Saturday, June 25, 2016

Cinema: “imagem-imóvel” versus “imagem-acção” e a relação entre elas!...

«Há uma diferença, em princípio, entre o registo de um movimento visual e as imagens imóveis da fotografia, da pintura ou da escultura. O filme é mais do que uma variante da imagem imóvel, obtida por multiplicação: é algo de novo e diferente…»

Rudolf Arnheim

Como na anterior crónica referimos, ao nos propormos reflectir e dar a conhecer a importância do cinema na vida e na cultura humanas, entendemos que a eternidade que o cinema inspira, elevando os olhos bem abertos nas gloriosas salas escuras (e não só), regista transformações profundas e de diversa índole no ecossistema audiovisual em que, pela natureza da sua linguagem, o cinema se integra. A nosso modesto ver, Nenhuma outra manifestação artística está tão intimamente ligada à evolução tecnológica como o cinema. Parafraseando Guilhermo Cabrera Infante «o cinema, que é a arte do século XX, é a única arte que nasceu de uma tecnologia… De todas as artes só o cinema se deve a um avanço da tecnologia». Pois, nenhuma outra forma artística foi (é) capaz de tão rápida e eficazmente se adaptar a novas situações, meios, gostos e públicos. Como arte que nos oferece um maior entendimento a exploração temática paira desde o sentido mais directo até ao mais imprevisível indirecto, construindo uma estrutura conceptual própria e uma linguística única.


Os mundos do imaginário ao mais real, os conteúdos e formas que exibe guindam o espectador, o realizador e os actores a entendimentos universais, difundidos a nível planetário. Por isso, conhecer a história do cinema, as suas fases evolutivas, os segmentos marcantes do seu desenvolvimento e os marcos da sua consolidação; interpretar o papel do cinema face ao aparecimento e afirmação da televisão; identificar os novos desafios que se colocam na actualidade a esta arte, nomeadamente, a formação e aculturação de mentalidades de públicos e opiniões e os cultos que potenciam e geram; entender o posicionamento desta indústria no contexto actual das artes e da estética enquanto manifestação humana, de sonhos, ilusões, sentimentos e ansiedades; e, compreender o papel da arte cinematográfica na personalidade individual e como catarse colectiva; acabamos por reconhecer a sua produção como acto de elevada capacidade criativa. Questionar e desenhar, filosoficamente, a futura vaga do cinema.
O que constitui o realismo, é simplesmente como isto: meios e comportamentos, meios que actualizam e comportamentos que encarnam. A “imagem-acção” é a relação entre ambos, e todas as variedades desta relação. É este modelo que faz o triunfo universal do cinema americano, ao ponto de servir de passaporte aos autores estrangeiros que contribuem para a sua constituição.
No meio distingue-se as qualidades-potências e o estado das coisas que as actualiza. A situação e a personagem ou a acção são como dois termos simultaneamente correlativos e antagonistas. A acção ela própria é um duelo de forças, uma série de duelos: duelo com o meio, com os outros, consigo. Por fim, a nova situação que sai da acção forma um par com a situação de partida. Este é o conjunto da “imagem-acção” ou, pelo menos, a sua primeira forma. Constitui a representação orgânica que parece dotada de fôlego ou de respiração. Porque ela dilata-se do lado do meio, e contrai-se do lado da acção. Mais precisamente, dilata-se ou contrai-se de cada lado, segundo os estados da situação e as exigências da acção. Neste tipo de “imagem-acção” desenvolvem-se um certo número de grandes géneros cinematográficos: o documentário, o filme psicossocial, o filme “noir”, o western e o filme histórico. As leis que regem a “imagem-acção” englobam a representação orgânica no seu conjunto, a passagem de situação a acção decisiva e a lei de Bazin ou da “montagem proibida”.
A “imagem-acção” inspira um cinema de comportamento, behaviorismo, visto que o comportamento é uma acção que passa de uma situação para outra, que responde a uma situação para tentar modificá-la ou de instaurar outra situação.
Este cinema de comportamento não se limita com o esquema sensorial motor simples, do tipo arco reflexo mesmo condicionado. É um behaviorismo muito mais complexo que tem essencialmente em conta factores internos. Com efeito, o que tem de parecer exterior, é o que se passa no interior da personagem, no cruzamento da situação que a impregna e de acção que vai fazer rebentar. É exactamente a regra do Actors Studio: só o interior é que conta, mas este interior não está para além nem escondido, confunde-se com o elemento genético do comportamento, que deve ser mostrado. Não é um aperfeiçoamento da acção, é a condição absolutamente necessária do desenvolvimento da “imagem-acção”. Esta imagem realista nunca esquece, com efeito, que apresenta por definição situações fictícias e acções simuladas. Na pequena forma conclui-se da acção para a situação ou para as situações.
A distinção de duas formas de acção é simples e clara em si mesma, mas as suas aplicações são complexas. Sabemos que as questões orçamentais podem intervir, mas não serem determinantes, visto que a pequena forma para se exprimir e desenvolver-se, tem necessidade de um ecrã largo, de décors e de cores magníficas, tanto quanto a grande forma.
É preciso determinar domínios de base em que a pequena e grande formas de acção manifestem simultaneamente a sua distinção real e todas as suas transformações possíveis. O primeiro é o domínio físico-biológico, que corresponde à noção de meio. Segue-se o domínio matemático que corresponde à noção de espaço e, em terceiro lugar, consideramos o domínio estético que corresponde à noção de paisagem.

Nota final: Ajudaram-nos nesta reflexão e na crónica anterior, autores como Rudolf ArnheimA Arte do Cinema. Trad. Maria da Conceição Lopes da Silva. Lisboa: Edições 70, 1989; Gérard BettonHistória do Cinema (Das origens até 1986). Trad. Maria Gabriela de Bragança. Mem Martins: Publicações Europa América, 1989; Doc ComparatoDa criação ao guião: a arte de escrever para cinema e televisão. Trad. Gabriela Alves Neves. Lisboa: Pergaminho, 1998; Gilles DeleuzeA Imagem-Movimento: Cinema 1. Int. e trad. Rafael Godinho. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004; Gordon GrahamFilosofia das Artes: Introdução à Estética. Trad. Carlos Leone. Lisboa: Edições 70, 2001; Andrew TudorTeorias do Cinema. Trad. Dulce Salvato de Meneses. Lisboa: Edições 70, 1985.

Monday, June 13, 2016

Cinema versus Televisão: do culto social à solidão familiar!...

«Com a televisão, a rádio transforma-se num veículo mais elucidativo. Só quando fornece informações à vista é que cumpre a sua função – não a única nem talvez a mais importante – de nos possibilitar a observação imediata de que se passa no mundo em que vivemos…»

Arnheim

A curiosidade do homem ultrapassa o alcance dos sentidos. Entre as invenções técnicas que contribuem para diminuir esta disparidade, a televisão é das mais importantes. O surgimento deste novo invento parece simultaneamente mágico e misterioso. Desperta a curiosidade: como funciona? O que nos proporciona?
A televisão é um parente do automóvel e do avião: um meio de transporte cultural. Na verdade, é apenas um instrumento de transmissão que nos oferece novos meios para a interpretação artística da realidade, como o fizeram a rádio e o cinema. Todavia, à semelhança das máquinas de transporte, que foram a dádiva do progresso industrial do século XX, a televisão veio alterar a nossa atitude em relação à realidade: faz-nos conhecer melhor o mundo e, sobretudo, dá-nos uma sensação da multiplicidade de coisas que acontecem simultaneamente em sítios diferentes. Pela primeira vez na história do esforço da aventura humana para o conhecimento das coisas, a simultaneidade pode ser sentida como tal, e não apenas traduzida como uma sucessão no tempo. Os nossos corpos lentos e os olhos míopes deixam de constituir um entrave. Chegamos à conclusão que o lugar em que vivemos é um entre muitos: tornamo-nos mais modestos, menos egoístas.
Quanto mais perfeitos forem os nossos meios de conhecimento directo, mais facilmente cairemos na perigosa ilusão de que sentir é equivalente a saber e compreender.
A televisão é uma prova nova e dura da nossa sabedoria.
A ida ao cinema, essa sala de magia objecto de autêntico culto social durante décadas passa a ser substituída pelo visionamento da televisão desde os programas em família até ao apreciar da série mais sugestiva na solidão individual, impedindo inclusivamente o contacto directo com os seus semelhantes. Deixamos de necessitar de companhia para comemorar ou lastimar, aprender, divertir, aclamar ou protestar. Verificamos que a televisão compensa a presença física real, pois, quanto mais só estiver o indivíduo no seu isolamento, mais precária se torna, em correspondência directa, a situação da balança comercial: uma enorme acumulação de bens, consumidos sem retribuição.


A televisão oferece o produto final de um século de desenvolvimento que saiu do acampamento, do mercado, da arena, das nossas salas de concerto, teatro e cinema, para o actual consumidor solitário do espectáculo. A televisão, que no início da sua actividade foi rival do cinema, passa a ser uma excelente ajuda para a recuperação do “ofício do século XX”. É que, no âmbito da produção audiovisual, o filme continua a ser o principal produto: quer porque pode ser transaccionado em todas as sedes do mercado audiovisual, quer porque pode ser difundido através de sala, televisão, videocassete, videodisco, etc. Chega-se mesmo a um estado de aguda prática filmofágica, que talvez seja inevitável no quadro daquela outra função televisiva essencial que é a de ser a mais prodigiosa cinemateca que alguma vez existiu, com a vantagem insuperável de não ter directores e sub-directores que se crêem e “arrogam” de proprietários das cópias. É caso para dizer mesmo que a televisão, como fazem alguns canais, incluindo a RTP Memória, se limitasse a repor filmes “velhos”, já a sua existência se justificaria.
O vídeo, que é um instrumento adventício, permitiu-nos ver todos os dias e todas as noites esses filmes que são eternos. É assim que podemos gravar, passar, repor, fazer reviver a glória que foi o passado do cinema, ou seja, a televisão (e família) possibilita-nos ter uma cinemateca própria, o que é bem inestimável porque, em cultura, o prazer deve converter-se em haver. Nunca como hoje tivemos tantas possibilidades de aceder ao conhecimento (à posse) do cinema passado e presente, das suas obras mais significativas e também das outras, que são indispensáveis para compreendermos a que ritmo e percentagem esta arte tão jovem tem produzido obras-primas. Outrossim, não é possível negarmos que foi a televisão que desenvolveu as inovações mais surpreendentes da forma cinematográfica nos últimos tempos: do videoclipe ao docudrama sem esquecer o serial.
O cinema teve e superou várias crises que, como todos sabemos, são acontecimentos cíclicos e portanto inevitáveis.
Pensamos voltar a abordar esta temática dado que, ao tempo das nossas deambulações académicas, no plano da «História e Estética do Cinema», chegamos a apresentar um programa, cujos objectivos passavam por reflectirmos e darmos a conhecer a importância do cinema na vida e na cultura humanas; conhecermos a história do cinema, as suas fases evolutivas, os segmentos marcantes do seu desenvolvimento e os marcos da sua consolidação; interpretarmos o papel do cinema face ao aparecimento e afirmação da televisão; identificarmos os novos desafios que se colocam na actualidade a esta arte, nomeadamente, a formação e aculturação de mentalidades de públicos e opiniões e os cultos que potenciam e geram… A massificação da produção e a ditadura dos novos suportes!

Wednesday, June 01, 2016

Professor Doutor Artur Anselmo apresenta «História do Livro e Filologia»!...

«Não sou homem de correr atrás de modas. Vejo-me, hoje como há sessenta anos, sozinho, no meu canto, sem incomodar ninguém, a ler, a pensar, a estudar. Gosto de intervir no mundo da Cultura, porque sou – com muito orgulho – um intelectual assumido, mas sempre vivi afastado de idealismos redentores e de populismos amnésicos…»

Artur Anselmo

Já a algumas semanas a esta parte que tínhamos em nosso poder a gentil oferta do livro «HISTÓRIA DO LIVRO E FILOLOGIA» do nosso particular amigo Professor Doutor Artur Anselmo (que teve a gentileza de apresentar o nosso livro «Baliza Trágica de Um Naufrágio» em Viana do Castelo), filólogo romancista de formação, historiador do livro por velha afeição indeclinável, doutorado pela Sorbonne (Paris – IV) e pela Universidade Nova de Lisboa, docente jubilado desde 2011, tendo leccionado, ao longo de cerca de quarenta anos, cursos de Língua, Literatura e Cultura Portuguesas, Semiologia, Cultura Clássica Greco-Latina e História do Livro, no Brasil e em Portugal. Presidente da Academia das Ciências de Lisboa, é também, pelo terceiro ano consecutivo, o presidente da Classe de Letras desta instituição fundada em 1779.


O livro foi apresentado na Sala Couto Viana da Biblioteca Pública Municipal de Viana do Castelo, pelas onze horas do dia 7 de Maio de 2016. Por que estivéssemos na “obrigação” de estarmos presentes, acrescendo o facto do apresentador de circunstância ser outro dos nossos particulares amigos, Doutor António Matos Reis, intelectual sério e um dos mais conceituados investigadores nacionais, duas fortes razões pelas quais se impunha a nossa presença. Foi uma magnífica apresentação, que acabaria por despoletar um interessante debate, à volta do livro e do Acordo Ortográfico.
Em nota de circunstância, Artur Anselmo acaba por esclarecer a circunstância – com o devido pedido de desculpas pela nossa redundância – de quarenta anos volvidos, ter regressado ao ponto de partida, no seu dizer, «à sagrada aliança com a Filologia, essa árvore robusta e frondosa a que, cedo ou tarde, têm de acolher-se todos quantos, vindos da História, ou da Sociologia, ou da Bibliografia Material, ou da Literatura, ou da Informática, pensam, escrevem, teorizam – umas vezes repetindo e outras vezes inovando – sobre livros de ontem e de hoje. Em qualquer dos casos, sempre com a coragem de evitarem incursões no futuro, que só a Deus (ao Livro) pertencem» e, ao mesmo tempo, impelir-nos à leitura dos “ensaios” inseridos nesta História do Livro e da Filologia, espaço físico aberto à nossa curiosidade, porque uma das nossas maiores paixões. O Livro como ponto de partida e chegada, o conhecimento das técnicas de reprodução do pensamento, recorrendo cada vez mais aos métodos próprios da filologia. Tal como afirma Artur Anselmo, «passar um texto para letra de fôrma é uma operação complexa, que tem não só múltiplas afinidades com o exercício da escrita manual mas também particularidades técnicas nem sempre familiares ao comum dos leitores, aos bibliógrafos e aos bibliófilos…» – citamos.


Este magnífico livro, para além de ter a particularidade acrescida de conter o texto inédito da Acta do Júri do Prémio Antero de Quental atribuído à «MENSAGEM» de Fernando Pessoa em 1934, por ele perpassam trabalhos, que nos escusamos (por uma questão de ética deontológica e desmerecimento intelectual) esmiuçar, tais como: Vocabulários da Língua Portuguesa editados em Portugal (1866-1970), p. 23-32; Um século de reformismo ortográfico (1911-2011), p. 33-44; Avisos e lembranças de um coleccionador de livros, p. 45-52; O Livro Português e o Humanismo Europeu, p. 53-66; Armas Nacionais impressas como marcas de sabor tipográfico, p. 67-76; As edições portuguesas dos Colóquios de Garcia d’Orta (1563-1963), p. 77-88; Como e onde se imprimiu em 1619 a «Vida de Dom Frei Bertolameu», p. 89-98; D. Francisco Manuel de Melo, Plagiador, p. 99-102; Frei Manuel do Cenáculo e a Biblioteca do Convento de Jesus incorporada na Academia das Ciências de Lisboa, p. 103-114; O espírito polémico de Herculano na Defesa do Património Espiritual e Material, p. 115-124; Entre Gigantes: Camilo, José Caldas e Frei Bartolomeu dos Mártires, p. 125-137; Bibliófilos Micaelenses: Os três irmãos da família Canto, p. 138-150; Leite Vasconcelos e o Livro Antigo, p. 151-156; Cinco Editoras do Século XX, p. 157-175; História Editorial do Romance Emigrantes, de Ferreira de Castro, p. 176-183; Considerações sobre a Acta do Prémio «Antero de Quental» (1934) desaparecida durante oitenta anos, p. 184-195; No tempo em que os jornais tinham Suplementos ou Páginas Literárias, p. 196-205; Sobre os Conceitos de Humanismo e Renascimento no pensamento de Pina Martins, p. 206-214; A crítica histórica e literária em Joel Serrão, p. 215-224; Elogio Histórico de Justino Mendes de Almeida, p. 225-231. Termina com a citação – bibliografia – da proveniência dos textos (p. 233-234), através de sínteses, comunicações, intervenções em colóquios, introduções e textos inéditos deste ilustre professor jubilado.
Congratulamo-nos, aplaudindo ao mesmo tempo, com o aparecimento de mais esta magnífica obra do Professor Doutor Artur Anselmo, numa aprimorada edição “Guimarães” – chancela “babel” –, tendo em conta ao rigor científico à mesma emprestado, saído da sapiência do maior e mais avalisado especialista nesta área.    
        NOTA MÁXIMA!

Saturday, May 14, 2016

VII Jornadas Internacionais de História da Loucura, Psiquiatria de Saúde Mental. Coimbra – 9 e 10 de Maio de 2016.

Nos dias 9 e 10 de Maio de 2016, participamos, pelo quarto ano consecutivo, nas «VII Jornadas Internacionais de História da Loucura, Psiquiatria e Saúde Mental», que decorreram em Coimbra, no auditório da Secção Regional do Centro da Ordem dos Farmacêuticos, numa organização da «Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde – SHIS», com o apoio e colaboração científica e institucional do «Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do Centro de Estudos interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra — GHSCT-CEIS20», cujos coordenadores são os Professores Doutores João Rui Pita e Ana Leonor Pereira, da mesma Universidade, e que visam dar continuidade a temáticas apresentadas e aprofundar as frentes de discussão abertas desde a primeira edição.


Esta sétima edição teve a particularidade de introduzir pela primeira vez tópicos como a história da loucura – segundo Ana Leonor Pereira, em homenagem ao companheiro de Jornadas, o médico-psiquiatra Adrián Gramary, e ao seu magnífico livro, lançado no ano anterior, «Palco da Loucura: Os Demónios em Picasso, Hemingway, Marilyn…» –, imaginários literários, utopias sociais e senso comum desde a antiguidade clássica até à actualidade.

Celia Garcia Diaz

Condicionados pela distância e pelo desarticulado “expresso”, com paragens prolongadas em diversas localidades, a premeio de um aparatoso acidente na A28 (uma hora de fila), chegamos a Coimbra a tempo de ouvirmos a 2.ª Sessão de apresentação de comunicações, com Celia Garcia Diaz, Psiquiatra no Serviço Andaluz de Saúde (USMC valle del Guadalhorce), abordando «Eugenesia, feminismo e loucura na segunda república espanhola: o caso Hildegard Rodriguez». Esta abordagem reporta-nos a 9 de Junho de 1933, dia em que Aurora Rodriguez assassinou sua filha Hildegart com um tiro, na sua residência em Madrid. Segundo Celia Garcia Diaz, o caso foi muito relevante por vários motivos: mãe e filha chegaram a ser muito conhecidas no ambiente intelectual dos 20 e 30 em Espanha. Hildegart foi o expoente máximo sobre matéria de sexologia, reformas eugénicas e o papel da mulher na sociedade. O processo judicial levou a que Aurora fosse internada num hospital psiquiátrico até à sua morte. Através da peritagem e sua história clínica de Aurora, Celia Diaz procurou analisar como a “instituição” transformou o discurso da paciente, e como ela resistiu à dinâmica totalizadora da mesma “instituição”, baseando-se, precisamente, na sua história clínica. Aurora, condenada a 24 anos, 8 meses e um dia de prisão, recusando-se ao seu estado de loucura, criando permanentes conflitos com outras reclusas, teve como último destino o manicómio, porque acometida por uma depressão que a levaria a um estado final de demência. Contudo, sempre acabaria por deixar marcas de algum contraditório e/ou lucidez: – Nunca acreditei que o meu túmulo fosse o manicómio!

Francisco Molina Artaloytia

Seguiu-se Francisco Molina Artaloytia, Professor de Filosofia (História e Filosofia da Ciência-Lógica) no Ensino Secundário, em Espanha, com «Ferramentas epistemológicas e fontes para conhecer a História da Categoria de “Homossexualidade” na Medicina Portuguesa no Século XX e suas simetrias/ assimetrias com sua homóloga espanhola», propondo-se, através dos resultados da sua tese de doutoramento, recentemente defendida, desvendar um excelente reportório das principais fontes históricas para recorrermos à construção da “homossexualidade como categoria nas ciências biomédicas portuguesas do século XX, particularmente na psiquiatria e medicina forense da antessala e desenlace do Estado Novo, investigação que se tornou frutífera porque lhe permitiu estabelecer uma perspectiva comparativa com o caso espanhol do franquismo. Recorrendo ao psiquiatra Júlio de Matos e ao antropólogo Mendes Correia, acabou por utilizar metateorias (filosofias) da ciência, especialmente utilizadas para as análises das tipologias humanas desde as perspectivas da epistemologia histórica, a filosofia analítica e o materialismo cultural. Gostamos particularmente desta comunicação, por abordar a criminologia positivista; a vida sexual e conflito sexual; vícios genéricos e elementos normalizadores: homossexualidade/ heterossexualidade; modelo sexual mediterrânico; recalcando, pela primeira vez, lugares comuns da história da psiquiatria e da história das “homossexualidades”.

Maria do Rosário Neto Mariano

Da parte de tarde do dia 9 de Maio, assistimos a uma extraordinária conferência plenária pela professora universitária da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Maria do Rosário Neto Mariano, onde abordou as «Perturbações comportamentais e psicopatologias em personagens do Naturalismo francês: a Escola de Charcot e as suas influências na literatura», levando-nos ao conhecimento de que uma das vertentes do Naturalismo literário, “fundamentada aliás, no seu acentuado interesse pelas ciências da vida, é a incidência que nele têm os casos de perturbações comportamentais mais ou menos graves, psicopatologias aparentemente incuráveis ou de etiologia desconhecida e degenerescências várias, atribuídas a factores hereditários dificilmente contornáveis”. Magnífica e cientificamente irrepreensível conferência plenária, para ser dita ou avaliada nestas modestas linhas. Esperamos pela sua publicação nas Actas das Jornadas, no próximo ano!

Porfírio Pereira da Silva

A 3.ª Sessão de apresentação de comunicações, iniciou-se com a nossa intervenção, a propósito do «génio de Camilo Castelo Branco (1825-1890) e a sua atribulada relação com os médicos do seu tempo», que por ser deontologicamente incorrecto falar em “casa-própria”, ficar-nos-emos pelo título e pelos incentivos recebidos.

Luís Timóteo Ferreira

Seguiu-se-nos Luís Timóteo Ferreira, do “CEIS20 – Universidade de Coimbra” e professor do ensino básico, abordando o «Higienismo e alienismo na obra de Júlio Dinis», observando o facto de que a despeito das continuadas reedições e adaptações ao longo de mais de um século, a obra de Júlio Dinis permanecer secundarizada, ou mesmo esquecida, desde o currículo escolar até aos estudos literários, culturais e históricos. A sua comunicação foi no sentido (e bem) de relevar a influência e a transparência de concepções médicas na sua obra, sustentando a ideia de que “a construção das personagens e da acção das suas narrativas, para além de revelarem as características de um imaginário literário da medicina, constituem uma decisão racional de transposição estética, como teoria da criação literária, de concepções médicas dos corpora de conhecimentos higienistas e alienistas”. Gostamos!

Adrián Gramary

Adrián Gramary, nosso companheiro de Jornadas de há quatro anos a esta parte (com alguma cumplicidade à mistura), Médico Psiquiatra nos Hospitais Senhor do Bonfim, Vila do Conde, trouxe-nos à coacção a «Origem e controvérsias forenses do conceito de “Loucura Lúcida” em Júlio de Matos: a propósito do caso Maria Adelaide Coelho da Cunha», analisando a origem do conceito em Júlio de Matos, nomeadamente através de dois autores que terão influenciado no desenvolvimento deste mesmo conceito nosológico no alienista português: Ulysse Trélat e Henry Maudsley. A partir das origens históricas do conceito de “Loucura Lúcida”, Adrián Gramary fez uma reflexão sobre a controversa aplicação do mesmo âmbito forense, por parte de Júlio de Matos, em casos famosos como o de Rosa Calmon e Maria Adelaide Coelho da Cunha, incidindo sobre a última a análise do relatório psiquiátrico-forense elaborado por Júlio de Matos, Sobral Cid e Egaz Moniz, que, fundamentado no diagnóstico de “loucura lúcida”, permitiu a sua interdição. Simplesmente, sublime!

Carlos Branco

A 4.ª Sessão de apresentação de comunicações, iniciou-se com Carlos Branco, Médico do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, abordando «As emoções no peri-suicídio vertidas numa colecção centenária restaurada de máscaras do cadáver», fazendo equipa com os Médicos Legistas do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, João Pinheiro e Maria Cristina de Mendonça, existente no mesmo Instituto de Lisboa, constituída no âmbito de um estudo que o então director da delegação da capital, João de Azevedo Neves, principiou no limiar do século XX. Ao coligir 240 casos de suicídio por enforcamento, tratava-se “apurar a putativa relação entre as emoções nos últimos instantes de vida e a fisionomia cadavérica, a qual, existindo, permitiria inferir sobre as circunstâncias da morte”. Referido o livro do Dr. Azevedo Neves, «Le Masque du Cadavre», editado em Lisboa (1931). Interessante!

Xaqueline Estévez Gil, ladeada por David Simón Lorda

Seguiu-se Xaqueline Estévez Gil, em representação do grupo de trabalho, liderado pelo Psiquiatra David Simón Lorda, no qual se incluem ainda Jessica Otilia Pérez Triveño, María Victoria Rodríguez Noguera e Manuel Fernández de Aspe, todos do Complexo Hospitalário de Ourense (Servizo Galego de Saúde), que acabaria por abordar a temática do «Hipnotismo, medicina e psiquiatria em Galiza a finais do século XIX e primeiros anos do XX (Do Dr. Sánchez Freire ao ilusionista hipnotizador Onofroff)», contextualizando a recepção e o uso do hipnotismo na Galiza, neste mesmo período. Recorrendo à projecção de imagens e recortes de imprensa, manifestou-se numa interessante comunicação!

Maria Victoria Rodriguez Noguera

Logo pela manhã do dia 10 de Maio, segundo dia das Jornadas, teve lugar a 5.ª Sessão de apresentação de comunicações, iniciada por Maria Victoria Rodríguez Noguera, sendo ladeada por David Simón Lorda (do Complexo Hospitalário de Ourense, da qual fazem parte, ainda: Elisabet Balseiro Mazaira, Mónica Minoshka Moreira Martínez e Luis Rodríguez Carmona), abordando as «Piretoterapias, curas de Sakel, electrochoques e outras terapias (Psiquiatria na Galiza-Espanha, 1916-1972)», reflectindo o facto de durante o primeiro terço do século XX começarem a aparecer novos tratamentos somáticos na assistência aos doentes mentais e que se utilizaram até ao aparecimento dos psicofármacos nos espaços clínicos. Esta comunicação, também muito bem complementada com projecção de imagens e dados estatísticos, cronológico-irrepreensivelmente muito bem elaborados, em estudos feitos no Manicómio de Conxo (Santiago), entre Junho 1916 e 1940, e no Manicómio de Toén (Ourense), entre 1959-1972. Gostamos bastante!

Pedro Macedo

Seguiu-se Pedro Macedo, Médico (Interno Complementar de Psiquiatria) do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de Trás-Os-Montes e Alto Douro, que acaba por centrar a sua comunicação (co-autoria com Susana Nunes, do mesmo Centro Hospitalar) na «História do uso dos placebos na psiquiatria», na “cura” de psicopatologia, mesmo quando esse uso antecede a história da própria psiquiatria enquanto ciência, “sendo inegável a sua eficácia, principalmente no tratamento de sintomas psicossomáticos”. Foi abordada ainda a sugestionabilidade da mente humana ser sobejamente conhecida e exceptuando as perturbações psicóticas, a eficácia destes agentes alarga-se a um aspecto vasto das doenças mentais. Pedro Macedo, fez-nos sentir que a compreensão da história do placebo é indissociável do estudo da história dos ensaios clínicos randomizados e controlados.

Manuel Correia

Manuel Correia, investigador do CEIS20 da Universidade de Coimbra, especialista doutorado em Egas Moniz, abordou, com conhecimento de causa, «As tentativas operatórias de Egas Moniz 80 anos depois», tomando como referência o livro Tentatives opératoires dans le traitement de certaine psychoses, publicado pela editora parisiense Masson & Ce., em 1936, como principal “marco conceptual” do início do tratamento cirúrgico de doenças do foro psiquiátrico, ao qual Egas Moniz juntou a descrição dos resultados obtidos com a leucotomização de vinte pacientes. Magnífica apresentação!

Maria López González

A última comunicação da 5.ª Sessão coube a Maria López González, farmacêutica comunitária (em co-autoria com María del Carmen Francés Causapé, catedrática do Departamento de Farmácia & Tecnologia Farmacêutica, da Universidade Complutense de Madrid-UCM), onde abordou «A regulação do direito de acesso ao medicamento para pacientes psiquiátricos nos séculos XIX e XX em Espanha». Uma retrospectiva interessante, tendo em conta a contextualização cronológica e as preocupações inerentes à regulamentação, por forma a estabelecer um controlo de diagnóstico e aplicação dos fármacos adequados. Comunicação que, aquando do debate, mereceu uma certa articulação com a de Pedro Macedo, nomeadamente por parte do Professor Doutor João Rui Pita.

Tiburcio Angosto Saura

Depois de um pequeno intervalo para Coffee, seguiu-se a 6.ª Sessão de apresentação de comunicações, abrindo com uma «Viagem à Loucura Popular da Galiza», apresentada pelo Médico Psiquiatra Tiburcio Angosto Saura, fruto de um trabalho em co-autoria com M. J. Louzao, M. Piñeiro Fraga e M. A. Miguelez Silva, trabalho esse que se baseia num estudo que estão a realizar sobre os denominados “loucos populares”, aqueles que seriam, para eles, personagens que tiveram uma grande aceitação popular, apesar de terem mostrado condutas extravagantes e desadaptadas, provavelmente relacionadas com uma doença mental grave. Além de estudarem as suas biografias e afinidades, avançam no sentido de compreenderem “as causas que poderiam ter influenciado a sua conduta e, mais importante ainda, as características da comunidade onde viveram e que favoreceram a sua boa adaptação social”.

João Feliz


Seguiu-se João Feliz, Interno de Psiquiatria U. L. S. Guarda, com a comunicação «Em busca do gene marxista: Vallejo-Nagera e a psicopatologia da Guerra Civil espanhola» (co-autoria com Pedro Sales, Interno de Psiquiatria Hospital Garcia de Orta; Guilherme Bastos Martins, Interno de Psiquiatria Hospital Prof. Dr. Fernando Fonseca; e João Cardoso, Interno de Psiquiatria Centro Hospitalar de Lisboa). Tivemos a “sorte” de João Feliz ter-nos trazido ao conhecimento António Vallejo-Nagera (1889-1960), célebre Psiquiatra espanhol morigerado nos ensinamentos da escola alemã dos princípios do século XX, dominada pela influência kraepeliniana, e chefe dos Serviços Psiquiátricos Militares durante as primeiras décadas da ditadura franquista, quando publica, em 1939, um livro que intitula “La Loucura y la Guerra: Psicopatologia de la Guerra Española”, onde se propõe descrever e estudar a “totalidade das reacções mentais mórbidas experimentadas pelos espanhóis de todas as classes sociais, durante a guerra”. Apesar de mórbido, o conhecimento deste livro e desta personagem autoral, foi muito importante para nós!

Sara Lima Castro

Da parte de tarde, deste último dia de Jornadas, só tivemos oportunidade de assistirmos à 7.ª Sessão de apresentação de comunicações, com Sara Lima Castro, Médica Psiquiatra do Departamento de Psiquiatria – Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca, que nos apresentou a «Monomania» (co-autoria com Nuno Borja-Santos, do mesmo Departamento e Hospital), reconhecida por Esquirol como perturbação localizada (uma ou várias ideias fixas subordinando outros fenómenos psíquicos), podendo levar à insanidade e condutas anti-sociais, relevando do domínio médico-jurídico e da atribuição de responsabilidade.

Andreia Lopes

Seguiu-se Andreia Lopes, Médica Interna de Psiquiatria, no Serviço de Psiquiatria do Hospital Garcia de Orta, Almada, com a comunicação «Psicopatia-Evolução Conceptual» (em co-autoria com Pedro Sales e Jacqueline Ribeiro, Médico Interno de Psiquiatria e Assistente Hospitalar Especialista em Psiquiatria, no mesmo Hospital Garcia Orta). Com passagem por Pichard (1835), Koch (1891), Schneider (1923), Andreia Lopes reporta-nos depois a 1941, altura em que os trabalhos de Cleckley resultaram em critérios de diagnóstico que influenciaram indelevelmente classificações posteriores. Gostamos!

Sara Repolho

Sara Repolho, psicóloga, doutoranda da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, apresentou-nos uma interessante comunicação, onde aborda «Woyzeck e a “Aberatio Mentalis Partialis”», sendo que o drama “Woyzeck”, obra do dramaturgo alemão Georg Buchner, que, por ter falecido, em 1837, a deixa inacabada, baseou-se em factos reais à época.

Gustavo França

Por fim, ainda tivemos tempo de ouvirmos Gustavo França, Médico interno de formação específica em Psiquiatria e Saúde Mental, no Hospital de Magalhães Lemos, Porto, falar da «Sinestesia na obra de Luís Miguel Nava (1957-1995)», remetendo-nos para a palavra Sinestesia, com origens no grego (syn e aesthesis), como “união de sentidos, e, se em psiquiatria consiste numa sensação idiossincrática, repetitiva e involuntária numa modalidade sensorial em resposta a um estímulo de uma outra modalidade, na literatura, nomeadamente na poesia, é empregue como figura de estilo e metáfora, adquirindo um significado fundamentalmente estético”. Foi a partir da obra do poeta português Luís Miguel Nava, que Gustavo França, através da multidisciplinaridade da Sinestesia, se propôs a analisar a vertente mais literária e criativa da Sinestesia, por forma a obter “uma compreensão mais alargada deste fenómeno”. E conseguiu abrir em nós, uma nova visão e/ou um novo olhar sobre a obra poética de Luís Miguel Nava!
        Regressamos cansados a Viana do Castelo, mas reconfortados intelectualmente, com a promessa de para o ano lá voltarmos!

Friday, May 06, 2016

«Um postal de Detroit» num à conversa com João Ricardo Pedro!...

«Dezassete dias. Dito assim, parecem tão poucos, mas experimente alguém manter a cabeça dentro de água durante dezassete dias e ficará com uma ideia aproximada de quão longos podem ser…»

João Ricardo Pedro

«À conversa com…», iniciativa da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, que visa promover, em torno do livro, o diálogo e a troca de conhecimentos com escritores contemporâneos, proporcionando a oportunidade de conviver de perto com os autores e a sua obra, teve o seu estado embrionário em Outubro de 2009, cujo primeiro convidado foi o escritor angolano Luandino Vieira. Assente nessa pretensão de ser um espaço de incentivo à leitura, de divulgação das obras dos autores da actualidade, de promoção da cultura e do conhecimento, e, sobretudo, de interacção entre o público leitor e os escritores, que no pretérito dia 22 de Abril do corrente ano, a referida Biblioteca, dando continuidade a essa extraordinária iniciativa mensal, trouxe até nós João Ricardo Jorge, Prémio Leya 2011, com o seu primeiro romance «O teu rosto será o último».
Na altura que, pela primeira vez, tivemos o privilégio de conhecermos João Ricardo Pedro, “curricularmente” apresentava-se como casado com uma economista, pai de um casalinho, nascido na Reboleira, Amadora, em 18 de Agosto de 1973. Revelava-se curioso acerca da força de Lorentz, e, daí ter-se licenciado em Engenharia Electrotécnica pelo Instituto Superior Técnico. Durante mais de uma década, trabalhou em telecomunicações sem, no entanto, alguma vez ter aplicado as admiráveis equações de Maxwell. Na primavera de 2009, em consequência do carácter caprichoso dos mercados, achou-se com mais tempo do que aquele de que necessitava para cumprir as obrigações do quotidiano. Num acesso de pragmatismo, começou a escrever. Um facto curioso é que João Ricardo Pedro chegou a confessar que nunca fora bom aluno a Português nem a nenhuma disciplina da área das Letras: – Era um bom aluno a Matemática e ao resto passava sempre à rasca!... – disse-o então, quando estivemos «À conversa com…», naquela noite de sexta-feira, 28 de Setembro de 2012, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo.


Inevitavelmente, por estarmos condicionados – contudo, plenamente conscientes das nossas faculdades cognitivas – pela assoberbada paixão de viajar através dos livros, autênticos passaportes para a nossa interacção com os autores, os lugares e as personagens, sem esquecer as tramas e as mensagens a apreender, e por gostarmos de conversar, vamos seleccionando as nossas leituras e os nossos autores, principalmente aqueles que possam acrescentar algo à nossa “douta ignorância”, não quisemos deixar de estar presentes, naquela noite de sexta-feira, na Sala Couto Viana, de modo a usufruirmos de uma magnífica “à conversa” com João Ricardo Pedro, tendo como mote o seu segundo livro «Um Postal de Droit», um regresso à ficção, onde encontramos o espelho da nossa condição humana e “a ténue fronteira que existe entre sanidade e loucura e os laços perturbadores que tantas vezes unem a vida à arte”.
João Ricardo Pedro consegue aliviar-nos das tragédias, através de uma mochila encontrada nos destroços de um acidente de comboios, revitalizando-nos o subconsciente com o humor e figuras inesquecíveis: Em Setembro de 1985 dá-se um choque frontal de comboios em Alcafache. Algumas das vítimas mortais, presas nas carruagens a arder, nunca chegam a ser identificadas. No dia seguinte, a mãe de Marta recebe um inesperado telefonema informando que a mochila da filha – estudante de Belas-Artes – apareceu entre os destroços… – lê-se em sinopse.
É a partir dos cadernos de desenho de Marta – uma espécie de diários visuais que espelham um quotidiano tão depressa sórdido como maravilhoso –, João Ricardo Pedro, tal como aconteceu a Silvana, faz-nos entrar no quarto da Marta (a mesma que desenhava à vista de todos, ostentando orgulhosa, o seu talento, e os cadernos…), por forma a desfazermos a cama, virarmos o colchão ao contrário, trocarmos os lençóis, a fronha da almofada, o cobertor de lã por uma manta mais fresca, de algodão. A melancolia e o acabrunhamento de Marta, “a Marta que ficava tardes inteiras escarrapachada no sofá da sala a ver televisão, a esvaziar pacotes de batatas fritas e tijelas de pipocas”, serve-nos de ponte emocional à arte criativo-literária de João Ricardo Pedro, quando nos dá a conhecer – vestido na pele de um narrador – um leque de figuras absolutamente inesquecíveis, entre as quais se contam prostitutas, boxeurs, polícias e assassinos, mas também anjinhos de procissão, médicos e senhoras da caridade. Quiçá, o paradigma das mulheres e dos homens duplicados.


Apesar de João Ricardo Jorge nunca ter tido a certeza se chegaria a escrever o seu segundo livro – questionando mesmo: se a realidade é tão rica, que necessidade temos de inventar histórias? –, não resistiu ao impulso da realidade e dos efeitos devastadores sobre a perca de um filho. Aquele trágico acidente entre comboios, marcou-o profundamente. Daí, a necessidade de inventar coisas, de dar testemunho do seu tempo e sensibilidade: «Longe de imaginar o quanto aquela notícia nos dizia respeito, e os efeitos devastadores que teria nas nossas vidas, demorei a adormecer. Ainda hoje, trinta anos depois, seis internamentos depois, centenas caixas de comprimidos depois, sessões de psicanálise, mesas de pé-de-galo, sanatórios, termas, casas de repouso, choques eléctricos, dou por mim deitado na cama…»impressão de um narrador inventado, inevitavelmente impressa em «Um postal de Detroit», para gáudio da nossa assoberbada paixão de viajar através dos livros.
E por aqui ficamos, sem que antes manifestemos a nossa positiva expectativa acerca de todas as páginas do livro. Num acto contraditório à interpelação do autor (à pág. 193), jamais deitaremos fora as expectativas ou livro. Inevitavelmente, um autor que passaremos a seguir de perto, mas, como até aqui, e à semelhança de outros, discretamente.

NOTA MÁXIMA!

Monday, May 02, 2016

VII JORNADAS INTERNACIONAIS DE HISTÓRIA DA LOUCURA, PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL


VII JORNADAS INTERNACIONAIS DE
HISTÓRIA DA LOUCURA, PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL
VII INTERNATIONAL MEETING OF
HISTORY OF MADNESS, PSYCHIATRY AND MENTAL HEALTH
9 - 10 DE MAIO DE 2016
9 – 10 MAY 2016
Programa / Program

9 de Maio de 2016

10h00 — Receção aos participantes / Reception and Welcome
10H15 — Sessão de abertura / Welcome session
10h30 — 1ª Sessão de apresentação de comunicações / Session 1
Isilda Rodrigues — O contributo de Amato Lusitano para a história da depressão
Joana Mestre Costa — Montalto e a construção da Archipathologia: do médicofilólogo ao filólogo-médico

11h15 — Intervalo / Coffee

Visita aos posters / poster presentation

11h30 — 2ª Sessão de apresentação de comunicações / Session 2
Celia García Díaz — Eugenesia, feminismo y locura en la segunda república española: el caso Hildegart Rodriguez
Francisco Molina Artaloytia — Herramientas epistemológicas y fuentes para hacer la historia de la categoría de “homosexualidad” en la medicina portuguesa en el siglo XX y sus simetrías/asimetrías con su homóloga española
12h15 — Visita ao Centro de Documentação Farmacêutica / Visit to the Centro de Documentação Farmacêutica

Visita à Exposição Documental / Visit to the exhibition

13h00 — Almoço livre / Lunch

14h30 — Conferência plenária / Plenary lecture
Maria do Rosário Neto Mariano — Perturbações comportamentais e psicopatologias em personagens do Naturalismo francês : a Escola de Charcot e suas influências na Literatura
15h00 — 3ª Sessão de apresentação de comunicações / Session 3
Porfírio Pereira da Silva — O génio de Camilo Castelo Branco (1825-1890) e a sua atribulada relação com os médicos do seu tempo
Luís Timóteo Ferreira — Higienismo e alienismo na obra de Júlio Dinis
Adrián Gramary — Origem e controversas forenses do conceito de “loucura lúcida” em Júlio de Matos: a propósito do caso Maria Adelaide Coelho da Cunha

16h00 — Intervalo / Coffee

Visita aos posters / Poster presentation

16h30 — 4ª Sessão de apresentação de comunicações / Session 4
MJ Louzao Martinez; M Piñeiro Fraga; MA Miguelez Silva; T. Angosto Saura – Viagem á loucura popular da Galiza
Xaqueline Estévez Gil; David Simón Lorda; Jessica Otilia Pérez Triveño; María Victoria Rodríguez Noguera; Manuel Fernández de Aspe — Hipnotismo, medicina y psiquiatría en Galicia a finales del siglo XIX y primeros años del XX (del Dr. Sánchez Freire al ilusionista hipnotizador Onofroff)
Carlos Branco; João Pinheiro; Maria Cristina de Mendonça — As emoções no perisuicídio vertidas numa coleção centenária restaurada de máscaras do cadaver

17h30 — Perguntas aos autores dos posters / Poster presentation
18h00 — Encerramento dos trabalhos do 1º dia / Final 1st day


10 de Maio de 2016

09h45 — 5ª Sessão de apresentação de comunicações / Session 5
María Victoria Rodríguez Noguera; David Simón Lorda; Elisabet Balseiro Mazaira; Mónica Minoshka Moreira Martínez; Luis Rodríguez Carmona — Piretoterapias, curas de Sakel, electroshock y otras terapias (psiquiatría en Galicia-España, 1916-1972)
Pedro Macedo; Susana Nunes — História do uso de placebos na psiquiatria
Manuel Correia (CEIS20 – Universidade de Coimbra) — As tentativas operatórias de Egas Moniz 80 anos depois
María del Carmen Francés Causapé; Dra. María López González — The regulation of the right to access to medication for psychiatric patients in the nineteenth and twentieth centuries in Spain

11h15 — Intervalo / Coffee.

Visita aos posters / poster presentation

11h45 — 6ª Sessão de apresentação de comunicações / Session 6
M. Bairrão; S. Charro; F. Vieira; M. Cruz — Homicídio de Miguel Bombarda crime ou “acto de loucura”?
João Feliz; Pedro Sales; Guilherme Bastos Martins; João Cardoso — Em busca do gene marxista: vallejo-nagera e a psicopatologia da Guerra Civil Espanhola

12h30 — Lançamento da obra VI Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental

14h30 — 7ª Sessão de apresentação de comunicações / Session 7
Sara Castro; Nuno Borja-Santos — Monomania
Andreia Lopes; Jacqueline Ribeiro — Psicopatia – evolução conceptual
Sara Repolho — Woyzeck e a aberratio mentalis partialis
Gustavo França — A Sinestesia na obra de Luís Miguel Nava (1957-1995)

16h00 — Perguntas aos autores dos posters / poster presentation

16h15 — 8ª Sessão de apresentação de comunicações / Session 8
Rui Xavier Vieira — O pensamento de Klaus Conrad revisitado
Juš Škraban; José Cunha-Oliveira — Esquizofrenias e recuperação: mundos múltiplos
Ludmila Cerqueira Correia (Universidade de Brasília / CAPES, Brasil) — Contenção física em mulheres com transtorno mental: quando o cuidado se transforma em violência

17h30 Encerramento / Closure

COMUNICAÇÕES EM POSTER / POSTERS

1. Carlos Branco; João Pinheiro; Maria Cristina de Mendonça — Perturbações psiquiátricas e tatuagem no limiar do séc. XX: casuística do Instituto de Medicina Legal de Lisboa
2. Célia Cabral; Margarida Miranda; João Rui Pita — Absinto ou “fada verde”: o seu efeito alucinogénico como fonte de criatividade nos artistas do final do séc. XIX e início do séc. XX
3. Cláudia Adão; Sara Repolho — Processos de intervenção psicológica
4. Diana Martins; Rui Cruz — Psychopharmacological drug use in a polymedicated population: observational study
5. Diana Martins; Rui Cruz — Relationship between sense of coherence and the use of psychopharmacological drugs: descriptive and correlational study in a polymedicated population
6. Guilherme Bastos Martins; João Feliz; Pedro Sales; João Henriques Cardoso — Visitar Pinheiro dos Santos
7. Marisia Lins Mendes; Bertrulino José de Souza — Cortes na alma: notas sobre sofrimento infantil e atuação do CAPS – Centro de Atenção Psicossocial no Nordeste do Brasil
8. Mónica Minoshka Moreira Martínez; David Simón Lorda; Elisabeth Balseiro Mazaira; Jessica Otilia Pérez Triveño; Manuel Fernández de Aspe — El cataléptico de la Habana (1885): viejas y nuevas noticias
9. Pedro Sales Crespo; Andreia Lopes; Guilherme Bastos Martins; João Feliz; João Cardoso — Leal de Zêzere - no mundo do delírio e da alucinação

10. Victoria Bell; João Rui Pita — Farmacopeia Portuguesa IV (1ª ed. 1935): Psicotrópicos e Estupefacientes