Thursday, August 28, 2014

A Falar de Viana e D. Frei Bartolomeu dos Mártires!...

“Falar de Frei Bartolomeu dos Mártires é falar de uma figura que marcou a Igreja Católica e que marca, ainda hoje, as gentes de Viana do Castelo. O seu espírito e a sua doutrina marcaram o século XVI e a sua vida simples e regrada, de dádiva e entrega é, ainda hoje, um exemplo”.

José Maria Costa

Por termos estado envolvidos em dois projectos editoriais é evidente que não vamos arriscar, nem tecer, qualquer tipo de comentário crítico-literário acerca dos mesmos, pois, se a tal nos atrevêssemos, entraríamos em contraditório com a máxima de Bertrand Russel quando afirma que “os homens são como as palavras; se não se põem no seu lugar perdem o seu valor”. É nesse sentido que apenas nos atrevemos a descrever os conteúdos e a agradecer a todos os colaboradores que, através de um incondicional empenhamento, deram corpo a magníficos textos no âmbito da história, da antropologia, da etnografia, da arte e da religião, não esquecendo as vertentes literária e turística.
Começamos pelo primeiro projecto «A Falar de Viana» (Volume III, Série 2), apresentado ao público no dia 19 de Julho, por altura da abertura da XXXIV Feira do Livro de Viana do Castelo, que na prossecução dos objectivos definidos para esta publicação, iniciada em 2012, tem uma mensagem da artista de créditos internacionais, Joana Vasconcelos (Presidente de Honra), e apresenta-se com orientação e alinhamento de conteúdos da seguinte forma: Memória – com trabalhos de Rui A. Faria Viana (As festas no despoletar da Grande Guerra) e de Bernardo da Silva Barbosa (As festas há 100 anos); Registo – com reprodução de alguns trabalhos publicados no «Portugal Ilustrado: Grande Álbum de Turismo», numa edição da Revista Terras de Portugal, N.º 1, 1928; Antologia Poética – com poesia de Correia de Oliveira (Viana eu sou), Eugénio Monteverde (Amor divulgado), Euclides Rios (Procissão de Nossa Senhora da Agonia), Fernando Castro Sousa (Viana – de Agosto e Mar), Luís Pedro Viana (A minha história), e Carla Mesquita (Viana); Colectânea – com trabalhos de Paulo Gomes (Maria… da Agonia), Artur Coutinho (Falar de Viana), Matias de Barros (Senhora d’Agonia protectora do mar de Viana), José da Cruz Lopes (Notas biográficas de Monsenhor Daniel Machado, 1912-1978), Manuel António Fernandes Moreira (A ligação do Santuário d’Agonia à Rede Pública de Água e Luz), Elisabete Pinto (A Festa e o Teatro), Gonçalo Fagundes Meira (A representação de Castelo do Neiva na Romaria da Senhora d’Agonia), Álvaro Campelo (Entre o campo e o terreiro da feira. Gado bovino e a Sociedade Camponesa do Minho), Mota Leite (Afinidades d’Avianense com as Festas d’Agonia), Joaquim José Peres Escaleira (Contributo para o estudo das esculturas no espaço público de Viana do Castelo), Manuel Rodrigues de Freitas (Corações e brincos de Viana), António Martins da Costa Viana (Iate “Nova Albina” – entre a fúria do mar e o fogo do castelo: episódio marítimo e militar no contexto da Patuleia), António Joaquim Monteiro da Cunha Leal e outros (O Forte de Santiago e a defesa da barra de Viana do Castelo), Manuel de Oliveira Martins (O Porto de Viana e a Junta Autónoma), António José Barroso (Delitos da ingratidão debatidos pelos favores do Céu, e manifestos na relação de um horroroso e admirável caso, de três ladrões sucedido na vila de Viana da Província do Minho), José Rodrigues Lima (Asturianos em Viana “Maria da Glória Gonzalez Rio Tinto”), Francisco Sampaio (O Alto Minho no ano turístico de 1990), Américo Carneiro (Os Lunas de Viana), Reis Ribeiro (Nossa Senhora em Beato Bartolomeu dos Mártires), Sebastião Pires Ferreira (Frei Luís de Sousa e Frei Raul de Almeida Rolo: a “Bíblia” Bartolomeana), David F. Rodrigues (Pedro Homem de Melo no “Roteiro de Viana”), Francisco José Carneiro Fernandes (Reavivar memórias: José Fernandes Martins arquitecto da modernidade vianense), Manuel Inácio Rocha (Dois vianenses de vulto), Domingos da Calçada (Gen. L. A. Pimentel Pinto á volta de uma pintura), Porfírio Pereira da Silva (José Gomes da Cunha, 1891-1976, um vianense na I Guerra Mundial), Henrique Rodrigues (Vianenses mortos na primeira Guerra Mundial), André Torres Costa (Uma Necrópole em Geraz do Lima, Santa Maria), Casimiro Puga (A casa dos “Direitos de Portagem” Santa Cristina de Afife), e, finalmente, António Rodrigues França Amaral (O reino suevo – S. Martinho de Dume e o Pagus de Ovínia).


O segundo projecto editorial «D. Frei Bartolomeu dos Mártires: colectânea de textos», apresentado no dia 2 de Agosto, pelo Monsenhor Sebastião Pires Ferreira, Vigário Geral da Diocese de Viana, assinala as comemorações dos 500 anos do nascimento do Beato Bartolomeu dos Mártires, e nele são reproduzidos alguns dos melhores textos publicados nos Cadernos Vianenses e noutras publicações, de grandes autores e estudiosos bartolomeanos. São eles: Luiz de Figueiredo da Guerra (O Arcebispo Santo D. Fr. Bartholomeu dos Martyres, onde se incluem também a história do Convento de S. Domingos e a descrição dos títulos das obras completas), José Marques (Frei Bartolomeu dos Mártires: vida e obra), João Francisco Marques (O prelado, o povo e a conjuntura: solidariedade social e solicitude de D. Frei Bartolomeu dos Mártires), António Matos Reis (Itinerário de Braga a Roma seguido por D. Frei Bartolomeu dos Mártires), Manuel António Fernandes Moreira (O beato Bartolomeu dos Mártires e o Mosteiro de São Salvador da Torre), Felipe Fernandes (D. Frei Bartolomeu dos Mártires em Viana e Breves apontamentos biográficos de D. Frei Bartolomeu dos Mártires), Pe. Armando de Jesus Esteves Rodrigues (Convento de Santa Cruz “S. Domingos” de Viana do Castelo), José Luís Branco com oito trabalhos, dos quais se destacam o “processo de canonização” e a “reforma dos cardeais”, Ana Rita Batista Raposo (A arca da fé: estudo, diagnóstico e tratamento de um altar portátil), Jorge Alves Barbosa (A música na acção pastoral de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires), Alberto Antunes Abreu (A imagem do beato Bartolomeu dos Mártires), Rui A. Faria Viana (“A Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires” – uma raridade bibliográfica impressa em Viana no séc. XVII), Fr. Miguel dos Santos, O.P. (A beatificação de D. Frei Bartolomeu dos Mártires e os Dominicanos), D. José Augusto Pedreira (Bartolomeu dos Mártires, bispo de todos os tempos), D. Jorge Ortiga (Fr. Bartolomeu dos Mártires: memória e profecia), D. Manuel Clemente (O martírio de Frei Bartolomeu), e, finalmente, António Manuel Couto Viana (Prece da Ribeira a Frei Bartolomeu).
Parabéns ao Município de Viana do Castelo e ao coordenador geral das duas publicações, Rui A. Faria Viana. Excelente o trabalho do designer Rui de Carvalho, porque esteticamente perfeito e irrepreensível, forma e qualidade a que já nos vem habituando, a uns anos a esta parte.
        O resto, fica para apreciação dos seus hipotéticos leitores!

Sunday, August 17, 2014

A poesia em “assento doméstico” de Fernando Pinheiro!...

“Nunca estejas completamente desocupado; lê ou escreve, reza ou medita, ou faz qualquer coisa de útil para a comunidade”.

T. Kempis

Para assinalarmos o nosso regresso a este sentir e viver «ao correr da pena e da mente…», não poderia ser doutra forma se não deambularmos pelo «assento doméstico», último brado poético do nosso particular amigo Fernando Pinheiro, nascido em 1949 na aldeia de Ucha, Barcelos, cujo orago é S. Romão (mártir cristão que no séc. IV morreu às mãos do imperador Galério). Sem nos alongarmos muito pelo seu vastíssimo – diríamos até riquíssimo – curriculum, contudo, e principalmente para os leitores deste nosso modesto deambular literário, convenhamos em acrescentar algumas notas biográficas, por forma a percebermos a sua meritória qualidade (num patamar superior) enquanto dramaturgo, escritor e poeta.
Fernando Pinheiro, com quem contactamos pela primeira vez há mais de três décadas (por circunstância de lides e compromissos radiofónicos), fez exame da 4.ª classe na escola de Galegos (S. Martinho), obteve o curso secundário no Liceu Nacional Sá de Miranda, Braga, e licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Dedicou-se ao ensaio e à animação cultural, tendo sido professor até 1998, quase sempre no concelho de Barcelos, e técnico superior de acção cultural da Câmara Municipal de Braga até 2011, ano em que se aposentou. É conhecida a sua ligação ao teatro, desde a sua mais tenra juventude, e em particular ao grupo amador “A Capoeira”, de que foi fundador com outros companheiros da década de 70, e que entretanto se transformou num dos mais importantes grupos de teatro do norte do país. Remonta também à década de 70 a sua ligação à literatura, tendo começado por editar colectâneas de poesia infanto-juvenil, até lançar títulos seus nos domínios da poesia, romance, conto e ensaio (monografias). O teatro, original ou adaptado, encontra-se fora de mercado.


«Assento Doméstico», que constitui o seu sexto título de poesia, apresenta-se, tal como nos apraz registar na simpática dedicatória que se nos dirigiu, como “uns quantos protestos de alma contra a decadência, venalidade e a incôndita procura do homem por tudo quanto é espúrio e corruptor”, por onde perpassam homens de sucesso, envoltos em manuais, qual contraste entre o “andar na berra / arrasta a bainha pelo chão / põe o cós a roçar nos joelhos / a braguilha desce prós artelhos / que as calças agora são / um saco com pernas dentro…” e o “como poderei sair à praça / com casaco e gravata / calças de cinta alta / sem jóias nas orelhas / nem ténis nos pés / sem óculos de massa / nem cachecol de lã (…) / para ser um pós-moderno / em tudo igual aos mais famosos / era capaz de tudo, das orelhas / das tatuagens, das botas / da cinta descaída / do desleixo, da barba mal feita / do ar liberal e da madeixa / mas aquele leque / a abanar no rabo…”; gentes como o Zeca “amigo maior que o pensamento / já vem toldado o sol que vai nascendo”; a libertação dos noivos, que “por costume, antigamente / ajoelhavam na terra do cemitério / e juravam ante os mortos amar eterno”; o ser “politicamente correcto até à cova / e porta-estandarte do idealismo generoso / que há-de gerar a alma da cidade nova / reclamada pelos poetas libertadores…”, levando a gravata até ao túmulo; a última tarefa de já não ir “a tempo de ser santo: / pelos antros da corrupção e da contubérnia / incólume passarei com a minha veste de gardénia / e no ilimite do céu aberto / como um anjo velho / sem mácula / voarei”; e o esgueirar dos mentirosos pelos buracos da justiça, “que fazer neste parlamento / nesta civitas de rapina / se a batota que era crime / virou ciência política?”.


Em «assento doméstico» – que de doméstico nada tem, mesmo quando, alegoricamente, fala do seu gato Rufino que “nunca deixa nada por fazer: / come, dorme, passeia, caça… / é um gato metódico”, tornando-se universal no comportamento, porque igual a todos os outros gatos –, há ainda observações; remissões; lições; expiações; dilemas; desejos; perdões alados; naufrágios; desejos insensatos; elogios da decisão e da mentira; teorias de rejeição, do invisível e de indefinição; telúricos desejos; desalento; e renúncia de a essa ilha não ir, “algum Circe não vá / transformar-me / em porco / e eu não sou / um plytropos / como Ulisses / que destruiu / a acrópole de Tróia / com uma tramóia / de pau (…) / a essa ilha não vou / alguma Circe não vá / em porco mudar-me!”. Assim é a Poesia de Fernando Pinheiro, Poesia que se nega a morrer, “porque o eterno / não se mete numa urna!” e que tira o tédio ao S. Pedro, “que já leva dois milénios / de chaves na mão / coitado do porteiro do céu / que nunca viu um ciclista / a cortar a meta no paraíso / a bicicleta está pronta / a morte pode vir…”. Simplesmente, sublime!
Por certo que os nossos leitores não estariam à espera de mais devaneios crítico-literários à volta deste extraordinário brado poético de Fernando Pinheiro, dado que nunca tivemos aspirações para tal e a poesia não se explica, sente-se: e o primeiro homem criado / à minha imagem e semelhança / não seria um Adão progenitor / mas um “homo horribilis” / capaz de matar o criador (…) se não o gesto, fique a intenção / e dou-me por liberto: / o “big-bang”, sim / o resto, não – comungamos, plenamente, com o Fernando Pinheiro.   

NOTA MÁXIMA!

Saturday, July 19, 2014

José Ribas Fernandes volta a reunir antigos colegas e professores da “Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo”!...

“Para nós, que nos educamos no culto do respeito pelo homem, têm muito valor os simples encontros que se transformam, por vezes, em festas maravilhosas”.

Saint-Exupery

Para comemorarmos a nossa centésima (100) crónica «ao correr da pena e da mente…», nada melhor que a pura coincidência de nesse mesmo fim-de-semana, mais concretamente, no sábado, 12 de Julho de 2014, se realizar o IV Encontro de antigos colegas e professores do – também hoje professor – José Ribas Fernandes, com assento escolástico na Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo (EICVC), hoje Escola Secundária de Monserrate, cujas raízes remontam à Escola de Desenho Industrial de Viana do Castelo, passando por Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, tendo, em 1979, passado a designar-se pelo nome como é conhecida actualmente.


Tendo como lema «Que sou eu sem os outros?», título de uma mensagem recuperada e trazida pela Professora Rosa Figueiredo, inspirada em Phil Bosman: «Sem os outros, a vida, o amor e a felicidade não passam de utopias. Estamos todos interligados por uma infinidade de fios. Uma vida depende doutra e nenhuma se desenvolve sem as outras», este quarto encontro começou com uma visita guiada à referida Escola, pelos professores Bouça Morais e Vitorino, hoje com entrada pela Avenida do Atlântico, depois de obras de reestruturação e ampliação, proporcionando novas polivalências e ofertas opcionais.


A brilhante, porque irrepreensível, intervenção caracterizou-se pela construção de novos edifícios na nova frente de escola onde se instalam os espaços administrativos, espaços sociais, a nova biblioteca e o novo espaço desportivo, tendo-se procedido à remodelação dos edifícios existentes, garantido a satisfação das atuais exigências de conforto, segurança e acessibilidade. O bloco oficinal existente foi remodelado, introduzindo novas valências como os laboratórios de ciências e salas TIC e de artes. Relativamente às instalações desportivas, procedeu-se à requalificação do ginásio existente e à construção de instalações desportivas de apoio (balneários, vestiários e espaços de apoio). Os espaços exteriores da escola foram remodelados, nomeadamente zonas de lazer e desportivas.


O quarto convívio culminaria com um jantar num dos restaurantes sito nas proximidades da Princesa do Lima – qual delicioso bacalhau regado com vinho ao gosto de cada um, exceptuando-se os motores movidos a água, por imperativo das “mazelas cinquentando” –, tendo respondido à chamada os alunos Adélio Lima da Cruz, Domingos Carvalhido da Ponte, Ilídio de Jesus Reina de Morais, José Maria Riba Fernandes, Porfírio Pereira da Silva, Guterres Fernandes Brás, Carlos Martins da Silva Araújo, José Lima Damião, Adriano de Passos Gonçalves Pires, António Casa Nova Ramos, Luís Gabriel Baptista Lima, José Augusto da Silva Portela, Fernando Couto Alves, Fernando Lei Monteiro da Rocha, Victor Manuel Esteves Montes Pinto, Manuel Alberto A. de Passos Fernandes, José Fernando Ferreira da Costa, João Paulo da Rocha Carvalhido, Mário Américo Franco Alves; e os professores Bouça Morais, Pedro Vasconcelos, Franklim Carvalho e Rosa Figueiredo, sendo que esta última ofereceu a todos os presentes o poema completo de Phil Bosman, extraído do seu livro Felicidade, o qual acabaríamos por ter a ousadia de o ler. Todos acabaram por reconhecer que «a vida vive-se com os outros. / Viver com os outros significa / que tenho que partilhar tudo com eles. / Nada lhes pode acontecer por minha culpa. / Tenho que os aceitar, / acolher, querer». E a nossa amizade, que perdura há mais de quarenta anos, só pode desenvolver-se com a ajuda de todos, porque tivemos professores eticamente bem formados e possuidores de uma profunda cumplicidade para com os alunos.
         Daí, para o ano, voltarmos a acender uma vela, em vez de amaldiçoarmos a escuridão, porque, como diria Helen Keller, «a única treva sem luz é a noite da ignorância e da insensibilidade». 

Friday, July 11, 2014

500 Anos dos Forais da Terra da Nóbrega e de Lindoso!...

“Um bem-haja ao Agrupamento de Escolas, ao seu Director, professores, alunos e demais profissionais de ensino envolvidos nesta celebração, por serem parceiros fundamentais em muitos momentos da nossa história colectiva”.

António Vassalo Abreu

Para assinalar os 500 anos (1513-2013) da outorga do Foral da Terra da Nóbrega, o Agrupamento de Escolas de Ponte da Barca, com o patrocínio do Município local, dinamizou, ao longo da semana de 21 a 25 de Outubro de 2013, um conjunto de actividades abertas à comunidade, que passou por uma exposição “Terra da Nóbrega: uma viagem no tempo…”, organizada pela Biblioteca Escolar em articulação com o Grupo de Artes Visuais; apresentado um documentário com o mesmo nome, da autoria de Pedro Cerqueira e de Luís Arezes, e a gravura “500 anos do Foral da Terra da Nóbrega”, de Emanuel Cruz; e promovido um colóquio com o Doutor António Matos Reis, subordinado ao tema «Forais manuelinos da Terra da Nóbrega e de Lindoso», tema que viria a dar corpo ao livro «500 anos dos Forais da Terra da Nóbrega e de Lindoso», dado à estampa em Maio do presente ano, e que às nossas mãos chegou, numa gentil, ainda que imerecida, oferta do maior especialista da Época Medieval do Alto Minho, nosso particular amigo Doutor António Matos Reis.


Tal como escreve Carlos Alberto Martins de Sousa Louro, Director do Agrupamento de Escolas de Ponte da Barca, “a publicação deste livro é a homenagem ao Concelho, às pessoas e às instituições de Ponte da Barca. É a forma que encontramos para todos felicitar. Partilhando informação. Esperançados que também ela possa ser o princípio de novos conhecimentos. Que ajude a explicar este mundo que integramos”. Palavras sensatas, revestidas de alguma humildade, mas que representam muito mais do que uma simples iniciativa comemorativa: Com a publicação desta obra, desejamos proporcionar um contributo à valorização da História e da Identidade locais, recuperando um passado multissecular, de notável grandeza, construído por gente de nobres valores e de princípios sagrados, que soube lançar os fundamentos das origens e também projectar com solidez o futuro de uma Terra – assim se pode ler em Nota de Abertura, assinada pela Escola Básica e Secundária de Ponte da Barca. Com iniciativas desta natureza é assim que nasce a consciência evolutiva de cada região, da comunidade, do indivíduo ou da memória colectiva, embrionária do conceito socrático, quando afirma que “a maneira mais fácil e mais segura de vivermos honradamente, consiste em sermos, na realidade, o que parecemos ser”. Quem trabalha assim, fá-lo pelo ser, sem o parecer.
Esta obra dos «500 anos dos Forais da Terra da Nóbrega e de Lindoso», numa edição conjunta do Agrupamento de Escolas de Ponte da Barca e do Município de Ponte da Barca, com fotografia de Pedro Cerqueira, conta na apresentação com textos de Carlos Louro e António Vassalo Abreu, por nós já atrás referidos, seguindo-se a Nota de Abertura; dois textos de Luís Arezes: “A Terra da Nóbrega na Viragem de Quinhentos”, onde ressaltam temáticas histórico-religiosas da origem e limites, as 32 freguesias, os “ecos” da Capital do Reino, a erecção da Paróquia de S. João Baptista de Ponte da Barca, D. Manuel e(m) Ponte da Barca, os mosteiros de S. Salvador de Bravães e de S. Martinho de Castro, Santa Maria Virgem de Vila Nova de Muía: um cavalo e uma mula, os castelos da Nóbrega e de Lindoso, terra de heróis de poderosos conselheiros do rei, a Dinastia dos Magalhães, Fernão de Magalhães, a maioridade da Terra da Nóbrega na viragem de Quinhentos, terminando com algumas fantasias… ou narrativas pitorescas – e “Terra da Nóbrega: uma viagem no tempo”; um pequeno texto de Emanuel Cruz «Gravura “500 anos do Foral da Terra da Nóbrega”, onde é explicada a linguagem artística do referido documento régio; e, finalmente, o bom amigo e ilustre medievalista António Matos Reis com a explicação aturada d’“Os Forais Manuelinos da Terra da Nóbrega e de Lindoso”, cientificamente irrepreensível, como, aliás, nos vem habituando, perpassando historicamente por cinco capítulos: 1. Terras, municípios, julgados e forais, 2. Os forais manuelinos, 3. O foral novo da Terra da Nóbrega: 3.1 – Quadro histórico e geográfico, 3.2 – Conteúdo do foral, 4. O Foral Manuelino de Lindoso, 5. Tabela de portagens, acabando por transcrever os dois forais, fielmente reproduzidos também em fotografia.
Tal como podemos ler em António Matos Reis: “No foral manuelino da Terra da Nóbrega não está incluída a freguesia de Lindoso, que é a mais extensa do actual concelho, embora a maior parte do seu território corresponda a uma zona de montanha. A ancestralidade do povoamento deste local é testemunhada pela existência de uma ara romana dedicada a Hérculos, e por outros achados arqueológicos. / A importância de Lindoso advém da sua localização numa área de fronteira, junto de uma das vias de passagem, que acompanhava o curso do rio Lima…”, assim ficamos a entender melhor, em linhas gerais, as origens das freguesias, também estudadas num outro seu apontamento, publicado na Revista de Administração Local, n.º 255, Maio-Junho 2013, p. 297-307: A sobrevivência e o desenvolvimento das comunidades locais constituem os pilares da verdadeira democracia, e a freguesia é o primeiro órgão de que dispõe o cidadão para participar na vida pública e zelar desse modo pelos interesses da comunidade a que pertence (p. 307). Pena é que as arrelvadas deambulações do Miguel, se tenha esquivado à leitura dos especialistas na matéria, e se firmasse, única e exclusivamente, na pertença ou erudita sapiência de equivalências várias…
Esteticamente perfeito, «500 anos dos Forais da Terra da Nóbrega e de Lindoso», uma leitura que, obrigatoriamente, se recomenda. Nesta magnífica obra, os ventos da História correm à feição do Tempo. Mesmo do tempo que está para lá dos tempos, porque Memória e Identidade do Povo.

NOTA MÁXIMA!       

Friday, July 04, 2014

Livre Arbítrio ou Liberdade?!...

“Uma vez que a liberdade de acção é a liberdade de fazer aquilo que queremos fazer, o livre arbítrio é a liberdade de querer o que queremos querer”.

Susan Wolf

O conceito de Livre Arbítrio ou Liberdade, apesar da sua complexidade, é sempre um tema que nos induz à possibilidade de autodeterminação e de escolha. Mas, se tomarmos em conta essa mesma complexidade – considerada em si e na sua própria história –, logo constataremos dificuldades de vária ordem. Tendo em vista o lado do sujeito, entendê-la-emos como, já atrás referimos, possibilidade de autodeterminação e de escolha, acto voluntário, espontaneidade, indeterminação, ausência de interferência, liberdade de impedimentos, realização de necessidades, direcção prática para uma meta, propriedade de todos ou alguns actos psicológicos, ideal de maturidade, autonomia sapiencial e ética, razão de ser da própria moralidade – citamos Joaquim de Sousa Teixeira. No entanto, pelo lado do objecto, o conceito de Liberdade apresenta-se-nos privada ou pessoal, pública, política, moral e social. Isto se tivermos em conta a liberdade de acção, de ideias, de pensamento, de circulação, de comércio, de palavra, de culto, de associação, etc. Com estas e outras designações, a Liberdade prende-se, entre outros, com os conceitos de livre arbítrio, razão, acto, autonomia, vontade, “boa vontade”, consciência moral, dever, determinação, determinismo, indeterminismo, indiferença, compatibilismo e incompatibilismo, responsabilidade moral, etc.


No seu carácter histórico e/ou antropológico, a Liberdade pode aplicar-se analogicamente ao mundo animal. Contudo, dada a vida animal não passar de uma sucessão de comportamentos (reage), e só a vida humana se apresentar como actividade ritmada (age), a ideia de Liberdade só ganha significado quando aplicada ao homem. A propósito de tudo isto – e tendo em conta a diferença entre o agir e o reagir –, Joaquim de Sousa Teixeira, alega que muitas são as questões antropológicas que se colocam: Foi o homem sempre livre? Quando e por que é que se deu o «salto» para a racionalidade e liberdade fundamentais como hoje as entendemos? Na caminhada ascensional da Humanidade para a Liberdade, como é que se interligam os fenómenos mutantes fisiológicos e ambientais? Assim, e tendo em conta este raciocínio, tornar-se-á impossível falar de humanidade sem uma racionalidade e liberdade radicais. Por isso é que, nos tempos que correm, e ainda segundo Joaquim de Sousa Teixeira, “a liberdade na sua essência e como valor, sobretudo pelas necessárias implicações metafísicas que acarreta, não pode ser abordada por métodos positivos de verificação”.
Apesar de já Aristóteles ter admitido que todos os «seres físicos» têm uma espontaneidade real, pois contêm em si o princípio dos seus actos, sem o pressuposto da racionalidade não se pode falar de vontade e de liberdade, mas de impulso ou apetite animal e de espontaneidade decorrente de uma natureza. Abordando o conceito de liberdade pelo lado da racionalidade, facilmente seremos levados a afirmações como a de que o homem é tanto mais livre quanto mais responsável for. Esta e outra afirmações desta natureza – e tal como afirmara São Tomás de Aquino: “a raiz última da Liberdade é a razão”, só fazem sentido quando pertencentes ao plano ético, moral e mesmo político.
Até chegarmos à contemporaneidade, muitos foram os que se debruçaram sobre o conceito de Liberdade e de que são exemplo, entre outros, Santo Agostinho; René Descartes – Se eu conhecesse sempre o que é verdadeiro e bom, … seria inteiramente livre, sem ser, jamais, indiferente; Leibniz – Qualquer substância tem perfeita espontaneidade, que se torna liberdade nas substâncias inteligentes; Espinosa; Auguste Comte – A verdadeira liberdade consiste em fazer prevalecer as boas inclinações sobre as más; Immanuel Kant; Henri Bergson; Jean-Paul Sartre – A liberdade não tem essência; ao contrário, é ela que constitui a base de todas as essências. A liberdade apresenta-se-nos, assim, tão difícil de definir, constituindo no entanto, para cada um de nós uma experiência e/ou uma representação tão familiar quanto indiscutível.
Se tomarmos em linha de conta que ser livre, por exemplo, significa não ser impedido de fazer o que se quer ou dizer sem receio o que se pensa; a ausência de qualquer coacção externa; somos confrontados com o seu sentido original. Segundo Élisabeth Clément [et al.], por exemplo, os estóicos esforçaram-se por pensar a liberdade independentemente de qualquer condição exterior. A concepção estóica orienta, desta forma, a reflexão teórica numa direcção nova e fecunda, a ponto de toda a filosofia clássica afirmar a liberdade como a independência interior e a capacidade moral de se determinar seguindo unicamente os conselhos da razão e da inteligência não revelada pela paixão. Hoje, coloca-se outras tantas interrogações adicionais de modo a que a nossa liberdade “obedece” ao princípio da lei da causalidade, que rege todos os fenómenos, supressora de qualquer indeterminação, ou seja, da ciência experimental segundo o qual existem relações necessárias entre os fenómenos, de tal forma que cada fenómeno é rigorosamente condicionado pelos que o precedem ou acompanham (Determinismo) – Assim, os exemplos tipo Frankfurt têm a importante função de «afastar» o «debate» de considerações acerca da relação entre determinismo causal e possibilidades alternativas. O que agora se torna importante é considerar se o determinismo causal na sequência efectiva pode com plausibilidade ser visto como eliminando «directamente» a responsabilidade moral, independentemente de considerações relativas às possibilidades alternativas – citamos John Martin Fischer; ou, antes pelo contrário, a liberdade é estabelecida pela vontade humana (Indeterminismo), e de que é exemplo, essa «vontade de poder» que Nietzsche afirmaria. É precisamente nesse sentido, e perante muitas das interrogações colocadas, que um dia nos propusemos a estabelecer um “confronto saudável” entre a noção da «liberdade da vontade e o conceito de pessoa» em Harry G. Frankfurt e «a sanidade mental e a metafísica da responsabilidade» em Susan Wolf. E acreditem que a viagem até à contemporaneidade, através destes dois autores de gerações diferentes, foi uma experiência maravilhosa.
        Para terminarmos, uma questão fica no ar: Será que a liberdade de fazer é o mesmo que a liberdade de querer?

Friday, June 27, 2014

História e etnologia em Claude Lévi-Strauss!...

“Acabamos de distinguir a língua e a palavra por meio dos sistemas temporais aos quais cada um pertence. Ora, também o mito se define por um sistema temporal que combina as propriedades dos dois outros”.

Claude Lévi-Strauss

Claude Lévi-Strauss, antropólogo, professor e filósofo francês, considerado o fundador da Antropologia Estruturalista e um dos grandes intelectuais do século XX, nasceu em Bruxelas a 28 de Novembro de 1908 e faleceu em Paris a 30 de Outubro de 2009, a cerca de um mês de completar cento e um anos de idade. Efectuou os seus estudos superiores em Paris (Sorbonne), onde concluiu a licenciatura em Filosofia (1931), depois a agregação e, mais tarde, o doutoramento em Letras (1948), com a tese sobre as estruturas de parentesco. Ainda, em Sorbonne, chegou a frequentar Direito, mas não viria a concluir. Em 1959, Lévi-Strauss foi nomeado para a cadeira de Antropologia Social do Collège de France e, por volta desse período – mais concretamente, em 1958 –, publicou Antropologia estrutural, uma colecção de ensaios em que oferece tanto exemplos como manifestos programáticos do estruturalismo. Começou a organizar uma série de instituições e confrontos entre as visões existencialista e estruturalista.
Para Catherine Clément, por exemplo, ninguém mais do que Lévi-Strauss terá combatido a ideia de dialéctica e o sentido da História. Este episódio começa com Sartre, cujo rigor nas descrições das experiências sociais era apreciado por Lévi-Strauss. Só que, para o mesmo antropólogo, Sartre definia o homem pela dialéctica, e a dialéctica pela História e não tem dificuldade em demonstrar que a História é, para Sartre, uma mística ou um mito, que funciona segundo a imagem de um sentido linear ao longo do qual se dispõem os acontecimentos. Como qualquer ciência, a História necessita de um código, que é a cronologia (Clément, 2004: 101).


Segundo Lévi-Strauss, mais de meio século se passou desde que Hauser e Simiand expuseram e opuseram as diferenças entre a história e a sociologia, que se prendiam essencialmente com o carácter comparativo do método sociológico, monográfico e funcional do método histórico. Hauser e Simiand apenas divergiam acerca do valor respectivo de cada método. E se, por um lado, a história ateve-se ao – ainda que modesto e lúcido – programa proposto e desenvolveu-se, por outro, a sociologia, desenvolveu-se sem consenso de método: Do ponto de vista da história, os problemas de princípio e de método parecem definitivamente resolvidos. Quanto à sociologia, o problema é diferente: não se poderia dizer que ela não se desenvolveu; aqueles de seus ramos dos quais nos ocuparemos mais particularmente aqui, a etnografia e a etnologia, desabrocharam, no curso dos últimos [quarenta] anos, numa prodigiosa floração de estudos teóricos e descritivos, mas a custa de conflitos, discórdias e confusões onde se reconhece, transporto ao próprio seio da etnologia, o debate tradicional – e quão mais simples sob esta forma – que parecia opor a etnologia em seu conjunto uma outra disciplina, a história, igualmente considerada em seu conjunto (Lévi-Strauss, 2003: 13-14). Deste modo, enquanto a etnografia nos aparece assim como a observação e análise de grupos humanos considerados na sua particularidade, visando a reconstituição, tanto fiel quanto possível, da vida de cada um deles, a etnologia utiliza de modo comparativo os documentos apresentados pelo etnógrafo. Para Lévi-Strauss, com estas definições, a etnografia toma o mesmo sentido em todos os países; e a etnologia corresponde aproximadamente ao que se entende, nos países anglo-saxões, por antropologia social e cultural: a antropologia social consagrando-se sobretudo ao estudo das instituições consideradas como sistemas de representações, e a antropologia cultural ao estudo das técnicas, e, eventualmente, também das instituições consideradas como técnica ao serviço da vida social (Lévi-Strauss, 2003: 14-15). Posto o problema das relações entre as ciências etnológicas e a história, as mesmas ciências se vinculam à dimensão diacrónica dos fenómenos, ou seja, à sua ordem no tempo, tornando-se incapazes de traçar-lhes a história; ou, por outro lado, procuram trabalhar à maneira do historiador, e a dimensão do tempo lhes escapa. Para Lévi-Strauss, pretender reconstituir um passado do qual se é impotente para atingir a história, ou querer fazer a história de um presente sem passado, drama da etnologia num caso, da etnografia no outro, tal é, em todo caso, o dilema no qual o desenvolvimento delas, ao longo dos últimos cinquenta anos, pareceu muito frequentemente colocá-las (Lévi-Strauss, 2003: 15).
Uma questão se coloca: que diferenças há, efectivamente, entre o método da etnografia e o da história? Ambos estudam sociedades que são outras que não aquela onde vivemos. E, pelo facto de existir o melhor estudo etnográfico nunca transformará o leitor em indígena. Por isso, e segundo Lévi-Strauss, o paralelismo metodológico que se pretende traçar entre etnografia e história, para se oporem, é ilusório. Em suma, a história organiza os seus dados em relação às expressões conscientes, a etnologia em relação às condições inconscientes da vida social. Assim, a etnologia não pode permanecer indiferente aos processos históricos e às expressões mais altamente conscientes dos fenómenos sociais. Daí, ser inexacto dizer-se que, no caminho do conhecimento do homem que vai do estudo dos conteúdos conscientes ao das formas inconscientes, o historiador e o etnólogo caminham em direcções inversas: ambos se dirigem no mesmo sentido (Lévi-Strauss, 2003: 40).
       Bom seria que todos os historiadores, etnógrafos ou etnólogos locais tivessem consciência disso. Talvez com um pouco mais de leitura e de seriedade intelectual, não se cometessem tantos erros de interpretação. Mas, pior ainda é o permanente ou sistemático plágio, irritantemente repetitivo!

Friday, June 20, 2014

Daniela Arbex e o Holocausto Brasileiro!...

“Caro Porfírio Silva, este livro nasceu do sonho de dar voz aos socialmente mudos. Meu desejo é que ele nos inspire na busca permanente da verdade e da justiça”.

Daniela Arbex

O choque foi nos dado por Daniela Arbex, uma das jornalistas brasileiras mais premiadas da sua geração: «Milhares de crianças, mulheres e homens foram violentamente torturados e mortos no hospício de Colónia, em Barbacena, fundado em 1903. A maioria foi internada sem diagnóstico de doença mental: eram meninas violadas que engravidaram dos patrões, homossexuais, epilépticos, mulheres que os maridos não queriam mais, alcoólicos, prostitutas. Ou simplesmente seres humanos em profunda tristeza. Sem documentos, sem roupa e sem destino, tornaram-se filhos de ninguém». Nestas poucas linhas, em jeito de sinopse, dá para perceber a dimensão da vida e do genocídio das cerca de sessenta mil mortes, ocorridas no maior hospício do Brasil.
O papel e conduta ontológico-exemplar de Daniela Arbex, repórter especial do jornal Tribuna de Minas há dezoito anos, uma repórter que luta contra o esquecimento, e que tem no currículo mais de vinte prémios nacionais e internacionais, entre eles três prémios Esso, o mais recente recebido em 2012 com a série «Holocausto Brasileiro» – e que ora dá título ao livro –, dois prémios Vladimir Herzog (menção honrosa), o Knight Internacional Journalism Award, entregue nos Estados Unidos (2010), e o prémio IPYS de Melhor Investigação Jornalística da América Latina e Caribe (Transparência Internacional e Instituto Prensa y Sociedad), recebido por ela em 2009, quando foi a vencedora, e 2012 (menção honrosa). Em 2002, foi premiada na Europa com Natali Prize (menção honrosa), transforma em palavra o que era silêncio, devolvendo “nome, história e identidade àqueles que, até então, eram registados como «Ignorados de tal». Eram um não ser.” – como nos diz Eliane Brum, em jeito de prefácio «OS LOUCOS SOMOS NÓS», despertando-nos, ao mesmo tempo, para a triste e trágica realidade de que “as palavras sofrem com a banalização. Quando abusadas pelo nosso despudor, são roubadas de sentido. Holocausto é uma palavra assim.”


Daniela Arbex, que tivemos o grato prazer de conhecer nas “V Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental”, em Coimbra, através deste seu meticuloso trabalho jornalístico, resgata do esquecimento esta chocante e macabra história do século XX brasileiro: um genocídio feito pelas mãos do Estado, com a conivência de médicos, funcionários e população que roubou a dignidade e a vida às já citadas sessenta mil pessoas. Dividido em catorze capítulos, numa abordagem bem documentada (com fotografias – imagens do horror – de Luiz Alfredo, da revista O Cruzeiro), como nos revela Eliane Brum, esta é a história que “Daniela Arbex desvela, documenta e transforma em memória (…), um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, de funcionários e também da sociedade”. Tudo isto, só por si, torna-se deveras arrepiante, mas a indignação ou a revolta vai aumentando, à medida que vamos lendo os catorze capítulos: I – O Pavilhão Afonso Pena, “apesar do tamanho, o complexo não podia ser visto do lado de fora, por causa da muralha que cercava todo o terreno. Lá dentro, a dimensão daquele espaço asperamente cinza, tomado por prédios com janelas amplas, porém gradeadas, impressionava”; II – Na Roda da Loucura, “fome e sede eram sensações permanentes no local onde o esgoto que cortava os pavilhões era fonte de água”; III – O Único Homem que Amou o Colónia, “corre, que seu filho está nascendo. O mestre-de-obras do Colónia, Raul Ferreira Carneiro, largou as ferramentas no chão e seguiu em direcção à chácara do sogro, Adolfo Cisalpino de Carvalho, administrador do hospital em 1925…”; IV – A Venda de Cadáveres, “quando os corpos começaram a não ter mais interesse para as faculdades de medicina, que ficaram abarrotadas de cadáveres, eles foram decompostos em ácido, na frente dos pacientes, dentro de tonéis que ficavam no pátio de Colónia. O objectivo é que as ossadas pudessem, então, ser comercializadas”; V – Os Meninos de Oliveira, “crianças mantidas em berços dentro do Colónia, de onde não saiam nem para tomar sol”; VI – A Mãe dos Meninos de Barbacena, “da cabeleireira à dentista, muitos profissionais foram seduzidos pela causa dos meninos de Barbacena. A comunidade, aos poucos, foi enxergando o ser humano por trás de deficiência que os faria babar ou passar o dia balançando o corpo de frente para trás”; VII – A Filha da Menina de Oliveira, “Débora Aparecida Soares nasceu dentro do hospital e foi doada ao nascer. Hoje tem vinte e sete anos”; VIII – Sobrevivendo ao Holocausto, “Tânia, a psicóloga das residências terapêuticas, é uma das pessoas por quem eles sempre oram”; IX – Encontro, Desencontro, Reencontro, “havia tantas mulheres caídas no chão, espalhadas pelos cantos, em meio a fezes, que a gestante foi tomada pelo pânico”; X – A História por trás da História, “O fotógrafo da revista O Cruzeiro Luiz Alfredo estava prestes a registar as imagens mais dramáticas da sua carreira, embora não soubesse disso, quando se deparou com o portão de ferro que daria acesso ao interior do Colónia, em Barbacena, naquele Abril de 1961”; XI – Turismo com Foucault, “– Realmente, o louco não merece nenhuma consideração. Veja este pátio cimentado. Não há sequer uma árvore ou sombra. Os pacientes não precisam de nada, afinal, no conceito de vocês, eles não são gente. / A resposta do psiquiatra fez o enfermeiro emudecer”; XII – A Luta entre o Velho e o Novo, “a medicina brasileira tem tradição de cárcere. Por isso, a lógica da internação faz com que os recursos médicos sejam predominantemente hospitalares, subtraindo recursos do tratamento ambulatório, comunitário, aberto” – defendia Paulo Delgado; XIII – Tributo às Vítimas, “vocês precisam entender que não somos tomadores de conta. Somos cuidadores. Os doentes têm direito de retornar para a sociedade”; XIV – A Herança do Colónia, “quando o Colónia for finalmente desactivado com a saída de todos os pacientes asilares, os prédios do lendário manicómio poderão ganhar nova destinação em uma cidade carente de espaços públicos”.


Terminaremos, citando Eliane Brum: «Neste livro, Daniela Arbex salvou do esquecimento um capítulo da história do Brasil. Agora, é preciso lembrar. Porque a história não pode ser esquecida. Porque o holocausto ainda não acabou». Verdade única, quando por aí há muitos holocaustos!                           
          NOTA MÁXIMA!

Friday, June 13, 2014

Escritas Privadas da Mobilidade e da Guerra!...

“Os usos da escrita são decisivos para compreendermos como as comunidades e os indivíduos constroem representações de um mundo que é seu”.

Do Prólogo

Acabou de sair em suporte de papel, numa edição da Fundação Caixa Agrícola do Noroeste, uma obra que teve uma primeira edição em formato digital, que correspondia a parte do projecto inicialmente delineado pelos seus coordenadores: Henrique Rodrigues e Ernesto Português. De facto, «Escritas Privadas da Mobilidade e da Guerra», e como nos explica o editor, “foi dado a público, numa primeira fase, uma brochura com índices, resumos e currícula dos autores juntamente com um CDrom, sob os auspícios da Câmara Municipal de Monção, de reduzida circulação pelos circuitos comerciais”, levando a que, por forma a divulgar o projecto por um público mais alargado, quer académicos quer os leitores em geral, os coordenadores procuraram encontrar um parceiro editorial com capacidade para atingir tal desiderato, como bem explica o editor, Fundação Caixa Agrícola do Noroeste.
Colaboraram neste projecto diversos investigadores de várias academias, entre os quais encontramos docentes do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Universidade de Lisboa, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Universidade do Porto, Universidade Portucalense-Infante D. Henrique, Universidade Nova de Lisboa e Universidade Pontifícia de São Paulo, através da divulgação de vários e valiosíssimos documentos, que, como afirma José Emílio Pedreira Moreira em nota de abertura, ajudam a “fazer” a “nossa história individual, familiar e mesmo nacional, sem disso, talvez, terem intenção e consciência. São outra fonte documental de acesso às ideias, aos problemas, aos projectos, às lutas, à cultura, à dimensão económica, à organização social e política, ao nível educacional, enfim, ao domínio do imaginário singular e colectivo que sempre anima e dirige uma região, uma nação e uma época. É que a linguagem, mesmo na sua faceta oral e espontânea de interpretar e comunicar, é o reflexo mais fiel do indivíduo e da sociedade que a fala” – síntese com a qual corroboramos e que, sobremaneira, reflecte o conteúdo da obra.


Esta magnífica obra apresenta-se com treze trabalhos, repartidos por catorze autores: Ernesto Português, com «O sentido de Estado na correspondência familiar de João Pereira Caldas, Governador de Grão Pará entre 1772 e 1780», p. 17-38; Maria Izilda Matos, com «Possibilidades de pesquisa e perspectivas didácticas (Portugal e Brasil)», p. 39-58; Henrique Rodrigues, com «Epistolário popular e imagens da emigração oitocentista», numa abordagem às cartas enviadas do Brasil para Viana do Castelo, p. 59-124; Ana Sílvia Albuquerque, com «Escritas da mobilidade em contextos familiares», numa análise de correspondência de emigração no primeiro quartel de Novecentos, p. 125-132; Ernesto Português, com «Escritas da Casa de Sende (Monção)», numa abordagem às correspondências de uma família do Alto Minho do Século XVIII, p. 133-156; Henrique Rodrigues, com «Correspondência de emigrantes do Alto Minho no período da República», p. 157-194; Joana Pontes, com «Cartas de Guerra», p. 195-206; Henrique Rodrigues, Clara Coutinho, Marta Pires, Sofia Ramos e Sónia Simões, com «Escrever para não morrer», numa análise a correspondências de um soldado de Monção na Guerra Colonial, p. 207-262; Maria Olinda Rodrigues Santana, com «Escritos da mobilidade no arquivo pessoal António Maria Mourinho», com perspectivas didácticas», p. 263-294; Filipa Lopes, com «Os forais afonsino e manuelino de Viana da Foz do Lima», numa abordagem didáctica, p. 295-324; Gonçalo Maia Marques, com «As escritas de Baco como fonte histórica, perspectiva didáctica», p. 325-332; Manuela Cachadinha, com «As histórias de vida na investigação em Educação e Interculturalidade», p. 333-353; e, finalmente, Pedro Teixeira Pereira, com «As Escritas do Poder no Estado Novo», numa abordagem didáctica de escritos e ditos, p. 355-364. Esta obra termina com os resumos dos trabalhos, dum irrepreensível rigor científico, p. 365-372; e uma síntese biográfica dos autores, p. 373-380.
Em termos de conteúdos, perpassam pelos diversos trabalhos excelentes investigações, que vão no sentido de interpretar cartas e correspondências ou outros suportes documentais, sempre numa perspectiva didáctico-cultural e historiográfica, tendo em conta que os mesmos nos podem abrir janelas sobre o passado. Tal como afirma Joana Pontes, as cartas, por exemplo, “cruzam todas as classes sociais e tornam-se parte da vida de todos os dias, às vezes durante um longo período do tempo. Podemos estudá-las como textos em si e ouvi-las como fontes, fortemente ancoradas em contextos particulares”, proporcionando, ao mesmo tempo, o “acesso às ideias, aos problemas, aos projectos, às lutas, à cultura, à dimensão económica, à organização social e política, ao nível educacional, enfim, ao domínio do imaginário singular e colectivo que sempre anima e dirige uma região, uma nação e uma época” – citando, de novo, José Emílio Pedreira Moreira.
Ao Professor Doutor Henrique Rodrigues o nosso profundo agradecimento pela elevada consideração, reflectida em tão gentil oferta e imerecida dedicatória, e os nossos parabéns aos coordenadores, autores e editor, pelo extraordinário contributo dado para a valorização da investigação científica, nomeadamente no que toca à “História das Ideias”, em Portugal. Um livro esteticamente perfeito (magnífica capa de Henrique Rodrigues), uma leitura que se recomenda.
        Nota máxima!

Friday, June 06, 2014

Álvaro de Oliveira publica “Murmúrio Íntimo”!...

“Se ontem disse que os meus livros eram os meus pecados de quase nada; hoje sinto que os meus livros são os meus pedaços de quase tudo”.

Álvaro de Oliveira

«Atravessando um Fevereiro quente, daqueles que o adágio diz trazer o diabo no ventre, dou comigo por arrumos na biblioteca entre livros e pastas de arquivo sem medir as consequências que possam advir deste Inverno sem chuva a causar medos de nefasta seca» – assim começa o justificativo de “causa-efeito”, para o aparecimento do MURMÚRIO ÍNTIMO de Álvaro de Oliveira, numa edição da Calígrafo – sonho concretizado na partilha com os outros do bom amigo Fernando Pinheiro –, partilhado pela afirmação de serem, segundo o autor, «coisas nossas, passagens do dia-a-dia, memórias, fragmentos de paixões e descontentamentos. Tudo resultado de um tempo que decido agora registar em livro (…), sem critérios de selecção, sem ordem cronológica, aleatoriamente e sem data de publicação. Por aqui se registam e perfilam os nomes de muitos companheiros de jornadas, homens e mulheres das artes e das letras a quem presto justa homenagem», como se houvesse necessidade de explicação para intemporalidade dos bons escritores, como será o caso do Álvaro de Oliveira: «O meu espaço é, por necessidade e gosto, este cantinho que um dia elegi para, letra a letra, dar corpo a uma pertinente e quase indomável escrita» – citamos da “p(r)oética” em Álvaro de Oliveira, qual murmúrio inicial o levaria a descobrir que o dilema da escrita era forçosamente permanecer na ausência e adormecer com o silêncio: «Por vezes nenhum silêncio nos magoa, nenhum olhar de aceno nos comove, parece até que nenhuma palavra nos aquece a alma». Só uma alma poética como a de Álvaro de Oliveira poderá dizer que «Só o silêncio, noite fora, me permite trabalhar sem incorrer naquela distracção que às vezes me perturba o raciocínio», preferindo «atravessar a noite à espera de qualquer coisa… Talvez uma frase, um verso, um poema com que possa expressar uma ideia de luz amarela que ilumina esta mesa, a vontade sem vontade, um rio seco, uma árvore sem ramos, sem folhas…». Felizmente que, para nós, Álvaro de Oliveira é daqueles escritores que não se cala, escrevendo até ao último escoar dos dias. Mais que não seja, em homenagem aos homens e mulheres que morreram pela liberdade de expressão e pensamento, repetidamente presentes em conjunturas similares: «Portanto, fechados nesta redoma e tangidos por leis laborais que nos remetem para a penúria do recibo verde e outras precariedades, sem poder sequer dar um pio, depressa nos encontramos manietados sobre nós próprios, gerindo conflitos e desconcertos e, espantados, a atirar um olhar patético para famigerados prumos contabilísticos e demais indicadores que dão nota pesada sobre a inacreditável soma de 3 milhões de portugueses que se viram forçados, como noutro tempo assim aconteceu, a abandonar o seu país e procurar, lá fora, um novo rumo para dar à vida».

Mesa de apresentação: Fernando Pinheiro (Editor), Álvaro de Oliveira (Autor) e Porfírio Silva (Apresentador)

Falar de «Murmúrio Íntimo», o que nos levará ao atrevimento de o conjugar no plural, tendo em conta a harmonia do todo na partilha do olhar poético, observador – sim, um bom escritor tem que ser, forçosamente, um bom observador –, aquele olhar poético «ligado às origens e às causas, atravessar as sombras que passam rente aos gestos que nos falam da intimidade dos frutos» e dos outros, aqueles em que muitas vezes «os guardas do poder» espancam violentamente os trabalhadores e os melhores filhos do povo do nosso país, levando-o e/ou levando-nos à revolta, com aquele «olhar íntimo» dos rostos que ainda nos acompanham, quase como um «menino perdido na noite, embrulhado no calor das palavras», esquecido de si, deixando-se seduzir pelo silêncio a ouvir a melodia de infância.


Há um olhar atento de Álvaro de Oliveira: na música, qual «harmonia musical de todas as palavras, na linha exacta dos valores que fundem estas duas chamas vivas (noite e solidão) a legendar o adro da nossa memória, como ainda tenho o privilégio de encontrar tanta coragem, tanta lucidez e tanta inteligência!»; na literatura; nas artes; no morder do tempo; na voz do sonho, mesmo quando em voos mágicos de infância se deixa andar muito próximo do ritmo do andar da sua Professora de português, provando assim «pelo cálice da amargura o silêncio destes dias inacabados» e sem esquecer, por uma vez que fosse, «a voz doce da (sua) Professora de português» quando lhe lia um poema de Fernando Pessoa; no sopro da razão, «a enferma sedução de viver num mar de ausências quando deixámos de ser nós e mergulhamos no mais arreliador de todos os silêncios», descobrindo-o na exaltação ao pôr-do-sol «mais envolvente que chama para este lugar sossegado homens das ciências, das artes e das letras, que atira convites para uma soberba fruição da natureza e que se expõe na grande mesa onde o cardápio mostra sabores desconhecidos»; no caminhar sobre si mesmo, questionando abismos que nos roubarão o pensamento; na difícil travessia para nos libertar de outros medos e de outras loucuras; no interrogar os senhores do poder: – Afinal, se viveis tão bem instalados, cheios de ouro e de prata, e rodeados de tanta beleza e tanta maravilha, qual a razão para fazeres a guerra e com ela destruíres centenas de cidades e milhões de seres humanos?; no sorver do ar frio, pensando «na transcendência que ditou este arrefecido anoitecer, nos instantes que sempre lhes inspiraram o sonho e nos dias que lhes [ou nos] serviram de berço»; na transfiguração da velha cidade; no sonhar acordado, lembrando-se dos dias que hão-de vir, mas vivendo «o sonho de uma história real onde o homem possa viver com dignidade»; na Semana Santa – mais doces e menos Páscoa, mais foguetes e menos solidariedade, mais crendice e menos fé, mais crucificados e menos ressurreição –, contrastando com as poéticas manhãs floridas de Abril, «este cheirinho à flor da laranjeira e este sol a cair a pique nas nossas mãos libertas para a vida», e onde haverá tempo para reflectirmos sobre quem somos, o que somos e o que fazemos; no declinar do exercício à reflexão, quando recusamos o desafio à consciência, continuando «a fazer do dia-a-dia o inferno onde o nosso próximo se derrete nas chamas do desprezo e do abandono; na Poesia onde, e citando Assis Brasil, se manifesta a criatividade do homem, sendo que o poema é apenas um mero objecto onde ela se realiza; na relação de “nós com os outros”, viajando «pelos caminhos da amizade, recuar uns tantos anos e fruir momentos vividos desse inesquecível tempo da tertúlia, das reuniões, dos debates à mesa do café, às vezes em almoços, abordando a temática literária», parando, «não só para reparar a vida, mas para dar à vida aquilo que ela [dele] mais pode esperar: um poema…»; no escrever para não morrer, habitando o interior das palavras rudes e incómodas, sendo indomável e insubmisso; no cirúrgico desabafo de «na infância tolhiam-nos a esperança, a razão e o sonho; na juventude amordaçavam-nos as palavras e atiravam-nos para uma guerra que era a guerra dos grandes interesses…», etc., etc… Riquíssimo e complexo lexical em que devíamos, de contínuo, ter usado aspas, visto que extraído da inspiração deste nosso extraordinário poeta e escritor, Álvaro de Oliveira.
           Nota máxima!

Friday, May 30, 2014

V Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental!...

“Já ninguém tem dúvidas, hoje em dia, que o diagnóstico precoce é o factor primordial na prevenção da deficiência mental”.

António Alfredo Simões Viana

Pelo segundo ano consecutivo, sob “égide” da Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde (SHIS) e colaboração científica e institucional do Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) da Universidade de Coimbra, participamos nas Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental, realizadas em Coimbra, nos dias 5 e 6 de Maio último, jornadas essas que, há cinco anos a esta parte, visam dar continuidade a temáticas apresentadas e aprofundar as frentes de discussão abertas desde a primeira edição. Este ano, as mesmas articularam-se com um simpósio temático comemorativo do centenário do médico psiquiatra Joaquim Seabra-Dinis (1914-2014) e também com o Seminário sobre Direito, Neurociências e Psiquiatria.
E porque seria incomportável falar aqui de todos os participantes nas referidas Jornadas – por onde passaram, entre outros, Kamilla Dantas Matias, Maria Miguel Brenha, Ana Catarina Necho, Nuno Borja-Santos, Miguel Palma, Bruno Trancas, Pedro Macedo, Filipa Veríssimo, David Simón Lorda, Emilio González Fernández, Tatiana Bustos Cardona, María Victoria Rodríguez Noguera, Mónica Minoshka Moreira Martínez, Miguel Angel Miguélez Silva, María Piñeiro Fraga, María José Louzao Martinez, Vanessa Cerqueira Pujales, Tiburcio Angosto Saura, Inês Pinto da Cruz, Manuel Correia, Maria Gabriela Marinho, Adrián Gramary, Sara Repolho, Manuel Viegas Abreu, Paulo Archer de Carvalho –, apenas iremos fazer uma pequena síntese das comunicações da área da Filosofia, porque enquadradas na vertente da Mente e da Cognição: a nossa; as do Professor Doutor Manuel Curado, dado que foram duas; e a do Mestre José António Alves.

5.ª Sessão de apresentação de comunicações e debate - Da esquerda para a direita: Professor Doutor Manuel Curado, Porfírio Silva, Doutora Inês Pinto da Cruz e Professor Doutor João Rui Pita (moderador) 

A nossa comunicação, trouxe à coacção “António Alfredo Simões Viana: da Medicina Tropical a um olharuto psiquiátrico sob a criança no século XX”, médico psiquiatra nascido em Viana do Castelo (1922), reconhecido Especialista de Psiquiatria e Medicina Tropical, que teve um papel importantíssimo nas áreas das Medicinas Tropical e Sanitária, mas seria na área da Psiquiatria que mais se destacaria, sobretudo pelo seu olhar psiquiátrico sob a criança. Defensor do diagnóstico precoce como factor primordial na prevenção da deficiência mental, desejava que as histórias clínicas dos recém-nascidos fossem completas e revelassem, deste modo, “dados concretos a quem recorra a elas em busca de antecedentes vinculados às primeiras horas de vida de crianças que posteriormente apresentem problemas psíquicos, motores ou sensoriais”. Várias foram as suas intervenções em jornadas e congressos, abordando temas como a “simulação e dissimulação de transtornos mentais” e “a confusão mental e o seu tratamento”, gravitando na certeza de que a deficiência mental era considerada como um dos problemas mais preocupantes, dadas as suas múltiplas implicações quer na saúde, quer na educação ou no bem-estar de uma nação.
Por seu lado, o Professor Doutor Manuel Curado, começou por abordar “a vida como loucura: os erasmistas da cultura psiquiátrica portuguesa”, dizendo que Sebastian Brant e Erasmo de Roterdão autoraram elogios célebres da loucura. É conhecido o trabalho que Foucault dedicou a estes dois autores. Menos conhecida é a rica tradição dos erasmistas portugueses que se dedicaram a denunciar a vida humana como uma manifestação de loucura. A comunicação deste ilustre docente da Universidade do Minho, propôs-se inventariar esses vultos que já não estão no horizonte dos debates contemporâneos sobre o alcance da ciência médica da mente humana anómala. Em particular, foi analisado o Contra a Loucura do humanista Aires Barbosa, bem como a influência que exerceu em vários autores portugueses até ao século XIX. A comunicação terminou com uma reflexão sobre o valor perene, não susceptível de ser acantonado a uma época histórica, desta tradição erasmista. Acrescentou ainda que algumas perplexidades epistemológicas sobre a ciência psiquiátrica têm antecedentes nesta tradição, nomeadamente a delimitação de normal e anormal, e o problema momentoso do sentido da ciência mental como um todo. A sua segunda comunicação foi para falar dos “semiloucos de José Saavedra”, de seu nome completo José Nevil de Ascensão Pinto da Cunha Saavedra, que defendeu na Universidade de Coimbra uma tese de doutoramento em Medicina com o título sugestivo de «Os Semi-Loucos na Psichiatria, na Sociedade, nas Lettras» (1922). Apesar de ter abandonado a docência universitária quatro anos depois, seguindo a carreira de médico militar, este trabalho merece ser relido e enquadrado na história da Psiquiatria portuguesa do primeiro quartel do século XX. A comunicação do Professor Manuel Curado propôs-se, por conseguinte, uma leitura desta obra que viu nela a continuação da influência do paradigma oitocentista da degenerescência. Em particular, reflectiu-se sobre o perigo de alargamento excessivo da área de actuação da Psiquiatria, contribuindo esta para assuntos que ainda preocupam os filósofos da Medicina, como o paternalismo médico e a medicalização excessiva da sociedade.

Mestre José António Alves apresentando a sua comunicação sobre M. Serras Pereira

Por último, o bom amigo e doutorando da Universidade do Minho, José António Alves abordou “a Psicologia Experimental segundo M. Serras Pereira”, sendo que o mesmo Manuel Serras Pereira é uma figura esquecida, mas que merece um lugar na história da psicologia em Portugal. Aluno e depois professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, aí apresentou três trabalhos sobre Psicologia e aí leccionou Psicologia Geral e Psicologia Experimental nos anos lectivos de 1923-24 e 1924-25. Os trabalhos apresentados foram os seguintes: em 1920, a tese de licenciatura com o título Da possibilidade do método científico em Psicologia; em 1923, a tese de doutoramento intitulada A tese escolástica do composto humano; e, em 1925, a dissertação para concurso com o título A função da análise quantitativa em psicologia experimental. A tese de doutoramento terá sido inclusive a primeira em Psicologia a ser desenvolvida nas Universidades portuguesas. A referida comunicação propôs-se apresentar, a partir das três obras referidas, o pensamento psicológico de Manuel Serras Pereira e enquadrá-lo no âmbito da História da Psiquiatria em Portugal.
          Para terminar, diremos que as mesmas Jornadas contaram com a Professora Doutora Ana Leonor Pereira (FLUC-CEIS20), Professor Doutor João Rui Pita (FFUC-CEIS20) e Dr. José Morgado Pereira (CEIS20) na Comissão Organizadora.

Thursday, May 29, 2014

Louis Althusser e a «Defesa da Tese de Amiens»

“É provável que haja quem ache chocante que eu não resigne ao silêncio depois do acto que cometi, e depois também da declaração de inimputabilidade que o sancionou e da qual, segundo o modo de dizer espontâneo, beneficiei”

Louis Althusser‏

É evidente que não iremos falar da loucura em Althuser, qual “L’Avenir dure longtemps” soçobra no impensável e no trágico com o assassinato de sua mulher Hélène, mas d’A Defesa da Tese de Amiens, texto extraído da obra «Posições» de Louis Althusser (1918-1990) – autor francês criador de uma variante do marxismo, e que na linha de Gramsci cria as categorias de aparelho ideológico e aparelho repressivo do Estado –, obra essa que, como se pode ler em sinopse, reagrupa vários artigos importantes que marcaram a sua evolução entre 1964 e 1975. O texto, ora em análise, “Defesa da Tese de Amiens”, reproduz o essencial da argumentação com que, em Junho de 1975, Louis Althusser defendeu os seus trabalhos num Doutoramento de Estado na Universidade de Amiens. De facto, é assim que inicia o referido texto – numa espécie de introdução –, onde procura fazer uma pequena retrospectiva sobre a filosofia e a política, nomeadamente dos autores do séc. XVIII, como uma propedêutica – segundo ele – necessária à compreensão do pensamento de Marx. Sendo já, na altura, comunista, tentaria a partir dali também ser marxista, ou seja, depreendendo-se das suas palavras, procuraria compreender o que quer dizer marxismo.
 

Numa espécie de autobiografia intelectual – deambulando pelos pensamentos de Immanuel Kant, Thomas Hobbes, Maquiavel, Hegel, Espinosa, John Locke, Montesquieu e Jean-Jacques Rousseau –, Louis Althusser acaba por se quedar no pensamento de Marx: Tomo como prova, além de toda a história da filosofia, o próprio Marx, que só se definiu apoiando-se em Hegel, para dele se demarcar. E penso ter seguido, de longe, o seu exemplo, autorizando-me a passar por Espinosa para compreender porquê Marx teve que passar por Hegel (p. 132). E este será o ponto de partida para as três vias (“selvagens”) de abordagem aos seus ensaios, que, segundo Louis Althusser, os atravessam e se cruzam: A «última instância…» – Partindo do pressuposto que a parte exprime o todo e só se compreende as partes em função do “todo estruturado”, Althusser começa por nos apresentar um “todo” sobredeterminado com níveis e instâncias relativamente autónomas. Apresenta mesmo a sociedade na metáfora dum edifício, cujos andares assentam, segundo a lógica do edifício, sobre a base (p.140). A base é que define o todo do edifício; a base é a economia. Discorrendo através dum processo histórico sem sujeito e sem fim ou fins, que irá culminar num processo da ideologia, o mesmo filósofo francês afirma que na configuração social há – diferente da lógica dialéctica: certamente, Hegel não procurou a dialéctica após a rejeição da Origem e do Sujeito (p. 144) – “todos parciais”, sem prioridade de um centro. A nível económico opera-se a rejeição da unicausalidade económica da história e das lutas sociais atribuindo-se a instâncias, abrindo assim espaço à dialéctica de cariz estrutural, porque definida através das determinações e subdeterminações. Renova-se assim a explicação dos processos sociais, superando os extremismos de se imputar, invariavelmente, a causa económica a todos os acontecimentos sociais e políticos: o tópico marxista designa o lugar onde nos devemos bater, porque é nele que se luta, para transformar o mundo. Mas este lugar não é um ponto, nem é fixo, é um sistema articulado de posições orientadas pela determinação em última instância (p. 148); Sobre o processo de conhecimento – Passando ao processo de conhecimento, Louis Althusser apresenta alguns argumentos, não para construir uma «teoria do conhecimento», mas para pôr em questão algumas evidências cegas, com que uma certa filosofia marxista se julga muitas vezes protegida dos adversários (p. 156). Inspirando-se em Marx, que empregava várias vezes o conceito de «produção» de conhecimentos, a tese central de Althusser vai no sentido da ideia do conhecimento como produção, que ao ser levado à letra sugere um processo, um processo sem sujeito. Por outro lado, ao pretender alcançar a distinção das Três Generalidades: a primeira desempenhando o papel de matéria-prima teórica; a segunda de instrumento de trabalho teórico; e a terceira o concreto-de-pensamento ou conhecimento, sendo que no final do processo – resultante do concreto-de-pensamento, da totalidade-de-pensamento – chega ao conhecimento do concreto-real, do objecto real: o processo do conhecimento acrescenta a cada passo ao real o seu próprio conhecimento, mas a cada passo o real o reabsorve (p. 159); e, finalmente, Marx e o humanismo teórico – A principal tese de Althusser é o anti-humanismo teórico que consiste em afirmar a primazia da luta de classes e criticar a individualidade como produto da ideologia burguesa. Tal como afirmara Marx: «Uma sociedade não é composta por indivíduos». O homem é uma pura abstracção. O homem não tem qualquer eficácia em termos de conhecimento, dado que é considerado como agente de produção, não é mais que isso para o modo de produção capitalista, ou seja, um simples «portador de funções», completamente anónimo, intermutável, uma vez que pode ser lançado à rua, se é operário (p. 166). Assim, o motor da história é a luta de classes, de forma a auxiliar a classe operária a fazer a revolução, e a suprimir ulteriormente, no termo do comunismo, a luta de classes e as próprias classes (p.170).
           Não admira, pois, que o pensamento de Althusser tenha influenciado os meios intelectuais universitários, na década de setenta, marcados pela geração do Maio 68, da qual muitos hoje detêm o poder político e económico, e meteram o marxismo na gaveta. Mais grave é que alguns estão hoje em partidos ultraliberais, não tendo qualquer eficácia em termos de conhecimento e dispensam a ética, como quem “limpa o cú a meninos”. São simples portadores de funções!

Friday, May 23, 2014

José A. Salvador edita a mais completa obra sobre Zeca Afonso!...

“Luz própria que, nas novas gerações, parece mudar a percepção da sua figura. Sem lhe alterar, porém, a essência da mensagem. Assim como se, num mundo composto de mudança, tomando sempre novas qualidades, continuamente nele se fossem vendo novidades, criadoras de novas esperanças, para recorrer, contrariando-lhe o pessimismo, ao nosso poeta maior”.

Adelino Gomes

Foi com o maior orgulho que, no passado dia 30 de Abril, resolvemos aceitar a imerecida tarefa de apresentar o mais recente livro do jornalista José A. Salvador, no Salão Nobre do Sport Clube Vianense. Na altura dissemos que falar de Liberdade e Fraternidade, dois condimentos necessários a uma verdadeira revolução cognitiva, forma única de nos livrarmos do medo, é falar, inevitavelmente, de ZECA AFONSO. E era de Zeca Afonso, nas comemorações dos quarenta anos das “PORTAS QUE ABRIL ABRIU» e dos cinquenta de «GRÂNDOLA, VILA MORENA», através de José António Salvador, precisamente na noite em que se nos abriram portas para as «CANTIGAS DE MAIO», sendo que no dia seguinte era Dia Mundial dos Trabalhadores, que «Um velho soluço / Traz-me o teu anexo / Priva-me dos braços / Quebra-me a infância / Livra-me do medo (…).», qual poema escrito por Zeca Afonso, em 1973, aquando da sua prisão em Caxias, na clausura forçada da PIDE-DGS, inspiraria o título para o terceiro livro a seu respeito [depois de Livra-te do medo – Estórias & andanças do Zeca Afonso (1984) e Zeca Afonso: O rosto da utopia (1994)] pela pena acutilante, cirúrgica e aturada do insigne jornalista e enófilo português José António Salvador, nascido em Espinho em 1947, onde fez a instrução primária. Depois de completar os estudos secundários no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, período durante o qual conheceu Zeca Afonso e integrou a Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra durante a crise estudantil de 1969. Iniciou a sua actividade profissional como jornalista em O Comércio do Porto nesse mesmo ano, para integrar, sucessivamente, as redacções dos jornais Diário de Lisboa (1970-75), República (1975), Gazeta da Semana (1976-77), Nô Pintcha (Guiné-Bissau, 1977-78), Diário Popular (1978-88, com interregnos nos países lusófonos). Foi também colaborador do jornal A Voz Portucalente, órgão da Diocese do Porto, fundado por D. António Ferreira Gomes, após o seu regresso do exílio em 1969. E porque seria incomportável esmiuçarmos aqui todo o seu vastíssimo curriculum, apraz-nos apenas registar o facto de que, em 1992, foi fundador da SIC, onde durante dois anos programou a informação, desenvolveu diversas coberturas jornalísticas e entrevistou, ao longo da sua vida profissional, em jornais e na SIC, grandes vultos da Cultura, das Letras, da Música e das Artes. Resta-nos acrescentar que o Clube de Imprensa distinguiu-o por duas vezes, em 1987 e 1991, com o 1.º Prémio Viagem pelas reportagens «Tejo, por este rio acima» e «Cabo Verde, o sonho das ilhas», publicadas, respectivamente, no Expresso e em O Jornal. A Academia Portuguesa de Gastronomia atribuiu-lhe o Prémio Cultura e Literatura Gastronómica 2004 pelo conjunto da sua obra na área dos vinhos e da gastronomia.


Estas pequenas notas biobibliográficas de José A. Salvador eram quase como um necessário “imperativo categórico”, sem que para isso seja necessariamente kantiano, face ao conteúdo, à partilha e à cumplicidade deste magnífico livro, esteticamente perfeito, em boa hora editado pela Porto Editora, diríamos, a mais completa obra até hoje escrita de homenagem ao nosso grande Zeca Afonso, aquele que soube chamar a si «a reserva inesgotável de Alegrias, a raiva dos oprimidos, a bondade de um homem simples com quem, às portas de Arroiolos, me embebedara um dia de sol e serra», e que, como faz questão de salientar a editora, principalmente pelo papel do cantor em todo o processo revolucionário, em Portugal, quer antes, quer após a queda do regime de Salazar: «foi indiscutivelmente uma das grandes vozes da Revolução de Abril. “Grândola, Vila Morena” é um tema que, ainda hoje, procura ser instrumento de intervenção».
De facto, este extraordinário trabalho de José Salvador, com Carta de Resposta em jeito de prefácio do Jornalista Adelino Gomes (pela terceira vez que o faz), tem o condão de reavivar certos traços de personalidade e mesmo certos dados de Zeca Afonso, aparentemente irrelevantes, que ganharam, com o passar dos anos, uma luz própria que se impõe a quem revisita a sua vida e a sua obra. Contrariando o aviso à navegação de José Salvador, que nos alerta para o facto de não esperarmos encontrar um livro emocionalmente asséptico, afectivamente distanciado ou politicamente neutral, sempre lhe conseguimos percepcionar uma informação objectiva, mesmo que “condicionada” pela amizade pessoal, aprofundada durante meses de convívio regular que com ele manteve em 1983: «Se achares que o que eu digo não tem interesse, não faças o livro» – disse-o na altura Zeca Afonso, com a mesma mestria do contraditório, que nós utilizamos para reforçar, de uma forma mais modesta – do sapateiro que não quer ir além da chinela –, a nossa convicção de estarmos perante um trabalho sério, cientificamente sério, porque lhe percepcionamos a tal “informação objectiva” revelada através de uma verdadeira “clarividência objectiva”. Esta é uma obra de leitura obrigatória para quem preza a Liberdade, à boa maneira de “Tomadas da Bastilha”, em Coimbra de 1968.
É evidente que não iremos discorrer de uma forma minuciosa acerca das cerca de trezentas páginas deste «Zeca Afonso: Livra-te do Medo», dado que o fizemos na altura da apresentação, mas não seria “bom-tom” da nossa parte se não nos referíssemos a esta magnífica obra como ricamente preenchida com uma grande entrevista, proficuamente ilustrada com excelentes fotografias e vários documentos de que são exemplo, entre outros, “Autos de Interrogatório” da PIDE [Polícia Internacional e de Defesa do Estado] e mais tarde da DGS [Direcção Geral de Segurança], com “Ordem de Internamento”, articulados com confidencialidades para a Secretaria de Estado da Informação e Turismo. Aludiremos ainda, agora sim para terminar, o facto de estarmos perante uma biografia inédita, de viva voz, com a maior Voz da Liberdade em Portugal, magnanimamente elaborada – porque cientificamente irrepreensível – por José António Salvador.
Por nós, pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (dado que foi na qualidade de ex-trabalhador, por exigência do autor, que tivemos que apresentar o livro), pela Liberdade (sem castração), pela Fraternidade, pela Revolução Cognitiva, o Zeca Afonso está hoje e sempre entre nós. De facto, A CANTIGA É UMA ARMA, que incomodou e continua a incomodar. Em nome do Zeca, O QUE FAZ FALTA É ACORDAR A MALTA!
        NOTA MÁXIMA!