Tuesday, February 25, 2014

Palavras, linguagem, sinais e realidades em Santo Agostinho

“Porque não posso deixar de supor, apenas soam tais palavras, que a conclusão se refere ao que é significado por essas duas sílabas, em virtude daquela lei que tem muita força na ordem da natureza, a saber, que ouvidos os sinais, o pensamento se dirija para as coisas significadas”

Santo Agostinho (In «O Mestre», Cap. VIII)

Ao propor-se esclarecer seu filho Adeodato [N. 372 – m. 389], quanto à possível confusão assacada ao sentido e intenção do desenvolvimento do diálogo, como se de exercícios meramente dialécticos se tratassem, Santo Agostinho chama a sua atenção para o facto das disputas argumentativas dos que se dedicam ao jogo dos raciocínios e das palavras – Mas é difícil nesta altura dizer aonde pretendo chegar contigo, ao longo de tantos rodeios. Com efeito, talvez julgues que estamos a brincar, e que para assim dizer desviamos o espírito de coisas sérias, com certas questiúnculas infantis; ou então, que buscamos algum bem diminuto ou medíocre –, não reflectirem o objecto de atingir uma vida venturosa e sempiterna, conseguida simbolicamente pela subida de degraus, tendo Deus como guia, ou seja, a Verdade. Nesse sentido, Santo Agostinho propõe-se, de parceria com seu filho Adeodato, em investigar as coisas que, não sendo sinais, são “significadas com sinais, não outros sinais, mas as coisas a que chamamos significáveis”. Na sequência desse desafio, Santo Agostinho começa pela palavra «homem», questionando seu filho se «homem é homem» ou – perante a sua resposta afirmativa – se não seria antes o resultado da união das sílabas «ho» e «mem». E, desta vez, Adeodato ao responder negativamente escusar-se-ia (e/ou recusar-se-ia) em ser definido por duas sílabas: Mas como me impediria essa ambiguidade, se eu respondi a uma coisa e outra? Com efeito, o homem é inteiramente homem; essas duas sílabas não são senão duas sílabas; e aquilo que significam não é senão a realidade existente. Maria Leonor Xavier – autora da introdução e comentários –, quando se refere à ordem da linguagem em «O Mestre», está em poder parecer que a discussão em torno das palavras não passe senão de uma digressão preliminar à apresentação do seu principal teor: a doutrina do Mestre Interior. Todavia, e ainda segundo a ilustre catedrática, a investigação conduzida sobre a função significante das palavras proporciona-nos mais do que um exercício propedêutico das forças do espírito, na medida em que descobre elementos de uma ordem racional da linguagem. E prossegue: entre esses elementos, destacam-se duas regras de linguagem que regem a função de significação das palavras: a regra da nominação e a regra da comunicação. Por aquilo que apreendemos em Santo Agostinho, a regra da nominação (podem significar nomeando) não é tão evidente como a regra da comunicação (uma regra do pensamento). Por isso, mais importante que as palavras é o conhecimento, sendo que as palavras ao serem meramente remissivas, estimulam-nos apenas o conhecimento e só têm valor em função do mesmo. Por outras palavras – com as devidas desculpas pela redundância –, e ainda segundo o que apreendemos, se não houver um conhecimento prévio, as palavras não têm valor. No fundo, as palavras só servem enquanto instrumento das coisas. Ao constatarmos com “realidades conhecidas sem sinal” em Santo Agostinho, concluiremos que é possível conhecer as coisas à letra sem a contaminação da linguagem. Para ele, o poder da palavra reside não nela própria, mas na realidade mesma da qual ela é sinal.
  

Com a envolvência dicotómica, introduz-se assim a necessidade em distinguir quando uma palavra é pensada apenas segundo o som ou letras pelas quais se forma, ou quando é pensada pela realidade que significa. Imbuídos da noção dessa mesma dicotomia, estaremos em concordar com Maria Leonor Xavier quando afirma que “O Mestre” é, ademais, um diálogo que conta com um interlocutor muito especial, o filho adolescente de Santo Agostinho, Adeodato: Tópicos gramaticais são naturalmente acessíveis a Adeodato, embora o diálogo pretenda exibir a sua instrução disciplinar do que manifestar as suas qualidades filosóficas, de acordo com os novos propósitos pedagógicos que animar o autor. Se Adeodato assevera que apenas se deve responder ao que as palavras significam, Santo Agostinho afirma-se pela distinção clara entre as palavras e/ou a sua função gramatical e a realidade que esses sinais significam: Para omitir outras razões, se a minha primeira pergunta a tivesses tomado toda pelo aspecto das sílabas que soam, nada me terias respondido; efectivamente poderia até parecer-te que também eu nada tinha perguntado. Agora porém, quando eu fiz ressoar três palavras, uma das quais repeti ao inquirir – se homem é homem – que a palavra central e a final não as tomaste segundo os sinais mesmos, mas segundo a realidade por elas significada, é manifesto mesmo só por isto, que imediatamente julgaste dever responder à pergunta, certo e confiante – citamos Santo Agostinho.
Parafraseando Maria Leonor Xavier, estaremos em afirmar que através das palavras, não só se atribuem denominações como também se pode dizer ou chegar à verdade. Segundo a mesma autora, essa relação entre o discurso e verdade requer uma mediação pelo processo do conhecimento. Não é por acaso que graças às investigações filosóficas de Ludwig Wittgenstein, Santo Agostinho é conhecido como tendo escrito sobre a filosofia do tempo e da linguagem. Para se perceber melhor a noção entre sinais e realidades em Santo Agostinho, tomaremos em referência a abordagem que Peter J. King faz a propósito do conceito de linguagem neste “douto” da Igreja Católica: A sua abordagem da linguagem está de acordo com o modelo do período, envolvendo o pensamento de que as línguas humanas fazem duas coisas: servem para representar ideias e pensamento e representam a estrutura dos pensamentos, na medida em que estes são «vozes internas» em si mesmos em qualquer língua, que são tornados públicos pelas nossas verbalizações linguísticas. [...] A linguagem [em Santo Agostinho] consiste no último tipo de signo, cuja natureza é totalmente convencional. Aquilo que exactamente se passa na mente muda no decurso do pensamento de Agostinho e não é fácil de determinar.
Tendo em atenção a necessária separação entre sinais e realidades e em resposta à interpelação de seu filho Adeodato, quando lhe pergunta “porque nos fere então o espírito quando se diz – portanto não és homem – uma vez que segundo o que foi admitido, nada de mais verdadeiro se podia dizer?”, Santo Agostinho apela para a necessidade dessa mesma distinção (e/ou necessária separação) afirmando que porque não posso deixar de supor, apenas soam tais palavras, que a conclusão se refere ao que é significado por essas duas sílabas, em virtude daquela lei que tem muita força na ordem da natureza, a saber, que ouvidos os sinais, o pensamento se dirige para as coisas significadas – citamos.
Para concluirmos da melhor forma o pretenso comentário (diríamos antes, devaneio) ao capítulo VIII d’O Mestre, citaremos António Soares Pinheiro, a dado momento da introdução ao referido diálogo, inserido em Opúsculos Selectos da Filosofia Medieval quando nos diz: “Analisando o mundo do conhecimento, havia já distinguido em O Mestre duas categorias de verdades, as sensoriais e as inteligíveis. Interiorizando-se mais na consciência, descobre entre as verdades inteligíveis as «verdades eternas», último e irredutível fundamento de toda a verdade e certeza”. Segundo o mesmo autor, Santo Agostinho não foi apenas buscar à consciência as certezas fundamentais; o verdadeiro objecto da filosofia ficou sendo para ele a mesma consciência, cujas profundidades e mistérios competia à inteligência desvendar.

Hoje, infelizmente, as palavras, a linguagem, os sinais e a realidades, são dados ao homem para dissimular vulgaridades, levando à adversidade e à resignação!   

Friday, February 21, 2014

“N-COOLTURA” proporciona visita guiada ao Castro de Roques!...

“A vontade enérgica é uma esperança meia realizada”

Camilo Castelo Branco

Foi com uma “vontade enérgica” que participamos no último dia das jornadas culturais do “N-COOLTURA”, projecto cultural protagonizado, de forma pioneira, por três freguesias vianenses do vale do Neiva: Vila de Punhe, Mujães e União de Freguesias de Barroselas e Carvoeiro, sendo que as autarquias envolvidas compreendem a importância da cultura no desenvolvimento intelectual do indivíduo e da comunidade e, nesse sentido, assumem o compromisso de desenvolverem, até 2017, diversas actividades circunscritas ao mesmo projecto. Segundo nos apercebemos, embora o projecto seja marcadamente de âmbito cultural, numa visão integrada e complementar, admite a possibilidade de outros temas serem expostos, como, por exemplo, o ambiente, o desenvolvimento, a educação e o desporto. Há a realçar o facto de o Núcleo Promotor do Auto da Floripes ter tido um papel importante nesta fase inicial deste mesmo projecto que, enquanto projecto didáctico, se pretende aberto e multi-participativo, obrigando “a uma ligação umbilical com a comunidade escolar e a um contínuo envolvimento do rico tecido associativo e institucional que abrange as três comunidades” – citamos, dos objectivos do “N-COOLTURA”.


Imbuídos pelo espírito de cooperação, ainda que como mero espectador, preenchemos a parte da manhã de 15 de Fevereiro de 2014 (Sábado), ouvindo Alexandre Parafita, Professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, escritor e investigar, através de uma excelente palestra subordinada ao tema “Tradições, lendas e mitos: o que vale o património imaterial de um povo?”, indo ao encontro do “slogan” destas jornadas culturais: «O IMATERIAL E O PATRIMÓNIO LOCAL». Excelente dissertação, complementada com uma exposição filatélica: «O património do Vale do Neiva» e a leitura da “Lenda do Santinho”, da autoria da jovem estudante Andreia.

Da esquerda para a direita: Manuel Rego, Tarcísio Maciel, Porfírio Silva, António Costa e Manuel Ribeiro

Da parte de tarde, rumamos até à acrópole do Castro de Monte de Roques, povoado fortificado com ocupação da época do ferro, de planta ovalada, constituído por cinco cinturas de muralhas, com cerca de seis hectares, tendo em alguns troços aproveitado para a defesa o declive natural do terreno. Noutras zonas, como por exemplo no sector N., parece que as muralhas eram reforçadas. Casas de planta circular, com pavimento de terra batida e fogueira central; alguma delas têm aparelho exterior distinto do interior e ficam junto a um arruamento lajeado com conduta lateral para a água. Dentro da primeira cintura de muralhas existe uma fonte de mergulho, bastante obstruída; o Penedo do Galo e o da Pegada do Santinho, cavidades que deram aso à lenda de São Silvestre e seu cajado; e a tão conhecida Boca da Serpe que foi, segundo tradição, a entrada da cisterna onde os castrejos se abasteciam de água, qual “visita pedagógica”, magistralmente guiada pelo Arqueólogo Tarcísio Maciel, nos faria recordar o grande vulto do vale do Neiva, Leandro Quintas Neves (1895-1972), os seus trabalhos, assim como as comunicações apresentadas em vários congressos nacionais e internacionais sempre bem acolhidos, tanto pela oportunidade como pela sua qualidade. Toda esta região, Leandro Quintas Neves palmilhou de uma forma incansável registando todos esses passos ao ínfimo pormenor, com a mestria que lhe era peculiar, transpondo para os seus trabalhos toda a envolvência que caracteriza e enforma o «modus vivendi» do homem alto-minhoto. Escreveu um dia o Coronel Alberto Sousa Machado, a seu propósito: «Como escritor, apesar do seu muito saber, foi um modesto sem qualquer presunção ou vaidade. O seu carácter de uma honesta sinceridade vincada tanto o seu proceder nas relações humanas como os seus escritos fruto de um estudo meticuloso e persistente. É essa faceta característica de todos os seus escritos no ramo das ciências a que se dedicou, a arqueologia e a etnografia». E como bem recordaria Tarcísio Maciel, foi Leandro Quintas Neves o pioneiro, que trouxe até nós, desenterrando do passado, o Castro de Roques. À acrópole desta grande “metrópole” castreja, guiados pela grande mestria de Leandro Quintas Neves, subiram grandes vultos da arqueologia e da etnografia de então, tais como: Coronel Sousa Machado, Abel Viana, Prof. Doutor Santos Júnior, Tenente Coronel Afonso do Paço, José Rosa Araújo, entre outros.

E porque, ao falarmos do nosso passado, estamos a falar do nosso futuro, já não era sem tempo de começarmos a ter mais respeito pelo património (material e imaterial) da nossa região, de modo a acreditarmos num futuro melhor e proficuamente COOLtural!

Monday, February 17, 2014

Rousseau: do pecado do paraíso, ao paraíso sem pecado

“Rousseau introduziu uma dimensão qualitativa à heterodoxia religiosa da época, tornando-a mais organizada, agressiva e perigosa”

Fernando Augusto Machado

Foi através da obra «Rousseau em Portugal», do Professor Doutor Fernando Augusto Machado, catedrático jubilado da Universidade do Minho, o qual tivemos o prazer de conhecer e com ele aprender, que encontramos o condimento necessário à apreciação do terceiro capítulo dessa mesma obra – «Antropologia: do pecado do paraíso, ao paraíso sem pecado» – e que, ao mesmo tempo, nos levou a questionar até que ponto podemos encontrar razões, ao tempo, que demonstrem causas dos poderes político e religioso em Portugal, para temerem as obras de Rousseau. Se tomarmos em linha de conta que, como afirma o autor na introdução, com Rousseau não se pode privar sem paixão, independentemente do sentido que a oriente: pelo seu génio, pelo relevo alcançado, pela diferença, pela controvérsia, pela provocação, pela “loucura”, facilmente depreenderemos que muitas teriam sido as razões que levaram os poderes político e religioso em Portugal, a temerem as obras e, sobretudo, o pensamento de Rousseau.
Começando pelo desclassificado «Discurso sobre a origem e fundamentos da desigualdade entre os homens» – sendo que o concurso a que Rousseau se propôs com esta obra foi ganho por Grosley que defendeu exactamente a mesma tese de Rousseau –, discurso esse que acabou por lhe valer o título póstumo de fundador das ciências do homem. Sobre o pretexto do elemento lei natural Rousseau vai construir a sua teoria antropológica: Sendo o homem o elemento de convergência central do pensamento rousseauniano e, nessa sequência, o que lhe dá unidade, vai ser também a sua teoria do homem o núcleo mais fecundo de controvérsia e de definição de ataque dos seus opositores. De facto, o entusiasmo pela História Natural assente na construção da ideia de homem como criatura da natureza, como elemento integrado na grande cadeia natural dos seres, levaria ao furor da produção e das leituras, de que é exemplo a Histoire Naturalle de Buffon, obra que viria a merecer a ira condenatória da Faculdade de Teologia de Paris, em Janeiro de 1751, e que fez nascer uma retratação estratégica do autor, publicada em Março de 1753 no IV volume da obra. A teoria do homem natural de Rousseau vai no sentido de um referencial qualitativo relativamente ao naturalismo da época, dado que mais que definir ou conhecer a história do homem natural, o mesmo filósofo propõe que se realize uma nova religião, uma nova educação e uma nova moral. Segundo Fernando Machado, é através desta projecção prática para uma nova política que reside a dimensão mais revolucionária de Rousseau e através da qual germinaram com maior fecundidade – aquilo que Fernando Machado chama – as sementes da violência que em vida o perseguiram e depois o anatemizaram: Neste sentido, trata-se de uma teoria que vale sobretudo pelo não dito, pelas implicitudes que se escondem na “quimera” e que se manifestam a posteriori. Daí as frequentes leituras ingénuas dos que se movem apenas nas patências dos conteúdos, julgados como criação da bizarria ou loucura de um espírito fraco que se entretém a insultar a humanidade!


De notar ainda que, para este ilustre catedrático da Universidade do Minho, o paradigma antropológico rousseauniano afasta-se radicalmente dos padrões existentes a três níveis: nas perspectivas metodológicas da sua construção; nos pressupostos e na definição da essência do seu objecto, a natureza humana; nos objectivos que pretende servir. Na metodologia de construção, Rousseau pretende adoptar uma metodologia de teor genético na busca da natureza originária, de forma a descortinar a verdadeira essência do ser, ou seja, a sua natureza, perspectivada no desenvolvimento histórico-social do homem, em detrimento do paradigma bíblico do homem perfeito da criação: Através desta teoria do homem natural, Rousseau atribui ao indivíduo homem um conjunto de atributos ou “direitos” que são anteriores à sua realidade social e que são insusceptíveis de modificação sem que isso determine a mudança da própria essência. Por outro lado, para este mesmo filósofo, o conceito de natureza do homem nada tem a ver com o conceito de homem natural, sendo que ao primeiro lhe é inerente uma compreensão muito mais alta, substantivada através de potencialidades inactuais ao segundo, como sejam, entre outras, a razão, a sociabilidade e a linguagem. Perante estas perspectivas, fácil será constatar o incómodo para os detentores dos “padrões morais” existentes na época.
Não admira nada toda esta controvérsia, dado que Rousseau carregava o conceito de realismos e positividades, remetendo o estado da natureza para uma natureza desdivinizada: Apresentando disponibilidades potenciais constitutivas de manifesta superioridade, o homem da natureza assentava, todavia, numa base próxima da animalidade em termos de disponibilidade actual, nomeadamente no que respeita à racionalidade. Substituindo a racionalidade pela liberdade e perfectibilidade da espécie, Rousseau acabou por projectar o homem numa historicidade incompatível com o Génesis. Por exemplo, o mesmo filósofo considera a família como o mais antigo grupo societário e o único natural: Só que a sua constituição não é fruto do princípio actuante de uma sociabilidade natural. É antes instrumento ao serviço de uma necessidade vital inerente ao princípio de conservação da espécie e do indivíduo. Outro facto a realçar, enquanto que para a ortodoxia cristã o estado de corrupção obrigava a uma mudança de sentido no desenvolvimento humano, ou seja, implicava a definição prévia de metas e fins exteriores ao próprio homem, para as doutrinas naturalistas foram firmando o princípio do desenvolvimento espontâneo com ou sem intervenção divina: A conjugação deste último aspecto depurado da intervenção imediata do divino com o princípio da bondade natural permitiu a Rousseau a elaboração de uma antropologia não finalista e liberta de qualquer orientação transcendental.
Por estas e outras razões, facilmente constataremos que Rousseau foi um nome que marcou a modernidade, quer no campo antropológico, político, ou mesmo religioso.

E Portugal não fugiu à regra!   

Saturday, February 15, 2014

Fonseca Alves publica “Memórias de Guerra”!...

“(…) um livro, sem dúvida, cheio de interesse não só para os participantes na narrativa, pois vão ter a possibilidade de recordar bons e maus momentos da sua juventude em solo africano, mas também para terceiros eventualmente interessados em conhecer um pouco da História recente de Portugal no que se refere à dita guerra colonial”

Célio Rolinho Pires

Conhecemos há cerca de duas décadas o bom amigo Fonseca Alves, através desse maravilhoso antídoto que se chama poesia, e de dois amigos comuns, infelizmente desaparecidos do nosso meio físico: Júlio Evangelista e Manuel Parada. O início da nossa amizade – por certo perpetuada até ao definhamento do templo físico da nossa alma – foi selado com a amável oferta da sua obra discográfica «Ex-líbris da Poesia Portuguesa», na qual Júlio Evangelista, em jeito de prefácio, o apresenta da seguinte forma: «Homem culto e declamando como ninguém, Fonseca Alves foi o introdutor em Portugal de Omar Khayyam – sábio e poeta da Pérsia antiga – não só quanto à declamação e ao seu lançamento discográfico, mas ainda através de recitais, saraus culturais, da realização de palestras e entrevistas à comunicação social. A sua arte é perfeita. Voz timbrada com correcção, modulações cativantes e por vezes subtis, os versos na sua voz transformam-se ou em gritos de alma, ou em sussurros de amor, águas versejando nos córregos, ondas lambendo as praias de espuma, brisas ciciando segredos (…)». Retrato fiel e coerente, que nos leva apenas a acrescentar o facto de ter sido da Polícia Judiciária e exprimir as suas convicções políticas por um assoberbado e/ou coerente nacionalismo (envolto num bem vincado princípio de carácter, princípio esse hoje tão mal tratado e descaracterizado pelas “libelinhas” e “vendilhões do templo”, na política da globalização), o que faz aumentar a nossa admiração por si.
Hoje, estamos aqui para falar das «Memórias de Guerra do Ultramar» do lado menos poético de Fonseca Alves, já que se trata de uma obra da sua autoria, editada pela “EDIÇÕESECOPY”, onde – e parafraseando Célio Rolinho Pires – nos oferece um produto “de alguém bem preparado de um ponto de vista cultural e a escrita que nos apresenta é escorreita, sadia, aliciante, bem estruturada, por vezes bem-humorada e até vernácula, em certo sentido. É de referir, em abono da verdade, que o Fonseca Alves conhece bem os meandros da literatura, sobretudo da poesia, sendo, aliás, declamador bem conhecido nos circuitos ligados às artes e ao teatro. Mas também, e no tocante à História, chegou a ter a seu cargo, penso que sobre a História Antiga, programas de apresentação semanal de larga audiência, em algumas rádios locais do Norte. Portanto, este livro que ora sai, pese embora a temática específica da guerra, é sem dúvida um trabalho bem estruturado de um ponto de vista formal, mas também semântico, sintáctico e, até, estilístico-literário (…)” – Assim, textualmente… Para quê inventar, se nos revemos nas palavras do prefaciador?
Mesmo assim, que nos perdoem o autor e o prefaciador, não queríamos deixar de arriscar uma “leitura pessoal”, assente na nossa sensibilidade estética, revestida de uma humildade calma e prudente, numa tentativa de equilíbrio e bom senso, por forma a não cairmos na “presunção” de nos alvorarmos em crítico literário. Nesse sentido, atrevemo-nos a afirmar que estamos perante uma obra magnífica, realista, sem distorções, dissimulações ou falsos heroísmos, o que nos leva a emprestar-lhe as palavras de Amadeu Torres (Castro Gil), a propósito do nosso “Chamaram-me Muxicongo”, porque bem lhe assenta como uma luva: “Não foi, com efeito, o desejo de agradar que lhe moveu a pena, até porque algumas verdades podem amargar. Escreveu, sim, para o mundo, para a história. São estas abordagens que possibilitarão um dia as grandes visões de conjunto, nas quais a imparcialidade e objectividade ressaltarão finalmente por sobre todas as ambiguidades e desmemórias que teimam ainda impor-se-nos ou impingir-nos”, da África minada pelas intrigas e interesses ocultos de países hipocritamente amigos, e da “parafernália militar fornecida por aqueles cujos tiranetes disfarçados de vendedores de banha de cobra pretenderam submeter o mundo às super-ditaduras” – aqueles soldados negrilhos, que não desertaram quando o podiam ter feito, mantiveram-se fidelíssimos nas fileiras do Exército Português, porque enquanto portugueses de Moçambique, mais patriotas do que alguns da Metrópole, quiseram servir uma África Lusíada, um Portugal de Portugal (p. 29) –, bem visíveis nos tempos que correm, diremos nós.


Este livro descreve de uma forma tão genuína, diríamos até peculiar, lugares, cheiros, trilhos de picadas, matizes de amarelo e verde do capim, as lonjuras do planalto, a aurora a raiar até ao crepuscular vespertino, estádios psicológicos de patriotismo, refractários e desertores, o sentido do dever cumprido, comprometedoras condutas, sentidos bem apurados, indícios de fanfarronice, silêncios aterradores, copiosas chuveiradas debaixo do bidão, concomitância sonora de granadas, sensibilidade no gatilho, voos de reconhecimento, presteza e determinação à voz do comando, soldados desfalecentes e espojados no solo, ataques a aquartelamentos, estar no mato e bater-se com denodo e portuguesismo, falsos conceitos de valores e hodiernos heroísmos, missões extremamente arriscadas e quase infactíveis nos matos agrestes, guerra selvosa e vulpina onde não se distingue o trivial quotidiano, a distribuição de um quarto de casqueiro com chouriço (divinal, enlatado e conservado em azeite, que ainda hoje faria sorrir muitas famílias), a suplicação a Nossa Senhora dos Aflitos, etc., etc., complexo lexical em que devíamos, de contínuo, ter usado aspas, visto que extraído dos textos. Nada aqui é inventado.
Um bem-haja para a editora e para o bom amigo Fonseca Alves, pelo testemunho dado em prol do verdadeiro curso da História.

Nota máxima!            

Tuesday, February 11, 2014

Procura dos sinais de consciência

“Os espíritos medíocres condenam sistematicamente tudo quanto está acima da sua compreensão”

La Rochefoucauld

Só porque tivemos uma semana extremamente negativa, ao ponto de um amigo/irmão – apesar da sua formação em medicina – se ver confrontado com um problema de causalidade mental, a merecer da nossa parte o recurso à interpretação e indiscernibilidade da obsessão pelo suicídio, colocando-nos perante três interrogações pertinentes, que remontam ao tempo em que deambulávamos por obrigação, à volta da “Filosofia da Mente e Cognição”: Como identificar a influência causal? Quais os sinais que revelam essa influência causal? Se essa influência causal existe, como denuncia a sua presença?
Comecemos pela imagem científica do mundo. Torna-se bem claro que todos dependem de uma imagem científica do mundo. O mapa do problema de William James, por exemplo, é claro na indicação do curso da acção. Duas histórias correm lado a lado com fidelidade: Uma das histórias só tem sentido contra a outra se exercer uma função útil. A sequência de pensamento jamesiano pode ser melhor compreendida pelo fim. Suponha-se que, de facto, existe uma influência causal da consciência no sucesso biológico dos indivíduos. Será que o que importa é a identificação dos sinais da consciência? Para Manuel Curado (UM) – fazendo nossas as suas palavras –, há quatro pontos a ter em conta: 1 – A manutenção de um registo de memória ao longo do tempo de vida do indivíduo é um início da presença da consciência; 2 – Os indivíduos biológicos em que a distinção entre dor e prazer é conspícua têm mais probabilidades de sobrevivência do que os indivíduos em que essa distinção é inexistente; 3 – Um nível X de complexidade organizacional dos cérebros é condição suficiente para identificar a presença da consciência; e, por fim, 4 – Os sentimentos de paixão amorosa revelam a influência causal da consciência na vida dos sujeitos.


O problema jamesiano da procura de sinais da eficiência causal da consciência não está encerrado numa colecção finita de situações padronizadas. Assim, a referência aparentemente excepcional do ser humano adulto consciente é um esquema de interpretação da presença da consciência entre muitos outros esquemas. Uma coisa é certa, se optarmos por um princípio racional, facilmente concluiremos que não existe nenhum princípio dessa natureza a partir do qual se possa avaliar todas as situações de identidade entre sujeitos conscientes (autistas vs. pacientes da síndrome do locked in, lobotomizados vs. microcéfalos, professores universitários vs. apanhadores de coral, etc.) e entre estados de consciência (depressão vs. alegria, sonho lúcido vs. insónia, actividade racional vs. vergonha, etc.). A haver esse princípio, ele teria que ser interpretado. Por isso, o resultado da procura dos sinais de consciência é ambíguo. Ou seja, partimos do que é suficientemente bom para poder ser interpretado como consciente (Ex: quando alguém toma uma atitude socialmente reprovável é característica a expressão – És um inconsciente!) e reforça-se no que é indiscernível de uma experiência subjectiva que se toma provisoriamente como padrão (a do próprio sujeito) – Para nós, hoje, é indiscernível a corrupção e prática da Inquisição; a pena de morte; a escravatura actual, etc.
E porque andamos absorvidos pelas fragilidades do nosso amigo/irmão, diremos que as experiências subjectivas de um único sujeito são constantemente interpretadas e comparadas e, também a seu respeito, não existe um critério absoluto (Ex: uma coisa é aquilo que eu sou, outra coisa é aquilo que julgo que sou. Se eu não me conheço em função da minha consciência – e/ou equilíbrio pessoal –, como poderei desenvolver a minha urbanidade desde a família à sociedade?). Um indivíduo para que possa saber que está consciente tem que identificar sinais e essa é uma actividade em linha de continuidade com processos como o da identificação de rostos de pessoas suas conhecidas. Conteúdos parciais da consciência, como actividade racional, sonho, depressão, ou sentimento amoroso, são interpretados e os seus sinais não são tão evidentes que não necessitem de um inquérito racional (Sonhar é um estado da consciência – por isso é que há a interpretação imediata dos sonhos). A apreensão que a consciência faz de si mesma para ser tão imediata que não necessita de processos de interpretação de sinais. Uma das características principais da consciência é a da verificação de inconsistências nas avaliações de identidade, seja a própria, seja a de outros seres humanos. Ter sensações subjectivas significa, entre muitas coisas, que alguns sinais, eventos, estruturas e conteúdos, são interpretados como fazendo parte do si mesmo e outros como não fazendo parte do si mesmo.
 Outro facto a ter em conta é que, no dizer de Manuel Curado (Obsessão Ocidental: o problema da causalidade mental), o elemento comum à normalidade e à patologia é a possibilidade do erro que acontece na interpretação de sinais ou indícios. O ponto interessante é o de que todos têm de fazer interpretações porque o referente da palavra que utilizam – “consciência” – não pode ser acedido sem a actividade de interpretação. O grau mínimo da interpretação começa por ser a observação, isto é, o ponto em que se contacta com o objecto a interpretar. Não há interpretações universais tal como não há actos de observações neutros.

Nesse sentido, escusar-nos-emos a interpretações e indiscernibilidades, e manteremos uma atenção redobrada à actividade racional do nosso amigo/irmão, mesmo quando de um médico se trata!   

Friday, February 07, 2014

“In perpetuam rei memoriam” de João Roriz!...

“O homem culto é razoável para com os outros, compreensivo, correcto, bem-educado, atencioso. Em resumo: Um homem no sentido mais elevado da palavra”

Montapert

Foi num dos dias (terça-feira, 28 de Janeiro de 2014) em que fomos visitar, ao Hospital Distrital de Viana do Castelo, o nosso amigo/irmão Gualberto Boa-Morte Galvão, ilustre artista da fotografia da nossa praça, que ouvimos da sua boca a triste notícia do passamento, às sete horas desse mesmo dia, do seu (e nosso) particular amigo de longa data João José Roriz, um vimaranense que sempre teve o coração preso a Viana do Castelo.
Já uma vez o havíamos escrito – A Aurora do Lima, Ano 149, N.º 38, 21 de Maio de 2004 –, que enquanto ficamos agarrados ao sentimento de “autodestruição”, dizendo, por tudo e por nada, mal da terra que nos viu nascer, outros deixam-se encantar pelo bucolismo do “verde mais verde” e pelo branco caiado das capelinhas deste Alto Minho granítico, hospitaleiro e encantador. E se, eventualmente despertamos para esse sentimento, culpabilizando terceiros pela nossa falta de “auto-estima”, por certo que alguma dessa aguçada predisposição maleficente não pode ser imputada nem assentava na personalidade do bom amigo e artista de fotografia, João José Roriz. Este ilustre empresário vianense (deixem-nos que assim o consideremos), apesar de ter nascido na cidade berço de Guimarães, na Rua D. João I, a 28 de Maio de 1933, tinha o coração preso a Viana: Viana é a menina dos meus olhos!
 Era da idade de nosso pai (desencarnado há três anos) o que justifica, logo à partida, uma certa empatia. Contudo, a recordação mais remota, advém-nos aquando, em terras do Congo e Zombo (Angola), nosso pai receberia a nossa primeira fotografia da “praxe”, no áureo florescer dos três anos de idade... Dali a seis meses partiríamos para sua companhia, trocando o Lima das lampreias pelo Luidi dos jacarés, fazendo-nos acompanhar pela foto assinada “Roriz Viana”. Estávamos em 1959!

João Roriz no programa «Café Nocturno» (Radio GEICE), com o autor desta crónica e o inesquecível Lucilo Valdez

Mas, voltemos ao amigo João Roriz: Após a conclusão do ensino primário, tinha no seu horizonte um ingresso no ensino superior caso, ao dez anos de idade, não ficasse órfão de pai, o que obrigaria, sendo o filho mais velho de três irmãos, a trabalhar para poder sustentar a casa. É em Guimarães que começa a trabalhar como marçano, na altura no – talvez – melhor estabelecimento comercial da região – Casa dos Linhos e Atoalhados «Teixeira d’Abreu». Simultaneamente frequentou a Escola Comercial e Industrial «Francisco da Holanda» no Curso Comercial nocturno.
Veio para Viana do Castelo há mais de sessenta anos onde ingressou no ramo da fotografia de seu tio «Foto Roriz», profissão essa que, felizmente para todos nós, viria a ser exercer por muitos e longos anos.
Estabelecido por conta própria no mesmo ramo há mais de cinquenta anos acumulou, em tempos, ainda a função de “correspondente-operador” da «Radio Televisão Portuguesa» (RTP), para o distrito de Viana do Castelo, durante 22 anos. Foi ele um dos principais responsáveis pela criação das delegações da RTP e do IAPMEL, sempre acompanhado por diversos membros do Governo, e atendendo aos serviços prestados à comunidade, no seu primeiro mandato de três anos como presidente da então «Associação Comercial de Viana do Castelo» (ACVC), com extensão aos concelhos de Caminha, Vila Nova de Cerveira, Paredes de Coura e Valença, é atribuída à referida associação pela Câmara Municipal de Viana do Castelo, a medalha de ouro da cidade.
Foram muitas as instituições que conheceram a sua dinâmica – ora como presidente da direcção, conselheiro ou como membro de um outro órgão directivo –, das quais destacamos o «Rotary Club de Viana do Castelo», o «Viana Taurino Club», a «Comissão Regional de Turismo», a «Junta Autónoma do Portos do Norte» (JAPN), a «Comissão Regional da Segurança Social» e a «Federação do Comércio Retalhista Português». Para além disso foi vogal da «Defesa Civil do Território», da «Comissão de Trânsito», da «Comissão de Festas de Viana do Castelo» e da «Comissão Administrativa do Sport Clube Vianense» (SCV). Foi, também, um dos sócios fundadores da «Liga dos Amigos do Hospital de Viana do Castelo».
João Roriz sempre soube repartir o seu tempo em apoio às instituições atrás referidas e encontrava ainda energias para dirigir (ou colaborar) as festas de Carreço, servindo a Junta de Freguesia, onde tinha a sua residência, há cerca de 40 anos. Era casado com a D. Maria Elisete, professora do Ensino Básico.
Este Homem que tinha por lema “dar de si, antes de pensar em si”, talvez ainda não tenha sido reconhecido, como devido, pelos serviços prestados à região, quiçá ao país. Na altura em que era “correspondente-operador” da RTP, ainda se falava, pela positiva, de Viana, a menina dos seus olhos...

Bem-haja, amigo João Roriz e até sempre!                 

Monday, February 03, 2014

Jean-Paul Sartre e a natureza humana

“Os homens. É preciso amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea. Então é isso a Náusea: essa evidência ofuscante? Existo – o mundo existe -, e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta. Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca…”

Jean-Paul Sartre

Esta semana discutíamos com um amigo de longa data – autodidacta, que se dedica ao conhecimento científico da identidade cultural dos seus símbolos, cultos e rituais, complementado com estudos científicos de toponímia –, a possibilidade fraudulenta, segundo ele, da teoria freudiana do determinismo psíquico (consciente, pré-consciente e inconsciente), e lembrar-nos-íamos logo de Jean-Paul Sartre, quando o mesmo nega que haja uma “natureza humana”, afirmação pela qual rejeita o existencialismo de cunho generalizado. Para ele, a existência do homem precede a sua essência, que o mesmo será dizer que não fomos criados com nenhum objectivo, nem por Deus nem pela evolução nem por qualquer outra coisa. A asserção central da condição humana é, naturalmente, a liberdade humana. Para Sartre a liberdade reside na consciência de que existimos e termos de decidir o que fazer de nós mesmos. Apesar disso não pretende negar a existência de certas propriedades universais inerentes à sobrevivência, como é exemplo, a necessidade de comer.
Para chegar à asserção central da liberdade humana, o filósofo francês, parte de uma distinção radical entre a consciência (o ser-para-si), e os objectos não conscientes (o ser-em-si). Ainda, segundo ele, este dualismo básico é evidenciado pelo facto de que a consciência – sendo que a mesma está sempre consciente de si mesma – tem necessariamente um objecto, que é sempre consciência de alguma coisa que não é ela própria, sendo necessário distinguir entre ela própria e o seu objecto. Esta interacção liga-nos à nossa própria capacidade de fazer juízos a respeito desses mesmos objectos. Envolto em afirmações obscuras como «O nada reside enovelado no coração do ser – como um verme», Sartre faz jogos de palavras “desorientantes”, de que é exemplo também a máxima da “existência objectiva de um não-ser”. Segundo ele, a capacidade de conceber a negativa constitui a liberdade de imaginar outras possibilidades, a liberdade de fazer uma suspensão de juízo. O poder de negar é, por assim dizer, o mesmo que as liberdades de pensamento (imaginar possibilidades) e de acção (tentar realizá-las)... Ser consciente é ser livre!


Ao sustentar que a consciência é necessariamente transparente para si mesmo e que todo o aspecto das nossas vidas mentais é intencional, escolhido e de nossa responsabilidade, o filósofo francês contradiz a teoria freudiana do determinismo psíquico. No seu Esboço de uma Teoria das Emoções, Sartre afirma que as emoções não são coisas que nos “assolam” mas maneiras pelas quais apreendemos o mundo. E dá alguns exemplos em como somos responsáveis pelas nossas emoções e pelos traços duradouros da nossa personalidade – ao afirmarmos que as uvas de um cacho estão verdes, quando fora ou na impossibilidade de as alcançar –, sendo que a nossa liberdade e, consequentemente, a nossa responsabilidade, se estende a tudo que pensamos e fazemos.
Tomando como referência Kierkegaard, convenhamos em referir que Sartre usa o termo “angústia” para descrever a consciência da própria liberdade. Segundo o mesmo filósofo, a angústia não é o medo de um objecto exterior, mas a consciência da imprevisibilidade última do próprio comportamento.

Jean-Paul SARTRE alerta-nos para o facto de ao encararmos má-fé como tentativa de fugir da angústia, a mesma acaba por se nos revelar numa “fuga” ilusória, dado que a nossa própria liberdade é uma verdade necessária. Por isso, a angústia, a consciência da nossa liberdade, é dolorosa, e assim tentamos evitá-la. Sartre dá dois exemplos famosos de má-fé, sendo que apenas os citaremos para contextualizarmos o seu pensamento: «Uma moça está ao lado de um homem e sabe muito bem que ele gostaria de seduzi-la, mas quando ele segura a sua mão, ela tenta evitar a necessidade dolorosa de uma decisão e finge não notar» e «Um garçom que, ao identificar-se completamente com o papel de garçom, finge que esse papel específico determina todas as suas acções e atitudes». Sartre rejeita a explicação freudiana da má-fé em termos de estados mentais inconscientes.

Friday, January 31, 2014

“Monstros Antigos” em Porfírio Silva!...

“De toda a poesia portuguesa lida em 2013 — estou a falar de inéditos de consagrados, novos e novíssimos —, Monstros Antigos é o livro que mais me instigou…”

Eduardo Pitta

Se eventualmente o título desta nossa crónica pudesse intrigar todos aqueles que, semana a semana, fazem o favor de nos ler, depressa se excluiria tal pressuposto, tendo em conta que o Porfírio Silva em “referência titular” é um filósofo da ciência, cujo trabalho mais recente se centra no tema das sociedades artificiais e no papel social dos robôs. De facto, este Porfírio (Carvalho) Silva (n. 1961), é licenciado e mestre em Filosofia. Doutorou-se em Epistemologia e Filosofia das Ciências, em 2007, com uma tese sobre as ciências do artificial como ciências do humano. Foi Investigador Visitante no Institut Supérieur de Philosophie, da Université Catholique de Louvain, e na Facultad de Filosofía da Universidad Complutense de Madrid. É actualmente investigador no Instituto de Sistemas e Robótica (pólo do Instituto Superior Técnico), como bolseiro de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Aí, tem sido organizador dos Ciclos de Conferências com o título genérico “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais”, actividade multidisciplinar que teve em 2011 a sua terceira edição. Publicou os livros A Filosofia da Ciência de Paul Feyerabend (1998, Piaget), A Cibernética: Onde os Reinos se Fundem (2007, Quasi), Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais (2011, Âncora) e Podemos matar um sinal de trânsito? (2012, Esfera do Caos). É colaborador do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa e do Projecto MILPLANALTOS.


Regressado há cerca de quatro meses (22 de Setembro de 2013) do Japão, onde esteve como Investigador Visitante no Department of History and Philosophy of Science (Graduate School of Arts and Sciences) da Universidade de Tóquio, Porfírio Silva acaba por nos surpreender com a publicação de «Monstros Antigos», numa bem conseguida edição, porque esteticamente perfeita, da “Esfera do Caos Editores”. E de nada lhe vale dizer que “não passo a ser poeta por escrever um livro de poesia. Podia, pois, hesitar em publicar. Só que não há tempo para burilar justificações: esta é uma poesia da urgência, uma poesia necessária, algo que poderia adiar em tempos de lassidão – mas não hoje. É duro afastar o nevoeiro com as mãos nuas, mas é preciso tentar. Quem diz com as mãos, diz com as palavras”, quando a percepção que temos da poesia, enquanto essência do estar e do ser, leva-nos a creditá-lo como um poeta desentrincheirado, de urgência: “Escrever poesia é uma necessidade quando o dia do cão negro espreita, quando se desequilibra a única aresta do tempo onde passados e futuros se encontram. O que é difícil, em tempos difíceis, é não meter os poemas em trincheiras. Temos de evitar a todo o custo que os poemas se metam em trincheiras. As trincheiras, mesmo que se destinem a ser sepulturas, são cómodas: dizem-nos de que lado estamos, quem supostamente são os nossos e quem supostamente são os outros, para que lado disparar. / Só que uma poesia de urgência não pode entrincheirar-se. Pelo contrário, tem de encontrar os caminhos para se chegar aos sítios onde sempre se esteve e que continuam a parecer pátrias estrangeiras. Porque só o estranho pode tornar-se uma pátria” – lemos em sinopse.


Embora “Monstros Antigos” não seja de leitura fácil para o mais comum dos mortais, principalmente em tempos em que “há palavras por todo o lado / comportando-se com o esvoaçar quebrado dos mosquitos” (p. 63), teimaremos em dizer que estamos perante um extraordinário livro de poesia, que se apresenta como um excelente exercício para mente, mesmo para aqueles que se possam achar menos pensadores. É evidente que a poesia não se explica, sente-se e apreende-se deliciosamente (ou não), mas, mesmo assim, não resistimos à aproximação da “tempestade de silêncio”, onde “as palavras e as bocas desencontraram-se na poeira do mundo” (p. 7). Neste entrosar de palavras, Porfírio Silva acaba para nos despertar para o sentido filosófico dos espaços temporais, físicos e cognitivos; da génese e da “mutação das formas”; do apocalipse criado dentro de nós: “Descubro dentro brinquedos partidos, / mais do que os deixados pela infância. / Carrinhos e bonecas, dardos, arcos e enigmas / desarrumados e sujos dizendo-me que / crescer é aceitar que somos piores / e mais pequenos do que o pensamento” (p. 16); da “separação em espaço e senso, rasgo tenso adrede” (p. 18); da essência da política, onde “o poeta desce aos campos de trigo e cevada / para matar cada ratazana com uma rima” (p. 21), do sorriso, do olhar, da brisa, da lágrima, do toque, do silêncio, da palavra, da âncora, da ponte, do segredo, das memórias, do odor; do “sofrer dores duras como as do parto, / saudoso das antigas crises existenciais, / das que lembram livros e boa filosofia, / antes, durante e depois de um jantar farto” (p. 26); do evitar das palavras metafísicas; da alegoria da caverna, onde “Só as pessoas vêem, não os seus olhos: / estamos sentados num filme de sombras / num futuro certo o Sol vai sucumbir / e todos reclamam que nada importa / num tempo tão depois de agora” (p. 37); dos milagres; da “autoridade do legislador a quem incumbem as definições legais” (p. 42); da máquina de colar as asas nos anjos; do “argumento das mãos sujas à origem do universo” (p. 45); do “impacte visual esperado sobre as superfícies” (p. 51); dos construtores de almas, tendas onde os animais se abrigam, “ao lado dos seus irmãos e dos seus medos” (p. 52); do cruzamento de perguntas e respostas mal emparelhadas; da ficção metalúrgica, onde “as estátuas em bronze da santidade e do pecado, / sobrevivas por séculos ao santo e ao pecador em pessoa” (p. 64); do “pássaro pesado sem asa” e do “navio ferido sem vela”; do haver um ar de luz nas palavras; da escada que não nos leva a lado nenhum: “Mais exacta e capciosamente, / a escada leva à copa das árvores / onde só habitam pássaros (e) refugiados” (p. 75); da fábrica do mundo, onde “as linguagens, como os continentes, derivam e apartam-se” (p. 76); e, a terminar, do fragmento de uma biologia dos monstros antigos, onde poderá perguntar se “estará no poder da tua [nossa] fábrica / compreender a génese ao ponto / de estruturas corporais espantosas resultarem, / produzindo novos monstros antigos, / metade palavra metade silêncio, / vivendo ora nos teus ora nos meus medos?” (p. 79). E, porque temos a noção do limite da nossa contingência (em oposição ao necessário), por aqui nos ficamos, deixando aos outros possíveis leitores deste magnífico – para nós, claro – livro de poesia, a liberdade de interpretação, mesmo que não se venha a saber “quem move o mundo”.
Tal como aconteceu com Eduardo Pitta, também nós fomos instigados à leitura deste “Monstros Antigos” do nosso homónimo Porfírio Silva, e gostamos.

Nota máxima… Leitura que se recomenta!                 

Tuesday, January 28, 2014

Michael Walzer e “as esferas da justiça”

Na prática, a destruição do monopólio do dinheiro neutraliza o seu predomínio”.

Michael Walzer

Da leitura que fizemos de Michael Walzer, numa sociedade em que os significados sociais se encontram definidos e hierarquizados, a justiça vem em auxílio da desigualdade. A teoria da justiça está atenta às diferenças e é sensível aos limites. Nas sociedades mais diferenciadas a justiça tem um campo mais vasto de acção, pois, há mais bens diferenciados, mais princípios distributivos, mais agentes e mais meios de actuação. E quanto maior for o campo de acção da justiça, mais evidente se tornará que a forma assumida por esta será a da igualdade complexa. O despotismo tem também maior campo de acção.
A justiça, é encarada como o contrário do despotismo, tem pois a ver com as mais terríveis experiências do séc. XX. A igualdade complexa é o oposto do totalitarismo: máxima diferenciação, em vez da máxima coordenação. Como sabemos, as formas contemporâneas de política igualitária tiveram a sua origem nas lutas contra o capitalismo e o especial despotismo do dinheiro. O despotismo do dinheiro assusta menos do que as formas de despotismo que tem a sua origem no outro lado da linha que separa o dinheiro da política. Sem dúvida, a plutocracia assusta menos do que o totalitarismo; aí a resistência é menos perigosa. A principal razão desta diferença é que o dinheiro pode comprar cargos, educação, honras, mordomias, etc., sem coordenar radicalmente as várias esferas distributivas e sem eliminar processos e agentes alternativos. Muito depende dos cidadãos, da sua capacidade de se afirmarem através do conjunto de bens e de preservarem a sua própria noção do seu significado dos mesmos.
A igualdade complexa continuará a ser uma possibilidade viva, mesmo que novos adversários da igualdade venham substituir os antigos. Esta possibilidade é permanente para todos os efeitos práticos, tal como a oposição que lhe é feita. O estabelecimento de uma sociedade igualitária não representará o fim da luta pela igualdade. Tudo o que se pode esperar é que a luta se torne um pouco mais branda à medida que os homens e mulheres aprendam a viver com a autonomia das distribuições e a reconhecer que resultados diferentes para pessoas diferentes em diferentes esferas tornam a sociedade justa. Por outro lado, a política hoje é apenas uma, embora provavelmente a mais importante, das muitas esferas da actividade social. Não se pode garantir aos cidadãos uma “oportunidade” em toda a parte. Não se lhes pode garantir uma “oportunidade” onde quer que seja. Porém, a autonomia das esferas produzirá uma maior repartição dos bens sociais do que qualquer outro sistema concebível. Espalhará mais amplamente o prazer de governar e tornará certo o que hoje permanece em dúvida: a compatibilidade entre o ser governado e conservar o amor-próprio. É que o governo sem dominação não ofende a nossa dignidade nem nega a nossa capacidade moral e política. O respeito mútuo e o amor-próprio compartilhados são apoios firmes da igualdade complexa e juntos constituem a fonte da sua possível resistência.


Michael Walzer, no seu livro “As Esferas da Justiça”, sustenta o pluralismo das esferas da justiça social ou distributiva e da igualdade. Partindo do facto de que as nossas convenções sociais levam à divisão da justiça em esferas autónomas relativamente ao princípio distributivo, agrega todo um conjunto de critérios aceites pela comunidade e denomina-os globalmente de “igualdade complexa”. Esta será a base para a distribuição social dado que a sociedade humana é, por natureza, uma comunidade distributiva, estamos juntos para partilhar, dividir e trocar.
Assim, Michael Walzer, com superior mestria, conduz-nos ao reconhecimento e assunção dos percursos do poder político no quotidiano dos cidadãos. Naturalmente, poderíamos pensar e até exigir ao autor outras abordagens, em concreto, sobre a teoria geral que formulou para a justiça social nas suas complexas esferas. A análise que difunde mostra-nos a complexidade inerente à tomada de decisões e coexistência sob o impacto dessas mesmas decisões.
          Para terminarmos, uma questão se coloca: – Que esferas da justiça, para o Portugal de hoje?

Thursday, January 23, 2014

Médico Manuel Franco Pita estreia-se como romancista!...

“Muitos consideram o intelecto como um armazém para encher, quando é um instrumento para usar; na prática é uma e outra coisa”

A.Schweitzer

Manuel Franco Pita, médico há longos anos no norte do País, acaba de lançar o seu primeiro livro, sob a chancela da “Calendário de Letras”, com o sugestivo título «Como és linda, Ana...». Este magnífico romance, o qual tivemos o grato privilégio de o apresentar publicamente, resulta de um sonho antigo, pois, ao longo da sua vivência profissional, ao ter conhecimento de muitas histórias – de vida umas, de morte outras, muitas de sofrimento e outras de amor – “viu o homem no seu expoente máximo, estóico enfrentando a adversidade, outras derrotado e sem esperança. Mas viu muitas coisas que fazem dele o expoente máximo da criação, o homem é um ser com uma imensa capacidade de amar. Quem quer que seja, dêem-lhe alguém e ele amará…” – lemos em sinopse. E assim nasceu uma história feita de muitas histórias.

Mesa - da esquerda para a direita: Francisco Madruga (Calendário de Letras); Manuel Franco Pita (Autor); Porfírio Silva (Apresentador); Américo Carneiro (Academia de Letras e Artes - ALA).

De facto, «Como és linda, Ana…» é uma história feita de muitas histórias, onde as bem caracterizadas personagens se interligam, sem perecerem ou entrarem em conflito entre a ciência e a espiritualidade, mesmo quando nos é dado saber que a ciência invade cada vez mais os diversos âmbitos da experiência e do pensamento humanos. Assim, Manuel Franco Pita, enquanto médico, através deste mesmo romance, faz-nos sentir que a espiritualidade e a Ciência procuram satisfazer o desejo humano de conhecimento do mundo e são dois modos de atribuir sentido à existência e à ordem da realidade. 
A realidade em «Como és linda, Ana…», revela-se-nos na afinidade entre anjos e demónios, uma espécie de interesse radical dos seres humanos pela sua própria sobrevivência. As personagens, espelham bem o sentido psicológico ou utilitário, da mesma sobrevivência. Em «Como és linda, Ana…» ficamos a saber que “há um tempo de médico e outro de Deus”, ou que “em coma profundo ter-se-ia verificado a abolição completa da percepção da dor mas tal significaria também que o indivíduo estaria mais perto da morte, o que quer que ela fosse. Talvez a travessia de um túnel, num estado de bonomia e paz, com uma luz ao fundo, assinalando uma nova ordem das coisas e um novo modo de sentir, um novo modo de ser e estar”; que na dermatologia também há cardeais, “porque a medicina também é um papado com os seus padres, bispos e cardeais”; que há gente que não quer “enveredar por uma senda de ressentimento, animosidade, ódio ou algo desse teor…”; que há quem ame um, voando “como as águias, as asas serenas abertas batendo devagar, o vale a passar lá em baixo…” e outro, voando “como voam os falcões, em golpes de asa febris, a cruzar os vales e os rios, a subir ao cimo e a descer rasante com a urgência de haver muito para dominar”; que há carícias que duram “o tempo de um relâmpago”; que a “máfia não tem sentimentos, se os tivesse não existia”; que através da eclosão de ódios antigos, ancestrais, pode-se chegar à limpeza étnica, qual “caixa de Pandora que Gorbatchev abriu”, segundo um antigo agente do KGB; que “a vida pára quando pára o coração, não quando param os outros órgãos. É a paragem cardíaca o último evento vital…”; que, como o filósofo o aventara, “ o livre arbítrio era o motor da vida e do mundo e que apenas os inteligentes triunfavam”; que os homens mentem mais, mas as mulheres mentem melhor; e que “há coisas que estão vedadas aos homens. Ou para além das suas capacidades. Sonhar a cores… Sonhar com Deus…(…) Talvez sonhar com Deus seja permitido às mães…”.


Em suma, e de modo a concluirmos, diremos que, tomando como nossas as palavras em sinopse, «Como és linda, Ana…» é uma história feita de muitas histórias e acção firmada «de médicos que se apaixonam, da loucura de um deles por crianças, de uma advogada que vê a obra de meia vida desfazer-se e que recomeça, de mafioso que dá a vida por um polícia, de um cirurgião exímio em final de carreira que aceita o desafio da vida – separar duas gémeas siamesas numa separação perigosa. E de outras histórias ainda. Porque cada instante da vida tem uma história. De tudo se poderá concluir que o amor é sublime, que os médicos talvez não saibam tanto como parece e que às mães seja permitido sonhar com Deus. Porventura muitas coisas mais, mas que cada um conclua o que achar melhor».
É essa a saudável dinâmica deste magnífico romance, que termina com sorrisos partilhados de Paulo Fontoura e Rosemary Abreu [Beijaram-se. Primeiro como a brisa beija as flores depois como o vento beija os pinhais. / De mão dada no corredor foram como a água de um rio. De um rio calmo, azul, perfeito], quando de uma enfermaria lhes chegou “a música da voz de uma enfermeira a acariciar o cabelo de uma criança doente. E levaram consigo a poesia que fluiu, quando ela disse – Como és linda, Ana…”, uma linda menina que morreu de cancro, para a qual, o médico Manuel Franco Pita, quis escrever-lhe o livro mais belo do mundo: Para ti Naná, para leres no Céu… E para nós, aqui na Terra, por forma a sairmos do estado de coma profundo, ainda que por imperativo da travessia de um túnel, “com uma luz ao fundo, assinalando uma nova ordem das coisas e um novo modo de sentir, um novo modo de SER e ESTAR”.
          Nota máxima… Leitura que se recomenda!

Friday, January 17, 2014

“O Silêncio que Fala” em Raquel Rodrigues!...

“O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo”

Vergílio Ferreira

Raquel Rodrigues, nascida (1959) e criada em Viana do Castelo, licenciada em Gestão Comercial e Contabilidade, acaba de publicar o seu terceiro livro de poesia «O Silêncio que Fala», numa edição da “Chiado Editora”. Vocacionada desde muito cedo para a escrita e para as artes, áreas em que se considera uma autodidacta, publicou o seu primeiro livro «Sentimentos», em Julho de 2011, e «Telas em Prosa» – um desafio aceite de ilustrar o seu livro de poemas com as suas telas –, em Outubro desse mesmo ano. Expôs pela primeira vez, de 28 de Janeiro a 29 de Fevereiro de 2012, na Galeria do Instituto da Juventude de Viana do Castelo e, em Setembro desse mesmo ano, na Galeria da Câmara Municipal de Caminha.


Falando agora do seu último brado, «O Silêncio que Fala», para o qual fomos incumbidos do prefácio e da sua apresentação – levada a cabo no pretérito Sábado, 11 de Janeiro de 2014 –, teremos em dizer que «O SILÊNCIO QUE FALA» de Raquel Rodrigues, afigura-se-nos como, e deduzindo das suas próprias palavras, o pintar da “tela da vida em tons de fogo” (e como o AMOR é fogo!), querendo viver na plenitude, tendo como sentimento a palavra VIDA. E associa-se ao “silêncio que fala” da vida: o sonho, a paixão, o desejo, o(s) beijo(s), a solidão, o existir, o destino, o desalento, o vazio, o sentir, a saudade, o olhar, a partilha, o prazer, a alma, a paixão, o abrigo, o mar, o sol, a chuva, o vento, o deserto, a noite e o dia, o tempo, os espinhos, o perfume, os corpos e a cumplicidade do SER.
É através do SER que Raquel Rodrigues se entrega ao sonho que desabrocha como rebentos ao vento, sem querer que ele acabe, esculpindo imagens com as folhas do mesmo; percepciona e sente a luz do luar invadindo o corpo; cheira a maresia vinda da janela do quarto e sente a brisa do mar perfumando o corpo, num “platinado sensual que inebria”; experiencia o devaneio por entre a bruma da solidão; tem o desejo de sentir, mesmo quando na sua ausência, dando vida ao desejo de sentir (desejo sentido, premiado pela felicidade de sentir); vislumbra a linha do horizonte onde o céu toca o mar, qual odor de maresia e passos que levam ao infinito; procura as “asas do destino”, a ânsia de beijar e mãos percorrendo o corpo até ao íntimo, no toque e o afagar, culminando no êxtase da união, no prazer e rejuvenescimento, “alvoroçante entre lençóis / e aromas de amor findado”; salgada por fora, sangrando por dentro; voar para além do “negror do sonho”, gritando para além do infinito; sentindo amantes indivisíveis – o antes e o depois do amor –, quais peles salgadas do amor feito, expressariam a cumplicidade do seu ser “de ti em mim”; conta passos dados em redor da vida, num correr desenfreado para os braços da noite; questiona a vida que se reflecte na imensidão da amargura, estando e resistindo com a força do seu ser; faz amor com o mar, entregando-se às suas carícias, sentindo-se sua, através da sensualidade singela do seu toque na sua pele; ensaia o voo rasante da razão, com o levantar dos braços bem alto, voando no tempo, qual gaivota no mar dos seus sentidos; acordar no sussurro das palavras, etc., etc.


Raquel Rodrigues, também tem um sentir político, premeditado através do grito: “Não tolero / Não aceito / É um nó na garganta / Que asfixia / O grito / À liberdade / O querer o não ter / O pão para comer…” ou “Preciso acreditar / Que este Outono / Se transforme em primavera / Que a minha voz / Se torne soante / Em contíguo com / A do meu povo…”, sobrelevando, ao mesmo tempo a Liberdade: “… Socialmente injusto / Onde a corrupção prolifera / No sofrimento de um povo / Que nada faz para o derruir / Que sente / E se adapta / Que fala mas não age…”, passando pela “… desgraça / Dos que sobrevivem / Com a míngua do ser…”.
Tal como alguém um dia diria “não é poeta quem quer”, mas quem age pelo sentir, transcendendo e possibilitando o pensamento, fazendo eclodir a visão poética a partir da “raiz única das potências da alma”. E, para nós, Raquel Rodrigues preenche todos esses requisitos, porque lhe sentimos esse pulsar, através das suas próprias palavras: “A poesia é palavra muda / Que brota do peito / Dorido…”.

Gostamos deste «O SILÊNCIO QUE FALA» e isso nos basta, para o acharmos esteticamente perfeito (excelente capa – parabéns a Susana Monteiro) e recomendarmos a sua leitura!

Tuesday, January 14, 2014

João Fazenda expõe em Viana do Castelo

No trabalho do João Fazenda estão sempre a saltar-me aos olhos, como em «pop-up» dono de vontade própria, metáforas. Admito que talvez lhes dê exagerada importância, sobretudo quando o autor afirma tratarem-se apenas de elemento entre outros, como a cor, o desenho, a composição”.

João Paulo Cotrim


Pelas 11 horas do dia 4 de Janeiro (Sábado), na Biblioteca Pública Municipal de Viana do Castelo, foi inaugurada a Exposição «domador de imagens (obra gráfica editada em livros, revistas e jornais)» de João Fazenda, um dos mais conceituados “construtor de imagens” a nível internacional, a viver presentemente em Londres. A referida exposição estará patente ao público até ao dia 14 de Junho do corrente ano.
Foi através deste conceituado artista – uma mais-valia a sua vinda a Viana do Castelo – que apreendemos das suas próprias palavras que “uma ilustração que acompanhe um texto tem sempre outros aspectos para onde olhar: as cores, o traço… Tudo isso são aspectos da imagem que contam coisas, mesmo que pequenas, que criam um ambiente, uma impressão, que comunicam para além do texto”, conceptualizando o seu pensamento em termos de objectos, de edição, de coisas em contexto ou em diálogo, considerando o trabalho de ilustração “um trabalho sobre uma imagem, mas uma imagem em diálogo com os textos, com a palavra, com outras imagens… Não existe sozinha. Pode ter autonomia, deve tê-la para conter expressão e valor, mas está sempre a construir pontes ou vive disso. É essencial pensar dessa maneira porque só assim a consigo construir como um todo, sempre com esses canais de ligação e diálogo, que não são apenas metáforas, há tantas outras coisas…” – assim se exprime, tal como diria João Paulo Cotrim, um “mestre das subtilezas”, um tão querido e “subtil mestre”.


E para melhor avaliarmos a dimensão deste “subtil mestre”, convém recordar que João Fazenda nasceu em Lisboa, no ano de 1979, é Licenciado em pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, o seu trabalho divide-se entre a ilustração, a animação, a banda desenhada e a pintura. Colabora como ilustrador em diversos jornais e revistas nacionais. Ilustrou também livros infantis, cartazes de cinema e capas de discos. É autor, juntamente com Marte, da série de banda desenhada Loverboy e, com Pedro Brito, da novela gráfica “Tu és a Mulher da Minha Vida. Ela é a Mulher dos meus Sonhos”. Foi distinguido por mais de uma vez pela Society for News Design com Award of Excellence em ilustração e em 2007 recebeu o Grande Prémio Stuart/El Corte Inglês de Desenho de Imprensa. Participou em diversas exposições colectivas e individuais em Portugal e no estrangeiro. Realizou os filmes de animação “Café”, em parceria com Alex Gozblau, e “Algo de Importante e Sem Querer”, ambos com argumento de João Paulo Cotrim.
De facto, a manhã desse mesmo dia foi preenchida da forma mais positiva possível, assistindo à inauguração da referida exposição que se enquadra num projecto de Rui A. Faria Viana (Chefe de Divisão da Biblioteca e Arquivo Municipais), cuja direcção artística e coordenação está a cargo de Tiago Manuel, também ele um conceituado artista vianense e do mundo (para quem, no dizer de João Paulo Cotrim, “a natureza não se confina ao lugar de grande cenário, pano de fundo, antes entra na massa compósita das coisas, dos seres, das emoções e dos pensamentos”), contando com a nossa modesta colaboração na montagem, de parceria com Jorge Silva. Foi mais um acontecimento de grande nível cultural, o vivido naquele dia na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo. Pena é a apatia de quem muito critica, quando são parcos na acção.
          Uma sugestão: façam uma visita a esta magnífica exposição!

Friday, January 10, 2014

Publicado mais um tomo dos “Cadernos Vianenses”!...

“Trata-se, assim, de uma publicação que constitui o repositório das diversas análises e abordagens de problemas e assuntos de interesse transversal para a sociedade vianense em perspectivas tão díspares como a cultural, etnográfica, popular e outras”

José Maria Costa

No final do ano de 2013 foi lançado o Tomo 47 dos «Cadernos Vianenses», publicação editada ininterruptamente pela Câmara Municipal de Viana do Castelo desde 1978, e que há quatro anos a esta parte tem vindo a ser coordenada, de uma forma irrepreensível, pelo actual Chefe de Divisão de Biblioteca e Arquivo Municipais, Rui Alberto Faria Viana. Pela positiva, convém aqui salientar as alterações introduzidas pelo seu actual coordenador, a partir do número 44 (2010), no sentido de melhorar e tornar mais atraente esta mesma publicação, de que se destacam a forma de apresentação dos conteúdos e das imagens, sem alterar o aspecto físico com que nos habituamos ao longo de mais de três décadas de publicação. Aliás, já aqui o referimos em anteriores apontamentos, que esta extraordinária publicação deu um grande salto em termos científicos e qualitativos – obrigando-nos a referir como uma mais-valia, o envolvimento neste projecto editorial, do qualificado designer Rui Carvalho –, a ponto de fazerem sentido as palavras do seu coordenador, no dia de lançamento do presente tomo: O design gráfico deste tomo, como dos três anteriores, é da responsabilidade do Dr. Rui Carvalho, a quem agradeço a estreita colaboração que me tem proporcionado e o profissionalismo que pôs neste trabalho que, estou certo, muito contribuirá para o bom êxito de mais este número dos “Cadernos Vianenses”.

Mesa: Rui A. Faria Viana (Coordenador), José Maria Costa (Presidente) e Maria José Guerreiro (Pelouro da Cultura) 

Outro nome a referir é o do artista plástico Rui Pinto que, desde 1978, tem vindo a elaborar as capas da referida publicação: constituindo um conjunto artístico coerente e único que muito enriquece esta publicação, e que no caso presente evoca muitos dos temas que tem sido objecto de abordagem e caracterizam esta publicação de interesse local – citamos o coordenador, Rui A. Faria Viana.
Para além da apresentação, feita pelo presidente do município, José Maria Costa, o presente tomo, e sem que entremos em minuciosas descrições dos artigos publicados, teremos em dizer que o mesmo apresenta-se com três separadores temáticos (secções): ESTUDOS VÁRIOS – “O Mosteiro de S. João de Cabanas e a Paróquia de Afife”, de Horácio Faria; “Sistemas defensivos no litoral vianense durante o período filipino (1580-1640), de Jorge Filipe Pereira de Araújo; “A visitação de 1618 a Viana”, de Susana Maria Vaz de Carvalho; “Identificação de um manuscrito: as Liçoens de Artilharia do engenheiro Manuel Pinto Vilalobos, de Miguel Soromenho; “Viana em Camilo: [«Tramoias d’Esta Vida» (1863)]”, de David F. Rodrigues; “Uma peça inédita de Salvato Feijó: D. Baganha e Areosa”, de António Matos Reis; “A Cruz Vermelha de Viana e a epidemia de Castro Laboreiro em 1914”, de Gonçalo Fagundes Meira; “Modernismo urbano revisitado. O caso de Viana do Castelo”, de José da Cruz Lopes, Manuel Rivas Gulías e Rui Branco Cavaleiro; “O traje à vianesa e as políticas propagandistas do Estado Novo”, de Eliana Gigante Amorim; “A emigração no Alto Minho (1960-1965), de Ernesto Rodrigues Português, José Rodrigues Afonso, José Rodrigues Lima e Manuel António Domingues; FIGURAS E MEMÓRIAS – “Mendes Carneiro: humanista nas ciências e nas letras”, de Francisco José Carneiro Fernandes; “Registo de acidente em Viana do Castelo em 1938”, de António de Carvalho; terminando com CONTINUADOS – onde se incluem trabalhos que têm continuação dos números anteriores, cuja temática e estrutura são já do conhecimento de todos os habituais leitores dos «Cadernos Vianenses»: “100 anos de correio no concelho de Viana do Castelo (1880-1980)”, de José Miranda da Mota; “Acerca de umas Chapas metálicas com algarismos em relevo existentes na zona baixa de Viana do Castelo”, de Vasco Filipe Costa Antunes; “Inventário dos moinhos de água e de vento, engenhos e lagares de azeite”, de Carlos Brochado de Almeida e Mário Carlos Sousa Gonçalves, concluindo-se no presente número este inventário, iniciado no tomo 41 (2008); “Arrolamento dos bens das igrejas”, de António Maranhão Peixoto.

Capa do Tomo 47 dos «Cadernos Vianenses»
A finalizar, surgem de uma forma resumida algumas notas sobre os colaboradores, com o objectivo de uma melhor identificação de todos os que assinam trabalhos inseridos neste tomo dos «Cadernos Vianenses».
Segundo o coordenador dos «Cadernos Vianenses», o tomo (48) do próximo ano abordará – pelo menos terá uma secção exclusiva – os 500 do nascimento de D. Frei Bartolomeu dos Mártires, o que irá proporcionar uma diversificada leitura de vários colaboradores apaixonados ou interessados nesta temática, permitindo, ao mesmo tempo, uma boa oportunidade para divulgarem os seus trabalhos.      
      Resta-nos felicitar a Câmara Municipal por saber (e querer) manter este elo cultural, que continua a fazer história no panorama editorial de Viana do Castelo e não só, dado que muitas são as solicitações de permuta com outras publicações similares. Daí, por esta e outras razões, nota máxima para esta publicação!