Monday, January 28, 2013

30.º Aniversário de Actividade Literária (1983-2013)



O que mais me impressiona na personalidade de Porfírio Silva, como cidadão e tal como a sua escrita o reflecte, é a capacidade de conjugar a paixão com a objectividade.
Profundamente empenhado no mundo em que opera, a sua obra traduz, simultaneamente, o fito de mergulhar na vida e de dar testemunho comprometido, mas imparcial, dos tempos que correm.
Afrontando corajosamente contextos adversos, subjazem nas suas mensagens, não só a ânsia, amplamente conseguida, de se transcender a si próprio, como um largo sentimento de fraternidade, que o une ao seu semelhante no ânimo comum de participar na consumação de um melhor destino colectivo.
Se fosse de aceitar que todo o pensamento que não age é aborto ou traição, como dizia Romain Rolland, numa perspectiva de socialização da arte, que se gorou, Porfírio Silva escaparia sempre à condenação daquele juízo, já que a sua obra se vem afirmando, para além do intimismo que denuncia, como expressão acabada de uma autêntica solidariedade humana. 

(Opinião do Dr. Alberto Oliveira Silva [1924-2011], em 2001, quando, na altura, era Governador Civil de Viana do Castelo)

Thursday, January 24, 2013

As imaculadas opiniões de Carlos Abreu Amorim e a reorganização administrativa do território…


“Mas há um episódio que convirá relembrar aos governantes de hoje: a revolta da Janeirinha. Em 26 de Junho de 1867, foi publicada a Lei da Administração Civil que tentou extinguir 104 concelhos. No dia 1 de Janeiro de 1868 deu-se uma enorme manifestação espontânea de protesto no Porto (…) O governo caiu e foi revogado o decreto da reforma administrativa. / Talvez fosse bom que este governo à beira do fim passasse uma vista de olhos pela história…”.

Carlos Abreu Amorim

Se há pessoas que acicatavam a nossa predisposição cognitiva, no que concerne à opinião fundamentada e com alguma credibilidade intelectual, e a qual seguíamos amiúdas vezes, era precisamente – apesar de o sabermos ultraliberal – o professor universitário de Direito Carlos Abreu Amorim. A nossa afinidade prendia-se ainda ao facto de ele ser professor na nossa universidade (UM) – desculpem-nos este eufemismo académico – e, algumas vezes, concordarmos com as suas bem fundamentadas e elaboradas argumentações, porque eram (em algumas circunstâncias) consonantes com o nosso ideal democrático.
Estamos em recordar aquela “pedrada no charco” quando, em 19 de Janeiro de 2011, escreveria que pela primeira vez desde que fez 18 anos, não exerceria o direito de voto no domingo imediato: “Vou abster-me, num acto pensado que se sustenta na inutilidade do actual modelo de poderes presidenciais e na sua trágica discrepância com a elevação democrática que subjaz à eleição directa e universal do seu titular”. Para este ora ilustre deputado, “os poderes presidenciais constantes na Constituição constituem uma amálgama de elementos incoerentes sem sombra de identidade própria. Os seus defensores gostam de o nomear com uma expressão assaz reveladora desse insuperável estado de confusão: seria um modelo semipresidencial misto com pendor parlamentar!”, argumentando “a prior” – qual imperativo categórico kantiano – que na prática das últimas décadas percebeu-se que este é o lugar público onde se torna mais perceptível a directa relação entre a dimensão do cargo e a daquele que o exerce, acrescentando que “se o seu titular se reduzir a ser um «Presidente do Conselho Fiscal do Formalismo Constitucional», como sucedeu com Cavaco Silva (e com nove anos e meio dos dez de Jorge Sampaio), então não faz qualquer sentido persistir em elegê-lo por sufrágio directo e universal”. Para ele, nesta última década e meia, o nosso país andou sempre para trás, reforçando a ideia de que qualquer que fosse a questão nacional (educação, saúde, justiça, economia, finanças, credibilidade das instituições, o estado de depressão colectiva, etc.), Portugal está muito pior. E insurgia-se em tom crítico/acusatório contra a grande parte dos nossos constitucionalistas, bem como contra aqueles que ele denominava “cronistas da corte” que julgam fazer análise política, nenhuma responsabilidade pode ser assacada aos presidentes da República. Na altura, esta sua corajosa posição mereceu da nossa parte um forte aplauso. Em 2012, de uma forma mais convincente à sua “indisposição cavaquista” chega a afirmar publicamente – numa das suas deambulações como comentador televisivo – que Cavaco Silva está bem quando está calado. Se o cumpriu ou não, a sua consciência o dirá!
  

Mas à medida que o fomos lendo melhor, fomo-nos apercebendo de algumas incongruências naquilo que escrevia. A nossa maior decepção presente vai no sentido de ele se permitir ao facilitismo – com que facilidade se tornou no “correio-mor” na defesa da licenciatura fantoche de Miguel Relvas – de se augurar em defesa da reorganização administrativa territorial, quando ao tempo do governo de Sócrates se vangloriara de “profeta”, permitindo-se ao seguinte comentário, em artigo publicado no Diário de Notícias, em 2010: “Não há autarquias a mais em Portugal – em termos relativos, até temos o menor número de municípios da EU. O decreto de 11 de Julho de 1882 criou 785 municípios e 4086 juntas de paróquia (hoje são 4260 freguesias). Em 1836, Passos Manuel extingue 751 concelhos – passaram a ser 351 (hoje são 308 municípios). O número de municípios e freguesias tem-se mantido com uma constância impressionante. / Mas há um episódio que convirá relembrar aos governantes de hoje: a revolta da Janeirinha. Em 26 de Junho de 1867, foi publicada a Lei da Administração Civil que tentou extinguir 104 concelhos. No dia 1 de Janeiro de 1868 deu-se uma enorme manifestação espontânea de protesto no Porto (é daqui que vem o nome do matutino portuense) que alastrou para Braga, Coimbra e Lisboa. / O governo caiu e foi revogado o decreto da reforma administrativa. / Talvez fosse bom que este governo à beira do fim passasse uma vista de olhos pela história…” – assim, textualmente, sem tirar nem pôr.
Instalado no poder, porque eleito deputado por Viana do Castelo, e esquecendo-se dos recados dados ao anterior governo, eis que “dando o dito por não dito”, aparece a defender o que outrora rejeitara e até combatera: “Portugal não tem municípios a mais. Ao contrário, a relação população/território dos seus 308 municípios é uma das melhores da Europa (a França possui 36 682; a Itália 8094; a Espanha 8116; a Holanda 430; e a Bélgica 589). O mesmo já não pode ser dito a propósito das 4259 freguesias portuguesas. Embora as freguesias desempenhem um papel proeminente, mormente fora dos meios urbanos, é necessário agregá-las (sem prejuízo da sua identidade secular), muni-las de escala e massa crítica para que possam receber competências apropriadas”. As freguesias, como o elo mais fraco, colocando-se a jeito dos “pastores” e dos “boieiros”, aqueles que Sócrates (o filósofo) dizia velarem “pelo bem das ovelhas ou dos bois, e que os engordam e tratam deles com outro fim em vista que não seja o bem dos patrões ou o próprio” (A República: 343b). A sua intervenção sobre a Reorganização Administrativa do Território das Freguesias, no Plenário de 6 de Dezembro de 2012, foi de tal forma deplorável (tendo em conta o contraditório face às suas crónicas e comentários televisivos – jamais o conseguiremos ouvir –, antes de chegar a deputado), que somos forçados a ter alguma complacência para com aquele que um dia o definiu como uma pessoa que “para além da falta de humor e da propensão para um estilo caceteiro-armado-em-intelectual (…), é notória a falta de educação e a facilidade com que resvala para a ofensa de baixo nível”. Não era essa a percepção que tínhamos até o ouvirmos nas suas acutilantes (?) intervenções na Assembleia da República… Diem perdidi!

 
    
Começamos a ficar cansados da falta de coerência – para não dizermos de carácter – de muitos dos “forjadores” de opinião e principalmente daqueles que se têm deixado enredar pelas teias do poder pelo poder. Mazarefes, freguesia há mais de mil anos –Ittem freguezia de Sam Simon de Junqueira Mazarefes he provado que he couto de antaltares, per marcos e per divisões –, uma das freguesias que ajudou a eleger Carlos Abreu Amorim, vê-se agora unida a Vila Fria, enquanto outras de menor dimensão populacional e desprovidas de infra-estruturas suficientes, mantêm a sua identidade, e nós até sabemos bem porquê. Por certo que a “super união” das freguesias da Meadela, Santa Maria Maior e Monserrate, irá precisar de um “super presidente”, tendo em conta que será maior que os concelhos de Vila Nova de Cerveira e Paredes de Coura juntos.
Caro Carlos Abreu Amorim, ao escrever que “a reforma de que Miguel Relvas [outro caso indefensável, face às patranhadas académicas] é o principal propulsor não versa a quantidade – antes pondera o incremento da qualidade do nível de Estado que nos está mais próximo. Porque a defesa da autonomia local só pode ser feita com autarquias sustentáveis e modernas”, acabou por sentenciar a minha ruptura, enquanto leitor, com as suas imaculadas opiniões, dissimuladas na pretensa vaidade de se achar “objector de consciências”. Se um dia nos cruzarmos nos corredores da nossa universidade (UM), explicar-lhe-ei porquê. Isso se nos permitir e, como não podia deixar de ser, dentro das regras da boa educação e espírito democrático.

Até lá, olhe pelo distrito que o elegeu. Ainda vai a tempo de impedir as anunciadas “portagens” nas A27 e A28. Siga o exemplo da Comissão Política Regional da JSD Alto Minho que acaba por apelar “ao bom senso do Governo para repensar a colocação de mais portagens na A27 e A28”, levando em linha de conta “a conjuntura actual de retracção económica que afecta as famílias e as empresas”. Já que não podemos ter o pai que queremos, “is pater est quem nuptiae demonstrant”.

Friday, January 18, 2013

As boas intenções de Abebe Selassie e o nosso desgoverno…


“Os portugueses fizeram sacrifícios tremendos, com o aumento do desemprego, com o impacto no rendimento disponível. Temos consciência disso. Também me impressiona o diálogo social, com os parceiros sociais, no Parlamento”.

Abebe Selassie

O etíope Abebe Aemro Selassie, licenciado pela “London School of Economics”, director adjunto do Departamento Africano do Fundo Monetário Internacional (FMI) e chefe da missão da mesma instituição financeira internacional em Portugal, integrada na “Troika” – Abebe Selassie, do Fundo Monetário Internacional (FMI); Rasmus Ruffer, do Banco Central Europeu (BCE); e Jurgen Kroger, da Comissão Europeia (CE) –, tem-se desdobrado em canseiras, ideias e boas intenções para tentar resolver a situação económica de Portugal. Recordaríamos, ainda, que este “ilustre” economista – apesar de ter feito parte do governo do seu país (Etiópia), nunca conseguiu resolver o problema da fome e da miséria que tem grassado por aquelas bandas –, é aquilo que nós costumamos designar na gíria popular por “vendedor de banha de cobra”, tentando demonstrar “folha de serviço” que possa justificar o seu principesco ordenado (que varia entre os 13.994 e os 18.188 euros por mês) e de cada vez que se desloca a Portugal, tem direito a segurança paga pelo Estado português e desloca-se em carro de alta cilindrada. Falamos deste e não dos outros, porque é da sua “viva voz” que ouvimos, ostensivamente, os mais rasgados elogios aos nossos governantes, nomeadamente ao ministro Vítor Gaspar, e o sentimos orgulhoso nas suas variadíssimas previsões que, para mau grado dos injustiçados, têm redundado em autênticas falácias.
Apesar de Vítor Gaspar estar rotulado por Abede Selassie como “um ministro muito impressionante” lá vai dizendo que o trabalho de Portugal ainda não está completo, tendo espicaçado as nossas debilidades – quiçá psicossomáticas – ao anunciar que ainda existe margem para tornar a despesa pública mais eficiente. Com falácias atrás de falácias, ouvimo-lo vociferar que os ordenados em Portugal continuam demasiado “rígidos e altos”, e que isso impede que o desemprego baixe, quando uns meses antes admitira que a austeridade no nosso país poderia ter que abrandar se continuassem os problemas de execução orçamental, sobretudo devido à fraca receita. Chegou mesmo a vaticinar que o desempenho orçamental com as exportações estava a gerar menos impostos que a procura interna, o que implicaria eventualmente uma menor dose de ajustamento em 2012. Para este “estapafúrdio” economista, talvez numa ardilosa forma de fugir aos fracassos das suas periclitantes previsões e/ou deslustradas intenções “neoliberais”, fazendo – ou procurando fazer – dos portugueses “pacóvios”, acaba por constatar que o desemprego em Portugal também é mais elevado do que o previsto no programa da “Troika”. Di-lo com a mesma lata de “cabecinha pensadora” que o dinheiro emprestado a Portugal pela “troika” é muito barato, sugerindo que é chegada a hora das reformas “inteligentes” e que os portugueses devem escolher o seu futuro. E o nosso governo de cocaras, obedece cegamente ao prenúncio do “submarino” posto ao nosso serviço, para gaudio do grande capital, Vítor Gaspar. Só não percebe quem não quer… Se cair Vítor Gaspar, cai também o Governo!

Crédito: Adaptado de (http://imagens9.publico.pt/imagens.aspx/731039?tp=UH&db=IMAGENS)

Outro factor preocupante é constatarmos a permanente linguagem de “cobrador de impostos” em Abede Selassie, quando se aventa – articulando com a voz monocórdica de Vítor Gaspar – a urgência da definição do modelo social que melhor serve os portugueses, tendo sempre em conta “o tecido produtivo e no sentido de corrigir os desequilíbrios que levaram o país à situação de insustentabilidade financeira”. Selassie chega mesmo a sentenciar que “se quiserem ter um grande estado providência em Portugal, tudo bem, mas têm de saber como pagar por ele”. E as medidas não se fazem esperar… mais impostos, mais desemprego e mais cortes nos salários e reformas. O estado social para esta gente resume-se à preocupação da “racionalização do sector público ao nível salarial e do emprego, bem como pela reforma do sistema de pensões”. Daí estranharmos as letras garrafais “acopladas” a muitas das manchetes dos órgãos de comunicação sensacionalistas do nosso país: «O chefe da missão do FMI para Portugal rejeita um novo aumento de impostos como solução ideal para os problemas da economia portuguesa». Em Dezembro de 2012, qual iluminado palestrante a convite da Ordem dos Economistas, Abede Selassie apresentou dez ideias sobre a economia portuguesa, ideias essas que passam pela reestruturação da banca. Segundo ele “os bancos precisam de mudar o seu modelo de negócios se quiserem evitar mais um ciclo de elevada alavancagem”, acrescentando que os custos das operações dos bancos são elevados e é “muito importante a redução de custos” para melhorar as condições de financiamento dos bancos e do próprio país. Vai daí, e mesmo quando Selassie afirma que “é muito claro que o mecanismo de transmissão monetária não está a funcionar como devia”, vaticinando que isto “é algo que precisa de mudanças de política da zona euro”, o governo português injecta milhões na banca e vive acautelando possíveis incompetências, mascarando-as com as obrigações do “memorando da troika” e as conjunturas negativas internacionais.
Teremos que dar razão a Fernanda Cachão (Correio da Manhã) quando comutou a expressão “equilíbrio certo” de Selassie ao eufemismo em voga aqui há uns anos que borrava de modernidade a realidade nascida no retorno de 1960 – aos bairros clandestinos, chamaram-lhes “bairros de génese ilegal”. Para esta jornalista, o “equilíbrio certo” de Salassie é assim a moderna facilidade de se pensar que a competitividade das empresas só pode montar quem trabalha. No meio de todas estas “tretas” e fracassos das políticas económicas que nos impõem, Abebe Selassie ainda tem a lata de reconhecer – dizendo-o – que o abrandamento da actividade económica da Zona Euro “não tem ajudado Portugal de todo” e tem sido mais penalizador do desempenho ao abrigo do programa de ajuda externa do que se esperava há “um ano, um ano e meio”. Depois há quem se escandalize com o sarcasmo de Miguel Esteves Cardoso: “Para menos dinheiro não se pode ter princípios. O mal do português é ter princípios a mais. Como tem mais medo de passar por parvo do que passar mal, é incapaz de pagar mais por uma coisa perto dele do que pagar menos num lugar que fica mais longe”. Temos que lhe dar razão, pois já vai sendo tempo de sacrificar os nossos princípios e as nossas peneiras, pois, estas últimas, saem bastante caras.
Voltando a Abede Selassie, já que o mesmo, em tempos, rejeitaria a hipótese de um novo aumento de impostos como solução ideal para os problemas da economia portuguesa, estranhamos a pronta resposta ao relatório pedido pelo Governo, onde o FMI propõe reduções adicionais de funcionários e de salários no Estado, o aumento das taxas moderadoras, a dispensa de 50 mil professores e um corte em todas as pensões, com vista à redução de oitocentos milhões já este ano e um corte permanente na despesa de quatro mil milhões de euros a partir de 2014. Até nos dá um “travo” na língua ao falar em tais números. O documento refere ainda, e contrariando os apanágios de Paulo Portas quando deambulava pela oposição, que os polícias, os militares e os professores continuam a ser um grupo privilegiado na sociedade, que os médicos têm salários excessivamente elevados (principalmente devido ao pagamento de horas extraordinárias), os magistrados beneficiam de um regime especial que aumenta as pensões dos juízes em linha com salários e o sistema de protecção social, que diz ser “demasiado dispendioso, injusto e especialmente para os mais jovens”, defendendo que o “subsídio de desemprego continua demasiado longo e elevado”. Quanto às benesses e mordomias dos políticos, nem uma palavra…
Admitindo que se instalou um “nervoso miudinho” perante as anunciadas medidas de austeridade, vem o Governo, pela voz do seu primeiro, anunciar aos “quatro-ventos” que o relatório do FMI não é “a Bíblia do Governo”, apelando – ainda que demagogicamente – a um debate nacional o mais alargado possível sobre a redução da despesa pública e a reforma do Estado, louvando a voz activa do seu secretário de Estado adjunto, Carlos Moedas (vale a pena ver e ouvir as suas magníficas intervenções ao tempo do governo de Sócrates, para ver que a “bota não dá com a perdigota”), quando disse, e muito bem, que o relatório do FMI está muito bem feito, que contém informação muito relevante. Mas qual? – perguntamos nós.
Por último, ficamos a saber também que o Governo português, por forma a apaziguar “o formigueiro no carreiro”, recusa cortes de salários e avança com despedimentos, demonstrando claramente uma extraordinária vocação para a velha técnica de “vendedores de tapetes”.
Quanto a Abede Selassie, porque não enceta uma saga para salvar o seu país natal. Com todo este “arcaboiço” economicista, por certo que viríamos a Etiópia como uma grande potência mundial. A não ser que os polícias, os militares e os professores continuam a ser um grupo privilegiado na sociedade etíope, tirando visibilidade política aos bem-intencionados mentores das sociedades equilibradas pelo capitalismo selvagem, profeticamente anunciado por Karl Marx.

Estaremos em dizer que com gente desta “laia”, jamais alcançaremos a “salus populi”!...

Friday, January 11, 2013

«Figuras populares de Ponte de Lima» de Luís Dantas, uma pérola da literatura limiana


“Estamos perante um conjunto de importância primordial para a nossa memória colectiva – um quinhão de biografias que nos apresentam personagens únicos, com os seus amores e desamores, as suas paixões e a forma peculiar de existir e agarrar a vida”.

Daniel Campelo

Em jeito de prenda de Natal, complementada com um cartão de boas festas (onde em nome da verdadeira amizade, algumas deferências, não merecidas, se nos foram dirigidas), recebemos do grande poeta da imagem limiano Amândio de Sousa Vieira, o livro de Luís Dantas, «Figuras Populares de Ponte de Lima», editado em 2009, pelo Município de Ponte de Lima, mas só agora trazido ao nosso conhecimento.
A última vez que escrevemos a respeito de Luís Dantas foi em Outubro de 2008, numa das nossas crónicas semanais que “detínhamos” no jornal “Falcão do Minho” (com o título “Imperativos da Memória”), a propósito do seu magnífico livro «Os Limianos na Grande Guerra», onde sem dissimulações ou subterfúgios expressaríamos o maior respeito por este extraordinário historiador, poeta e escritor, que, infelizmente, nos deixou órfãos em 20 de Maio de 2011. Ainda a propósito – desculpem-nos o pleonasmo – da nossa visão crítica, no que concerne à dimensão intelectual do Luís Dantas, e como forma de separar águas (quantas chafurdices por aí se publicam), escrevemos: “Já por várias vezes escrevemos que não é historiador quem quer ou quem, circunstancialmente, o afirma. Não basta escrever para nos afirmarmos historiadores. Esta afirmação não carece de justificação, dado que se consultarmos as visitas à Torre do Tombo ou aos arquivos distritais, facilmente detectaremos a fraca assiduidade desses autodenominados eruditos, forjadores da história em decalques sucessivos. Até já se escusam à bibliografia, como se essa atitude fizesse denotar alguma modéstia ou presunçoso eruditismo. Repetem-se uns aos outros como crisálidas da palavra e da verdade histórica”. E acrescentaríamos: “O mesmo não acontece com Luís Dantas, esse limiano licenciado em História, professor em Lisboa, poeta e autor de várias obras, com colaboração dispersa em vários jornais e revista da especialidade. (…) Tal como os trabalhos anteriores, este é mais um ensaio que em muito veio enriquecer o panorama histórico de Ponte de Lima. Por se tratarem de trabalhos inéditos, fazem a diferença. Para se ser historiador – o pensar e agir cientificamente orientado – tal como escreveria Patrick Gardiner, é preciso orientar a atenção em questões a respeito da condição e da estrutura da mente humana. É nesse sentido que vemos e sentimos Luís Dantas trabalhar”. Passados quatro anos, e mesmo com o seu desaparecimento físico, mantemos a mesma convicção.
Falando agora de «Figuras Populares de Ponte Lima», e quando era suposto, em face do que o título nos sugere, ter entre mãos uma simples descrição de figuras sem a mínima importância – por de populares se tratarem –, eis que assistimos à produção de uma verdadeira pérola literária, onde o verdadeiro (desculpem-nos a redundância) sentido estético da palavra escrita se nos apresenta, face à sua beleza, como uma tela aguarelada… poeticamente aguarelada. Nesta maravilhosa obra, Luís Dantas acaba por reforçar o estatuto maior de um poeta e escritor, magnamente burilado na arte de bem escrever. Estamos em dizer que, face ao sistema ou conjunto de sinais que permitem a expressão ou comunicação, sem desprimor para a apreciação afectiva – sempre tomada pelo gosto pessoal – de outros escritores limianos e de suas obras, «Figuras Populares de Ponte de Lima» é uma obra inultrapassável, porque nos remete para uma prática colectiva, onde a linguagem não é concebida como um fenómeno privado. Daí Luís Dantas, logo no início desta sua preciosa obra, citar Jacques Le Goff: “… e a história (é) dos homens, de todos os homens, não unicamente dos reis e dos grandes”. De facto, e fazendo nossas as palavras do prefaciador, o nosso particular amigo João Alpuim Botelho, “o que torna este livro verdadeiramente especial é a capacidade de encontrar estas pessoas [populares], no meio da multidão anónima (cada vez mais globalizada e idêntica) e de perceber que os seus comportamentos, apontados como ridículos e considerados paródicos, representam um tempo e um modo de vida que desaparece”. Através da pena de Luís Dantas, sem ridicularizar os personagens (antes pelo contrário, revigora-lhes a memória) até o linguajar popular ganha expressão colegial, pois sempre ouvimos dizer que é a linguagem no seu todo, na sua função essencial, a realização do pensamento da própria humanidade. Não é por acaso que hoje muitas das expressões populares fazem parte dos dicionários.


Perpassam pelas páginas deste precioso livro figuras como Lourenço, “o Preto”, trazido para Ponte de Lima pela mão de um general que tinha acabado a sua campanha em África, “E nas festas? Ah! Senhor, nas festas, a música da sua flauta rebrilhava. Nas Feiras Novas, era cartaz”; Pinta Ratos, “tinha o chapéu de coco descaído para a nuca e o olhar assombrado”; Zé Pilauta, o último almocreve da vila, “todas as manhãs, fizesse chuva ou sol, vinha de São João da Ribeira, com passagem obrigatória pela mercearia do Gasparinho do Arrabalde, até ao Largo”; João da Luciana; Caetano Ferrajola; João da Bomba, com “arremedos do poeta Bocaje”; O Fazenda, “ensinou muitos lavradores a ler pelo jornal diário”; O João da Barca, mestre na arte de ferrar; A República, qual Aurora “ia-se embora pelo caminho de além da Ponte a mastigar pequenas raivas”; Joaquinzinho; O Sucateiro, “dizia-se que apareceu na vila vindo não se sabe bem de onde”; O Mário; O Guerrinha, “na trabuzana da vida, os versos de zombarias e escárnios foram a sua perdição. Saíam-lhe da alma, como uma chilreada”; O Zé Povo, “tido por muitos como um dos primeiros provadores de vinhos e aguardentes do lugar”; Zé Caraitas, mestre de barbearia; São Roque; Pai Quim, “só via o rio Lima”; Manel Cauteleiro; João da Mena; João Nabiça; Zé Ferreiro, “percorreu pequenas e grandes distâncias, trepou aos cumes das serras, esgaravatou nas minas de volfrâmio, viveu vastas aventuras com pegureiros, galegos e contrabandistas, venerou os santos em festas e romarias”; O Cachadinha, “lembro-me [também nós] dele beber uma, duas tigelas e botar flores nos cabelos das raparigas com quadras de redondilha maior”; O Se Luís, “era um mouro, mas tinhas as suas folgas”; Zé Brandão, “o estudante mais boémio do Externato”; O Néu Franquinha, morador no bairro das Pereiras; e, finalmente, as Lavradeiras do Rio Lima, citando a Bicocas e a Maria da Inês.
Só percorrendo as páginas desta maravilhosa pérola literária, poderemos constatar a falta que nos faz a pena e a memória de Luís Dantas. O Município de Ponte de Lima, ao editar «Figuras Populares de Ponte de Lima» prestou um extraordinário serviço à Cultura da região. Bem-haja por isso!

Sunday, December 23, 2012

ANTIGO REINO DO CONGO


S. Salvador do Congo (hoje M'banza Congo) conheceu os nossos passos, pois aí vivemos (mesmo em frente às ruínas da antiga Sé do Congo) e aí nasceu nosso irmão Helder Manuel Pereira da Silva. A nossa entrada em S. Salvador do Congo deu-se pela estação do cacimbo, no longínquo ano de 1965. Esta cidade, ao tempo, capital do distrito do Zaire, situava-se a 216 quilómetros de Maquela do Zombo; 70 de Luvo, posto de despacho alfandegário (fronteira com o ex-Congo Belga); 180 de Nóqui; 53 de Madinha; 65 do Cuimba e 30 do Buéla. As terras de M'banza Congo ali a nossos pés, faziam-nos sonhar com o antigo reino do Congo, cuja cristianização se iniciou nos fins do século XV. Foi ali que, nove anos depois de Diogo Cão descobrir o rio Congo (1482), em 1491, aportaram os primeiros missionários, os cónegos seculares de Santo Elói de Lisboa. A 3 de Maio baptizaram o rei Nzinga-a-Nkuwa que, tomando o nome de D. João I, deu assim início a uma dinastia cristã. Não admira que se reproduzissem tantas historias e lendas. A imponente e bem conservada coluna erigida ao lado direito da Sé, no antigo cemitério dos monarcas do Congo, por exemplo, falava-nos da traição de uma rainha negra, e que o déspota rei do Congo, seu marido, fiel ao cristianismo e aos portugueses, a mandou sepultar viva nessa coluna, servindo de coacção aos seus súbditos. Talvez a forma deturpada de lembrar Afonso I, filho de D. João I, quando reprimiu a revolta dos pagãos chefiados por seu irmão mais novo. O conceito de monarquia, fazia sentido nestas terras. Ouvimos falar dela, privamos de perto com um descendente (de quem não nos lembramos o nome) do último rei do Congo (D. António III), falecido em 1957, depois de um breve reinado de pouco mais de um ano. Por ser primo de D. Isabel, herdeira do trono, o casamento realizou-se (1924) com autorização especial (dispensa) de Roma. Guiado pelo seu descendente, chegamos a entrar na casa que serviu de residência deste monarca, percorrendo as dependências, avivando aqui e acolá um sentimento de africanidade, revelado não só pelos cenários, mas sobretudo pelas memórias. A árvore da cola, que diziam ter sido da forca, testemunhou alguns dos nossos passos, confidências e brincadeiras. Dentro da nossa inocência, ouvimos falar, pela passagem de testemunho dos seus ascendentes, da forma pouco ortodoxa e sobretudo enganosa com que o governo português havia alimentado este reinado sem trono, mesmo quando lhes permitiu (a D. António III e D. Isabel) possuir casa de Estado, secretários e ministros, à semelhança dos seus antepassados. À data da nossa permanência em S. Salvador do Congo, D. Isabel (Quengue) ainda era viva, mas já havia sido destituída do título de rainha (1962) e vivia numa das sanzalas das imediações.  [Texto extraído e adaptado do nosso livro «Chamaram-me Muxicongo: memórias de um ex-metalúrgico», Braga: Edições APPACDM Distrital de Braga, 1999].

Saturday, December 22, 2012

O olhar de José Ernesto Costa sobre as Lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos


“Nos lagos e lagoas reina uma contínua interacção entre a matéria inorgânica, os vegetais e as algas produtoras de substâncias nutritivas, os animais herbívoros e carnívoros e os microrganismos que decompõem as substâncias inorgânicas. Os seres vivos de uma região formam juntamente com o ambiente que os rodeia, um conjunto natural que é o ecossistema”.

Fernando Aldeia

José Ernesto Costa autografando
Sempre respondemos ao chamamento ou apelo de quem gostamos. Em Ponte de Lima, felizmente, são muitos os que conseguem atrair-nos para as mais diversificadas iniciativas, porque há uma saudável cumplicidade cultural à boa maneira hegeliana, onde a cultura é um processo histórico no decurso do qual o homem aprende a dominar a realidade e onde não pode contentar-se com o já existente, sendo sempre obrigado a imprimir a sua marca no mundo através da sua actividade, movimento que reflecte o progresso da consciência. É assim que sentimos – sem rotulações político-partidárias ou supostas colagens ao poder instituído, dado que há boas e más pessoas em todo o lado – o pulsar das gentes limianas, para as quais a cultura é a realização da natureza humana e não do abandono desta. Associado ao facto de que a nossa noção de cultura assenta no princípio mais básico (sem ser banal) do “conjunto de conhecimentos e práticas aprendidos e ensinados, por contraste com o que é inato”, nunca deixamos de responder a esses apelos culturais, vindos das terras de António Feijó. Nesse sentido, não poderíamos deixar de estar presentes na sessão de lançamento do último trabalho literário do bom amigo/poeta e ilustre memorialista limiano, José Ernesto Costa, que decorreu no pretérito dia 15 de Dezembro, no Auditório do Centro de Interpretação Ambiental da Área Protegida das Lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos, aprazível local que faz jus à deambulação poética do José Ernesto Costa, com o seu «…olhar sobre as…» mesmas Lagoas. Tal como nós, para além do seu “limianismo” e paixão memorialista, José Ernesto Costa também levou com o “aroma tropical pela tromba”. É essa dicotómica cumplicidade, difícil de explicar, que nos aproxima cada vez mais um do outro: “Esta dádiva da Mãe Natureza, deve ser preservada por todos nós, até ao fim das nossas vidas” – concordamos plenamente!


A nosso modesto ver, «O nosso olhar sobre as Lagoas de Bertiandos e S. Pedro de Arcos» de José Ernesto Costa, apresenta-se assim como um testemunho real que reflecte o progresso da consciência humana, sem pretensões a qualquer tratado científico – sabemo-lo que nisso o José Ernesto é bastante sério –, tendo apenas em mente a obrigação de imprimir a sua marca poética no mundo através da sua actividade intelectual plasmada no (como anteriormente dissemos) movimento que reflecte o progresso da própria consciência. Deliciamo-nos com as excelentes fotografias do Manuel Varela e Délio Costa (seu filho), e a prosa poética de José Ernesto Costa, onde “é difícil resistir a tão bela paisagem sem distinguirmos sons nem melodias neste inconfundível espaço das lagoas”, com “imagens que nos seduzem num mundo possível”. Este espaço, importante para a conservação da natureza e da biodiversidade, acaba por seduzir qualquer pessoa conscienciosa do seu papel na sociedade cada vez mais globalizada, indiferente e/ou adversa à coabitação homem/natureza. Neste livro encontramos uma envolvência profunda – como escreveria Fernando Aldeia no prefácio – da alma e coração. De facto, aquele local transmite-nos um ambiente aprazível e incomparável, sensação cognitiva que José Ernesto Costa, Manuel Varela e Délio Costa, magnificamente nos souberam transmitir. Concordamos com as palavras do autor quando afirma que “preservar um espaço assim verdejante e paradisíaco é por certo a grande ambição do Município. Sensibilizar as populações visitantes para esta riqueza natural é um dever de todos os limianos”, confessando, ao mesmo tempo, a impossibilidade de descrever na sua totalidade, toda a riqueza e diversidade assinaláveis de espécies de fauna e flora, o que acaba por fazer denotar, mais uma vez, uma confessa e verdadeira seriedade intelectual: “O meu olhar pelo interior das lagoas, despertou em mim uma procura interminada da flora e fauna. Desse nosso olhar pelo paraíso, destacamos o possível, ficando muito aquém do existente”. Temos que ter consciência que se trata apenas de olhar diferente de tantos outros, mas que se presta, a custo zero para o município, à divulgação da riqueza e qualidade ambiental desta “mui nobre” vila limiana. Um dia, quando o mundo globalizado despertar para a realidade da natureza humana – reconhecendo a falibilidade dos números, qual capitalismo selvagem –, todas estas incursões literárias do José Ernesto Costa (e de outros tantos que por aí gravitam, bebendo da água do Lethes), serão lembradas como o garante para o desenvolvimento sustentado da nossa região: “Uma riqueza cuja qualidade ambiental se deve estimular e ajudar na promoção daquele património natural, dado o grande potencial que congrega para o desenvolvimento da actividade turística. Um património natural que nos enche a todos de um enorme orgulho” – citamos Fernando Aldeia.

Obrigado José Ernesto Costa por este excelente trabalho literário, do qual gostamos bastante e que vivamente recomendamos. Apenas um senão – numa sugestão crítica/construtiva, que por certo aceitarás –, o final do livro deveria conter as fotos e umas pequenas notas biográficas do Manuel Varela e do Délio Costa!

Tuesday, December 18, 2012

O “Sentimento do Poema” em Amândio Sousa Dantas


“O romance apresenta imagens perceptíveis com sensações definidas, e a poesia com sensações indefinidas, para cujo fim a música é uma parte essencial, dado que a nossa concepção mais indefinida é a compreensão de um som doce”.

Edgar Allan Poe

Aí está o novo livro de Amândio Sousa Dantas. Algumas pessoas questionar-se-ão do nosso persistente atrevimento em falar de novo deste inspirado vate limiano, quando já o fizemos por duas vezes este ano, nomeadamente numa das nossas crónicas – a propósito da sua magnífica “Antologia Poética” – e no “Anunciador das Feiras Novas, onde o baptizaríamos de “um poeta mesológico do Lethes e do Mundo”. Na altura, fizemos questão de salientar que sempre soubemos perscrutar-lhe a alma, porque o sentimos possuidor das três distinções mais imediatas e óbvias do mundo da mente: o “Puro Intelecto”, o “Gosto” e o “Sentido Moral”, parafraseando Edgar Allan Poe quando afirma que “da mesma maneira que o Intelecto se preocupa com a Verdade, assim o Gosto nos informa sobre o Belo, enquanto o Sentido Moral se responsabiliza pelo Dever”. Achamos que, pelo ajuste das distinções, não serão necessários mais condimentos ou adjectivações para considerarmos Amândio Sousa Dantas, sem o acantonarmos ao nosso espaço geográfico e sem menosprezarmos outros poetas que tanto admiramos, um dos grandes poetas contemporâneos nacionais. Tal facto, tendo em conta a nossa convincente afirmação (tão só, sedimentada pelo nosso gosto pessoal), permite-nos, ao mesmo tempo, formular alguma concepção especulativa no que concerne à “mimese poética” de muitos outros poetas – e poetisas – de quem gostamos. E não são poucos, tendo em conta que todos eles têm o seu lugar próprio na nossa percepção cognitiva – escolha de uma impressão, ou efeito, a ser transmitido (E. A. Poe) – de cada um. À sua vez, iremos falar de todos aqueles que, “poetando”, nos criam um estado emocional, uma saudável nostalgia ou uma sonorização melódica – sim, com certa musicalidade –, transmitindo partilha de pensamento (mesmo quando na dor), porque a poesia se repercute na linguagem humana, utilizada com fins estéticos, compreendendo mesmo aspectos “metafísicos”, no sentido de sua imaterialidade e da possibilidade de se transcender ao mundo fático.


Mas, voltemos ao Amândio Sousa Dantas e ao seu mais recente brado poético – “Sentimento do Poema”, qual espelho de revelação, voo, existência, desafio, presságio, despedida, tristeza, silêncio, ternura, abraço, olhar, sombra, caminhos, medo, dúvida, natureza, rio, vento, reconciliação, desolação, entardecer, paisagem, rumo, luz, assombro, adeus, tempo, palavra, vida como um fio, comunhão, esperança, amor e eternidade – complexo lexical em que devíamos ter usado aspas, visto que extraído dos textos –, melhor expressaria o sentimento profundo do poeta, em cuja “metafísica não segue a [sua] minh’alma” (sou mais de olhos na paisagem / pela viagem de Ulisses), e que tudo conjugado dissimula, de uma forma perfeita, uma canção para seu irmão: “As lágrimas transformaram-se / em vidro estilhaçado: / e eu, meu irmão / teu rosto não alcanço, / e só na minha alma um rio corre / sem cessar – eu não o posso atravessar”. Se não fosse a riqueza de conteúdo que percorre todo o “Sentimento do Poema”, onde “o poeta é responsável pelo ar que o rodeia” e “um fio se tece por sua dor”, bem que poderíamos ficar por aqui. Contudo, mais nos apraz dizer que o “Sentimento do Poema”, apesar de nos revelar um sentimento amargurado (de dor) de quem perdeu algo que o complementava – pensa crescer árvore / sol ou o amor exacto / no esplendor do dia (Luís Dantas) –, produzindo um efeito profundo e duradouro de que “só a força invisível do poema” o contempla: “Hoje conheço o silêncio mais fundo, / como o estremecer da terra e / de nós a desprender-se. / Ali, uma fenda se abre dentro de mim. / Eis-me sozinho a estancar a dor”, é, simultaneamente, um hino à imortalidade e ao amor: “Imortal / sou e / o que de mim / ficou? / o amor”. De facto, a poesia em Amândio Sousa Dantas flui com a maior naturalidade porque, felizmente, e extraindo das suas próprias palavras, “o poeta não se refugia na cara da dor. / Só a vida se abre ao conhecimento”. Só os grandes poetas conseguem ver, numa verdadeira e sensitiva reconciliação, “que a compaixão se funde no poema”. Mais não diremos, ficando o apelo à sua leitura e interiorização, como um abraço que nasce da emoção: “Assim – sem mais nem menos – / Um abraço do poema ao sol: / e toda a sombra / do poeta / por ele se ilumina”. Simplesmente, sublime…
“Sentimento do Poema”, mais um livro com nota máxima!

Saturday, December 08, 2012

Arlindo Pintomeira expõe “Trabalhos sobre papel” no Museu Nogueira da Silva, em Braga


“Todos os dias, devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas”.

Goethe

Tomados pela necessidade de nos mantermos alheados ao uso excessivo da violência e indecoro de certos “políticos de pacotilha”, nomeadamente aqueles que sistematicamente lutam contra a Cultura e contra os homens e mulheres completos (corpo, intelecto e espírito), onde tudo evolui paralelamente para uma vida bem-sucedida e equilibrada, no dizer de Montapert, lá vamos descomprimindo o nosso “estádio sombrio” da mente, deliciando-nos com a boa música, boa poesia e a boa medida do estado emocional da Arte e da Filosofia. Imbuídos pelo saudável deleite da Cultura – qual forma imprescindível de respirar – aceitamos o amável convite do Museu Nogueira da Silva, por forma a rumarmos até à cidade dos arcebispos, ao fim da tarde da data memorável – 1 de Dezembro de 1640 – para a independência de Portugal (vilipendiada, a partir do próximo ano, pelos tais “políticos de pacotilha”), acompanhados pela nossa sobrinha Jessy Silva, a fim de assistirmos à abertura da Exposição «Trabalhos sobre papel (1975-2011) retrospectiva», do nosso bom amigo Arlindo Pintomeira, de quem já aqui falamos numa das nossas crónicas, a propósito das duas exposições que mantém em Viana do Castelo até ao dia 31, deste mês de Dezembro: “Exteriores-Interiores”, nos Antigos Paços do Concelho; e “Outras Faces”, na Galeria d’Arte da Misericórdia. Na altura, demos conta do seu extraordinário percurso de profícuo artista que é, e que continuará a ser, face à sua não menos extraordinária sensibilidade, criatividade e linha filosófica, elevada pela experiência humana, que o tem levado a concretizar diferentes formas de arte, às quais nos vamos deixando seduzir: surrealismo, contornismo e figurativismo (texturas espessas, o desenho automático, as cores vivas e primárias do expressionismo em combinações complementares, e ainda os motivos simples e depurados com algumas ligações ao surrealismo e á arte primitiva, acompanharam o artista durante grande parte da sua obra) com alguma influência através do grupo “CoBra”, mas criando o seu próprio estilo e peculiaridade.
     
Com nossa sobrinha Jessy Silva, ladeando o talentoso artista Pintomeira

Introduzidos por um painel colocado à entrada da exposição, que nos alertaria para o facto de que “a desmaterialização dos objectos foi o caminho seguido por Pintomeira numa nova linha onde o contorno acabou depois por se reduzir a um filete, as imagens dos objectos aparecem estilizados quando não reduzidas a silhuetas sem cor nem respeito pelos outros objectos do quadro, e este composto de texturas que lhe conferem ritmo, irrealidade, estatuto de «formas puras». Neste ambiente Pintomeira colocou grelhas quadriculares, aves, silhuetas femininas, rostos de perfil, frutos; e varandas, e luas, e caras com olhos de espanto”, depressa nos entrosaríamos no ambiente apelativo da pretensa e bem conseguida retrospectiva dos “trabalhos em papel”. Gostamos bastante, e isso nos basta.

Sem mais devaneios – valorizando, desta vez, o testemunho da imagem –, aqui fica esta nossa pequena nota e oportuna sugestão/convite para se deslocarem até à cidade de Braga, nomeadamente à “Galeria Jardim/Museu Nogueira da Silva” (até ao dia 3 de Janeiro de 2013), onde poderão disfrutar da mensagem, do exercício e experimentação artística do grande Artista contemporâneo do Lima e do mundo, Arlindo Pintomeira. Creiam que valerá a pena!


Pintomeira à conversa com o Reitor da Universidade do Minho, Prof. Doutor António M. Cunha


Prof. Doutor Miguel Bandeira (UM) e filho, presenças afectivas na Exposição de Pintomeira

Sunday, December 02, 2012

Em homenagem a Amadeu Torres, reeditado “O meu caminho é este” de Castro Gil


“Elaborado depois de receber «uma luzinha para não errar», este código quase dogmático que terçara, a todo o instante, contra turbulências várias e enigmáticos percursos, como luzeiro amainante e revigorador, não podia perder a vivacidade antes do tempo, na visão sentida do autor”.

Alípio Rodrigues Torres

Precisamente, no dia – 25 de Novembro – em que Amadeu Rodrigues Torres (1924-2012), nosso amigo/irmão e eterno confidente, completaria oitenta e oito anos de idade, a Câmara Municipal de Viana do Castelo e a Junta de Freguesia de Vila de Punhe (Viana do Castelo) prestaram-lhe uma justa e merecida homenagem, que teve lugar na Terra Natal deste ilustre e incontornável homem da ciência e da linguística, mesmo a nível internacional. Justificar ou patentear esta afirmação – dado que a não fazemos de “ânimo leve” –, levar-nos-ia a discorrer pela sua vastíssima obra científica e pelas dezenas de academias em que tinha assento, muito bem demonstrada pela extraordinária intervenção de Rui A. Faria Viana, director da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, que naquele dia (e ao contrário do que alguns perniciosos à cultura e à memória de Castro Gil têm procurado empacotar a dimensão intelectual deste vulto da nossa região, com mastigados conceitos, disfarçados de eruditismo, para explicar o que é imperceptível a todos e talvez a eles próprios, como forma de se pavonearem em multifacetadas dimensões intelectuais, que não possuem) nos fez uma retrospectiva da vida e obra do homenageado, de uma forma clara, cientificamente irrepreensível e honestamente elaborada. Sabemos, por lhe conhecermos o âmago, que o Professor Doutor Amadeu Rodrigues Torres (Castro Gil), se fosse vivo, iria gostar de ouvir e, por certo, como emérito académico que era, lhe atribuiria nota máxima. Mas, o ponto alto desta extraordinária homenagem, que contou com a presença de diversas personalidades ligadas aos meios civis e religiosos, foi a apresentação pública da edição fac-similada da 1.ª edição (1948) do excelso brado poético de Castro Gil, “O meu caminho é este”, numa edição da Câmara Municipal de Viana do Castelo, artisticamente elaborada pelo competentíssimo e inspirado designer Rui Carvalho, com mensagem do Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, José Maria Costa, e preâmbulo do irmão de Castro Gil, Alípio Rodrigues Torres.

Abriu a sessão em homenagem a Castro Gil, o Presidente da Junta de Vila de Punhe, António Moreira

Nesta edição de “O meu caminho é este”, começamos por referir que o preâmbulo de seu irmão, Alípio Torres, justifica a nossa profunda deferência, pela extraordinária qualidade crítica-literária, beleza de escrita e sentimento de memória e gratidão: «Sempre fiel aos princípios escolhidos, só a “vitória completa e mais precisa – A eterna recompensa, a luz dos céus”, ou seja, o retorno à Origem, em quem sempre confiou (9 de Fevereiro 2012), tornara viável que a primeira publicação há muitas décadas inexistente no mercado, “O meu caminho é este”, enfarpelada segundo os ditames modernos, ressurgisse, por iniciativa da Câmara Municipal de Viana do Castelo, na altura em que Castro Gil completaria oitenta e oito anos de vida, como prenúncio de que os seus trabalhos continuarão a irradiar, desde já, emblemáticas lições de perenidade». Para nós, este preâmbulo representa uma pincelada aguarelada de sentimento e perscrutação da alma do poeta, «qual “Romeiro de beleza e simetria…”, vivendo numa “angústia constante de nunca saciar a sede requeimante” de completar sonhos diversos, como adiantara aos oitenta e dois anos: – “falta ainda muito, a começar por um conjunto grande de artigos, estudos e outros trabalhos… nunca reunidos até hoje” –, das recordações nostálgicas e de um passado saudosista, e não recuperável, numa segunda fase, inspirado pela “viagem real e o contacto com o mundo, seja o plurifacetado da natureza, seja o multívolo das civilizações do que resultou uma poesia predominantemente de fora para dentro”, tanto trata o impacto da monumentalidade e dos saberes, como o desencanto humano e seus retrocessos, as injustiças e as práticas duvidosas». Retrato fiel das “canseiras cognitivas” de quem se inspirava viajando e auscultando outras civilizações, que já se faziam adivinhar em “O meu caminho é este”, como um “caminheiro das estradas direitas e tortuosas,/ Das estradas brancas de sol ou negras de ilusões…/ No bornal anda-me o pesadume de muitos séculos”. E que poética pena – não de penúria, mas de inspirada escrita – a de Alípio Torres produziria a génese de Castro Gil: “Para quem, em idade de jovens incertezas, de encruzilhadas múltiplas e de dúbia existência, introspectivara, séria e reflexivamente, até aos ínfimos graus e linhas, um projecto a desdobrar ao longo da vida e pré-definiu, em englobantes parametrias, as temáticas rumativas de contornos axiológicos a desenvolver, qualquer baliza, ainda que só parcialmente cerceadora do contínuo fluir do pensamento realizativo, mesmo que de reafirmações de vetustos valores se tratasse, assinalaria uma nova etapa a começar”… Simplesmente sublime!

A nossa curta intervenção em homenagem a Castro Gil
 Falar de “O meu caminho é este” é falar da alma do poeta, ainda que envolto em “indecisões, avanços e recuos” e fechando-se no silêncio a meditar, sempre acreditaria que, a partir dali, o seu caminho era o de “louvar a Deus, sofrer, sorrir e fazer versos!...”; do “Bem e da Beleza e da Virtude!...”, sem temer andar descalço no brasido; dos “bosques humanos, os povos, as florestas de gentes”, quais sentidos diferentes atravessados “por hienas, tigres, chacais e camaleões de circunstância”; da inspiração filosófica da “perfeição absoluta, Actividade/ Sem mescla de potência, ó mar de Ser/ Que eu lograria apenas compreender,/ Se o finito abarcasse a infinidade…”; do “Deus da infância,/ A voz severa e justa da razão,/ As alegrias sãs/ Do coração”; do “coração que bata com coragem,/ Não por si…, e que anseie, em lances tais,/ Fugindo a merecida vassalagem,/ Ser humilde vassalo dos demais”; do coração que olha para fora; do poeta que lê versos no céu, ao luar sozinho; da “alegria daqueles que sabem fazer das mãos/ Caídas, nervosas ou enclavinhadas pela dor,/ Uma miniatura ascética de heróica montanha/ Por onde subam orações e olhares ao Senhor…”; da “nuvem desherdada” que encobre o azul do firmamento; do caminheiro das estradas direitas e tortuosas; do coração “em fome e algoz secura”; do “augusto murmurar”, da alva e belíssima harpa eólica; do estender da “mão a quem por ti chamar”; das portas discretamente semicerradas, das cortinas de carvão e sanefas de piche; do cheiro a cera, do relógio da sala, de bater aéreo; do céu pesado e traiçoeiro, sendo que nesse dia “morreu meu pai!”; do rio que corre desprezando a beleza da paisagem; do poeta que é poeta mesmo e não “cantor fingido de emprestada lira”; da alma que chora e do mundo como uma fornalha de tortura; da morte do dia como morre a gente; do fazer dos braços arcos em ogiva; dos horizontes belos, “de manhã primaveril,/ E andam perfumes de Abril/ Incensando a mocidade…”; das mãos – fadas de sonho e luz – “que não sabem fazer mal a ninguém”; da “face amarela da lua soturna,/ Que faz o sorriso de nome luar,/ Sentindo a agonia da larva nocturna,/ Desmaia a chorar…”, etc., etc. E as sublimes homenagens a José Régio, com o “Canto da Alegria”, e a António Corrêa de Oliveira, com “Poeta, reis de poetas…”?!... Então o poema a sua mãe, comove-nos profundamente… De facto, neste maravilhoso brado poético de Castro Gil “ser poeta é ver as coisas/ que os outros vêem também;/ mas senti-las, cá por dentro,/ como não sente ninguém”.
Congratulamo-nos com o testemunho deixado pelo Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, na mensagem introdutória ao livro, ora reeditado: “Viana do Castelo evoca desta forma singela o insigne professor, o conceituado investigador de estudos humanísticos e linguísticos, o editor e autor de inúmeras edições e trabalhos científicos e o inspirado poeta”.
A nossa última palavra de profunda gratidão vai para Maria José Guerreiro, vereadora do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Viana do Castelo, pelo empenho, sensibilidade e discernimento que emprestou à realização deste maravilhoso “caminho” que nos leva à perenidade da Cultura.

Quiçá, se “O meu caminho é este” não é o reflexo ou o espelho dos nossos próprios passos, convergentes e, no dizer de Castro Gil, “pergaminho de um Povo de imortais”. Os poetas não morrem e… “nec plus ultra”.

Saturday, November 24, 2012

Tiago Manuel ilustra “Antologia Poética” de Mário de Sá-Carneiro


“Quando recebi o convite para ilustrar a poesia de Mário de Sá-Carneiro, aceitei o desafio com a confiança de quem conhece bem o chão que pisa. Não quero com isto dizer que foi fácil a empresa ou que de tais cuidados tirei prazer. As obras que nos ajudam a compreender a vida raramente estendem o vocabulário até ao contentamento”.

Tiago Manuel

Tal como afirmamos em jeito de apelo, aquando do nosso sensitivo “devaneio crítico” a propósito das exposições do nosso bom amigo Pintomeira, para que procurassem fazer uma visita às duas exposições e se deixassem envolver pela mística das pessoas interessadas em obras de arte e não apenas na ideia de arte, na altura salvaguardamos, contudo, o nosso “acto de contrição”, pelo facto de carregarmos o “martírio” de sermos bibliófilos, condicionante circunstancial de apenas nos ficarmos pela ideia de arte, em detrimento do interesse em obras de arte, infelizmente, o mesmo tem acontecido com tudo o que Tiago Manuel tem produzido e o lugar destacado que ocupa no panorama artístico em Portugal. Apreciamos-lhe a sua vastíssima obra, interiorizamos as suas mensagens pictóricas, mas – porque condicionados pelas nossas “magras jornas” – temo-nos ficado apenas pela ideia de arte. E hoje predispusemo-nos a falar dele, pelo simples facto de termos adquirido o seu último trabalho artístico.


Para os mais distraídos, e como tributo à nossa venerável admiração pelo artista, aqui fica uma pequena nota biobliográfica: O Tiago Manuel nasceu em Viana do Castelo, a 1 de Agosto de 1955. Fez a sua formação artística com os mestres Aníbal Alcino e Júlio Resende. A sua obra tem sido apresentada no país e no estrangeiro em instituições e galerias de referência. Foi premiado várias vezes. EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS: 2010 – “Sai do meu Filme”, Exposição de Desenho, Antigos Paços do Concelho, Viana do Castelo; 2008 – Mishima, Manifesto de Lâminas, Centro Cultural de Belém, Lisboa; 2008 - Galeria Spectrum Sotos, Saragoça; 2007 – Galeria Palmira Suso, Lisboa; 2002 –Lugar do Desenho, Fundação Júlio Resende, Gondomar; 2001 – Serpente, Galeria de Arte contemporânea, Porto; 2001 – Bedeteca de Lisboa, Palácio do Contador-Mor, Lisboa; 2000 –  Galeria Assírio & Alvim, Lisboa; 1998 – Galeria Spectrum, Saragoça; 1998 – Galeria Arte Periférica, Lisboa; 1996 – Galeria Arte Periférica, Lisboa; 1995 – Museu Municipal de Viana do Castelo; 1994 – Galeria J.M. Gomes Alves, Guimarães; 1993 – Galeria Quadrum, Lisboa; 1992 – Sede do Instituto Politécnico de Viana do Castelo; 1992 – Galeria Spectrum, Saragoça; 1992 – Galeria Absidial, Nantes; 1991 – Galeria Quadrado Azul, Porto; 1991 – Galeria Municipal, Famalicão; 1990 – Galeria Pedro e o Lobo, Lisboa; 1989 – Galeria Quadrado Azul, Porto; 1989 – Galeria Orfila, Madrid; 1989 – Galeria Matisse, Barcelona; 1986 – Salão da Cultura, Viana do Castelo; 1986 – Círculo de Artes Plásticas, Coimbra; 1983 – Museu Nogueira da Silva, Braga; 1983 – Galeria de Arte Moderna, S.N.B.A., Lisboa; 1982 – Salão da Cultura, Viana do Castelo; 1980 – Salão da Cultura, Viana do Castelo; 1979 – Salão da Cultura, Viana do Castelo; 1979 – Fundação Eng. António de Almeida, Porto; 1978 – Salão da Cultura, Viana do Castelo (exposição promovida pelo Instituto no âmbito da Presidência Aberta). EXPOSIÇÕES COLECTIVAS: 2011 – “Tinta nos Nervos”, Banda Desenhada Portuguesa, Museu Col. Berardo, CCB, Lisboa; 2009 – “Sonhos com Moldura”, Centro de Arte de São João da Madeira; 2008 – ARCO / Casa da Cerca, Almada; 2008 – “2008 Voltas no Carrossel” – Exposição colectiva de ilustradores portugueses e estrangeiros, Auditório Augusto Cabrita, Barreiro; 2007 – PRÉMIO STUART DE DESENHO DE IMPRENSA, Lisboa; 2006 –1ª Edição do “FAROL DOS SONHOS – Encontro Internacional sobre o Livro e o Imaginário Infantil” Cascais, 2006 – PRÉMIO STUART DE DESENHO DE IMPRENSA, Lisboa; 2004 – PRÉMIO STUART DE DESENHO DE IMPRENSA, Lisboa; 2004 – SALÃO LISBOA de Ilustração Portuguesa 2004, Câmara Municipal de Lisboa; 2002 – SALÃO LISBOA de Ilustração Portuguesa 2002, Câmara Municipal de Lisboa; 2001 – SALÃO LISBOA de Ilustração e Banda Desenhada, Câmara Municipal de Lisboa; 2000 – SALÃO LISBOA de Ilustração e Banda Desenhada, Câmara Municipal de Lisboa; 1998 – ARCO, Feria Internacional de Arte Contemporâneo, Madrid; 1997 – “Contra Viento y Marea” Fotografia Ibérica Contemporânea, Ministério da Educação e Cultura de Espanha, Escola de Belas Artes de Saragoça; 1994 – Exposição de grupo, Museu Municipal de Viana do Castelo; 1993 – “Prémio Nacional de Pintura Júlio Resende”, Câmara Municipal de Gondomar; 1993 – Tarazonafoto, Encontros Internacionais de Fotografia, Tarazona; 1991 – “Prémio Nacional de Pintura Júlio Resende”, Câmara Municipal de Gondomar; 1990 – Exposição Nacional de Desenho, “A Invenção do Lápis”, E.S.A., Árvore, Porto; 1989 – II Exposição Nacional do pequeno formato, Árvore, Porto; 1989 – “Le Temps du Regard”, Ministére de la Communication, des Grands Travaux et du Bicentenaire (Villejuif, Créteil, Paris, Rennes); 1987 – III Bienal Nacional de Desenho/ Árvore, Porto, Évora; 1986 – Exposição sobre os Direitos Humanos (Fundação Eng. António de Almeida, Porto; Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; e Sede dos Direitos Humanos, ONU, Genebra); 1984 – Exposição Convívio, S.N.B.A., Lisboa; 1984 – 3ª Exposição de Artes Plásticas do Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo; 1983 – 2ª Exposição de Artes Plásticas do Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo.
Na qualidade de ilustrador publicou nos jornais “Público”, “Expresso”, “JL –Jornal de Letras”, “Letras & Letras”, “O Diário”, nas revistas “Colóquio/Letras” da Fundação Calouste Gulbenkian, “LER-Círculo de Leitores” e nas editoras “Âmbar”, “ASA”, “Afrontamento”, “Media Vaca” (Valência) e “Bertrand”, entre outras. Últimos trabalhos: “O sangue por um fio”, livro de poesia de Sérgio Godinho, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009 – Cartaz para o filme “Ruínas” de Manuel Mozos, Festival INDIELISBOA, 2009. Em 2008 criou e passou a dirigir a colecção de banda desenhada “O Filme da minha Vida”, editada pela Associação de Produção e Animação Audiovisual AO NORTE, Viana do Castelo.

Desde 2000, para além do “Sai do meu filme” (Calendário de Letras, Porto, 2010), Tiago Manuel já publicou doze livros, artisticamente inspirados por sete dos seus vinte e cinco heterónimos – Terry Morgan (“Lua Negra” e “O amor é vermelho e arde”), Murai Toyonobu (“NAUTILUS the ship” e “Tango”), Tom Mccay (“Debaixo da Lua vive gente” e “Os sonhos da cobra”), Tim Morris (“O Escapista” e “Mente Perversa”), Marriette Tosel (“O armário psicótico / boas maneiras”), Tamayo Marín (“A tempo inteiro”) e Max Tilmann (“Este céu cheio de terra” e “Já não há maçãs no paraíso”) –, cujas obras produzidas e a produzir abrangem as seguintes áreas: ilustração de autor, banda desenhada, humor negro, histórias infantis, romance gráfico, diários ilustrados com fotografias e pinturas, teatro, literatura policial, moda e cinema. Da sua publicação total resultará uma pequena biblioteca de 50 livros. Muito recentemente acaba por ser editada uma antologia poética de Mário de Sá-Carneiro, que contém ilustrações de Tiago Manuel, numa edição de “Kalandraca Editora Portugal, Lda.”, onde são publicados poemas escritos entre 1913 e 1916 (“O Lord”, “A Queda”, “Estátua Falsa”, “El-Rei”, “O Fantasma”, “O Recreio”, “Pied-de-Nez”, “Apoteose”, “Ápice”, “Último Soneto”, “Salomé”, “O Resgate” e “Fim”). Segundo o nosso ilustríssimo artista – que tanto apreciamos – Tiago Manuel, ao ler os poemas de Mário de Sá-Carneiro, “senti que as palavras do poeta desenhavam a minha vida direita pelas linhas tortas do mundo que conheço, em tudo quase igual ao mundo que ele conheceu cem anos antes. A mesma dor, os mesmos medos, as mesmas nuvens sombrias antes da catástrofe”. Filosoficamente, percebemos perfeitamente a “dicotomia” cognitiva, não estranhando por isso que o Tiago Manuel se assumisse como autor dos poemas e Mário de Sá-Carneiro fosse remetido para a elaboração dos desenhos, como uma “realidade e reflexo no espelho estilhaçado da vida. / Hoje ainda vejo o meu rosto; amanhã, só a luz tocará a superfície onde se apagaram os meus olhos”. E termina no dizer dos outros que Mário de Sá-Carneiro amou uma mulher e morreu, interrogando-se se haverá melhor maneira de gastar a vida. Quiçá, a existência de alguma verosimilitude na vida de cada um, reflexo dos nossos próprios passos. Daí, o “espelho” como forma de “encarnarmos” o sentir dos outros: “A última ilusão foi partir espelhos –/ E nas salas ducais, os frisos de esculturas/ Desfizeram-se em pó… Todas as bordaduras/ Caíram de repente aos reposteiros velhos”.
Um livro excepcional, a merecer nota máxima, e que será apresentado no próximo dia 30 de Novembro de 2012, pelas 21 horas e 30 minutos, na Livraria Papa-Livros, Rua Miguel Bombarda (Porto), sendo que as reproduções das imagens de Tiago Manuel ficarão aí expostas até 4 de Dezembro.

Saturday, November 17, 2012

«Paço de Giela» um património histórico-monumental a preservar…


“Mas esperava-me uma triste surpresa em Giela: as ameias do palácio – mais de uma dúzia – tinham acabado de ser arrancadas e estavam no chão, algumas desfeitas em pedaços, outras inteiras, porque a rijeza do granito aguentou a pancada da queda. Sentia-se que a selvajaria era recente; era como uma ferida que ainda sangrava”.

José Hermano Saraiva (O Tempo e a Alma)

Sempre que pretendemos descomprimir as dilacerações da mente, procuramos deambular pelas mais pitorescas e agradáveis paisagens do Alto Minho, enriquecidas pela fertilidade dos seus vales e pela altitude e beleza das suas montanhas. Felizmente que é essa a sensação que sentimos quando amiudadamente nos deslocamos até “Terras de Valdevez”, cuja posição geográfica lhe empresta a cumulação de uma poética luxuriante, bem no coração do Vale do Lima, recortada também pelo não menos mitológico Rio Vez, que nasce e desagua dentro do concelho. Já não era a primeira vez que nos predispúnhamos a visitar Arcos de Valdevez e, de uma forma particular, o multisecular Paço de Giela (classificado de Monumento Nacional, através do Decreto de 16 de Junho de 1910), localizado a cerca de quilómetro e meio da sede do concelho, na encosta duma pequena elevação, que domina o vale, quase fronteira à vila. Trata-se de um solar fortificado, uma autêntica preciosidade medieva, cuja origem está profundamente ligada à origem e formação da terra de Valdevez.


O Paço de Giela, aí pelos anos vinte do século XX, é descrito por Luís de Figueiredo da Guerra (1853-1931) como um edifício que se compõe “do alcácer voltado ao sul, tendo junto para o nascente uma alta e forte torre quadrada, cuja única janela olha para poente; na sua coroa de ameias, sobre setentrião, existe ainda um machiculis ou parapeito de guarita: o palácio no gosto manuelino data dessa gloriosa época, e assaz conservado apresenta uma bonita janela ou varanda de honra, encimada pelo escudo dos Limas de Galiza (Limas, Silvas e Sottomayores); o senhoril cubo roqueiro é obra dos fins do século XIV ou princípio do XV, mas posteriormente reedificado: notam-se nele vestígios de três pavimentos, achando-se apenas ligado por uma quina ao Paço, servindo actualmente de asilo a pombas. Este morro sobre que assenta o castelo é contraforte do monte do Morilhões, que fecha o vale pelo nascente”. Aos nossos olhos, e face a uma investigação efectuada em termos arquitectónicos, podemos dizer que se trata de uma preciosidade medieva, constituída por dois corpos distintos, denotando que ambos eram denticulados de ameias: o torreão medieval (século XIV) da construção primitiva, e a residência paçã, de estrutura quinhentista. A torre de planta quadrangular, é provida de seteiras e de um balcão de mata-cães. A residência senhorial, forma um vasto rectângulo com quatro fachadas. Está arrimada ao torreão e tem um andar rústico. Valorizando a construção, ainda que de linhas simples, a portada de acesso, protegida por um arco de volta redonda, sobre a qual poisa a varanda da sacada, trabalhada em cantaria. Nesta fachada, voltada a Norte, rasgam-se duas janelas de estilo manuelino, intercaladas entre outras duas, de molduras lisas e linhas sóbrias, o que faz denotar ser de época posterior. A face oriental, tem duas janelas, sendo uma delas chanfrada e, no alto, quatro modilhões. Na fachada oposta, sobressai uma bem estilizada janela, curiosa pela sua decoração com cordame manuelino, encimada por uma pedra de armas que, face à dificuldade de leitura pela arrizada cobertura de vegetação, a fazer fé em Figueiredo da Guerra será dos Limas (Limas, Silvas e Sottomayores). Aliás, por cima da portada de acesso também ostenta uma singela pedra de armas, bastante desgastada, que heraldicamente deveria conter os mesmos apelidos. Inferiormente à janela manuelina, e num recanto, uma acanhada porta ogival, com o limiar afastado do chão. Na área envolvente a esta preciosidade arquitectónica existem outros edifícios, também em ruínas, que dizem ter servido de residência aos caseiros, e uma arruinada capela engolida pela vegetação, cujo patrono era “Santa Appolonia”. De uma forma sucinta, dado que o espaço desta crónica – e disso temos consciência – não nos permite alongar muito mais o nosso “apaixonado” devaneio pelas coisas da nossa terra (do Lima que nos viu nascer e nos vai inspirando), convenhamos em dizer que em 2 de Janeiro de 1399 deu D. João I, estando no Porto, a seu vassalo Fernão Anes de Lima, daquele dia para todo o sempre, para seus filhos, netos e descendentes legítimos por linha direita, as terras de Fraião em Coura, de S. Martinho, de Santo Estevão (Facha e Geraz), e de Valdevez, com todos os seus lugares, termos e suas herdades, casais, rendas, direitos, foros e pertenças, com suas entradas e saídas, rocios, montes, fontes, rios, ribeiros, pescarias, colheitas, montados, tabeliões e todas as outras coisas que às ditas terras pertencem; e ainda a sua jurisdição civil, crime, e mero império, com todos os outros direitos temporais e reais, assim como el-rei os possuía, reservando somente a correição e alçada. Este mesmo monarca lhe fez nova mercê quando estava no arraial sobre Tui, em 24 de Junho daquele mesmo ano de 1399, doando-lhe a casa e honra de Giela, que se achavam vagas na coroa. Segundo Figueiredo da Guerra, “esta linhagem procede de Limia na Galiza, donde tomaram o nome; Fernão Anes tomou o partido de Portugal, e viveu em Valdevez, jazendo à porta da igreja paroquial de Giela; seu filho Leonel de Lima, como primogénito, herdou a casa da Giela”. E foi assim que tudo começou!
  
A última vez que aí nos deslocamos foi no domingo, 4 de Novembro de 2012, e levávamos connosco a “má impressão” das visitas anteriores e o longínquo testemunho (1986) negativo de José Hermano Saraiva (1919-2012) – O atentado cometido no Paço de Giela vem agudizar o sentimento de urgência de intervenções neste sentido. O nosso património artístico e monumental está a desaparecer rapidamente –, mas também a esperança deixada (e/ou prometida) pelo município arcuense, dinamicamente liderado por Francisco Araújo, em Novembro de 2011, aquando da divulgação do “Concurso de Ideias” para requalificação do espaço envolvente ao Paço de Giela, já que é proprietário deste importante imóvel desde 1999, cujo declínio e abandono se começaram a acentuar a partir do século XIX. Na altura, foram divulgados os três primeiros classificados do concurso de ideias internacional lançado pelo município, em colaboração com a Ordem dos Arquitectos da Região Norte, para a referida requalificação da área envolvente ao Paço e edifícios anexos, a qual corresponde aproximadamente a 17,8 ha: (1.º) ABDA – Arquitectos Botticini – de Appolonia e Associati, SRL; (2.º) CVDB Arquitectos Associados; (3.º) Giovanni Alessandro Piovene Porto Godi, Vasco Miguel Pinel de Melo e Mónica Ravazzolo. Segundo foi dito, também, que “os concorrentes encontraram soluções que asseguram a valorização dos edifícios existentes, respeitando o cariz específico do local e acima de tudo o Paço e a forma como é visto, bem como a efectiva comunicação da zona em questão com a área urbana da Vila”. Aplaudimos a iniciativa, ainda pelo facto de explorarem temáticas como a “água” e o “garrano”, assim como a criação de condições para a realização de actividades desportivas, culturais e turísticas, projectando um Anfiteatro ao ar livre e uma Unidade Hoteleira.


Mesmo tendo nós consciência das dificuldades inerentes à conjuntura económica presente, que o país e a Europa atravessam, esperamos ansiosamente pela segunda fase do projecto de recuperação do Paço de Giela e área envolvente, que passará pela adjudicação da obra e sua concretização. Será bom para o município e, sobretudo, para toda a região alto minhota!

Friday, November 09, 2012

Arlindo Pintomeira mostra “Exteriores-Interiores” e “Outras Faces”


“Em conclusão, podemos dizer que nesta poética da composição artística, em que consiste «Interiores», Pintomeira isola as unidades mínimas da composição, tentando aproximar-se, o mais que pode, das formas de vida contidas na encenação dos objectos”.

Moisés de Lemos Martins

Pelas dezassete horas e trinta minutos do dia 3 de Novembro, foram inauguradas duas exposições – “Exteriores-Interiores” e “Outras Faces” –, em Viana do Castelo, do nosso respeitável amigo e extraordinário artista Arlindo Pintomeira, nos Antigos Paços do Concelho e na Galeria da Santa Casa da Misericórdia, respectivamente. As duas exposições estarão patentes ao público até 31 de Dezembro, o que significa que o envolvente à Praça da República será palco, tomando como nossas as palavras de Moisés de Lemos Martins, da “poética da composição artística” de Pintomeira, permitindo-nos, enquanto observadores sensíveis, explorar a natureza das nossas próprias emoções, por temos consciência de que a expressão bem-sucedida de uma emoção permite ao observador ganhar consciência dela; e a noção clara de que – como um dia escreveria Nigel Warburton – “o artista mostra aos observadores da obra de arte como expressar a emoção particular que se encontra na obra”. Já há muito tempo que Pintomeira tem conseguido criar em nós a útil magia da emoção, sem que para isso – e contrariando a sapiência redutora de alguns pressupostos eruditos de Arte – tenhamos a necessidade de “desfiar rosários” elementares ao conhecimento preconcebido, para usufruirmos da liberdade do “gosto”, da “imaginação” e da “visão”, como corolário da velha máxima: “a verdadeira obra existe na forma de ideias na mente do seu criador, e na mente de quem está a apreciar a obra”. Temos vindo a apreciar a arte em Pintomeira, valendo-nos também do factor da “imaginação”, tendo em conta que – para R. G. Collingwood – “uma verdadeira obra de arte é uma actividade total que a pessoa que dela desfruta apreende ou tem dela consciência pelo uso da sua imaginação”. E esta nossa actividade imaginativa não é somente visual, mas também emotiva, porque percepcionamos, apreendemos e deixamo-nos envolver pela criação do artista. Mesmo que não bastasse tais “predicados”, só por isso (actividade imaginativa) Arlindo Pintomeira é para nós um artista que nos agrada profundamente.
Porque já nos alongamos em demasia nas considerações “sensíveis-pessoais”, e sem nos querermos envolver na crítica elaborada que, a nosso modesto ver, é dada “estatutariamente” ao mundo da arte e seus entendidos, apenas nos apraz registar os bens elaborados textos “crítico-literários” de José-Luís Ferreira (sociólogo, escritor, investigador de arte) – A sua linguagem pictórica, criada a partir de evidências imagéticas contextuais ou, deliberadamente, (des)contextualizadas, adquire-se (ou provém) de um constante e requintado exercício radical de exploração pangeométrica, buscada em pressupostos íntimos duma génese anímica e (re)invencional da imagem de alto contraste, com o objectivo da sua transposição, sob pretextos de equilíbrio óptico, obedientes a um doseamento compositivo secreto (…) – e de Moisés de Lemos Martins (professor da Universidade do Minho) – Existe hoje na pintura de Pintomeira este esplendor dos objectos, uma poética que inscreve o humano naquilo que o não pode ser. O seu sistema de objectos faz-nos pensar numa “autopoiesis”, que age no mundo como uma unidade autónoma que se auto-engendra –, inseridos do catálogo da exposição “Exteriores-Interiores”; e os de José Paulo Leite de Abreu (director do Museu Pio XII) – Na obra de Pintomeira sobressaem também os contornos, que focam o olhar do interlocutor, sublinham centralidades e funcionam como útero onde se esconde e defende o essencial da mensagem a transmitir – e de Moisés de Lemos Martins (professor da Universidade do Minho) – Com o desenho de linhas e o alinhamento de pontos, Pintomeira figura cordas físicas e tácteis. As linhas, tal como os pontos alinhados em recta, são então cordas tensas, abrigos contra o abandono, a impessoalidade e o isolamento. O artista entrançou-os num tecido a que nos liga –, no que toca à exposição “Outras Faces”. Escolhemos estas citações porque, de certa forma, vão de encontro aos nossos iniciais devaneios da sensibilidade emocional.


Para os mais incautos, convenhamos em dizer que Arlindo Pintomeira nasceu na Limiana freguesia de Deocriste, Viana do Castelo, em 1946. É na cidade de Viana que, em 1966, realiza a sua primeira exposição na Galeria da “Livraria Divulgação” (hoje Bertrand). Desiste da sua formação em arquitectura e ingressa, em 1967, num dos mundos que mais o fascinava: o da pintura. O outro era o cinema, uma paixão dos tempos do Liceu. Vai para Lisboa, frequenta um atelier colectivo na Mouraria onde encontra o pintor surrealista Raul Perez. Convive mais tarde com Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas e outros do movimento surrealista português. Anos mais tarde, mais exactamente em 1972, e após uma curta passagem por África, parte para Paris na companhia da pintora e modelo holandesa Marijke de Hartog que conhece em Portugal e com quem casa em 1976, em Amesterdão. Os dois fixam-se na capital holandesa. Abortada a possibilidade de inscrição na “Nederlandse Filmacademie” ( Academia de cinema da Holanda), razão primeira que o levou a deixar Portugal, Pintomeira frequenta em 1978-1979 a CREA (Studentencentrum van de Universiteit van Amsterdam) onde estuda pintura e cinema. Após algumas exposições na Holanda, faz em 1978 a sua primeira exposição em Paris, na “Galerie Entremonde”. No mesmo ano participa no “Salon Metamorphoses” em homenagem a René Magritte realizado no “Grand Palais” de Paris. Com esta participação, termina o seu período surrealista.
Durante a década de 80, no seu atelier em Amesterdão, Pintomeira recebe várias influências, sendo a mais marcante a do grupo CoBrA (agregação das letras iniciais das cidades de Copenhada, Bruxelas e Amesterdão) e do qual fazem parte grandes nomes como Karel Appel, Corneille, Asger Jorn e Lucebert. Algumas influências desse movimento, como as texturas espessas, o desenho automático, as cores vivas e primárias do expressionismo em combinações complementares, e ainda os motivos simples e depurados com algumas ligações ao surrealismo e á arte primitiva, acompanharam o artista durante grande parte da sua obra.
Na década de 90 inicia uma fase de estilização e depuração da figura que consiste no constante exercício e experimentação à volta do contorno, tornando-o preponderante através do seu alargamento, prolongação e multiplicação; em 1999 Pintomeira deixa Amesterdão e regressa a Portugal. O trabalho que realiza no seu novo atelier no norte do país, dá origem um um vasto conjunto de obras figurativas, ainda com influências do grupo CoBrA e que denomina de “Nova Linha”; entre 2003 e 2010, e alternando com “Nova Linha”, Pintomeira produz também um vasto trabalho sobre tela e papel a que dá o nome de “Faces”; o ano de 2007 marca uma viragem acentuada na sua obra figurativa. As influências CoBrA e os contornos desaparecem. O tema “Interiores” apresenta trabalhos próximos da “Pop Art” com influências do design gráfico. A figura está manifestamente presente e as cenas de interiores denunciam representações teatralizadas. Neste sistema de objectos sobressaem o palco, a tela e a encenação; em 2009 e 2010 é produzido o tema “ Outras Faces”; conjunto de obras realizadas em impressão digital e acrílico sobre tela e que nos transportam para uma nova “Pop Art”; e, finalmente, em 2011 surge “Exteriores” que vem complementar “Interiores” produzido entre 2008 e 2009. É composto por uma série de trabalhos que reúnem figuras do quotidiano em encenações urbanas, atravessando passadeiras de rua, onde a sinalética rodoviária é fortemente explorada.
Terminaremos, agora sim, recordando que desde 1966 e até à actualidade Pintomeira tem no seu currículo uma quantidade enorme de exposições individuais, em Portugal e no estrangeiro. Entre 1971 e 2010 participou em várias exposições colectivas, bienais e feiras de arte, tanto em terras lusas como noutros estados europeus. Está representado em várias colecções institucionais, colecções públicas e privadas em diversos estados da União Europeia, nos Estados Unidos e Israel.
Aqui fica um apelo: procurem fazer uma visita às duas exposições e deixem-se envolver pela mística das pessoas interessadas em obras de arte e não apenas na ideia de arte. Desse mal padecemos nós, porque, infelizmente, carregamos o “martírio” de sermos bibliófilos, condicionante circunstancial de apenas nos ficarmos pela ideia de arte, em detrimento do interesse em obras de arte… Beati possidentes!