Saturday, September 29, 2012

Ritual da Dedicação da «Igreja da Sagrada Família»: o maior templo físico do Alto Minho.


“Cada um de nós está neste mundo como um templo. Eu quero ser este templo habitado por Deus, este espaço sagrado porque quero ser pedra viva da Igreja, da Comunidade. Que cada um desta comunidade se envolva numa dinâmica de comunhão, como sendo, a seu modo, pedra viva que faz este novo Templo”.

Pe. Artur Coutinho

Tal como aconteceu com Étienne Gilson (1884-1978) – filósofo e historiador da filosofia, exegeta da Bíblia e da filosofia da Idade Média –, também nós nos questionamos permanentemente, quando nos posicionados na ponte entre «Deus e a Filosofia», tema que deu título a uma das inúmeras obras publicadas por este já desaparecido filósofo, que chegou a guiar-nos através da evolução das doutrinas filosóficas sobre Deus, considerando este aspecto – a ponte entre Deus e a Filosofia – como o maior de todos os problemas metafísicos. Abordou temas como o problema das causas finais, talvez o problema mais habitualmente discutido pelos agnósticos modernos; o problema do “SER” e por que há alguma coisa em vez de nada (Leibniz); a hostilidade manifestada por uma ciência inteiramente matematizada em relação ao acto irredutível da existência; a aniquilação do mundo material por Deus, sem afectar de modo algum o nosso conhecimento científico dele; a questão da atribuição de uma propriedade misteriosa chamada “existência”; o valor do argumento na base do desígnio; o conceito estrutural de existência; e, finalmente, o facto de que, para Étienne Gilson, “toda e qualquer energia existencial, toda e qualquer coisa que exista depende, para existir, de um puro Acto de existência”.


Mas, não foi com este “desígnio”, de nos mantermos na ponte questionável entre Deus e a Filosofia, que resolvemos aceitar o convite do Pe. Artur Coutinho (nosso parente por afinidade) para assistirmos à Cerimónia de Dedicação da Igreja da Sagrada Família, templo esse que passa a ser o maior do Alto Minho, com capacidade para 1400 pessoas, pensado para funcionar com um serviço de «babysitting», com salas insonorizadas. Neste tão semblante acto ritual, moveu-nos tão só – como se mais não bastasse – o espírito de solidariedade e de partilha, comungando, ao mesmo tempo, das palavras do nosso grande amigo e conterrâneo, Pe. Artur Coutinho: “Aqui, neste edifício dedicado à Sagrada Família, hoje e sempre, quero escutar, saborear em Comunidade a Palavra de Deus, comungar e vivê-la no dia-a-dia da minha vida”.


Sem mais palavras, e apesar de compreendermos alguma apreensão por parte de pessoas exteriores à dinâmica da paróquia – visualizadores do estado físico (quando se fala da obra avaliada em cerca de três milhões de euros), sem interiorizarem aquilo que não é explicável, mas que impulsiona a chamada “fé” de milhares de pessoas –, apenas nos apraz registar a multifuncionalidade de tão importante empreendimento, que inclui um espaço para acolhimento temporário de crianças abandonadas e um centro de dia (já em funcionamento há mais de quatro anos), ficando a faltar a conclusão das valências dedicadas a projectos educativos e recreativos. Saliente-se o facto de que os avultados custos foram totalmente suportados pelos paroquianos de Nossa Senhora de Fátima, com contributo de amigos, sacerdotes e bispos da região, sendo que o único investimento externo foi o terreno, atribuído pela Câmara Municipal de Viana do Castelo, com a condição de servir também para a realização de actividades sociais e culturais. E isso, também já tem vindo a acontecer.


Registe-se apenas algumas curiosidades, tomando por deferência as palavras de agradecimentos do Pe. Artur Coutinho, que ajudam a desmistificar alguma detracção em tempo de crise: “a todos os paroquianos e amigos, e a todo o povo de Deus desta Paróquia, exemplo de fé e generosidade, que com as suas dádivas, trabalho e entusiasmo foram um decisivo contributo para a realização duma obra que enobrece e prestigia esta Comunidade”; “aos arquitectos Faro Viana (autor do projecto e responsável numa primeira fase) e Sebastião Meireles que numa fase posterior o concluiu; à empresa Pormin pela elaboração dos projectos gerais e específicos; ao gabinete do Eng.º Jorge Torres que fiscalizou e acompanhou a obra; às empresas de construção Aurélio Martins Sobreiro e Habitilima, seus gerentes e todos os trabalhadores que puseram de pé o templo”, etc., etc. Ainda segundo o Pe. Artur Coutinho, ilustre pároco de Nossa Senhora de Fátima (coincidência ou não, é cidadão de mérito de Viana do Castelo), a concretização deste projecto contribuiu para o reforço da “coesão, da solidariedade e da participação” dos fiéis, ao mesmo tempo que “arrasta consigo um apelo à mudança interior”.

Para terminar, esperamos, sinceramente, que o templo exterior (físico), ora inaugurado, se matize na força da pura razão natural, a emergência de um caudal de vida que culmine no homem. Aí, estaremos cá para aplaudir!

Friday, September 07, 2012

«Biologia como ideologia: a doutrina do ADN» em Richard Charles Lewontin


Por se tratar de um tema tão actual, e porque continuamos de volta da nossa impreterível (porque necessária ao nosso consciente) investigação a propósito do “Eugenismo em Portugal” (nossa décima terceira obra a publicar, mas primeira de cariz científico), resolvemos partilhar convosco a leitura e interpretação – em jeito de recensão crítica, muito pessoal – de Richard Charles Lewontin, filósofo da ciência, no que concerne à sua obra «Biologia como ideologia: a doutrina do ADN», publicada em 1998, pela editora “Relógio d’Água”. Esta obra é baseada nas conferências Massey de 1990, com o mesmo título, transmitidas em Novembro desse mesmo ano, como parte da série “Ideias”, da rádio CBC. Por ser considerado o pensador evolucionista mais influente e um dos biólogos mais celebrado da actualidade, não admira que esta reflexão acabe por reflectir, como se pode ler em sinopse, o seu pendor de análise dos falsos caminhos pelos quais a ideologia científica moderna nos conduziu. E começaremos por dizer que para Richard Lewontin a ciência, à semelhança de outras actividades produtivas, como o Estado, a família, o desporto, apresenta-se-nos como uma instituição social completamente integrada e influenciada pela estrutura das outras instituições sociais. Ao apresentar-se como uma instituição social, a ciência define-se, assim, por um conjunto de métodos, de pessoas, um corpo de conhecimentos a que chamamos científicos, mas está separada do quotidiano de cada um e/ou das forças que governam a estrutura da própria sociedade. Os resultados científicos são influenciados por predisposições derivadas da sociedade em que vivemos. Para reforçar esta ideia, temos de ter em conta que os cientistas estão imersos numa família, num Estado, numa estrutura produtiva, e esse assumir científico é moldado pela sua experiência social.

Ainda segundo Richard Lewontin, a ciência desempenha duas funções: a primeira assenta na manipulação do mundo material, que se revela na construção de um conjunto de técnicas, práticas e invenções, produzindo coisas novas e transformando as nossas vidas; a segunda é a função de esclarecimento. Esta função relaciona-se muitas vezes com a primeira (manipulação do mundo material). Se por um lado os investigadores transformam o modo material da nossa existência, por outro, procuram constantemente explicar porque é que as coisas são da forma como são. Trata-se, no fundo, da afirmação que estas teorias acerca do mundo devem ser produzidas com a finalidade de transformar o mundo através da prática. Assim, face à sua adaptabilidade, a ciência pode substituir a religião – e mais não adiantaremos, para não ferir susceptibilidades –, enquanto principal força legitimadora na sociedade moderna. Outro factor relevante nesta obra é que Lewontin afirma que os seres vivos serão determinados, em primeiro lugar, por factores internos: os genes. Estes serão determinantes para a aptidão individual na resolução de problemas durante a existência e garantia da matriz de cada um na futura descendência. Os genes estão na determinação individual, como os indivíduos na determinação das colectividades. A estrutura social passa a ser o resultado do conjunto de comportamentos individuais. Se os genes fazem os indivíduos e estes fazem a sociedade, logo, os genes fazem a sociedade. Por outro lado, os desafios colocados pela ideologia científica moderna exigem uma nova teorização da natureza humana. Vemos que os problemas da saúde e da doença são localizados no indivíduo, tornando-se este num problema para a sociedade, em vez de ser aquela a tornar-se um problema para o indivíduo. É este peregrinar que assente em relações económicas simples, encobertas como factos da natureza, orienta e condiciona toda a investigação biológica e tecnológica nos tempos contemporâneos.
Perante a questão se “estará tudo nos genes (?)”, Lewontin confronta-nos com a contradição entre a igualdade pretendida pela nossa sociedade e a observação de que grandes desigualdades existem. E para refutar a objecção a uma sociedade desigual, tem sido desenvolvida uma teoria biológica da natureza humana, defensora da ideia segundo a qual existem certas semelhanças congénitas entre todos nós na medida em que as nossas diferenças estão codificadas nos genes. Assim, surge a ideologia do determinismo biológico: que nós nos diferenciamos em capacidades fundamentais devido a diferenças inatas, que tais diferenças inatas são herdadas biologicamente, e que a natureza humana garante a formação de uma sociedade hierárquica. Contudo, o autor refuta esta ideia quando afirma que não temos nenhuma razão a priori para pensar, por exemplo, que existe diferenciação genética entre grupos raciais no que respeita a características como o comportamento, o temperamento a inteligência. E, também, não existe qualquer prova de que as classes sociais se distinguem nos seus genes, excepto na medida em que a origem étnica ou raça – não gostamos do termo, dado que para nós só existe uma raça… a humana – possam ser usadas como forma de descriminação económica. Chega mesmo a ser um contra-senso, quando os ideólogos do determinismo biológico afirmam que as classes mais baixas são biologicamente inferiores às classes superiores (para nós, puro conceito eugénico). A seu ver, a biologia moderna é caracterizada por um grande número de preconceitos ideológicos. Um dos principais preconceitos prende-se com a natureza das causas, visão que se torna mais evidente nas nossas teorias acerca da saúde e da doença.
Richard Lewontin alerta-nos para o facto da crença na importância da nossa herança na determinação da saúde e da doença ser o projecto sequencial do genoma humano, que assenta num programa de muitos biliões de dólares e que mobiliza biólogos americanos e europeus. No fundo, torna-se num grande consumidor de dinheiros públicos. Por isso, as causas – primárias e secundárias – não se remetem apenas ao âmbito científico, dado que os aspectos sociais, culturais, políticos e económicos têm influência na própria vida. A noção empobrecedora de causalidade que caracteriza a ideologia biológica moderna – uma noção que, segundo ele, confunde agentes com causas – conduz-nos segundo direcções muito determinadas na procura de soluções para os nossos problemas. Daí, a afirmação, ainda que questionável, de tantos biólogos poderosos, famosos, bem-sucedidos e extremamente inteligentes quererem construir uma sequência do genoma humano. Tal comprometimento advém de eles estarem tão inteiramente dedicados à ideologia das causas unitárias simples que acreditam na eficácia da investigação. Contudo, a resposta é bastante mais comprometedora, tendo em conta que a participação e o controlo de um projecto de investigação de muitos biliões de dólares, que poderá durar cerca de meio século, e que irá envolver o trabalho diário de milhares de técnicos e de investigadores de baixo nível, é, segundo Lewontin, uma perspectiva extraordinariamente atraente para um biólogo ambicioso. As investigações começam a ser realizadas com base nos lucros das mesmas. Advinha-se assim o alerta do autor para o perigo das ideologias científicas que regem a nossa vida.
Contextualizando, do ponto de vista histórico, a afirmação popular de que toda a existência humana é controlada pelo nosso ADN, Richard Leowtin afirma que tal convicção tem o efeito de legitimar as estruturas da sociedade na qual vivemos, porque não destrói a tese segundo a qual as diferenças no temperamento, aptidão, saúde física e mental estão codificadas nos nossos genes. Acrescenta ainda que tal afirmação também defende que as estruturas políticas da sociedade são igualmente determinadas pelo nosso ADN e que são, por conseguinte, imutáveis. A tese central é que toda a filosofia política tem de começar por uma teoria da natureza humana e o problema central para os pensadores da filosofia política tem sido sempre o de tentarem justificar a sua visão particular da natureza humana. Tomando como exemplo aquilo que Thomas Hobbes chamou de «guerra de todos contra todos», pois concluiria que todos precisávamos de um monarca para impedir que tal guerra conduzisse à destruição total, Lewontin afirma que a «guerra de todos contra todos» transformou-se na luta das moléculas do ADN pela supremacia. Para Leowtin, a forma mais moderna de ideologia naturalista da natureza humana é a Sociobiologia – teoria evolucionista e genética –, a última e a mais mistificadora tentativa para convencer as pessoas de que a vida humana é muito mais do que tem sido e talvez até mais do que deve ser. A Sociobiologia aparece aos olhos do autor não como uma simples disciplina, mas uma forma de pensar que se impõe dentro de outras áreas, para além da biologia. Nesta insere-se a teoria da natureza humana que faz compreender a sociedade hierárquica, competitiva e empreendedora dos tempos modernos.
No último capítulo, Richard Lewontin sintetiza que tudo o que somos, a nossa doença e saúde, a nossa pobreza e riqueza, e mesmo a estrutura da sociedade em que vivemos, estão, em última estância, codificados no nosso ADN. Refere a visão individualista do mundo biológico, caracterizando-a como simples expressão das ideologias fecundadas pelas revoluções burguesas do séc. XVIII, que colocam o indivíduo no centro de tudo.
À visão que a biologia moderna sustenta, na qual os organismos não passam de campos de batalha onde combatem forças externas e forças internas e ultrapassando a concepção da adaptabilidade da vida pela visão construtiva, contrapõe que os organismos constroem realmente o seu ambiente independentemente das zonas do mundo, sendo, pois, o ambiente dos organismos codificados no ADN.
Por fim, pela nossa “leitura” apraz-nos em dizer que a organização política e social é um reflexo do nosso ser biológico. E é a consciência que cria o nosso ambiente, a sua história e a direcção do seu futuro. Tal facto proporciona-nos uma compreensão correcta da relação entre os nossos genes e a forma das nossas vidas.
Um livro aconselhável, porque não, a políticos também!

Wednesday, September 05, 2012

RESPEITO PELAS TRADIÇÕES? O anúncio português censurado


Depois da publicação da "reflexão sobre a «Ética Animal» em Peter Singer e Tom Regan" que fizemos no Jornal Cardeal Saraiva (Ponte de Lima), Ano 102, N.º 4447, 31 de Agosto de 2012, p. 17 e 19, e também aqui no nosso blogue, aqui fica um pequeno anúncio português censurado, levando a que nunca fosse passado na TV. Vá lá saber-se por quê!... E se falássemos dos "torneios medievais", das "lutas de gladiadores", do "sacrifício do filho primogénito", etc., etc.  

Friday, August 31, 2012

Depois da «Tourada» em Viana do Castelo: uma reflexão sobre a «Ética Animal» em Peter Singer e Tom Regan!


“Quase todos os sinais exteriores que nos levam a fazer inferências acerca da dor sentida por outros seres humanos podem ser observados noutras espécies, especialmente naquelas que se encontram mais próximas de nós, como é o caso dos mamíferos ou das aves”.

Peter Singer

Pelo facto de se ter realizado em Viana do Castelo (19 de Agosto, último) a tão propalada tourada, para alguns a reposição da legalidade ou de uma “verdade cultural”, para outros uma “provocação” que se pensaria arredada do vocabulário vianense, muitos foram os amigos a sugerir-nos um pequeno apontamento acerca da problemática da «Ética Animal», tendo em conta a nossa formação académica e alguma especialização em bioética, cujo objectivo foi – e continua a ser – o de reflectir, questionar e desenvolver a sensibilidade humana para a saúde, realidade particularmente fértil em conflitos, dúvidas e manipulações. Aceitando com uma certa cautela esse “desafio”, resolvemos gravitar à volta de duas correntes – Peter Singer, com a libertação animal e Tom Regan, com a argumentação em defesa dos direitos dos animais –, reiteradas pelo bem-estar (utilitarista) ou pelo direito dos animais (kantiana), propomo-nos assim para uma reflexão moral, onde não há razão teórica para excluir os animais do círculo (ou comunidade) moral. Se, por um lado, a família utilitarista pretende alargar o ciclo moral aos animais, onde o maior bem ao maior número supõe o aumento de prazer e a ausência de dor, não se devendo, por isso, excluir os animais, dado que os mesmos também possuem prazer e dor; por outro, aparece-nos aqueles que à defesa dos interesses contrapõem com os direitos – uma perspectiva que seja uma alternativa sistemática do utilitarismo, nele encontrando algumas contradições inerentes ao princípio de utilidade, legitimado pela excepção de sacrificar o menor número de animais, para salvar milhares de pessoas.  
Tendo em conta que a igualdade é sempre um ideal ético, é sempre uma prescrição e não uma descrição, ou seja, por outras palavras, a igualdade é sempre uma característica moral, os primeiros críticos aparecem-nos a lutar contra a discriminação dos animais, dado que os preconceitos que discriminam moralmente a partir de características irrelevantes, acabam por subverter aquilo que Peter Singer defende – a elevação do estatuto dos animais ao estatuto moral dos animais. Segundo Cristina Becker “a noção de bem-estar (welfare), quando aplicada aos animais, adquire contornos e amplitude diversa, podendo ser utilizada em sentido comum ou técnico. Assim, há que distinguir, pelo menos, três acepções do termo: aquele que os próprios exploradores dos animais reclamam, o do senso comum e o do movimento de libertação dos animais”. Para Peter Singer, por exemplo, um interesse é sempre um interesse, independentemente do interesse, e quando argumenta em defesa dos animais não o faz por amor aos mesmos animais, mas por uma razão moral. O seu argumento principal vai no sentido de que, apesar de os humanos terem uma longa história de maltratar animais, não existe justificação moral para esse comportamento. Tal como escreveu Peter King, a propósito da teorização de Peter Singer, “no centro da sua moralidade está o facto de ser errado causar sofrimento desnecessário, mas o sofrimento não vem em qualidades diferentes, das quais apenas algumas são, moralmente, relevantes – não podemos condenar a dor causada a membros de uma espécie e ser indulgentes em relação à dor causada aos membros de outra, do mesmo modo que não o podemos fazer relativamente a diferentes raças ou sexos”. Em suma, Peter Singer defende um princípio da igualdade na consideração de interesses, forma emancipadora para os homens e também para os animais. A dieta vegetariana é, por assim dizer, uma dieta moral. Para o mesmo filósofo, a mesma dieta produz menos sofrimento e mais alimento a um custo ambiental mais reduzido.
 Por outro lado, Tom Regan, apesar de ter andado muito próximo de Peter Singer – assume que nem sempre foi um defensor dos animais –, viria a demarcar-se gradualmente das teorias libertadoras quando se apercebeu das consequências nefastas da perspectiva «consequencialista» do utilitarismo. A principal crítica ao utilitarismo é a possibilidade de abrir excepções; de violar os direitos dos animais em nome do benefício comum, em nome do maior número. Pelo facto de Peter Singer caracterizar os seres como receptáculos, abrindo, assim flancos ao “especismo” (não o combatendo eficazmente), estas excepções acabam por se tornar intoleráveis. Por isso, Tom Regan propõe uma perspectiva abolicionista. Se ele não defende a teoria libertadora de Peter Singer, tende a procurar outra argumentação – recupera Kant (defende o “valor inerente”) – não pensando à letra kantiana, mas a postular o “valor kantiano”: “Por exemplo, estes animais apreciam determinadas coisas e sentem outras como dolorosas. E, o que não constitui surpresa para ninguém, agem em conformidade, procurando encontrar as primeiras e evitar as segundas. Além disso, tanto os seres humanos como os outros mamíferos partilham uma família de capacidades cognitivas (uns e outros são capazes de aprender com a experiência, de recordar o passado, de antecipar o futuro), bem como a grande variedade de emoções”. Parafraseando Paul W. Taylor, considerado filósofo individualista da “Ética Ambiental Biocêntrica”, ao partirmos da perspectiva centrada na vida, temos obrigações enquanto membros da comunidade biótica terrestre: “Somos moralmente obrigados a proteger ou a promover o seu bem por si próprios […]. Assumir uma atitude de respeito para com a Natureza consiste em encarar as plantas selvagens e os animais dos ecossistemas naturais terrestres como portadores de dignidade inerente, o que os tornas sujeitos morais”. Segundo apreendemos das suas palavras, isso significa que a assunção da dignidade inerente de animais e plantas, deverá implicar que estes não possam ser tratados apenas como meios para os fins de alguém. Os seres humanos, têm, assim, obrigação e dever de promover, ou beneficiar, “o bem próprio das entidades possuidoras de dignidade inerente enquanto «fins-em-si» mesmas”. Estamos perante um imperativo ético que se nos apresenta o respeito pela Natureza, numa argumentação em que adquirem plena presença os conceitos da ética kantiana: “fim-em-si”, “dignidade inerente”, “dever”, “respeito”. Tal como um dia afirmaria uma professora da Universidade do Minho, de grata memória para nós, Ana Lúcia Cruz, acérrima defensora dos direitos dos animais, “os seres vivos não podem ser vistos como chávenas, mas como valor moral inerente”.
Depois disto, perguntar-se-á: Será que o homem não deve comer carne dos animais? Por certo que esta pergunta permanecerá no subconsciente de cada um de nós, nomeadamente pelo facto de, circunstancialmente, se estabelecer critérios da senciência como limite para definir quem é ou não digno de ser considerado membro da comunidade moral. Enquanto para Peter Singer “a aplicação do princípio de igualdade à inflicção de sofrimento é, pelo menos em teoria, bastante fácil de entender. A dor e o sofrimento são maus e devem ser evitados ou minimizados, independente da raça, sexo ou espécie do ser que os sofrem”, para Tom Regan, por exemplo, as consequências práticas da defesa dos direitos dos animais, passam pela dissolução da pecuária e do uso nocivo dos animais na ciência, porque eles não são coisas e, tendo em conta que, qualquer argumento baseado na comparação entre benefícios e danos, não se deve remeter apenas para a propositada enumeração dos benefícios, descorando ou procurando ignorar os danos relevantes: “Independentemente da sua lamentável tendência para minimizar os dados infligidos aos animais e da sua determinação inamovível em marginalizar alternativas não animais, os defensores deste argumento sobrestimam os benefícios em termos dos seres humanos atribuíveis à vivissecção, além de ignorarem redondamente os inúmeros danos infligidos aos seres humanos que constituem uma parte essencial da vivissecção”. Ainda para Tom Regan, a prática da vivissecção é errada do ponto de vista moral. Segundo I. Anna S. Olsson, autora do livro «Ética e Bem-Estar Animal», a teoria de Regan sobre os direitos dos animais pode não ser a única defesa possível contra a falta de respeito pelo homem, patente no utilitarismo – aceitar que se criem e matem certos animais para produção alimentar, desde que não haja dor ou angústia –, mas através de uma combinação “de utilitarismo e direitos moderados, a experimentação animal que seja promissora em termos de resultados para benefício humano é permitida, desde que se garanta aos animais a protecção contra dor, angústia e desconforto sérios”.
Terminaremos dizendo que, apesar de reconhecermos a “mea culpa” de sermos consumidores de carne – quiçá, um dia, revoguemos esta nossa cadeia alimentar –, somos pela “ética animal” e, por certo, não aceitaremos qualquer tipo de intolerância insultuosa por parte dos “gladiadores” ou aficionados das touradas. E sem nos pretendermos alvorar em moralistas ou objectores de consciências – porque sempre nos pautamos pelo princípio da tolerância e nada nos move contra os aficionados das touradas –, aconselhávamos, contudo, a leitura de Peter Singer «Escritos sobre uma vida ética», nomeadamente no capítulo de “Notas autobiográficas” – «Libertação Animal: Uma Perspectiva Pessoal», onde a dado momento o mesmo diz que “é vital que o movimento da libertação animal evite a espiral viciosa da violência. Os activistas da libertação animal têm de se posicionar irrevogavelmente contra o uso da violência, mesmo quando os seus adversários usam violência contra si”. De facto, essa será sempre – ou deveria ser – a postura dos defensores dos animais, dado que a luta para alargar a esfera da preocupação moral aos animais não humanos pode mesmo ser mais difícil e longa, mas, se for conduzida com a mesma determinação e o mesmo empenho moral, de certeza que também será ganha. E os defensores das touradas talvez, um dia, poderão vir a entender a imoralidade de tão repugnante espectáculo. O gosto embora possa ser estético (se nos referirmos ao que denominam de “arte tauromáquica”), nunca será ético, porque as críticas aos maus-tratos dos animais e à subsequente crueldade que se faz aos mesmos, sendo que as nossas tradições culturais não podem legitimar as nossas acções, leva a que Peter Singer venha a afirmar que “quase todos os sinais exteriores que nos levam a fazer inferências acerca da dor sentida por outros seres humanos podem ser observados noutras espécies, especialmente naquelas que se encontram mais próximas de nós, como é o caso dos mamíferos e das aves”. Pensem nisso!

N. A. – A imagem que ilustra este nosso desabafo (e não provocação), serviu de logótipo aos nossos artigos «Ponto Crítico», publicados no jornal dos trabalhadores dos ENVC “Roda do Leme”, pelos anos oitenta, do século passado.

Friday, August 24, 2012

Recordando Jean-Jacques Rousseau e o seu pensamento, no tricentenário do seu nascimento!


“Considero que os homens atingiram aquele ponto em que os obstáculos que prejudicam a sua conservação no estado de natureza levam a melhor, pela resistência, sobre as forças que cada indivíduo pode empregar para se manter neste estado”.

Jean-Jacques Rousseau

Pelo simples razão de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) ter participado activamente no século que mudou o rumo da cultura ocidental, nomeadamente entre o iluminismo e o romantismo, e se comemorar no presente ano o tricentenário do seu nascimento (1712-2012), é que resolvemos trazer à memória esta figura ímpar do pensamento universal. Nascido em Genebra, em 28 de Junho de 1872, no seio de uma família protestante de cidadãos burgueses, a sua vida e a sua personalidade estiveram sempre intimamente ligadas à sua obra. Tal como afirmam muitos dos analistas da sua obra e do seu pensamento – sem nos alvorarmos em tal pretensão de analista, ficamo-nos pela constatação filosófica –, a música, o indivíduo, a tolerância, a oposição entre a ciência e religião ou entre sentimento e razão, os direitos naturais, em suma, todos os grandes temas e conflitos do «Século das Luzes», que resultaram na Revolução Francesa, em 1789, fizeram parte das inquietações vitais e intelectuais deste pensador.
   Outro aspecto a salientar no seu pensamento filosófico, e que nos cativa profundamente, reside no facto de o mesmo exprimir através da sua filosofia as tensões entre a razão e os sentimentos que constituíam as linhas fundamentais sobre as quais discorriam as reflexões dos seus contemporâneos. Pela “leitura” que fazemos – como empirista que somos – “o pensamento rousseauniano não é produto de um processo racional, mas sim o fruto da sua experiência vital perante o acontecer do mundo”. Daí que alguns vejam nele um pensador proto-existencialista. Não vamos aqui falar, a fim de não ferirmos susceptibilidades, do facto dos iluministas se terem oposto à Igreja, por se oporem aos mitos e às superstições porque tinham observado o atraso que estes representavam para o progresso intelectual das sociedades, mas lembrar que a crítica e a razão dominaram o pensamento do século, não se podendo separar desse contexto a inteligência e a paixão. Na altura, muitos dos filósofos consideravam que o motor do homem tinha os seus princípios nas paixões e que a sua natureza principal se encontrava nelas e não na razão, contrariando assim o princípio do iluminismo, cujas razões eram empíricas e provinham da ciência. Por isso, Rousseau ao ver a metafísica demasiado afastada dos princípios de uma filosofia cuja função deveria ser a de conhecer o homem, associou a sinceridade pessoal à verdade filosófica, cujo fim é chegar à compreensão racional do ser humano. E, para este mesmo filósofo – gravitando através da compreensão racional do ser humano como objectivo –, tal compreensão só se pode alcançar partindo do próprio indivíduo e dos seus sentimentos.
Contrariando as práticas do “imperialismo financeiro” (o termo é nosso) – egoisticamente pessoal e/ou de interesse particular –, actualmente instalado no mundo, e que nos envergonha profundamente, Jean-Jacques Rousseau, ao seu tempo, era apologista de um modelo social baseado no pacto social. O mesmo filósofo acreditava, face à inclinação egoísta dos interesses particulares, ser possível no cidadão a sua tendência para o colectivo: «o homem nasceu livre e está acorrentado por todos os lados» – citamos d’ “O Contrato Social”, uma das suas mais emblemáticas obras. De facto, Rousseau questionava-se sobre essa escravidão (nascer livre e estar acorrentado) e como legitimar o regresso à liberdade. A ordem social era para ele um direito não baseado na natureza, mas sim nas convenções, que se deveriam conhecer. Assim, neste ponto, Rousseau separava-se da opinião de John Locke (1632-1704), no que se refere ao carácter natural da lei da maioria para adoptar uma lei baseada no acto de convenção. Rousseau estudou as sociedades primitivas e a sua revolução até chegar ao pacto social: «Pelo pacto social demos existência e vida ao corpo político. Trata-se agora de lhe dar movimento e vontade através da legislação, porque o acto primordial pelo qual este corpo se forma e se une não determina ainda nada a respeito do que ele deve fazer para se conservar. É este o objectivo para o qual tende a ciência da legislação» – citamos “O Contrato Social”, Livro II, Capítulo I, “Objectivo da Legislação”. Para o mesmo filósofo, o modelo social político mais antigo era a família, que se mantinha até os filhos terem capacidade para substituir, libertando-se da obediência paterna. Após esta etapa só a convenção e não a necessidade os poderia fazer permanecer unidos. Apesar de negar qualquer paralelismo entre família e sociedade, achava que as liberdades particulares eram alienadas unicamente pela utilidade que responde ao princípio fundamental de conservação.
A rejeição de qualquer tese tradicional sobre a origem da sociedade política está muito enraizada no pensamento de Jean-Jacques Rousseau, ao ponto de não aceitar a autoridade política baseada na força: poder físico e moral eram – e continuam a ser – conceitos opostos. Esta figura ímpar do pensamento universal chegou a investigar o direito de matar os vencidos nas guerras e o direito de conquista para concluir que não existe esse direito de escravatura antagónico e irreconciliável nos seus próprios termos: «O Estado ou a cidade constituem uma pessoa moral cuja vida consiste na ajuda e na união dos seus membros; a primeira e mais importante das suas preocupações é a da sua própria conservação, tarefa que necessita de uma força universal e compulsiva para mover e dispor cada parte da maneira mais conveniente para o todo. Assim, da mesma forma que a natureza dá a cada homem um poder absoluto sobre os seus membros, o pacto social dá ao corpo político um poder absoluto sobre os seus, e é esse mesmo poder, cujo exercício é dirigido pela vontade geral, que tem, como já havia dito, o nome de soberania» (“O Contrato Social”, Livro I, Capítulo VI, “Dos respectivos direitos do soberano e do cidadão”). Para além disso, para ele, os homens dispunham de dois instrumentos de conservação, a força e a liberdade, e esta última só se adquiria com o desenvolvimento das capacidades humanas, inseparáveis da sua relação com os seus congéneres, pressupondo que “já não é só o homem que actua instintiva e cegamente, mas sim um ser capaz de reflectir e que observa o alheio para além do amour de soi. Vontade e razão dirigem a sua actuação para uma forma de liberdade mais completa que concilia o individual com o colectivo”.
Reflectindo sobre os tempos que correm – nomeadamente no que concerne à prática política em Portugal – que dizer do pensamento de Jean-Jacques Rousseau, que ao tempo soube analisar a soberania derivada da vontade geral e o exercício do seu governo a partir do interesse comum? Reforçaríamos a sua convicção de que o princípio de soberania era absoluto e indivisível, mas os políticos – tal como agora – dividiam o seu objecto em força e vontade, que correspondem aos poderes legislativo e executivo, respectivamente. Rousseau considerava que a soberania residia no povo – sendo que o poder era legitimado pela vontade geral –, o que queria dizer que também era inalienável, não se podendo renunciar a ela. E poderíamos discorrer aqui sobre a “vontade geral e vontade de todos”; “o pacto social e as leis”; “a função do legislador”; “vontade geral e soberania política”; “formas de governo”; “o objectivo do bom governo”, comutando-o com a conservação e a prosperidades dos seus membros; “a eficácia da vontade geral”, onde afirma que no estado de perfeição é impossível enganar as pessoas simples com subtilezas políticas; “a vontade geral e o sufrágio”, de modos a que enquanto prevalece a unanimidade e não se abre a brecha dos interesses particulares no Estado – tão irreal nos tempos que correm –; e, porque não, “a religião como meio de sociabilidade”, sendo que Rousseau juntou intolerância civil e religiosa, devendo tolerar-se todas as religiões enquanto os seus dogmas não se opuserem aos deveres civis; mas quedamo-nos pela noção de espaço e complacência de quem nos lê.
Terminaremos parafraseando João Lopes Alves, responsável pela introdução e notas à mais recente reedição d’ “O Contrato Social” (2008), que há leituras do pensamento de Rousseau ora como manifesto de libertarianismo radical, se não mesmo de anarquismo, ora como expoente por excelência do império da lei; havendo, também, os que o acusam de propor uma geometria do político com traços de paleototalitarismo e os que lhe reconhecem o papel de teórico fundamental da democracia. Pena é que os “democratas/políticos” de hoje não o lêem. Talvez se revissem na falta do “bom senso” – e até propositado alheamento – no exercício dos seus governos a partir do interesse comum!

Wednesday, August 22, 2012

MULHER DE ANGOLA: SABOR A FRUTA

Em homenagem a todas as mulheres de Angola, e de uma forma especial à nossa tia Rosa Pambahamgumbo Afonso, angolana de Sá da Bandeira, com raízes no Cunene.

Friday, August 10, 2012

A linha do horizonte na última viagem do “Bessie Surtees”: do mar para terra, deambulando pela Cultura Clássica!


“Primeiro chegarás às Sereias, que fascinam todos os homens / que junto delas abordarem. / Seja quem for que se aproxime incauto e escute / a voz das Sereias, a esse nem a mulher nem os filhos inocentes / hão-de acolhê-lo e alegrar-se com o seu regresso a casa”.

HOMERO, in Odisseia (XII, 39-43)

Já lá vão alguns anos, mas lembramo-nos como se fosse hoje. Naturalmente impressionados com as coisas terrenas, sempre fomos admiradores das bases sólidas e robustas que, tal como em Tróia, nos criam uma sensação de segurança e estabilidade. A cantaria cinzelada (por exemplo) faz-nos perpetuar o passado rebuscando memórias. Elas podem ler-se na pedra porque a pedra é terrena, sólida e robusta. O mesmo não se pode dizer da água e de tudo quanto nela flutua.
Momentos há que, só nos mergulhos a grandes profundidades, se podem rebuscar memórias do passado, porque essas residem em terra, mormente diluídas pela imensidão do mar... Por isso, para que nasça em nós a paixão pelo mar, tem que haver trigonometria, porque a areia e a água, somente, tornam-se agrestes e agridem o nosso espírito. O verde é um elemento necessário ao nosso “ego”, local privilegiado de súplica à virgem mãe de Deus, detentora da égide divina, plasmada no branco caiado das serpenteadas capelinhas. A filha de Zeus, moldada aos tempos que correm. Culturalmente, a égide de sermos filhos da Grécia!
Temos as raízes em terra! Assim, só porque se tratava da última viagem daquela “construção flutuante”, nos decidimos em aceitar o desafio e, decerto, a íntima e ansiada experiência de aventura.


Já tínhamos “ido” ao mar – esse elemento fundamental das epopeias – num rebocador, mas, desta vez, levávamos outro sentimento de mãos dadas com a odisseia pessoal – intimamente marcada pela poética camoniana de convocar as alvas filhas de Nereu, / com toda a mais cerúlea companhia, / que, porque no salgado mar nasceu, / das águas o poder lhe obedecia (Lusíadas: II, 19) –, um sentimento fundo de tudo ver com outros olhos. Se calhar, inconscientemente, era a simbiose com o derradeiro alento daquele barco. Uma sensação de perda. A expectativa da despedida.
Falou-se de borda, convés, leme, bombordo e estibordo, de milhas, de norte e sul, nordeste e sudoeste, de correntes, de bóias, de coletes, de sinais, de porões, de cobertas, de tanques, de vigias, enquanto nascia em nós, primeiro escondidamente e depois fundo e largo, um sentimento pungente mas indefinível, enquanto olhávamos para a linha do horizonte sulcada pela passagem de um veleiro e pontilhada por embarcações de pesca artesanal. Aqui e acolá as marcas sinalizadoras das redes, bóias embandeiradas, demarcando áreas. Para trás ficava a cidade e o seu verde e, connosco, um ressaibo de nostalgia... Era a cidade vista noutra dimensão. Ali, em pleno mar, ao sinal de um dos tripulantes, mudavam-se rumos para fugir às bóias, cujo silvo do vento norte lhes conferia a partitura do canto das sereias. O mar estava “chão”. Uma paz silenciosa como uma serena calmaria. Na linha do horizonte o veleiro rumava para norte, enquanto a nossa embarcação, de leme a estibordo – depois que passamos ao largo e não se ouvia já / a voz das sereias nem o seu canto (Odisseia: XII, 196-197) –, descrevia uma volta de 180 graus, de regresso a casa.
Ao longe, Viana amuralhada – qual sólido navio chegaria à ilha das Sereias –, num outro horizonte, tendo como pano de fundo a altivez e a serenidade do verde esperança que se derramava aos pés de Santa Luzia. Cumpria-se os oráculos revelados por Circe. A linha prolongava-se para norte e sul reproduzindo aguarelas de um progresso “anárquico” com o predomínio de torres ferindo o recorte harmonioso da Natureza. Inconscientemente uma memória feriu-nos. Uma memória que transpondo o passado evanescente nos deixou ver a mesma linha de costa espraiando-se aos pés da Montanha, onde velejavam as caravelas e as embarcações de antanho, do tempo áureo dos descobrimentos e do comércio marítimo com os seus ciclos dos panos e do sal, do ferro e do bacalhau, do açúcar brasileiro. A costa rochosa da ilha, feita cidade (Polis), deixou de ser berço dos encantadores génios marinhos: Vem cá, Ulisses celebrado, dos Aqueus glória suprema! / Detém o navio, para escutares a nossa voz. / Jamais alguém passou ao largo com a negra nau, / sem que ouvisse o doce canto que sai da nossa boca (Odisseia: XII, 183-186). Não fosse o facto de Ulisses, prudente e curioso ao mesmo tempo, ordenar os seus marinheiros que tapassem os ouvidos e o amarrassem ao mastro – Um a um, tapo com cera os ouvidos dos meus homens todos. / Por sua vez, eles ligam-me de pernas e braços / e amarram-me, de pé, ao mastro central. / Depois, sentados, batem com os remos o mar pardacento (Odisseia: XII, 176-179) –, por certo que, uma vez levados pelo encanto das Sereias, viriam os seus navios desfazerem-se contra as rochas, num cenário desolador de naufrágios envoltos pelo mar encapelado, qual Adamastor Assi contava, e c’um medonho choro / Súbito d’ante os olhos se apartou; / Desfez-se a nuvem negra, e c’um sonoro / Bramido muito longe o mar soou. / Eu, levantando as mãos ao santo coro / Dos Anjos, que tão longe nos guiou, / A Deus pedi que removesse os duros / Casos que Adamastor contou futuros (Lusíadas: V, 60).
Uma memória... uma fuga à voz doce das Sereias e do prado florido, sem amarras, junto ao mastro-real. As “sirenes” (Σειρηνες.) de agora passaram a ter outra função. Passaram a alertar-nos para o perigo de proximidade à costa. O hoje, outra vez, em terra: «… Sigamos estas Deusas, e vejamos / Se fantásticas são, se verdadeiras!» / Isto dito, velozes mais que gamos, / Se lançaram a correr pelas ribeiras. / Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos, / Mas, mais industriosas que ligeiras, / Pouco e pouco, sorrindo e gritos dando, / Se deixam ir dos galgos alcançando (Lusíadas: IX, 70).
Desvaneceram-se as caravelas. O passado... Naquele dia, feitos mareantes, a bordo do “Bessie Surtees”, sentimos Viana de uma maneira diferente.
Que bom seria se os arquitectos das bases sólidas, quando pensassem alterar a linha do horizonte, não o fizessem de terra para terra, mas de mar para terra, auscultando os deuses bem-aventurados, aqueles que não apreciam o mal, / mas prestam honra à justiça e às acções sensatas dos homens (Odisseia: XIV, 83-84).
Bastaria escolher um dia de mar “chão” – ainda que se vislumbrasse uma serena calmaria – e viajar num barco, mesmo que fosse um barco a abater. Decerto, pensariam tudo de uma maneira diferente!...
À noite, na calmaria do nosso quarto, impôs-se-nos a necessidade de uma séria reflexão, a propósito do encanto e desencanto dos espíritos do campo, plasmados nas “jovens mulheres” que o povoam (Ninfas), deambulando também pelos bosques e pelas águas, personificando os diversos aspectos da natureza. Naquela mesma noite, voltaríamos a perscrutar a nossa ancestralidade greco-romana. Embora hoje outros sejam os cânticos sedutores que provocam os naufrágios, os “demónios marinhos” – sejam eles sob a forma de ave ou de peixe com cabeça e peito de mulher (Sereias) –permanecem aconchegados e/ou actuam no nosso subconsciente.

São outros os rostos dos deuses, mas as preces continuam a ser as mesmas. Dos deuses pensados à imagem do homem até nos defeitos – ludibriosos e vingativos, sendo que suas paixões é que determinam os sofrimentos dos homem – (Ilíada), passamos aos deuses mais distanciados e justiceiros – os sofrimentos impostos são uma consequência do comportamento dos homens – (Odisseia). A precariedade do homem perante a divindade, lutando pela Glória, a “Arete”: Mas Zeus acrescenta ou diminui o valor dos homens, / conforme lhe apraz, pois ele é o mais poderoso de todos (Ilíada: XX, 242-243). Por outro lado, o mar será sempre fonte de inspiração de outras tantas epopeias. Ainda que se procure que Cessem do sábio grego e do troiano / As navegações grandes que fizeram; / Cale-se de Alexandre e de Trajano / A fama das vitórias que tiveram (Lusíadas: I, 3), jamais se conseguirá apagar o espargir do mundo a partir do qual o nosso nasceu, seja através da estrutura social e política, das ideias, das crenças, ou até mesmo dos costumes. E, ingenuamente, lá vamos andando de costas viradas ao mar, dizendo-nos e afirmando-nos filhos da Europa!

Friday, August 03, 2012

«Portugal na hora da verdade: como vencer a crise nacional»: não diz a bota com a perdigota!


“As pessoas não valem por aquilo que escrevem ou dizem, mas por aquilo que são capazes de fazer pelo seu semelhante, no momento oportuno”

F. Serrão

Sempre fomos leitores inveterados de teses científicas, em qualquer vertente da teoria do conhecimento, acreditando – ainda que com algumas reservas – naquilo que os seus autores podem trazer de novo ao pensamento universal. E quando essas teses se apresentam como soluções aos acidentes de percurso das áreas a que se confinam, faz aumentar em nós a “curiosidade especulativa”.
Vem isto a propósito de uma “conceptual” leitura que presentemente fizemos do livro de Álvaro Santos Pereira – actual ministro da economia, mas que na altura era docente da Simon Fraser University (Vancouver, Canadá), onde leccionava Política Económica e Desenvolvimento Económico. Licenciado pela Universidade de Coimbra, doutorou-se em Economia na Simon Fraser University e já leccionou na University of York e também na British Columbia University, local onde permaneceu como professor convidado de Macroeconomia, até entrar para o Governo –, com o título «Portugal na hora da verdade: como vencer a crise nacional», editado pela Editora Gradiva, em 2011. É evidente que não vamos aqui discorrer pelas suas 576 páginas, com o intuito de nos afoitarmos a qualquer tipo de recensão crítica, tendo em conta que alguma da nossa aversão aos meandros da economia contemporânea vem-nos da leitura (por obrigação académica) de Karl Marx – exigindo, por isso, que não nos rotulem de marxistas – e do actualíssimo «O Capital»: “Desde o seu nascimento, os grandes bancos adornados de títulos nacionais eram apenas sociedades de especuladores privados, que se colocavam do lado dos governos e que, graças aos privilégios recebidos, estavam em condições de lhes adiantar dinheiro. Portanto, a acumulação da dívida do Estado não tem nenhuma escala de medida mais infalível do que o sucessivo subir das acções desses bancos, cujo pleno desabrochar data da fundação do Banco de Inglaterra (1694)” – assim podemos ler no vigésimo quarto capítulo, «a chamada acumulação original», que nos adianta ainda que “com as dívidas de Estado surgiu um sistema de crédito internacional”. Olvidar tal argumentação é alimentarmo-nos pela ignorância dos factos tão reais, como à época o diria Karl Marx, no mesmo vigésimo quarto capítulo d’«O Capital»: “Esta expropriação [logo que os operários foram transformados em proletários] completa-se pelo jogo das leis imanentes da própria produção capitalista, pela centralização dos capitais. Um capitalista mata sempre muitos. De braço dado com esta centralização ou com esta expropriação de muitos capitalistas por poucos (…)”. Pena é que se pretenda ignorar esta triste realidade tão actual, preconizada – em termos de pensamento – há cerca de século e meio, mais concretamente em 1867, altura da primeira edição desta mesma valiosíssima obra (infelizmente inacabada), que uns poucos, erradamente, transformaram em mera corrente ideológica.
Mas, vamos à realidade actual, “pela pena e pela mente” de Álvaro Santos Pereira – aquele que após tomar posse como ministro, e contrariando os apelativos dos defensores dos prefixos (pão quentinho a sair do forno de Miguel Relvas), aconselhou a que o chamassem de Álvaro, sem o doutor (aplaudimos de pé) – que ao longo do livro «Portugal na hora da verdade: como vencer a crise nacional» procura mostrar que Portugal vive hoje três grandes crises: a crise das finanças públicas, a crise da competitividade e do crescimento e a crise do endividamento externo. Entre as questões debatidas, incluem-se as seguintes: qual é o verdadeiro estado das nossas finanças públicas? Porque é que o nosso Estado gasta tanto? Quantos institutos e outras entidades públicas existem e quanto gastam? E porque estamos tão endividados? Será a dívida nacional sustentável? Quão grave é o problema de competitividade das nossas exportações? – questões e interrogações pertinentes, reforçadas pelo facto de ele mesmo sublinhar ao longo da mesma “dissertação” que havia fortes indícios de que o nosso Estado estava a matar a economia nacional, afirmando mesmo que os funcionários públicos não eram responsáveis por esta situação: “Uma verdadeira reforma do Estado que torne as nossas contas públicas saudáveis e sustentáveis não deve ser feita contra os funcionários públicos ou contra o serviço público. Muito pelo contrário. Uma verdadeira reforma da administração pública terá de melhorar o serviço público, não piorá-lo. Uma verdadeira reforma da função pública terá de aumentar o prestígio do emprego público, não diminuí-lo. Uma verdadeira reforma do Estado terá de incentivar a auto-estima dos funcionários públicos e fazer com que sejam eles próprios a estimular a mudança de que a nossa administração pública necessita”.
A propósito deste livro de Álvaro Santos Pereira, diria a crítica na altura que «Portugal na hora da verdade: como vencer a crise nacional» estava “pensado também para o leitor sem formação em economia, «Portugal na Hora da Verdade» responde a estas e outras questões numa linguagem acessível e clara, apresentando novos dados e uma interpretação mais abrangente da crise nacional, seguidos de soluções concretas para os problemas económicos do país. É, portanto, um livro fundamental para compreender as dificuldades actuais e pensar em saídas possíveis para a crise nacional”. E se na altura achávamos ter percebido a denominada linguagem acessível e clara, depressa constatamos, ao tomarmo-nos pela conjuntura presente de o visionarmos como ministro da economia, que bem pregava o “Frei Tomás”: “Finalmente, uma verdadeira e duradoura reforma do nosso Estado não poderá encarar a necessária dieta da administração pública como uma mera poupança de euros e de despesa pública, mas sim como uma oportunidade única para melhorar a eficiência do Estado e, assim, simplificar e auxiliar a vida dos portugueses. É neste sentido que uma reforma da administração pública tem de ser feita com os funcionários públicos e não contra eles” (Pereira, 2011: 511). E diz porquê: “Porque toda e qualquer reforma que seja contra os funcionários públicos está condenada ao fracasso (…)” –  ou ainda – “A culpa do descalabro das finanças públicas nacionais não é dos funcionários públicos, é dos governos”. Teorização tão “clara e acessível”, acaba por nos deixar estupefactos perante aos efeitos práticos de quem vincularia tais afirmações, num sugestivo capítulo da denominada “dissertação”, com o título “políticas para retomar o sucesso”. É caso para dizer-se, face ao descalabro das finanças públicas e subsequente asfixia da função pública (quiçá acabando com a classe média), que “a bota não diz com a perdigota”… ou, infelizmente, o ministro encontra-se manietado pela incompetência de terceiros e, quiçá, interesses instalados.
      Terminaremos, sugestionados pelo pensamento de Armand-Jean du Plessis (1585-1642), o conturbado e polémico Cardeal-duque de Richelieu, no seu «Testamento Político», hoje com novos protagonistas, mas com os mesmos princípios: “O aumento dos impostos é capaz de reduzir ao ócio um grande número de súbditos do Rei, sendo certo que a maior parte do povo pobre e dos artesãos empregados nas manufacturas preferirão ficar ociosos e de braços cruzados a conformar-se toda a vida a um trabalho ingrato e inútil, se a grandeza dos impostos, impedindo a venda dos frutos da terra e das produções, os impedir também, por essa via, de receber o do suor do seu corpo”. Por concordarmos com provérbio latino «Asinus asinum fricat», ficamo-nos por aqui, sem que antes, e em face à conjuntura presente, albarde-se o burro à vontade do dono!

Sunday, July 29, 2012

“In perpetuam rei memoriam”: no centenário do nascimento de Jorge Amado (1912-2012)


“Foi um dos maiores escritores de língua portuguesa e, entre estes, o de maior projecção em todo o mundo. É injusto e inexplicável que não tenha sido distinguido, como tanto merecia, com o Prémio Nobel da Literatura”

Manuel Alegre

Não estaríamos aqui a falar do inesquecível e universalista escritor brasileiro Jorge Amado (1912-2001) se não tivéssemos em memória a sua passagem por Viana do Castelo e Ponte de Lima (tendo nesta multisecular vila descerrado uma placa na Adega Cooperativa local) nos anos de 1992 e 1993, e se no corrente ano não se comemorasse o centenário do seu nascimento (10 de Agosto). Se não bastasse tal facto, ainda temos a agravante de – como diria Fernando Henrique Cardoso – “a língua de Jorge Amado é um português que seduz todos os cinco sentidos, sabores e texturas. Um combatente que sempre esteve a favor da Justiça, ao lado dos oprimidos. Um criador que teve a coragem de pintar o Brasil em suas cores reais para a partir delas, propor sua utopia”. É este sentido dos sentidos, universalmente difuso, que sempre despertou em nós uma forte empatia pela sua escrita, as suas fantásticas criaturas e, nomeadamente, a sua mestiçagem cultural. Estamos plenamente de acordo com o que escreveu Miguel Real, em Agosto de 2001, aquando da morte de Jorge Amado, alegando de uma forma quase visionária “quando Jorge Amado chegar ao céu da igreja (que, não raro, tem sido o inferno dos escritores), deixando esta cidade de Salvador enlutada, não terá à sua espera a trindade cristã, Pai, Filho e Espírito Santo, mas a mais alta trindade da literatura brasileira da Bahia”. Miguel Real referia-se ao Padre António Vieira, que “denunciou os senhores dos engenhos de açúcar que, no Maranhão, em Pernambuco e na Bahia, nos séculos XVI e XVII, reduziam os índios à escravidão”; ao poeta setecentista Gregório de Mattos, que, nos seus versos barrocos, “dando voz ao povo mulato e pardo, aos mestres de ofícios, às mexeriqueiras de becos, escalpelizou a vida íntima e pôs a nu a consciência pesada das famílias burguesas e as perversões eclesiásticas de Salvador”; e ao poeta Castro Alves, poeta baiano da liberdade, “luta pela abolição da escravidão e pela implantação da República”.


Jorge Amado, tal como o nosso nobilíssimo José Saramago – depois de ouvirmos o Frei Fernando Ventura a falar da “fé” de José Saramago, retiramos a única pedra que tínhamos no sapato –, porque “geneticamente” vinculado ao “clube dos não-alinhados”, colocou a sua inspiração ao serviço – como escreveria Miguel Real, o qual subscrevemos – “dos negros faxineiros, dos meninos miseráveis, dos mulatos fura-vidas, das prostitutas de becos, dos cachaceiros de rua, dos brancos especuladores, dos comerciantes avarentos, dos coronéis tirânicos, dos jagunços bárbaros, dos capatazes despóticos, das viúvas recalcadas, das solteironas sensuais, das mestiças libidinosas, dos sindicalistas filantrópicos”. Jorge Amado, através das suas personagens, soube assim descrever de uma forma tão peculiar tanto as proezas velhacas do povo como os actos de solidariedade de que este se mostra capaz. Basicamente, este extraordinário escritor brasileiro cedo percebeu que (tal como diria Leodegário A. de Azevedo Filho) o verdadeiro romance nunca poderia ser aquele que copia a realidade contextual, mas o que tem força de agir sobre ela, transformando-a. Concordamos com Leodegário Filho quando afirma que no discurso literário de Jorge Amado “além dos elementos míticos, os elementos sobrenaturais rompem com o contexto, numa relação descontínua entre texto e realidade, abrindo-se então fecundo espaço para o imaginário”. A nossa grande frustração, enquanto leitores de Jorge Amado e pretensos “cabouqueiros” da escrita, é a de nunca termos tido a coragem de assumir, intelectualmente, a nossa “ignorância” e o princípio basilar da independência cognitiva – por influência de alguns críticos literários brasileiros e portugueses, chegando a pôr em dúvida a qualidade da sua obra –, no que toca à produção criativa e reveladora da realidade, ainda que contextual: «Nunca sou candidato a nada. Para um escritor nada é importante, tudo é circunstancial, a não ser o seu próprio trabalho. Nada pode acrescentar-lhe seja o que for. Só o trabalho conta» – disse-o um dia. É por isso que, para nós, Jorge Amado era um invulgar ficcionista.

Na verdade, este romancista, contista, dramaturgo, cronista e crítico literário brasileiro, de seu nome completo Jorge Leal Amado de Faria, esteve ligado a Viana do Castelo por laços afectivos e não só, onde granjeou muitos amigos – sendo de destacar Manuel Natário e Nuno Lima de Carvalho, imortalizados em “Tocaia Grande” como “Capitão Natário da Fonseca” e “Frei Nuno”, respectivamente; Amadeu Costa e Álvaro Salema, entre outros, carinhosamente referenciados em “Navegação e Cabotagem”; Abílio Lima de Carvalho, Sérgio Augusto, Carlos Branco Morais, etc. –, era filho de João Amado de Faria e de Eulália Leal, e nasceu na fazenda de cacau Auricídia, distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul da Baía (Brasil), no dia 10 de Agosto de 1912. No ano seguinte ao do seu nascimento, uma praga de varíola obriga a família a deixar a fazenda Auricídia e a estabelecer-se em Ilhéus, onde viveu a maior parte da infância e que lhe serviu de inspiração para vários romances. Foi para o Rio de Janeiro, então capital da república, para estudar na Faculdade de Direito da então Universidade do Rio de Janeiro, actual Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Jorge Amado, o autor brasileiro mais publicado em todo o mundo, foi jornalista e envolveu-se com a política, tornando-se comunista, como muitos da sua geração. Em 1945, foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), o que lhe rendeu fortes perseguições políticas, tendo até sido proibido – tal como os seus livros – de entrar em Portugal. Viveu exilado na Argentina e no Uruguai (1941 a 1942), em Paris (1948 a 1950) e em Praga (1951 a 1952). Escritor profissional, viveu exclusivamente dos direitos dos seus livros, cujos conteúdos propõem uma literatura voltada para as raízes nacionais. Publicou ao longo da sua vida cerca de cinco dezenas de obras que se tornaram numas das mais significativas da moderna ficção brasileira. São temas constantes nas suas obras os problemas e injustiças sociais, o folclore, a política, crenças e tradições, e a sensualidade do povo brasileiro. A sua obra foi editada em 52 países e traduzida para 49 idiomas e dialectos. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 6 de Abril de 1961. Após a sua morte o seu lugar na Academia foi ocupado pela sua companheira de sempre Zélia Gattai, também escritora, de quem teve três filhos. Pela sua profícua actividade literária, recebeu no Brasil e no estrangeiro vários prémios, sendo de destacar a Comenda da Ordem de Santiago da Espada, atribuída pelo governo português, e a medalha da “Ordre des Arts et des Lettres” no grau de Comendador, pelo governo francês, aquando da comemoração do 50.º aniversário da sua carreira literária, em 1981; e o Prémio Camões, Portugal, em 1985.
Jorge Amado morreu no Hospital Aliança (Baía), onde horas antes dera entrada de urgência devido a complicações cardíacas de que fora acometido em casa, numa segunda-feira, 6 de Agosto de 2001, a quatro dias de completar 89 anos.

Impõe-se da nossa parte, por uma questão de gratidão universal, recordá-lo no Centenário do seu Nascimento, que ocorrerá no dia 10 de Agosto de 2012. Tal como diria Agustina Bessa-Luís: “Acaba-se a linha dos grandes momentos dos profissionais da literatura da ficção. Os leitores e amigos devem recordá-lo como um grande escritor romântico”. Assim será!

Saturday, July 21, 2012

«Arte na Leira», a alma de Mário Rocha…


“Janelas abertas na distância de um gesto, os dedos abertos em forma de cristal e rigor, postos sobre a fronte, sobre o degredo. Beijam-se os pincéis, como palavras dentro de nós. As cores sonham vontades, os traços verdades em tons de deserto e azul. É o momento de amar, de partir nos teus quadros Mário, de possuir na pele o desejo de ser parte do que pintas”

Pedro Abrunhosa

Mário Rocha, no sopé da Serra d’Arga com a «Arte na Leira», tem sido a trigonometria que nos leva a sobrelevar, para além do gosto, a emoção na arte. Mário Rocha é daqueles artistas que nos acicata a emoção, permitindo-nos a relação entre a sua criatividade e a nossa sensibilidade, dando razão a Tolstoi quando um dia escreveu que “a arte é uma actividade humana que consiste em um homem passar a outros, intencionalmente e por meio de certos sinais externos, sentimentos que ele viveu e de outros serem infectados por estes sentimentos e também os experimentarem”. E o nosso grande amigo Mário Rocha faz jus à partilha e à ideia que temos dos verdadeiros artistas, nomeadamente aqueles que inspirados por uma experiência de profunda emoção usam a sua aptidão para dar corpo a essa emoção numa obra de arte, ao que nós acrescentaríamos a expressão e a imaginação. De facto, na estética de Collingwood, por exemplo, a imaginação desempenha um papel central, sendo que é pela construção imaginativa que o artista transforma a emoção vaga e incerta em expressão articulada. Segundo o mesmo Collingwood, o processo de criação artística é, assim, não uma questão de exteriorizar o que já existe internamente, tal como muitos propõem, mas um processo de descoberta imaginativa, ou seja, um processo de autodescoberta. «Arte da Leira», a nosso modesto ver, é assim um lugar de emoção, expressão e imaginação, espaço de relação entre o artista e o público. Aqui, contrariando o que admitem muitos dos filósofos da arte – defendendo que sustentar o cognitivismo a respeito da arte é admitir alguma espécie de preconceito contra a própria arte –, achamos que a arte torna-se tanto mais valiosa quanto mais aprendemos e/ou apreendemos com ela cognitivamente. Com esta iniciativa da «Arte na Leira», a decorrer desde 1999 (14.ª edição), e segundo os seus mentores, “pretende-se transmitir que a vida é a arte do encontro com a própria arte”. E isso têm-no conseguido.
   

Quando em 2002, Mário Rocha nos pediu para elaborarmos uma pequena nota introdutória ao catálogo da «Arte na Leira» desse mesmo ano, plasmamos a nossa emoção – numa cumplicidade plena com o artista – afirmando convictamente que é através da expressão artística que a nossa identidade ganha forma, porque uma obra de arte não é só uma ideia: é uma ideia realizada. E diríamos também que Mário Rocha, um sensitivo nato, a expressão viva da Arte Realizada, sonhou um dia partilhar a sua causa-efeito com o seu (nosso) meio, fazendo jus a uma máxima de um poeta universalista que nos proporcionaria a sensibilidade da arte pela arte, e não da arte pelo homem: “Arga de Baixo, Casa do Marco, refúgio do Pintor-Poeta – onde o granito beija o chão aprazível e virgem da urze, onde vale a pena respirar o ar da cultura e o céu se mistura com a simplicidade do povo serrano, puro e castiço – volta a ser convergente identidade e carácter da expressão artística”. Tal como escrevemos e sentimos nessa altura, também agora falamos com a pastora Natália – por certo já “retratada” por Mário Rocha em “Ares da Serra” – e percebemos o quanto importante é a arte viver em simbiose com o bravio da terra e dos homens desse “Deus Maior” e omnipotente, porque alma da natureza. É nesse sentido que a «Arte da Leira» continua a fomentar o desenvolvimento de actividades de expressão artística e cultural, numa perspectiva de aproximação entre o mundo rural e o mundo artístico. Apesar de esta iniciativa ter sido inicialmente um “aconchego” regional (Alto Minho) – onde Mário Rocha, autor da iniciativa, para além de ser o mentor do projecto artístico é também o proprietário da casa – a sua dimensão valorosa já há muito que ultrapassou os simples cenários dos escarpados da Serra de Arga, sendo considerada (por muita e variada gente ligada às artes, e não só) inovadora em Portugal «no que toca a esta dimensão de um evento cultural do ponto de vista de uma exposição colectiva onde se espera mais-valias significativas ao nível do desenvolvimento das capacidades de reflexão crítica, imaginação e criatividade».
Queremos aqui recordar que Mário Rocha nasceu na freguesia de Perre, Viana do Castelo, em 1954, dedicando-se à pintura desde 1968, tendo inaugurado a sua primeira exposição com apenas 17 anos de idade. Frequentou a Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, no Porto e actualmente reside em Gondomar onde possui o seu próprio atelier. Para além de participar em muitas exposições individuais e colectivas – o que seria fastidioso aqui enumerá-las –, a sua obra está representada em várias colecções particulares e oficiais.
   

De 14 de Julho a 19 de Agosto do corrente ano, com a conivência/participação do nosso grande amigo e anfitrião Mário Rocha, perpassarão pela «Arte na Leira» artistas de renome nacional e internacional, tais como: Luís Coquenão, Jean Pierre Porcher, Gil de Sousa, Rafael Springer, Marco Rooth, Carvalho Araújo, Nuno Portela, Telmo Castro, Eva von Knobelsdorff, Rui Dias, Manuel Lima, Ricardo Drumond, Ana Aragão, Fátima Pitta, Mário Rebelo de Sousa, Flor Rocha, Mafalda Ayres, Margarida Costa, Luís Paupério, João Lopes Cardoso, Miguel Silva Rocha, Luz Lafuente, Cecília Lages, Maria Neves, Pedro Miguel Rodrigues, Indipotrochoid, Rita Sá Lima, Cristina Bastardo, Luís Pedro Viana, João Santos, Francisco Mota Bernardo, Catarina Silva, José Luís Cunha e Luís Coelho, sendo estes últimos três, em fotografia.
Terminaremos, tal como escrevemos há dez anos: Hoje e sempre Arte – os trilhos empedrados, ladeados por muros de pedras soltas; as casas humildes, de gente humilde; os moinhos e as presas; regras na rega, o milho, o feijão, o centeio, a aveia; a ancestralidade, marcada pelas tradições, pelo “querer” e pela fé; os rebanhos, cada cabeça com seu nome, obediente às ordens do(a) pastor(a); o granito e o xisto; os ribeiros salpicados de azevinhos; as fontes, ditas milagreiras; os sobreiros, os carvalhos, os castanheiros, os louros, as faias e as giestas; os lobos, os coelhos bravos, as raposas, as perdizes e o javali; a imponência, a aridez e a grandiosidade da Serra; o pôr-do-sol e o luar; as concertinas, o cantar ao desafio; as lendas e a história, com seus castros, conventos e templos – na Leira

Saturday, July 14, 2012

Ser doutor antes de o ser!


“Não tenho nada para comentar, porque tanto quanto sei não há nenhuma ilicitude nem nenhuma irregularidade que tenha sido apontada. Para mim é um não assunto”

Pedro Passos Coelho

Na semana em pensávamos abstrair-nos do “pântano” onde o país se encontra mergulhado, retomando assim a terapia positiva da cultura, tomada à letra pelas palavras de Rousseau quando um dia afirmou que “moldam-se as plantas através da cultura, os homens através da educação”, eis que somos confrontados com mais uma mirabolante reviravolta no estado psórico do país. Não é que haja da nossa parte preocupação no que concerne à obtenção dos tão ansiados “canudos”, mas ao nos centralizarmos na arrojada petulância com que muitos lutam por esse “disfarce vinculativo”, por forma a pertencerem ao “clube dos doutores e engenheiros” – e até fazem questão de prefixar os cheques dos bancos, mesmo antes de acabarem os respectivos cursos –, pensamos que algo de seriamente grave se passa na realização da natureza humana, contrariando assim a confrontação de uma pluralidade de valores e de escolhas surgida pelo enriquecimento da cultura universal. Segundo a nossa modesta opinião, estudar para nos valorizarmos intelectualmente deveria ser o princípio norteador dessa realização da natureza humana. O tão ansiado “canudo” deveria funcionar apenas como o reconhecimento do percurso de evolução cultural, longe das normas físicas colectivas, que apenas são ostentadoras de vaidades e de interesses mesquinhos. O alcance das licenciaturas não deveria “ser pelo parecer”, mas pela “razão” do enriquecimento intelectual. Este tipo de gente – “ignorante” e quiçá insignificante, porque mesquinha – que contraria o preceito do enriquecimento intelectual, está longe de perceber o princípio preconizado por Nicolau de Cusa na “Douta Ignorância”: Nenhum outro saber mais perfeito pode advir ao homem, mesmo ao mais estudioso, do que descobrir-se sumamente douto na sua ignorância, que lhe é própria, e será tanto mais douto quanto mais ignorante se souber. É só por isso – por termos também a noção da “existência” como precedente à “essência” – que resolvemos dar alguma importância à licenciatura de Miguel Relvas, como, em tempos (2007), demos à de José Sócrates, apesar de o sabermos possuidor de um bacharelato de quatro anos: “Infelizmente, enquanto se mantiver o desequilíbrio sacrificial na obtenção das licenciaturas, sendo que algumas delas são obtidas de forma desonesta, continuaremos a mastigar teoremas desajustados às necessidades de percurso, continuaremos a vender gato por lebre aos próprios estudantes. E por este andar, de que valerão as certificações, os comportamentos éticos na vida académica, a aquisição de competências para a aprendizagem, se tudo está inquinado logo à nascença?” – interrogávamos, escrevendo, na altura.
         Agora, passados cinco anos, eis que um ministro, assaz crítico de José Sócrates e da sua licenciatura, de seu nome completo Miguel Fernando Cassola de Miranda Relvas (vulgo Miguel Relvas), de acordo com o disposto na alínea c) do n.º 1 do artigo 45.º do Decreto-Lei n.º 74/2006 de 24 de Março – Regime jurídico de graus e diplomas – (alterado pelo Decreto-Lei n.º 107/2008, de 25 de Junho), consegue obter a licenciatura de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Lusófona, com a modesta média de 11 valores, depois de ter sido atestado que o seu currículo governativo, político e profissional equivalia a 32 disciplinas do referido curso. Dos três anos previsíveis para a referida licenciatura (termos do Processo de Bolonha), com quatro exames acaba por a conseguir apenas num ano lectivo (2006/2007) e ainda, em 2010/2011, “vemo-lo” a leccionar cadeiras de Comunicação Pública e Política e de Marketing Político, como professor convidado, nos cursos de Comunicação Empresarial e Gestão de Marketing, no Instituto Superior de Comunicação Empresarial, em Lisboa. Para trás ficaria o “lapso” – quantos mais não irão surgir – de, em 1985, quando eleito pela primeira vez deputado para a Assembleia da República, ter entregado no Parlamento um registo biográfico seu onde mencionava que era estudante universitário do 2.º ano de Direito, quando na verdade apenas tinha feito uma cadeira (Ciência Política e Direito Constitucional) do 1.º ano, com a nota final de 10. É evidente que nada temos a ver – nem é nossa preocupação – com a forma como este “ilustre ministro” tirou a sua licenciatura, nem sequer pomos em causa a legalidade da sua obtenção, mas deixamo-nos de conter nessa possível irrelevância quando ouvimos o presidente da associação de estabelecimentos de ensino privado dizer que a “lei é um bocado coxa”, dado que os cursos sejam encurtados, mas que fazer uma licenciatura num ano “não é de todo vulgar”. Por incrível que pareça, e não será por acaso, na página do Governo, este nosso “génio estudante” é o único ministro que omite o seu percurso académico (ressalvamos este nosso reparo se à saída desta crónica acrescentarem ao seu “curriculum vitae” a tão propalada licenciatura). E ficamo-nos por aqui em considerações sobre o que a imprensa nacional tem especulado (admitindo, tal como aconteceu com José Sócrates, alguma “cabala” contra o “braço forte” de Pedro Passos Coelho, de forma a fragilizar o Governo), sem que antes plasmemos as suas próprias palavras, a propósito de todo este imbróglio: Tendo iniciado a minha actividade política e profissional ainda muito jovem, numa altura em que a política mobilizava milhares de cidadãos na primeira década após o restabelecimento da democracia em Portugal, essa intensa participação cívica em que me empenhei tornou-se, à época, incompatível com as obrigações académicas, tal como sucedeu com muitos outros jovens dos mais diversos quadrantes partidários. Apenas um facto curioso nos apraz aqui registar, já que, em Janeiro de 2004, ainda Miguel Relvas não era licenciado, foi colocada uma placa em Lagoa (Algarve) com os seguintes dizeres: «CÂMARA MUNICIPAL DE LAGOA / (ALGARVE) / INAUGURADO A 16 DE JANEIRO DE 2004 / POR SUA EXCELÊNCIA / O SECRETÁRIO DE ESTADO DA ADMINISTRAÇÃO LOCAL / Dr. Miguel Relvas / SENDO PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL / Dr. José Inácio Eduardo»; ou então, aqui bem perto de nós, mais concretamente em Antas (S. Paio), Esposende, no ano anterior (2003), outra placa seria descerrada: «Foi esta Sede da Junta de Freguesia / inaugurada por Sua Excelência o / Secretário de Estado da Administração Local, / Dr. Miguel Fernando Cassola de Miranda Relvas / sendo Presidente da Câmara Municipal, / Fernando João Couto e Cepa, / e Presidente da Junta de Freguesia, / Vitor Manuel da Silva Faria / Antas, 04 de Outubro de 2003». Estávamos perante um licenciado que já o era antes de o ser!


Apesar de sermos desta geração similar à “da participação cívica de Relvas” – dezassete anos bem decalcados e vividos (onze anos de africanidade) ao tempo da revolução dos cravos, com “jotas”, movimentos de trabalhadores, participações cívicas/culturais e “deambulações” autárquicas à mistura – e de, presentemente, ostentarmos um currículo profissional de trinta e nove anos, nunca chegamos a embarcar em facilitismos, porque sempre achamos que o conhecimento deve ter por objectivo o pensamento humano e a relação deste com os seus objectos, e não por abjecto “parecer sem o ser”. Infelizmente, o “clube dos doutores e engenheiros” pela aparência, continua a ser a única saída para aqueles que estão vocacionados, única e exclusivamente, para o “ser aparente”, remetendo para um plano secundário o conhecimento, enquanto actividade pela qual o homem toma consciência dos dados da experiência e procura compreendê-los ou explicá-los. Deveriam ter em conta que o conhecimento é sempre “em si mesmo” uma actividade teórica e desinteressada, isto é, satisfaz um puro desejo de saber, sem se preocupar com a sua utilidade prática. Só o conhecimento “desinteressado” permite (empiricamente) uma acção eficaz. E isto parece que os nossos políticos não entendem ou procuram não entender. Daí, porque mal formados intelectualmente, a mediocridade de alguns dos governantes, deputados e dirigentes partidários. Tal como podemos ler em “espectivas.wordpress.com” (O. Braga), o qual subscrevemos inteiramente, “é tempo de acabarmos com a porcaria das doutorices na política. Um político vale pela sua capacidade de iniciativa, pelas suas ideias, pela sua mundividência e pela sua capacidade de mobilização de vontades — e não é um alvará de inteligente que fará dele mais inteligente ou mais esperto do que ele realmente é: o alvará de inteligente pode fazer dele um espertalhão, como acontece na maioria dos casos”.
Face aos decorrentes factos pouco abonatórios, no que toca à atribuição de certas licenciaturas, uma questão pertinente se coloca: Será que haverá necessidade de repensar o ensino superior privado em Portugal? De facto, pelo trilho das incertezas e do mal-estar geral, achamos que começa a ser preocupante a proliferação de casos pouco claros ou mesmo obscuros. Para bem da credibilidade de algumas instituições superiores privadas, bem conceituadas e credíveis nos meios científicos – e que, por uma questão de ética, nos escusamos aqui enumerar –, há que averiguar as prevaricadoras, de forma esclarecer possíveis comportamentos, ligações perigosas e, sobretudo, ilegalidades, se é que alguma vez existem. Até prova em contrário, seria uma forma de limpar o campo minado da suspeição.
A fechar, uma triste notícia: “O escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez não vai voltar a escrever, depois de ter sido diagnosticado com demência. O anúncio foi feito pelo irmão do escritor, Jaime Garcia Marquez, numa conferência em Cartagena das Índias, Colômbia. Visivelmente emocionado contou que o Nobel da Literatura está bem em termos físicos, mas que perdeu a memória”.
Um mal maior para o mundo da cultura!