estado durante meses e meses por causa de seis mil milhões de euros para combater o desemprego... Compreendo os que pensam que isto não é uma sociedade justa. – assim começámos, em jeito de lide, a nossa presente reflexão (chamemos-lhe assim), citando Martin Schulz.


É verdade, foi em Março do corrente ano, que o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, afirmou em Bruxelas que a Europa está a pedir sacrifícios aos cidadãos “para salvar os bancos”, defendendo que é preciso envolver os parceiros sociais e defender o modelo social europeu.
“Estamos a pedir sacrifícios aos cidadãos, aos pais, para aceitarem salários mais baixos, impostos mais altos e menos serviços. E para quê? Para salvar os bancos. E os filhos estão desempregados. Se não mudarmos isso, se não voltarmos a um tratamento igualitário e justo, as promessas feitas pela Europa não serão cumpridas”, disse Martin Schulz na conferência «Um novo começo para o diálogo social».
Na altura, Martin Schulz, num discurso de cerca de 20 minutos, referiu-se em concreto ao desemprego jovem na Grécia e em Espanha, sublinhando que “as pessoas falam de uma geração perdida na Europa” e que, “mesmo os que têm emprego muitas vezes estão presos numa espiral de estágios não remunerados e de contractos de curto prazo”. E foi mais longe, reforçando a ideia de que as “pessoas estão a pagar uma crise que não causaram e sentem que não é uma sociedade justa”, compreendendo, ao mesmo tempo, o sentimento negativo dos eurocépticos, defendendo que esta “geração perdida” não afecta só os jovens, mas também os seus pais, que “investiram a vida toda na educação dos filhos”. Martin Schulz evidenciou ainda a importância do envolvimento dos representantes dos trabalhadores e das empresas na construção de políticas e de reformas estruturais.
Sem nos pautarmos pela presunção (e, quiçá, água-benta) de nos aventurarmos pelos meandros da economia, teremos em dizer que tudo isso nos isentará de tecermos grandes comentários, dado que há muito tempo isso mesmo vem escrito no nosso livro “Baliza Trágica de Um Naufrágio”, que corre o risco de ser rejeitado por todas as “iminências”, palradoras de TV, dependentes dos bancos e dos grandes grupos editoriais, também estes dependentes dos dinheiros que são injectados nos bancos. E aqui, não estamos a falar de bancos de jardim. Atentem a uma curta passagem da nossa deambulação tágico-literária, iniciada em 2008: «E não seria necessário continuar a esmiuçar toda aquela problemática, de difícil compreensão para o mais comum dos mortais, a partir do momento em que, por sugestão de Gaspar, resolveram ver e ouvir a referida produção em vídeo, bem reconfortados no longo sofá de parede, através do portátil do João Camacho. Ali estava a compreensível articulação do dinheiro criado do nada, uma imposição do sistema bancário à sociedade como um todo, onde em vez de se encarar o dinheiro como um simples dispositivo social que se quer estável, e num formato neutro que não incorpore nenhum bem ou serviço, aparecem os juros para corromperem esse princípio, convertendo o dinheiro numa mercadoria lucrativa…». E mais não diremos, no que concerne à nossa visão europeísta. Se um dia o livro sair, estará lá tudo.
Para terminarmos, uma pequena nota de um livro que iniciamos a sua leitura, publicado, inicialmente, em Londres, em 2013, e recentemente traduzido para português: Nada nos humaniza tanto como a aporia – o estado de perplexidade intensa em que nos encontramos quando as nossas certezas se desmoronam; quando, de repente, somos apanhados num impasse, sem conseguirmos explicar o que os nossos olhos vêem, o que os nossos dedos tocam, os que os nossos ouvidos ouvem. Nesses raros momentos, enquanto a nossa razão se esforça denodadamente por apreender o que os sentidos nos relatam, a nossa aporia relembra-nos a humildade e prepara-nos a mente para verdades até então insuportáveis… (VAROUFAKIS, Yanis – O Minotauro Global: Os Estados Unidos, a Europa e o Futuro da Economia Global. Lisboa: Bertrand Editora, 2015, p. 17). Por cá, os palradores de circunstância (em palanque de TV) abstraem-se da leitura, para falarem pelo “diapasão do chefe”. Corrido o “chefe”, voltam-se para outro “chefe”. E assim sucessivamente, até se esgotarem os créditos e influências nos “corredores do poder”. A “realidade económica” em detrimento do “lirismo dos poetas”, bacorada vociferada na semana em que o vociferador é investigado por corrupção. Bem prega o Frei Tomás.  
         Boa reflexão e até para a semana!

Saturday, June 27, 2015

A questão pertinente da existência de Deus em Feuerbach!...

«O que até agora se afirmou em geral sobre a relação do sujeito com o objecto, mesmo em relação a objectos sensíveis, é “especialmente” válido no caso da relação do sujeito com o “objecto religioso”».

Ludwig Feuerbach
(In, A Essência do Cristianismo. Ed. Fundação Calouste Gulbenkian)

Começando por exteriorizar o “objecto sensível”, Feuerbach acaba por colocar o “objecto religioso” como um objecto intrínseco ao próprio homem, ou seja, dentro dele. Por isso, Deus aparece mais estritamente ligado ao homem do que o corpo à alma. Enquanto o “objecto sensível” é em si indiferente, porque independente da convicção, da faculdade de julgar; o “objecto da religião” é um objecto eleito, sendo que pressupõe um juízo crítico. Daí se depreender que o objecto do sujeito não é mais do que a essência objectividade do próprio sujeito: “Tal como o homem é objecto para si, assim Deus é objecto para ele; tal como pensa, tal como sente, assim é o seu Deus. Tal o valor que o homem tem, assim o valor – e não mais – que o seu Deus tem” (Feuerbach, 1994: 22). Numa contraposição ao princípio supremo de Hegel, quando este afirmou o saber do homem sobre Deus é o saber de Deus sobre si mesmo, Feuerbach postula o saber do homem sobre Deus como o saber do homem sobre si mesmo, ou por outras palavras: A consciência de Deus é a consciência de si do homem, o conhecimento de Deus o conhecimento de si do homem. Segundo o mesmo filósofo, “o que para o homem é Deus, isso é o seu espírito, a sua alma, e o que para o homem é o seu espírito, a sua alma, o seu coração, isso é o seu Deus”. Estamos, assim, perante o Deus interior revelado, o “si-mesmo” do homem expresso. Por outro lado, a religião revela-se no desvendamento festivo dos tesouros escondidos do homem e/ou na confissão dos pensamentos mais íntimos do homem, ou seja, naquilo que Feuerbach diz ser a proclamação pública dos seus segredos de amor. Para ele, o homem começa por lançar a sua essência para fora de si, antes de a encontrar em si. Por isso, se, na religião, a consciência de Deus é referida como a consciência de si do homem, o homem religioso, ao ter consciência de Deus acaba por ter consciência de si, da sua essência: “Para eliminar esta incompreensão, é preferível dizer: a religião é o primeiro, mas indirecto, conhecimento de si do homem. É por isso que em toda a parte, tanto na história da Humanidade, como na história do indivíduo, a religião precede a filosofia” (Feuerbach, 1994: 23). Esse preceder da religião reside, precisamente, no facto de que aquilo que nas primeiras religiões foi tido como objectivo, é hoje reconhecido como subjectivo.


A religião precedente, a do Deus objectivado, viria a ser considerada pela religião posterior como idólatra, dado que o homem adorou a sua própria essência, ou seja, segundo Feuerbach, o homem objectivou-se mas não reconheceu o objecto como a sua essência. Contudo, cada religião posterior, ao considerar as suas irmãs mais velhas como idólatras, acaba por se subtrair a si mesma da essência universal, e, desta forma, usufruir da condição necessária para vir a ser religião. O filósofo alemão chama a isto de progresso na religião, um conhecimento de si mais profundo. Nesta circunstância a religião posterior, por se elevar acima do conteúdo das anteriores, atribui às mesmas (precedentes) o que é a culpa da religião em geral e dado imaginar que o seu objecto, o seu conteúdo, é sobre-humano: “Mas o pensador para quem a religião é objecto, o que a religião não pode ser para si mesma, descobre a essência da religião que para ele está oculta” (Feuerbach, 1994: 24). O mesmo filósofo alemão procura assim demonstrar que esta oposição do divino e do homem é ilusória. O objecto e conteúdo da religião cristã acabam por ser inteiramente humanos e a essência divina é a essência do homem purificada, porque liberta das limitações do homem individual. Daí se concluir que todas as determinações da essência divina são, invariavelmente, determinações do próprio homem.
Tendo em conta que uma essência sem determinações é uma essência nula, porque não-objectiva, o homem ao afastar de Deus todas as determinações, acaba por “imprimir” em Deus um ser negativo. Para Feuerbach, a negação do sujeito é considerada uma irreligiosidade, até mesmo ateísmo: “Para o homem verdadeiramente religioso, Deus não é um ser desprovido de determinações, porque é para ele um ser certo, real. A ausência de determinações – e a incognoscibilidade de Deus, que lhe é idêntica – é, portanto, apenas um fruto dos tempos recentes, um produto da incredulidade moderna” (Feuerbach, 1994: 25). O homem desculpa-se com a incognoscibilidade de Deus, pelo facto de, circunstancialmente, se ter perdido no mundo. Nega Deus pela acção, mas não teoricamente. O mundo ao absorver todos os seus sentidos e pensamento, o homem deixa de discutir a existência de Deus, deixando-a subsistir. Feuerbach afirma que esta existência não afecta nem incomoda o homem, por se tratar apenas de uma existência negativa, uma existência sem existência, uma existência contraditória – “um ser que, pelos seus efeitos, não se pode distinguir do não-ser” (Feuerbach, 1994: 25). O homem, ao negar determinados predicados positivos da essência divina, e apesar de possuir para si uma aparência de religião – para não ser reconhecida como negação –, acaba por negar a própria religião. Esta atitude é denominada por Feuerbach como um subtil e astucioso ateísmo. Para o mesmo filósofo alemão, fazer de Deus um ser finito, por pretensa vergonha religiosa, reflecte apenas o desejo irreligioso, ou seja, nada querer saber acerca de Deus, tirando-o dos sentidos – Quem tem vergonha de ser finito, tem vergonha de existir [50]. Só quando o homem perde o gosto pela religião é que a existência de Deus se torna numa existência insípida: “Uma existência em geral, uma existência sem qualidade, é uma existência sem gosto, insípida. Ora em Deus não existe mais do que na religião” (Feuerbach, 1994: 26).
Outro factor preponderante para a denominada “destruição da paz da religião”, segundo Feuerbach, reside na distinção – ainda que infundada e inconsciente – entre aquilo que Deus é em si e aquilo que é para o homem, concedendo este que os predicados da essência divina sejam determinações finitas, ou seja, determinações do próprio homem, alegando-se, ao mesmo tempo, que é necessário formar certas representações acerca de Deus: “Não posso de modo algum saber se Deus em si ou para si é algo de diferente do que é para mim; tal como é para mim, assim é tudo para mim. Porque é justamente nesses predicados nos quais ele é para mim que reside, para mim, o [52] seu ser-em-si-mesmo, a sua própria essência; ele é para mim tal como poderá ser sempre para mim” (Feuerbach, 1994: 26-27). Assim, o homem religioso, ao não conhecer outra relação senão a relação dele com o que Deus é – pois Deus é para ele o que pode ser para o homem em geral –, acaba por se elevar acima de si mesmo, sendo que esta elevação não passa de uma ilusão.
           Boa reflexão e até para a semana!

Wednesday, June 17, 2015

Domingos da Calçada edita contos e crónicas do Vale do Neiva!...

«Enquanto esteve em Coimbra, fosse porque se tivesse embrenhado totalmente na conclusão do curso, fosse porque se sentiu comodamente amparado pelos costados da velha família que lhe esmaltavam a origem fidalga mais a ascendência castrense, desvalorizou a obrigação de se apresentar às inspecções militares e foi considerado faltoso.»

Domingos da Calçada

Com esta pequena citação, atrevemo-nos a dar-lhe o cunho pragmático do significado da virtude, assente na força, poder, poder de uma coisa, eficácia. «MUITOS PECADOS – POUCAS VIRTUDES», contos e crónicas do Vale do Neiva, virtudes e sabedoria do grande memorialista DOMINGOS DA CALÇADA, arquitecto da sabedoria, da palavra e do destino das gentes do Vale do Neiva, este HOMEM DO POVO onde o factor criativo se espelha na realidade que não precisa de ser inventada, porque, no dizer do seu editor e nosso particular amigo Fernando Pinheiro, «ela vive e permanece nas páginas das obras de Domingos da Calçada, e a sua representação simbólica permite ao leitor um encontro emocionante com a experiência histórica de um povo que contra ventos e marés sofreu a canga da exploração, combateu as injustiças e lutou pelo seu progresso». No dia 31 de Maio (Domingo), lá fomos até Durrães, num amplexo sincero a Tregosa, porque agora irmanada na “União de Freguesias”, para apresentarmos mais uma obra deste grande escritor que utiliza uma linguagem pura, peculiar, plena rusticidade e de termos caídos em desuso, imprimindo-lhe um estilo quase camiliano, no que toca à «violenta intromissão da consciência narradora no plano da expressão», no dizer de Eduardo Lourenço.


E começaremos precisamente pela Virtude, enquanto hábito que se torna possível, à boa maneira aristotélica, por haver previamente nela uma potencialidade ou capacidade de ser de um modo determinado. De facto, não basta contentarmo-nos com o dizer que a virtude é hábito ou modo de ser, antes é preciso dizer também de forma específica qual é esta maneira de ser em Domingos da Calçada, carácter específico do ser humano maravilhoso que ele é, bem próprio e intransferível, no sentido lato dos actos necessários à virtude, aquilo que faz que cada coisa seja o que é, sem máscaras ou artefactos similares, dado que, circunstancialmente, as máscaras retiram racionalidade à virtude.
Quanto aos pecados, aspectos catódicos da razão, inerentes à força abstractiva da inteligência humana, revelam-se através das funções da consciência, razão e memória. São esses os pecados de Domingos da Calçada: consciência, razão e memória. Acrescentaríamos, a inteligência auxiliada pelos sentidos, faculdades que apresentam o objecto que, abstraído das propriedades materiais e concretas, se unem à inteligência, derivando da natureza do ente. Daí, ser pacífica a dualidade impressa por Domingos da Calçada, entre os “muitos pecados e poucas virtudes”, ou vice-versa.
É evidente que não iremos aqui esmiuçar ou desvelar conteúdos deste magnífico livro de contos e crónicas do Vale do Neiva, pois se eventualmente o fizéssemos, face à subjectividade da nossa apreciação (sim, uma apreciação é sempre subjectiva), isso não seria bom nem para o autor nem para o editor, e, sobretudo, para os leitores. Compete-nos apenas aguçar o apetite dos potenciais leitores (compradores), glosando a caracterização das personagens, estados psíquicos, espaços temporais e comportamentais; a genuína expressão lexical do autor e a facilidade com que nos prende a sua criatividade literária.
Por este «Muitos Pecados – Poucas Virtudes» perpassam Regedores, daqueles que, ao tempo, «costumava dizer-se, consoante o padrão económico do meio, que era genericamente pobre, que quem tivesse um conto de réis a juros podia usar gravata e andar de costas direitas toda a semana, sem precisar de vergar a espinha a manejar a sachola»; criados de servir, materializados no Alfredo da Torre, «coitado. Poucos criados de servir foram mais tosados e explorados do que ele» e na Velhinha de Rosendo: «Falou muito, a velhinha, no pouco tempo de que podíamos dispor»; as histórias contadas, por um pedreiro de Durrães, chamado Adelino Fernandes do Campo, mais conhecido por Adelino Gateiras, um bom conversador que nos derradeiros anos de vida foi deixando para a posteridade várias histórias e casos, quer da sua própria vivência, quer do seu conhecimento pessoal, evitando com a sua verve que caíssem no vazadouro do esquecimento, realçando a do caso do “barrelo” do Tio Lãos de Santa Lucrécia: «Foi famosa a “casa das trancas” duma quinta de Cossourado, que serviu de exemplo ou modelo a várias outras de freguesias ao redor»; o Bento Peliqueiro, negociante de peles, «depois de mais duma semana por terras desconhecidas, sempre a caminhar, a passar fome e a cansar as pernas. O traste espalhou a falsa notícia da sua morte…»; o Ti’Joaquim e o “relaxe da décima”, permitido e auscultado pela Rosa da Fontainha, curadora de maleitas; a compra da espingarda por Antonces, «presumido e obcecado pela usura, que praticava sem o mínimo engulho moral, colocava o seu exclusivo interesse e imagem no vértice de uma pirâmide, cuja base esmagava os pobres e os simples…», ao Zé Sambento.


Por este magnífico livro de Domingos da Calçada, perpassam ainda gente incrível como o Zé da Beata, aquela pessoa que, segundo Domingos da Calçada, «nas suas bizarras conjecturas, se considerou como o mais importante exemplar da espécie humana que jamais existiu à face da terra…»; o professor Domingos Gomes e a pupila D. Amélia, «mulher enigmática, que punha especial cuidado no aspecto físico, sobretudo com o vestuário que lhe fazia sobressair as bem delineadas formações do corpo»; o Moisés, filho dum artista que foi desenhador e pintor de alta sensibilidade e reconhecido mérito, mas que «não encarreirou na esteira das tintas e do craião, que preenchiam as horas e o mundo intelectual do seu progenitor»; o Pato Velho e o Abade Marrancos (assim alcunhado pelas línguas afiadas em lanceta dos velhos capareirenses), dois feirantes que «entachavam tamancos para vender nas feiras e à porta, mas o Pato dedicava-se também à compra de cereais, sobretudo milho, com que chegava, numa só feira, a carregar em pleno um carro puxado a cavalos»; a Virgínia, aquela que «tinha perdido o homem dois anos e meio depois do casamento»; o doutor que trocava por outras a sua prendada senhora, como faziam os antigos reis, nobres e fidalgos; e, o Francelino da Mata, aquele cuja «inquietação dominava-o à laia de remorso…».
O acto perfeito da criatividade memorialista e literária de Domingos da Calçada, evidencia-se também na composição dos enredos, harmonizada pelo bem doseado antagonismo do pecado e da virtude. Nada como um bom enredo para podermos afirmar, com justeza, à boa maneira aristotélica, «que uma tragédia é diferente ou igual: é igual quando tem o mesmo nó e desenlace. Mas muitos que estruturam bem o nó elaboram mal o desenlace» (Poética, 1456a: 5-10). Ao contrário das preocupações educacionais de Aristóteles, Domingos da Calçada, é mestre em harmonizar o nó e o desenlace. São bem exemplo disso: Padres, Padrinhos e Padrecas; O Ladrão das Cabaças; O Inocente; O Rapinanço; e O Moreno. Tudo está em «Muitos Pecados – Poucas Virtudes», através das palavras, emoções, histórias e espaços colectivos, desejos, ideais, conflito de gerações, rectidão e frontalidade, inocências enganadoras, prosperidade e bem-estar, aventuras desventuradas pela ambição e a ganância. Tudo numa escrita escorreita, escorreitamente perfeita.          
         NOTA MÁXIMA!