Saturday, May 18, 2013

Coimbra acolheu as «IV Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental»!


“Defende-se que o futuro sem consciência é uma manifestação do desejo de viver um presente sem consciência, evitando o que Lacerda denomina neurastenia e mal de viver, e o que poderíamos denominar o medo de estar acordado, o peso da liberdade ou o tédio de viver”.

Manuel Curado

Decorreram em Coimbra, nos dias 6 e 7 de Maio, na Sala Sá de Miranda (Casa Municipal da Cultura), as «IV Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental», numa organização da Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde – SHIS e apoio institucional do Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra-CEIS20, nas quais participamos com uma comunicação, cujas palavras-chave iam no sentido da abordagem temática da filosofia, psiquiatria, higiene social e eugenismo, e tinha por título: «Ernesto Galeão Roma (1887-1978): discípulo de Miguel Bombarda e Júlio de Matos apresentou, em 1913, uma dissertação final do Curso Médico, através de um estudo da microcefalia em quatro pacientes».

Aí estava a nossa prestação, trazendo à discussão a tese de Ernesto Roma sobre a microcefalia.

Por ser descabido tecer qualquer tipo de comentário acerca da nossa prestação, o que seria eticamente incorrecto da nossa parte, apenas nos predispomos em dizer que Ernesto Galeão Roma, natural de Viana do Castelo, fez os preparatórios para medicina na Escola Politécnica da Universidade de Lisboa e, de 1905 a 1913, na Escola Médica-Cirúrgica da capital, completou o curso médico, apresentando a dissertação final, em Junho de 1913 (completando este ano cem anos), onde abordou a problemática da microcefalia. Enquanto médico, ficaram as acções e as palavras: no campo da higiene, os médicos e os Estados têm-se ocupado do ataque da doença e dos meios como ela se protege do que propriamente do indivíduo obrigado a resistir-lhe, asseverando o valor dos ensinamentos profilácticos, firmando-se na convicção de que a higiene social é a defesa da saúde e o levantamento físico do povo pela aplicação dos meios que operam sobre as condições em que ele viva. E sem mais nos alongarmos, acrescentaríamos apenas que esta convicção advinha-lhe, por certo, da “paixão” inicial pelo estudo da mente, numa busca incessante do embrionário causativo das patologias psíquico-degenerativas. Este foi o nosso contributo!

O Médico Psiquiatra  Adrián Gramary e o Professor Doutor Manuel Curado, na altura do debate.

    Agora sim, uma pequena retrospectiva de tão peculiar e/ou extraordinário acontecimento cultural/científico: Na sequência das III Jornadas realizadas em 2012, estas «IV Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental» visaram dar continuidade a temáticas apresentadas e aprofundar as frentes de discussão abertas desde a primeira edição. Esta quarta edição das «Jornadas» integrou um simpósio temático sobre a história da psicanálise, incluindo a história da recepção de Freud e da psicanálise em Portugal. Este ano as JIHPSM centraram-se nos seguintes tópicos: 1. Filosofia, psicologia e psiquiatria nos séculos XIX-XX; 2. Psiquiatria e neurologia nos séculos XIX-XX; 3. Psiquiatria forense e medicina legal nos séculos XIX-XX; 4. Dispositivos assistenciais, tratamentos e terapias das doenças mentais nos séculos XIX-XX. Presidiu a Professora Doutora Ana Leonor Pereira (Faculdade de Letras; CHSCT-CEIS20 - Universidade de Coimbra), sendo secretário executivo o Professor Doutor João Rui Pita (Faculdade de Farmácia; GHSCT-CEIS20 - Universidade de Coimbra).
Intervieram nestas jornadas grandes vultos das Ciências Médicas (Psiquiatria, Psicologia e Enfermagem, incluídas), da História e da Filosofia, tais como Ricardo Branco Julião (Historiador), Ana Catarina Necho (Historiadora), Aires Gameiro (Psicólogo), José Morgado Pereira (Médico), Adrián Gramary (Psiquiatra), Paulo Archer de Carvalho, António Carreras Panchón (Professor catedrático – Psiquiatra), Maria José Louzao, A. Lapa Esteves, David Simón Lorda (Psiquiatra), Ana Paula Teixeira de Almeida Vieira Monteiro (Professora da Escola Superior de Enfermagem), Francisco Molina Artaloytia (Psiquiatra), António Barbedo de Oliveira (Médico), Carolina Gregório Álvaro (Historiadora), Denise Maria Borrega Pereira, Miguel Angel Miguélez (Psiquiatra), Sofia Nobre (Psicóloga), Artur Furet (Psiquiatra) e Rosângela Francischini (Psicóloga).

Dr. José António Alves e Prof. Doutor Manuel Curado, dois filósofos da Mente e da Universidade do Minho.

Ao deixarmos para o fim os nomes do Professor Doutor Manuel Curado «O automatismo futuro de cérebro: Sousa Martins (1843-1897 e José Lacerda (1861-1911)» e do doutorando em Filosofia, e do nosso companheiro de viagem, José António Alves «O crime e anormalidade em Edmundo Curvelo», procuramo-lo fazer, por forma a gerirmos o espaço de que dispomos nesta crónica, tendo em conta que seria impossível fazer uma retrospectiva minuciosa de todas as intervenções que, diga-se de passagem, foram todas elas magníficas. Se da boca do Professor Manuel Curado ouvimos dizer que “o Dr. Lacerda defendeu em várias publicações uma teoria da mente consciente que é merecedora de reflexão. A consciência surgiu no início do processo evolutivo mas irá desaparecer à medida que a evolução for progredindo. O futuro da evolução terá seres desprovidos de consciência e cérebros automáticos. Olhando para o presente e passado da evolução, a existência da consciência é considerada uma imperfeição. No prefácio à obra Os Neurasténicos (1895), Sousa Martins ultrapassa o que é recomendado pelo protocolo dos prefácios e critica a concepção da consciência evanescente do futuro. A presente comunicação analisa este debate intelectual e enfatiza o seu interesse perene. Defende-se que o futuro sem consciência é uma manifestação do desejo de viver um presente sem consciência, evitando o que Lacerda denomina neurastenia e mal de viver, e o que poderíamos denominar o medo de estar acordado, o peso da liberdade ou o tédio de viver”; o Dr. José António Alves, trar-nos-ia à coacção o facto de que “Edmundo Curvelo (1913-1954) foi um lógico português da primeira metade do século XX que se dedicou à elaboração de um esquema lógico capaz de representar todos os estados mentais. Curvelo denominou o objectivo do seu trabalho de logificação da psicologia. Objectivo similar perdura hoje, por exemplo, no Human Brain Project. (…) o campo ético que, no dizer de Curvelo, se constrói a partir do campo psicológico, sendo o instrumento de construção a análise lógica. O propósito é apresentar o pensamento de Curvelo a partir da sua afirmação de que o delinquente não é um criminoso, mas um anormal, um doente que se há-de tratar e curar. O argumento a explorar e criticar é o seguinte: a vida mental (“normal” e “anormal”) é totalmente transparente; é possível prever todos os comportamentos futuros; logo, o criminoso não age por si, mas por causas (doença) externas a si. Por isso o crime não implica castigo, mas porque estatisticamente anormal implica a necessidade de educação e pedagogia”. Sublimes intervenções, da área da Filosofia!
Os debates que se seguiram às comunicações, espelharam as “mais-valias” de alguns dos comunicadores, magnanimamente moderados pelos Professores da Universidade de Coimbra, Ana Leonor Pereira e João Rui Pita.

       Estamos em crer que «Labor improbus omnia vincit». Por isso, e porque o desafio nos foi lançado, para o ano lá estaremos!

Saturday, May 11, 2013

Em dia da Liberdade, Município de Ponte de Lima e amigos prestam justa homenagem ao poeta e escritor João Marcos!


“(…) Nesta data emblemática da nossa democracia, estamos a homenagear uma destacada figura de escritor e poeta que muito e durante muito tempo, a par de outras lutas e ideais, se bateu pela instauração da democracia, da conquista plena da liberdade – João Marcos”.

Cláudio Lima

Com palavras incisivas, conhecedoras, e verdadeiramente sentidas por todos aqueles que privaram de perto com o excelso poeta, ensaísta e escritor João Marcos [N. Rebordões Santa Maria, Ponte de Lima, 25 de Abril de 1913 – m. Lisboa, 6 de Janeiro de 2005], o poeta limiano Cláudio Lima acabaria por reforçar a sua – e nossa, porque dela partilhamos – convicção de naquele dia memorável homenagearmos um cidadão consciente e interveniente, “que desde muito jovem despertou para a contestação do regime opressivo saído da revolução de 28 de Maio de 1926, iniciada em Braga, e derrubado em 25 de Abril de 1974, nas ruas de Lisboa. Precisamente na data que ele celebrava o seu 61.º aniversário”. Numa retrospectiva, a nosso ver, poeticamente bem elaborada – porque doutro poeta se trata –, Cláudio Lima fez jus à proximidade de que dispunha em relação ao homem de Rebordões Santa Maria (Ponte de Lima) e à sua obra, descobrindo-lhe as “entranhas”, mesmo aquelas que parecem ser exclusivamente do foro íntimo: “Com efeito, se lermos atentamente os seus primeiros voos poéticos, constatamos que bem precocemente se começou a sentir uma espécie de pássaro cativo, ávido dos horizontes limpos e amplos que, após a tragédia de duas guerras mundiais, se iam vislumbrando no mundo ocidental”, para depois citar a parte final de um poema inserido na sua primeira obra, Polifonia Singela (1946), onde essa ânsia de evasão lhe persegue o espírito inconformado: Liberdade! és tão bela, tão rara, / Se te vejo assim prêso, cativo! / Mas, ó Deus! Permiti que ainda vivo, / Que ainda válido saia daqui! / Sempre – sempre! – hei-de ter na memória / Êstes dias de amarga tristeza! / Sempre – sempre! – hei-de ter em mim prêsa / Uma ideia do que eu padeci!...


Cláudio Lima falou ainda da obra de João Marcos na vertente de índole ensaística, da faceta limianista e da sua derivação poética, paulatina e progressiva, “para a reflexão aprofundada de categorias como divindade e humanidade, ser e destino, tempo e eternidade, contingência e finitude, consciência e liberdade, fé e cepticismo, etc., numa aproximação às teorias existencialistas de Heidegger, Sartre e, na sua vertente cristã, de Gabriel Marcel”. E citou exemplos dessa propensão poética-filosófica, nas obras O ser e o nada (1996), Epopeia do Homem Cósmico (2000) e Versos do Fim do Dia (2002). Por “defeito” de formação – nossa, claro! –, não resistimos à transcrição do seu poema “Manhãs de Neblina”, inserido no seu “O ser e o nada”: Neblinas envolventes das manhãs / cinzar das minhas horas saturadas / vírus dos meus tudos almas dos meus nadas / insonso escorrer nas telhas vãs / de um céu inimigo / que traz consigo / nem sol nem chuva – / venham na vossa cauda as tardes mansas / a mão sem luva / do sol que muda a face dos meus dias / se não em reversíveis esperanças / ao menos em mentidas alegrias. / E possa da verdade das lembranças / fiar-me na mentira dos meus dias. – Simplesmente, sublime!
     
  Foi justa a homenagem, como justas foram as palavras do Cláudio Lima, as quais subscrevemos inteiramente: “E passo a falar um pouco da sua qualidade de ilustre figura das letras portuguesas, ombreando com os melhores da plêiade limiana do seu tempo. Seja a cortejar as musas, seja a urdir as tramas da ficção, em todas as competências da arte literária se houve com extraordinária elegância e conformidade, merecendo generalizado aplauso de seus pares e consensual apreciação por parte da crítica”. E no campo da poesia, ouvimos atentamente o Cláudio Lima, cognitivamente, dizer: “Ora lírico e sereno na fruição dos momentos felizes, ora angustiado e tenso perante os enigmas e mistérios da existência; ora crispado e veemente ante as injustiças de que sente vítima ou testemunha, sob todos estes aspectos nós podemos admirar em João Marcos a mais perfeita construção, o mais irrepreensível trato do cânone e do idioma”. De facto, João Marcos tinha razão quando se referia a Cláudio Lima: “parece que me conhece desde criança, que sempre acompanhou passo a passo a minha vida, toda a vagabundagem do meu caminho – tanto os bons momentos como as passas do Algarve. Descobriu até o que não lhe contei textualmente, e sem fugir à verdade”. Irrepreensível análise crítica, merecidos aplausos!
Para além de termos gostado das palavras de Franclim Sousa, e sem desmerecimento para a sua profícua acção nas áreas da Cultura e da Educação em Ponte Lima, não queríamos deixar de aqui salientar a intervenção (em jeito de fecho) do presidente do Município, Victor Mendes: discurso fluente, mentalmente bem estruturado – sem esquecer o papel do poder local no desenvolvimento do país e a força da data assinalada –, agradavelmente assimilado e aplaudido!
Acabamos o dia no “Bar do Arnado”, do bom amigo José Ernesto Costa, numa excelente tertúlia cultural/gastronómica, magnamente acompanhados pelo próprio José Ernesto Costa, Franclim Castro e Sousa, Cláudio Lima e sua “alma gémea” – e quiçá, musa –, Fátima Alves.     

Para terminarmos, apenas uma frase que reflecte a sensação positiva que colhemos naquele dia, trinta e nove anos depois das portas que Abril abriu, e cem do nascimento do grande poeta e escritor João Marcos: Ditosa Terra que seus filhos memoriza!

Friday, May 03, 2013

IV Jornadas Internacionais História da Psiquiatria e Saúde Mental


         Informamos todos os nossos amigos que estiverem por Coimbra, no dia 7 de Maio (Terça-feira), que a nossa participação nas «IV Jornadas Internacionais História da Psiquiatria e Saúde Mental», terá início 11h15, integrada no grupo de quatro comunicações e debate: António Barbedo de Oliveira = (RE)LER MAGALHÃES LEMOS EM "VISITE PSYCHIATRIQUE À LA COLONIE DE GHEEL"; Carolina Gregório Álvaro = DOUTOR E LÍSIO DE MOURA: O HOMEM E O MÉDICO; Denise Maria Borrega Pereira = A DESCIDA DE LUIS CEBOLA AO INFERNO: UM RETRATO IDEOLÓGICO E CLÍNICO DA DOENÇA MENTAL NO PORTUGAL DE MEADOS DO SÉCULO XX; Porfírio Pereira da Silva = ERNESTO GALEÃO ROMA (1887-1978): DISCÍPULO DE MIGUEL BOMBARDA E JÚLIO DE MATOS APRESENTOU, EM 1913, UMA DISSERTAÇÃO FINAL DO CURSO MÉDICO, ATRAVÉS DE UM ESTUDO DA MICROCEFALIA EM QUATRO PACIENTES.

   
      Informamos ainda que o Professor Doutor Manuel Curado, apresentará a sua comunicação (O AUTOMATISMO FUTURO DO CÉREBRO: SOUSA MARTINS (1843-1897) E JOSÉ DE LACERDA (1861-1911), às 11h15 do dia 6 de Maio (Segunda-feira), e o Doutor José António Alves (O CRIME E ANORMALIDADE EM EDMUNDO CURVELO), no mesmo dia que nós (dia 7), mas às 9 horas e 30 minutos.
     Apresentarão ainda comunicações, ao longo dos dois dias: Ricardo Branco Julião (O ANTI-GALENISMO DE PINEL. OBSERVAÇÕES SOBRE A CRÍTICA A GALENO NA INTRODUÇÃO À PRIMEIRA EDIÇÃO DO TRATADO MÉDICO-FILOSÓFICO SOBRE A ALIENAÇÃO MENTAL); Ana Catarina Necho (A CRIAÇÃO DO HOSPITAL DE RILHAFOLES - O PRIMEIRO HOSPITAL DE ALIENADOS EM PORTUGAL: UMA POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA MENTAL EM MEADOS DO SÉCULO XIX); Aires Gameiro (MISERICÓRDIA E MANICÓMIO CÂMARA PESTANA NA ASSISTÊNCIA AOS ALIENADOS NA MADEIRA ATÉ 1925); José Morgado Pereira (A EVOLUÇÃO DAS IDEIAS PSIQUIÁTRICAS EM ALBERTO BROCHADO); Adrián Gramary; Cláudia Lopes (HERCULANO DE SÁ FIGUEIREDO, UM ESCULTOR NO HOSPITAL CONDE FERREIRA); Adrián Gramary (O "CRIME DA QUEIMADA VIVA DE SOALHÕES" REVISITADO. IMPLICAÇÕES PSIQUIÁTRICAS); Paulo Archer de Carvalho (OS AMOS DA ALMA. O DIFÍCIL PARTO TEOLÓGICO E FILOSÓFICO DA PSICOLOGIA EXPERIMENTAL NO PRIMEIRO TERÇO DO SÉCULO XX); David Simón Lorda; Tatiana Bustos Cardona; Xaqueline Estévez Gil (ESPACIOS DE RECLUSION Y DE ATENCION A LA LOCURA EN LA GALICIA «EXPAÑA» DE FINALES DEL SIGLO XIX Y PRIMEROS AÑOS SIGLO XX); Ana Paula Teixeira de Almeida Vieira Monteiro (VIDAS INVISÍVEIS: DOENTES IMPUTÁVEIS PERIGOSO EM SERVIÇOS DE PSIQUIATRIA FORENSE - PERCURSOS ASSISTENCIAIS); Francisco Molina Artaloytia ("RIGOR EN OCASIONES, CARIDAD SIEMPRE, SIMPATIA NUNCA": LA HOMOSEXUALIDAD EN DISCURSOS PARADIGMÁTICOS DE LA MEDICINA FORENTE Y EL DERECHO PENAL FRANQUISTAS); Ana Paula Teixeira de Almeida Vieira Monteiro (DO ASILO AOS CUIDADOS COMUNITÁRIOS: EVOLUÇÃO DA ENFERMAGEM PSIQUIÁTRICA EM PORTUGAL); Miguel Angel Miguélez Silva; Maria Piñeiro Fraga; Tiburcio Angosto Saura (HISTORIA DE LOS CUIDADOS DE ENFERMERIA DESTINADOS A LOS ENFERMOS PSIQUIATRICOS DE LA CIUDAD DE VIGO: DESDE EL HOSPITAL REBULLON HASTA NUESTROS DIAS); Sofia Nobre; Maria Lapa Esteves; Florencio Vicente Castro (RESILIÊNCIA: O NOVO PARADIGMA DO AMOR À MORTE); José Cunha-Oliveira; Artur Furet; Aliete Cunha-Oliveira (PSIQUIATRIA, VIH e SIDA: UMA PERSPETIVA HISTÓRICA E CLÍNICA); Clariana Morais Tinoco Cabral; Rosângela Francischini (SAÚDE MENTAL PARA A INFÂNCIA E JUVENTUDE NO BRASIL E AS CONFERÊNCIAS NACIONAIS DE SAÚDE). Haverá, ainda, uma Conferência Plenária com António Carreras Panchón (MEDICALIZACIÓN Y PSIQUIATRIA. ENTRE EL RADICALISMO Y LA DEMANDA) e um Simpósio Temático: História da Psicanálise, com Tiburcio Angosto, Miguel Miguelez y Mª José Louzao (UN CASO FREUDIANO DE UN MANICOMIO GALLEGO EN 1927); Manuel Correia (PSICANÁLISE E PSICOCIRURGIA: A CONTAMINAÇÃO INCONSCIENTE); João-Maria Nabais (O RETRATO DE ANNA O. NA CRIAÇÃO HISTÓRICA DA PSICANÁLISE); A. Lapa Esteves; V. Prego; F. Moreira Simões ("1+1=1" OPERAÇÃO BINÁRIA E/OU CHAVE DA FELICIDADE?). A sessão de encerramento estará a cargo de Ana Leonor Pereira - Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Investigadora e Co-Coordenadora Científica do Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do CEIS20; Presidente das Jornadas de História da Psiquiatria e Saúde Mental. 
      Apareçam, porque dá sempre tempo para tomar um cafezito e um "arrufada de Coimbra". Para além disso, nessa semana estamos em plena festa académica de Queima das Fitas pelo que há um maior movimento festivo na cidade. Abraço a todos!

Friday, April 26, 2013

O ensaísta e filósofo português Manuel Curado e “a consciência no mundo físico”!


“Consciência. Esta é uma das palavras mais importantes de cada ser humano. Porquê? Porque tudo o que fazemos, sentimos ou pensamos tem a ver com ela. Tudo mesmo? Sim, tudo mesmo. Apenas os seres humanos em sono profundo e em coma não têm consciência. Porém, mesmo estas duas excepções aparentes têm muito a dizer sobre a consciência”.

Manuel Curado

Falar do Professor Doutor Manuel Curado, pressupõe sempre alguma elevada ou dimensional veneração intelectual da nossa parte, pelo facto de o considerarmos um dos grandes filósofos da Filosofia da Mente e das Ciências Cognitivas, em Portugal. Ainda que este nosso “presunçoso devaneio” possa parecer suspeito, face à nossa condição peripatética – quantas caminhadas a par pelos corredores das bibliotecas, da academia e encontros de circunstância, mesmo gastronomicamente falando, nos tem aproximado irmãmente –, estaremos em dizer, mesmo contrariando aqueles que defendem a inexistência de filosofia e filósofos portugueses (depreciando de uma forma “ociosa/ignorante”, nomes como, entre outros, o nosso Domingos Tarrozo, Agostinho da Silva, Álvaro de Carvalho de Sousa Ribeiro, António Braz Teixeira, António Quadros, Pe. António Vieira, Bento de Sousa Farinha, Delfim Santos, Edmundo Curvelo, Francisco Sanches, Joaquim de Carvalho, Leonardo Coimbra, Luís António Verney, Pedro da Fonseca, Silvestre Pinheiro Ferreira, Teodoro de Almeida, Uriel Acosta e Vieira da Almeida), que o Professor Doutor Manuel Curado se nos afigura como uma das grandes promessas da filosofia em Portugal. Para além de se dedicar à Ética Biomédica, Filosofia da Mente e à História das Ideias, o nosso bom amigo/irmão Manuel Curado – Professor da Universidade do Minho, Auditor de Defesa Nacional, Doutor “cum laude” pela Universidade de Salamanca, Mestre pela Universidade Nova de Lisboa, Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), Curso de Alta Direcção para a Administração Pública, foi professor visitante em Moscovo, Rússia (“Moscow State Institute of Internacional Relations” e “Moscow State Linguistic University”) e em Pádua, Itália, na “Università degli Studi di Pavoa” – tem trabalhado os seguintes assuntos: história intelectual da língua universal e da tradução automática, o problema da consciência humana e da sua relação com o cérebro, as relações entre a ciência e a religião, estudos de história intelectual europeia e portuguesa, editor de obras de autores passados (nomeadamente o matemático José Maria Dantas Pereira, o lógico Edmundo Curvelo e outros), história da Psiquiatria e história da herança judaica portuguesa na Medicina e na Filosofia (nomeadamente, Isaac Samuda e Jacob de Castro Sarmento) e história das representações literárias da vida mental.


Como se nada mais bastasse para percepcionarmos a sua verdadeira e inultrapassável dimensão intelectual, gostaríamos de acrescentar que o Professor Manuel Curado tem vindo a traduzir o problema difícil da consciência do seguinte modo: por que razão existe consciência no mundo físico quando é pensável a sua não existência? A resposta que o filósofo apresenta é a solução através da dissolução do problema. Para ele, o argumento desenvolve-se em torno da possibilidade de contornar o problema da consciência natural através do conhecimento científico para produzir artificialmente a consciência. De acordo com o Professor Curado, o problema foi solucionado não por que tenhamos respostas claras sobre o que é a consciência, qual o papel da consciência no mundo físico, qual o poder causal da consciência, qual a relação da consciência com o cérebro, mas porque existe a capacidade científica para produzir artificialmente a consciência e de esta, funcionalmente, não se distinguir da consciência natural. Prevê assim um tempo futuro em que será impossível distinguir entre a consciência natural e consciência produzida artificialmente. Esta impossibilidade de distinguir é interpretada como uma condição epistémica normal que ocorre em muitas outras situações: «O manto de ignorância sobre os momentos do passado evolutivo que tornaram a presença da consciência no mundo uma mais-valia para a vida dos indivíduos biológicos não impossibilita que o problema duro seja resolvido por dissolução: a atribuição de função a esse primeiro momento pode ser feita por analogia com a atribuição de função a cada uma das consciências artificiais» (Curado, 2007: 266), qual “Luz Misteriosa” nos ajuda a descodificar “a consciência no mundo físico”.
Outro factor relevante (diríamos até, mais original) a ter em conta no pensamento filosófico do Professor Manuel Curado é aquele em que ele se ocupa das relações entre os crentes e o objecto da sua fé ou crença religiosa, e onde argumenta que a relação entre o crente e Deus deve ser baseada na suposição de que existe Deus. Contudo, esta suposição não implica necessariamente amor a Deus ou respeito a Deus, tendo em conta que a relação entre Deus e os seres humanos é concebida de formas muito originais. Este ilustre filósofo vê Deus como um objecto do mundo, ao lado dos predadores contra os quais lutou o ser humano no seu passado evolutivo, ao lado dos objectos físicos da natureza, ao lado dos objectos preternaturais (situações inexplicáveis que ocorrem raramente na história) e ao lado de seres ou objectos sobrenaturais (representados de modo literário, religioso, filosófico e testemunhal desde a origem da civilização). Para Manuel Curado “os seres humanos são adversários de Deus e de todos os outros seres que existem no mundo físico, preternatural e sobrenatural”.
Para terminarmos, diremos que para o Professor Manuel Curado “um outro modo de pensar a relação dos seres humanos com os objectos que existem no mundo é a actividade científica”, defendendo que a interpretação que se dá habitualmente da actividade científica moderna é muito pobre. Do seu ponto de vista, compreender o mundo é uma descrição muito pobre dessa actividade científica. Para ele, os cientistas descrevem o mundo, evidentemente, mas também o inventam, criando novos objectos, propondo uma contabilidade filosófica entre o mundo natural e o mundo artificial. Do seu ponto de vista, o mundo natural está ficar mais pequeno todos os dias e o interesse último dos seres humanos é rivalizar com Deus: «Porquê tudo isto? Eis a resposta óbvia: porque os seres humanos não estão interessados em deuses, nem no sobrenatural, nem sequer no Deus supremo ou Criador. Se este assunto fosse um negócio, diríamos que as pessoas destas organizações religiosas estão sabiamente interessadas num negócio melhor. Qual é esse negócio? Se não é conhecer Deus, é o quê? Todos sabemos sinceramente a resposta: o que de facto nos interessa é sermos nós próprios deuses e, já agora, sermos melhores do que Deus» (Curado, 2009: 96) – Simplesmente, sublime!... E fiquemo-nos por aqui, já que, como diria Álvaro Balsas, “a ciência e a fé em Deus compõem duas visões do mundo e da realidade, do cosmos e da vida, que se apresentam como duas instâncias, mais que competidoras, verdadeiramente incompatíveis e em múltiplo conflito”.
Obrigado Professor Curado, por tudo o que tem feito por nós e pela permanente procura de respostas para “a consciência no mundo físico”!  

Friday, April 19, 2013

Nos tempos que correm: “Sabedoria sem Respostas” e as respostas em Daniel Kolak e Raymond Martin!


“Todo o homem tem duas espécies de educação: uma que lhe é dada por outrem, e outra, mais importante, que ele dá a si mesmo”.

Gibson

Se há livro que nos marcou profundamente, no início dos novos milénio e século, foi precisamente aquele nos fala de “Sabedoria sem Respostas: Uma Breve Introdução à Filosofia”, da autoria de Daniel Kolak, professor na Universidade de New Jersey e de Raymond Martin, da Universidade de Maryland – ambos autores de uma outra pérola: «The Experience of Philosophy» –, obra que viria a ser traduzida do original «Wisdom without Answers: A Brief Introduction to Philosophy» (2002) por Célia Teixeira, e publicada pela Temas & Debates, em 2004.
Nesta maravilhosa obra – a nosso ver, desculpem-nos a premeditada insistência cognitiva, também aconselhável a políticos e religiosos –, os autores começam por realçar a noção errada que muitas vezes se faz da Filosofia como sendo apenas um corpo de conhecimento, onde se espera receber informação, em vez se pensar pela própria cabeça. Assentes nessa noção, difundem o propósito em contrariar o “queixume” de muitos filósofos, face à desmotivação dos seus estudantes, quando os sentem inaptos – ou muito pouco preparados – “para lidarem com a matéria usada nas disciplinas introdutórias”. Ainda, segundo os autores, importa contrariar a afeição pelas respostas feitas, de forma a prepará-los para darem novo sentido às coisas. E, logo a seguir, reafirmam a nossa condição de crianças, “impertinentes” nas perguntas, com total abertura, muitas vezes irrespondíveis, quando procurávamos e queríamos sabê-las: Sabíamos que não sabíamos as respostas, e queríamos sabê-las. À nossa condição de espanto, enquanto crianças, relegamos a curiosidade infantil para a estrutura de respostas que silencia a nossa capacidade de agir, só porque, inevitavelmente, nos tornamos adultos. Por isso, muitas dessas perguntas ficaram por responder: De onde viemos? Qual o objectivo da nossa vida? Qual a natureza do Universo em que vivemos? O que nos acontece quando morremos?


Prosseguindo o raciocínio dos autores, constatamos a aparente solidez das nossas crenças, hipoteticamente transmissoras de conhecimento – assentes em respostas que escondem mais do que revelam –, mas não de sabedoria. Numa alusão clara ao pensamento de Sócrates, Kolak e Martin, chamam a nossa atenção para o principal obstáculo ao estudo da filosofia, quando recorremos ao pressuposto de sabermos de mais. O objectivo do livro vai, precisamente, no sentido de trazer os leitores “para o domínio da filosofia como o faria Sócrates se ainda estivesse entre nós: afastando-o das respostas durante o tempo suficiente, para que possa ter a experiência da sabedoria do desconhecedor”. Daí, o sentido de fazer da filosofia uma actividade e não um corpo de conhecimentos, cultivando a perícia, ou seja, “a habilidade para nos vermos a nós próprios e ao mundo de muitas perspectivas diferentes”. Impelem-nos mesmo em sustentarmos o objectivo de nos desenvencilharmos (por completo) da dependência das respostas. Abordam, também, o sentido de «perspectiva» como “uma interpretação que vai para lá dos factos e que se apoia nos pressupostos, convicções ou valores da pessoa que faz a interpretação”. E dão o exemplo do feto de três meses que é intencionalmente abortado, levando a que se equacione o objecto de interpretação em duas perspectivas, a do assassinato e uma outra assente em dois pressupostos diferentes: o feto não era uma pessoa, na melhor das hipóteses era uma pessoa em potência, e a morte de pessoas em potência nem sempre é um assassínio. Dão outros vários exemplos onde são postos em confronto os pontos de vista dos outros – os quais nos custam admitir – com os nossos, os que julgamos como sendo a única janela válida para a “verdadeira realidade”. A filosofia é-nos “revelada” por estes dois autores, em forma de nos mostrar como identificar as limitações dos nossos próprios pontos de vista e a sair de nós próprios.
A nota introdutória, por exemplo, culmina com o relato de uma lenda antiga de três homens sábios de três impérios diferentes que, um dia, se encontraram à entrada de um reino pacífico. Cada um deles, em face de uma guerra tripolar – apesar dos seus sábios conselhos, tinham levado à ruína dos seus impérios –, tinha vindo à procura de asilo. A rainha do reino pacífico colocá-los-ia perante um enigmático teste de adivinhação da cor de um ponto que previamente havia sido pintado nas suas testas, sentenciando a não resolução de tal enigma pela decisão de nenhum estar a altura de ser sábio no seu reino, sendo, por isso, decapitados. Tudo se resume à prática de observação, não havendo forma de conseguir descobrir respostas, olhando apenas para os nossos pontos de vistas. Os autores escolheram esta lenda como forma de nos chamarem à atenção para a preventiva excessividade de raciocínio, aliada à ludibriável desconfiança em relação aos outros; para a sensação do enigma se tornar insolúvel, só porque queremos inflectir apenas sobre o nosso ponto (de vista); e, finalmente, para resposta racional, obtida pela observação dos pontos (de vista) dos outros. À pergunta da rainha, de qual deles teria um ponto verde pintado na testa, tornar-se-ia sábio do reino, aquele que vislumbrara a realidade de todos os pontos serem vermelhos.
Em catorze capítulos – Onde?, Quando?, Quem?, Liberdade?, Conhecimento, Deus, Realidade, Experiência, Consciência, Cosmos, Morte, Sentido, Ética e Valores –cheios de vivacidade, dos quais destacamos sete (Onde? – Capítulo primeiro, coloca-nos a nós leitores na interactividade de sabermos onde estamos, onde fica a Terra, o nosso sistema solar, o Universo, sendo que este último, não existindo mapas, confere-nos, contudo, a sua localização por dentro dele estarmos colocados; Quando? – os autores, equacionados pela resposta óbvia do leitor em dizer aqui e agora, reformulam o quando é o agora, quando é o presente, estampando os cinquenta séculos de história como um pequeno segmento de tempo dentro do espaço tempo de aproximadamente quinze milhares de milhões de anos, que é a idade actualmente calculada do Universo; Quem? – sendo que esse “quem” somos nós: Quem é o leitor? E de uma pergunta simples transformamo-la num enigma complexo, só porque fazemos questão em dizer o nosso nome, a nossa idade, os nossos interesses, a nossa profissão, o local onde vivemos, etc.; Liberdade – Porque razão está a ler isto? É indiferente a razão que nos levou a ler este livro, mesmo que alguém o tenha dito para o fazer; Conhecimento – O leitor tem várias crenças. Mas quais das suas crenças é conhecimento, se é que alguma o é? A ilusória autoconfiança do apostador de corridas de cavalos quando acredita ardentemente que o seu cavalo vai ganhar; Deus – Poderá o conhecimento de que Deus existe fornecer a ponte necessária entre a experiência e a realidade – entre os nossos estados mentais subjectivos e o mundo exterior?; Ética – Como podem as autoridades encarregues do seu condicionamento saber que o leitor é mau por natureza? Numa escrita escorreita, Kolak e Martin apontam para a realidade presente de pais, professores, legisladores, políticos e líderes religiosos estarem a treinar-nos para nos ajustar ao mundo que eles herdaram dos seus pais, dos seus professores, dos legisladores, dos políticos e dos líderes religiosos, os quais por sua vez os herdaram das suas autoridades e assim por diante), qualquer um de nós aprenderá a evitar as respostas fáceis e será conduzido ao mundo fascinante do pensamento filosófico. Serão examinadas algumas das questões fundamentais. De facto, na qualidade de leitores, corroboramos da ideia que nos fica da abordagem frontal das perguntas, permitindo-nos através dela explorar os modos como elas (as perguntas) nos afectam: Deus existe?; Porque existe o Universo?; O que é o eu?; Qual o significado da vida?; Que é a morte?; Dispomos de livre-arbítrio?; Que é o conhecimento?; Que significa a moral?, etc., etc.
           As respostas preconcebidas são abandonadas logo à partida, face à aprendizagem no pensar de forma crítica “nas ideias filosóficas que podem transformar a sua vida”. A de todos nós, diremos nós, mesmo que alguns se assumam no “não assunto” de distinguirem a relação entre valores e factos!

Saturday, April 13, 2013

“Fé e religiosidade popular” dão mote a uma obra publicada em Ponte de Lima!


“Todos sabemos que património só o é quando as populações se nele revêem, quando o mesmo faz parte das suas representações, pela memória, tradição e identidade, criando correspondências, muitas vezes, de prestígio num sentido que revela poder e sentimento de pertença”.

Victor Mendes

Apesar de termos “entre mãos” uma série de livros para apreciar, e dentro das nossas limitações – porque nos escusamos em tocar todos os instrumentos ou de cairmos na promiscuidade do “sapateiro que quer ir além da chinela” – fazermos o nosso comentário possível, cauteloso e devidamente ponderado, não resistimos à tentação de escrevermos algo acerca de uma obra editada pelo Município de Ponte de Lima, e que, recentemente, nos foi gentilmente oferecida – com a anuência da presidência – pelo vereador do Pelouro da Cultura, nosso particular amigo Franclim Castro e Sousa. Na nossa modesta opinião – ainda que revestida de alguma subjectividade, porque outros tê-la-ão de maneira diferente –, trata-se de uma obra esteticamente interessante, reproduzindo uma abordagem temática sobre «Fé e religiosidade popular em Ponte de Lima», com oportuna incidência no valioso acervo patrimonial limiano, nomeadamente “cruzeiros, vias-sacras, nichos e alminhas”. São autores da referida obra: Carlos A. Brochado de Almeida (Coordenador), Mário Carlos Sousa Gonçalves e Ana Paula Azevedo Ramos B. de Almeida. A Coordenação Editorial esteve a cargo de Ovídeo de Sousa Vieira.


É evidente que, para além da nossa positiva impressão estética da mesma obra, muito pouco mais teremos a dizer acerca da mesma, já que não se trata uma obra poética ou literária, motivadora de interpretações a figuras de estilo ou inédita criatividade narrativa. Cientificamente falando, ficamo-nos pela sensação de estarmos perante aquilo que o presidente do município, Victor Mendes, classifica de “um extenso rol de património”, onde tudo se apresenta e conjuga de uma forma clara, cabendo-nos apenas comungar das suas palavras – decalcadas na certeza do sentimento de pertença, que “se espelha a verdadeira ligação à Terra, o apego das Gentes, o pulsar das vivências quotidianas…” –, quando afirma que “este trabalho é disso um excelente testemunho, expondo um extenso rol de património que engloba os cruzeiros, as vias-sacras, os nichos e as alminhas que pululam em todas as freguesias do concelho”.
Gostamos de uma forma particular da introdução do Professor Doutor Carlos Alberto Brochado de Almeida, director do Museu dos Terceiros [Mute], Doutor em Pré-História e Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, um dos mais activos investigadores de Arqueologia, por todo o Norte do País, particularmente nas bacias dos rios Minho, Lima e Cávado, consultor científico das câmaras municipais de Ponte de Lima, Barcelos e Vila Nova de Cerveira, de quem conhecemos e possuímos dezenas de trabalhos ligados à arqueologia, e com quem tivemos o prazer de conversar aquando das escavações em S. Paio de Antas (Agra), Esposende, onde visualizamos o desconforto perante a incapacidade reivindicativa da arqueologia – dir-nos-iam que tudo o que havia para fazer estava feito e as obras do “IC1” (hoje A28) iriam prosseguir em nome do futuro –, onde nos faz uma retrospectiva histórica/arqueológica da simbologia da morte, espelhada na cruz, desde os tempos imemoriais, iniciada no Médio Oriente, passando por Roma, Alta Idade Média até aos nossos dias. Apesar de nesta introdução, o Professor Brochado de Almeida fazer jus ao seu estatuto de “empático comunicador”, como é conhecido entre os seus discípulos e admiradores, poderia ir um pouco mais além, na vertente antropológica e iconográfica, das crenças ou da adaptação física – dos ora estudados (ou catalogados) cruzeiros, vias-sacras, nichos e alminhas – dos ancestrais cultos do “Homo religiosus”, também estudado por Mendes Corrêa, em “Os povos primitivos da Lusitania”, publicado em 1924: “Nos cultos, superstições, amuletos, ornatos e outros costumes (…)”. Mesmo assim, deliciamo-nos com algumas das descrições, para nós, circunstancialmente interessantes em termos de “pontilhados cenários”, tomados na essência do seu significado de conjunto das vistas e dos acessórios que ocupam o local (e não palco) de uma representação, neste caso religiosa: “Não há paróquia do Minho e muito menos da Ribeira Lima que não tenha as suas alminhas. Muitas ou poucas, elas começaram a povoar as bermas e as encruzilhadas dos caminhos que desde o século XVI cortavam e serviam o território, fosse ele o agro-florestal ou o inter-regional. Hoje é fácil encontrá-las, perdidas por velhos caminhos já sem servidão ou deslocadas para junto dos novos traçados que a política viária do fontismo liberal idealizou e foi concretizando a partir da segunda metade do século XIX”. E ficamo-nos por aqui, dado que se impõe a todo o limiano que se preze, a aquisição desta obra e subsequente apreciação, sempre com a consciência de que em História não há versões finais, nem certezas inabaláveis.       
          Para terminarmos, apenas um reparo sem grande relevância: algumas das fotografias, mereciam melhor tratamento. De resto, os nossos parabéns aos autores, ao coordenador e ao Município!

Thursday, March 28, 2013

Máscaras, desertificação, urbanismo e qualidade de vida!


“A nossa civilização está ainda, a meio de uma fase de transição: já não é guiada, totalmente, pelo instinto, mas não é, ainda, conduzida, na totalidade, pela razão”.

Theodore Dreiger

No dia seguinte à defesa da dissertação de Mestrado «O Problema Filosófico da Nosografia Psiquiátrica do Dr. Júlio de Matos: A questão epistemológica da categorização do mental» – do bracarense e nosso particular amigo/irmão Fernando Braga, da qual falamos na nossa anterior crónica –, a convite do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, rumamos (16 de Março) até à cidade de Guimarães – Capital Europeia da Cultura 2012 e Europeia do Desporto 2013 – para participarmos numa extraordinária jornada cultural, onde seria debatido o problema da recuperação dos “Centros Históricos”, no qual Guimarães é um exemplo de sucesso e dinamismo, levando a que hoje o mesmo seja Património Mundial da Humanidade e que, através da aplicação “Mobitur” e da “Plataforma das Artes e da Criatividade”, tivesse conquistado dois dos cinco prémios da “Cidade Perfeita”, projecto numa iniciativa conjunta da revista VISÃO e da SIEMENS, que teve como objectivo dar a conhecer as melhores iniciativas e boas práticas das cidades portuguesas ao nível da governação, sustentabilidade, inclusão, inovação e conectividade. Só por isso, e mesmo que mais nada nos motivasse, não nos poderíamos fazer de rogados a tão simpático convite. Assim, os vianenses (cerca de duas dezenas) que se deslocaram a Guimarães, nos quais nos incluíamos, foram recebidos pela extraordinária “cicerone” Alexandra Parada Barbosa Gesta – diplomada em Arquitectura pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, arquitecta no Município de Guimarães desde 1980, que de 1983 a 1992 e de 1995 a 2007, foi responsável pelo projecto de recuperação do “Centro Histórico” de Guimarães, elevado a Património Mundial da Humanidade em 2001, vereadora do Pelouro do Urbanismo, com as competências no DPPU (Departamento de Projectos Planeamento Urbanístico): Divisão do Gabinete Técnico Local (DGTL) –, que nos viria a proporcionar uma magnífica “lição” de urbanismo e qualidade de vida, presencial e devidamente calcorreada, sem subterfúgios e com “opus artificem probat”. Ficamos a saber que o “Centro Histórico” de Guimarães teve sapiente intervenção do arquitecto Fernando Távora, consultor do Município durante seis anos, desenhando as praças em conformidade com o papel que desenvolveram ao longo da sua história da evolução urbana. Na Praça de Santiago, presenciamos a “estada humana” nas varandas das multiseculares habitações, restauradas a preceito. Corroboramos da visão de Alexandra Gesta, no que toca à desertificação, urbanismo e qualidade de vida, nas vilas e cidades.


Atentando contra à distracção de muitos, e por forma a reforçarmos a partilha da nossa visão com a arquitecta Alexandra Gesta, aqui fica o que escrevemos em Março de 2005, publicado em “Impressões” no “Falcão do Minho”, Ano XVIII, n.º 841, crónica promotora de alguns “pequenos ódios encoirados”, sobrantes para o nosso lado: «Quando devíamos estar a debater o gravíssimo problema da desertificação das pequenas e grandes cidades, eis que a preocupação dos agentes comerciais vai no sentido de apontarem o dedo à proliferação das grandes superfícies. Embora faça sentido, essa preocupação tem sido também dissimulada por alguma apatia ao fenómeno da cidade desabitada, para que se venha a justificar o injustificável. Já uma vez o escrevemos (1991) que a vila de Ponte de Lima faz repensar Viana, não apontando, na altura, os factores circunstanciais que levariam a tal “afirmativo despautério” do nosso subconsciente. De facto, ao fim de semana, a vila de António Feijó, de Norton de Matos e do Cardeal Saraiva continua a fervilhar de gente, dando sinais de uma inter-relação afectiva entre o comércio e o cidadão. Em terras de Ponte, sempre houve a preocupação de combater a desertificação, por forma a se estabelecer essa inter-relação. Os estabelecimentos de restauração – e similares – entendem e cultivam esta ancestral prática (quase familiar) de, no mesmo local do comércio, se reservar o primeiro andar ou divisões confinantes ao rés-do-chão, para habitação.
Pegou a moda de nas pequenas e grandes cidades transformarem todos os espaços disponíveis e habitáveis, em grandes centros comerciais, onde proliferam, de uma forma desordenada – face ao desequilíbrio de forças –, agências bancárias, “prontos-a-vestir” e outras tantas superficialidades, que em nada são convidativas à permanência ou à afectividade do cidadão, já que os residentes há muito que se transferiram para os arredores da cidade, sendo as suas anteriores residências transformadas em escritórios de advogados, laboratórios e outras coisas tais... Queixam-se os comerciantes e queixam-se os cidadãos. Em Viana, por exemplo, já foi normalidade viver sobre o tecto ou paredes-meias com um qualquer estabelecimento comercial, cujos proprietários se queixam, hoje, dessa desenfreada desertificação. Associado a este desânimo vem a insegurança. Deixou-se de ouvir este ou aquele pequeno barulho e o alarme quando dispara, já os “amigos do alheio” estão a fazer contas à vida, bem longe do centro nevrálgico dos malogrados “visitados”. Ninguém ouviu, ou se ouviram disfarçam sorrateiramente e dizem-se “moradores noutro bairro”. Ir ao café era morar ali ao lado!
Ponte de Lima tem sido para nós ponto de encontro, no terreiro ou no pátio, a fervilhar de gente. Bem ao centro da Vila, muitos são os nossos amigos que moram por cima de agências bancárias, cafés ou “prontos-a-vestir”. Uma simbiose perfeita, quando se reflecte nas consequências de decisões irreflectidas. O lucro de hoje, muitas vezes é o prejuízo de amanhã!


Vivemos um tempo em que as grandes superfícies começam a proliferar nos arredores das cidades, bem perto das actuais residências dos cidadãos. Será que ainda não deram por isso?» – Não se trata de profecia, mas apenas a constatação da realidade, porque atentos ao pulsar do quotidiano comunitário!
Depois deste repetitivo desabafo com cerca de uma década, não poderíamos terminar este “ao correr da pena e da mente…” sem darmos conta da nossa visita – em fim de tarde – à “Plataforma das Artes e Criatividade”, numa espécie de regressão às vivências africanas da infância e juventude, auscultando as máscaras ali expostas, “os mais comuns e os mais inquietantes dos objectos, porque é da sua natureza afirmarem e negarem simultaneamente a mesma coisa, esconderem e revelarem, serem secretas e regulares”. Até quando as “máscaras” continuarão a equacionar a mundividência das relações entre os sujeitos humanos e não humanos? As máscaras ali expostas fizeram-nos lembrar a tal ponte que estabelece relações de continuidade entre a matéria e o espírito, entre o objecto e o referente. E as mesmas podem ajudar a desmistificar desertificações, urbanismos e qualidades de vida, desde que se assumam personificações positivas de proximidade. Tal como um dia diria Marlon “a estreiteza espiritual origina, quase sempre, a intolerância”. Por muito que se mascare a razão, muitos dos detentores dessas inquietantes máscaras, normalmente são os menos razoáveis no equacionamento da mundividência e da qualidade de vida. Pensem nisso! 

Friday, March 22, 2013

Fernando Braga defende dissertação sobre “O Problema Filosófico da Nosografia Psiquiátrica do Dr. Júlio de Matos”!


“A dissertação ambiciona identificar problemas e argumentos filosóficos nos textos do Dr. Júlio de Matos sobre a vida mental. Aspira a ser uma análise filosófica sobre um aspecto do problema da consciência normal e alterada no final do século XIX português”.

António Fernando Braga

No passado dia 15 de Março do corrente ano, no Auditório do Instituto de Letras e Ciências Humanas (ILCH) da Universidade do Minho, o nosso prezado amigo/irmão António Fernando Gomes Braga – filho de António Martins da Silva Braga e de Maria Júlia de Almeida Gomes Braga, nascido na freguesia de Maximinos, Braga, em 19 de Setembro de 1964 –, defendeu a sua dissertação de Mestrado «O Problema Filosófico da Nosografia Psiquiátrica do Dr. Júlio de Matos: A questão epistemológica da categorização do mental». Centrando a sua investigação na figura de Júlio de Matos, Fernando Braga acabou por nos trazer à coacção a personalidade deste homem de grande destaque ou com relevo na sociedade portuguesa do seu tempo, cuja influência social das suas ideias acerca da mente anómala ou desviante foi muito acentuada. Segundo Fernando Braga, a obra de Júlio de Matos propõe desde logo um sério desafio filosófico, o de saber em que consistem as doenças psiquiátricas e o que é uma doença psiquiátrica. Por isso, o objectivo principal da sua investigação e subsequente dissertação desenvolveu-se em torno desta grande questão. E Fernando Braga interroga-se e impeliu-nos, também, à cirúrgica interrogação: Que tipo de argumentos tinha ou produziu Júlio de Matos para fundamentar as suas teorias acerca do assunto? Foi aí que o estudo dos argumentos do conhecimento nos seus textos, com a finalidade de encontrar problemas filosóficos, passou a ser uma das directrizes nucleares deste trabalho de investigação do nosso amigo/irmão Fernando Braga, acabando por dizer, perante o júri e seu orientador, que foram detectados alguns destes problemas filosóficos. Para Fernando Braga, a obra de Júlio de Matos é muito rica em áreas filosóficas como ontologia da mente: O que é que há no mundo? Existe mesmo a patologia mental? Existe apenas para o clínico? Para o próprio não existe. E para outros? Existirá? – questionaria Fernando Braga.
Mostrando um discernimento intelectual – qual actor no palco da vida, como o teria visto o Professor José Marques Fernandes naquele dia –, o nosso amigo/irmão Fernando começou por nos dizer que “Júlio de Matos dividiu a sociedade em loucos e não-loucos. À classe dos loucos multiplicou-a, isto é, classificou nosograficamente em diversos grupos ou catálogos todas as patologias por si consideradas. Nesta medida, e relativamente ao contexto epistemológico, a sua obra obriga a profundas reflexões e suscita questões como as seguintes: Como é que se classificam doenças mentais? Como é que se representam as categorias mentais? Como é que se descrevem?”. E deu o exemplo de Michel Foucault ou Ian Hacking, que trabalharam material deste género, sendo que Hacking refere mesmo que determinadas doenças psiquiátricas são “cultivadas pelos terapeutas”, ou seja, elas não são reais. E continuou a sua dissertação: “A homossexualidade, por exemplo, na consideração de Júlio de Matos, era uma patologia mental. Terá isto algum fundo de verdade? Ou terá sido uma doença cultivada pelo terapeuta? Talvez outras ditas doenças mentais não existam de facto”. Foram essas questões, quer no plano ontológico, quer no plano epistemológico, que acabaram por representar alguns problemas filosóficos estudados na dissertação ora apresentada pelo Fernando.

Fernando Braga (ao centro) acompanhado pelos Professores Manuel Curado, Pedro Martins, João Rosas e José Carlos Casulo (da esquerda para a direita).

Naquele dia, positivo e não positivista, ficamos também a saber que a obra de Júlio de Matos divide-se em duas partes: uma técnica; outra filosófica. No entanto, existe uma reciprocidade entre ambas, uma influência mútua: “Neste contexto, refira-se, para além do âmbito clínico, a sua obra divulga paralelamente os ideais positivistas. Júlio de Matos foi um dos principais introdutores e defensores destes ideais em Portugal, tendo sido inclusivamente um dos fundadores da Revista Portuguesa de Filosofia «O Positivismo». Como se sabe, a escola positivista, liderada pela filosofia de August Comte, procurou impor uma disciplina científica, uma doutrina assente no rigor, assente numa leitura do facto concreto e indesmentível, tangível, mensurável e na rejeição de toda e qualquer especulação metafísica” – disse a dado momento o nosso bom amigo/irmão Fernando Braga. E colocaria mais duas interrogações: Poderá este cientificismo esgotar o conhecimento da realidade? Poderá o conhecimento científico explicar na íntegra os estados patológicos de loucura?
Por fim, ficamos a saber que a dissertação ora apresentada procurava destacar a projecção pública dos ideais positivistas defendidos por Júlio de Matos, procurando destacar a influência das suas ideias nos tribunais portugueses do século XIX em temas tão delicados como, por exemplo, o da inimputabilidade penal. A inimputabilidade, o problema do outro, a mente humana com desvios são questões perenes, importantes, questões filosóficas que continuamos a ter nos nossos dias e que, no fundo, realçam a importância a atribuir à obra de Júlio de Matos. E foi isso o que fez o agora MESTRE António Fernando Gomes Braga.
A promessa de continuar a explorar as áreas ou problemas filosóficos, que abarquem a ontologia, epistemologia, filosofia da mente, filosofia política e social, etc. ficou ar. Venha então daí a tese de doutoramento.     
O júri composto pelos Professores Doutores João Rosas (Presidente), José Carlos Casulo, do Instituto de Educação (arguente principal) e Pedro Martins, chefe do Departamento de Filosofia – todos da Universidade do Minho –, atribuiu-lhe a excelente nota de dezassete valores (17), um valor abaixo do que preconizáramos. O orientador da dissertação foi o nosso particular amigo e grande filósofo da mente e das Ciências Cognitivas, Professor Doutor Manuel Curado.
Um bem-haja a todos, por este extraordinário contributo científico para o estudo da mente, enigmático espaço onde gravitam o consciente e o inconsciente. Apesar de, como um dia escreveria o Professor Manuel Curado, “sabermos muito pouco sobre o que faz a consciência num mundo em evolução, os seres humanos sabem como transformar a consciência”. Por que razão existe consciência no mundo físico quando é pensável a sua não existência?

        É isso que o nosso amigo/irmão Fernando Braga se propõe continuar a procurar!

Friday, March 15, 2013

A “Condição Humana” em Hannah Arendt!


A Condição Humana é uma obra de grande originalidade, com concepções inesperadas e, em muitos aspectos, mais importante hoje do que na altura em que surgiu (1958). / Os problemas que Arendt identificou então, a partir de uma perspectiva histórica (…) são cada vez mais actuais”.

O Editor “Relógio d’Água”

Pelo simples facto do nome da filósofa norte-americana Hannah Arendt [N. Hanôver, 1906 – m. Nova Iorque, 1975] ter sido citado nas “Correntes d’Escritas” pelo poeta Vergílio Alberto Vieira (dissertação que nos comoveu profundamente), e porque muitos dos leitores das nossas crónicas insistem na auscultação da nossa opinião no que toca ao actual estado das nações (mesmo ao mais pequeno Estado do mundo, a tombos com problemas vários, de natureza ética e moral), procuramos algum discernimento – dado que temos evitado entrar pelos meandros tórpidos da política e da religião – de causa-efeito, por forma a reproduzirmos algo que seja útil à nossa condição, temática de pouco agrado para os fazedores do “capitalismo selvagem”, destruidor da própria condição humana. E é precisamente em Hannah Arendt que nos revemos, como condição “sine qua non” para reflectirmos sobre o tal estado das nações. Para isso, impôs-se-nos a releitura de Hannah Arendt dos tempos académicos.
Com a expressão vita activa, Hannah Arendt pretende designar três actividades humanas fundamentais: labor, trabalho e acção. Trata-se de actividades fundamentais porque cada uma delas corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na Terra. O labor é a actividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano; o trabalho é a actividade correspondente ao artificialismo da existência humana; e a acção, a única actividade que se exerce directamente entre os homens sem mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade. As três actividades e as suas respectivas condições estão intimamente relacionadas com as condições mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. Apesar do labor, do trabalho e da acção terem raízes na natalidade – na medida em que a sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo de recém-chegados que, segundo Hannah Arendt, vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de os prever e ter em conta –, a acção é a mais intimamente relacionada com a condição humana da natalidade. Por isso, todas as actividades humanas possuem um elemento de acção e, portanto, de natalidade. Para além disso, sendo a acção uma actividade política por excelência, a natalidade pode constituir a categoria central do pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.

Outro factor importante a ter em conta é que para Hannah Arendt os homens são seres condicionados, dado que tudo aquilo com o qual entram em contacto torna-se imediatamente uma condição da sua existência: O que quer que toque a vida humana ou entre duradoura relação com ela, assume imediatamente o carácter de condição da existência humana. É por isso que os homens são sempre seres condicionados.
A condição humana não é o mesmo que a natureza humana, e a soma total das actividades e capacidades humanas que correspondem à própria condição humana não constitui algo que se assemelhe à natureza humana. A condição humana diz respeito às formas de vida que o homem impõe a si mesmo para sobreviver. São condições que tendem a suprir a existência do homem: as condições da existência humana – a própria vida, a natalidade e a mortalidade, a mundanidade, a pluralidade e o planeta Terra – não podem «explicar» o que somos ou responder a perguntas sobre o que somos, pela simples razão de que não nos condicionam de modo absoluto. Segundo Hannah Arendt, esta sempre foi a opinião da filosofia, em contraposição às ciências – antropologia, psicologia, biologia, etc. – que também têm no homem o seu objecto de estudo. Outro facto relevante é que, embora vivamos (ou tenhamos que viver) sob condições terrenas, não somos meras criaturas terrenas.
Para a mesma filósofa, a expressão vita activa é perpassada e sobrecarregada de tradição. Com o desaparecimento da antiga cidade-estado a expressão vita activa perdeu o seu significado especificamente político e passou a denotar todo o tipo de envolvimento activo nas coisas deste mundo: Convém lembrar que isto não queria dizer que o trabalho e o labor tivessem alcançado posição mais elevada na hierarquia das actividades humanas e fossem agora tão dignos como a vida política. De facto, o oposto é que era verdadeiro: a acção passara a ser vista como uma das necessidades da vida terrena, de tal modo que a contemplação […] era o único modo de vida realmente livre. Apesar disso, a enorme superioridade da contemplação sobre qualquer outro tipo de actividade, inclusive a acção, não é de origem cristã, dado que encontramo-la na filosofia política de Platão. Sendo assim, a expressão vita activa compreendendo todas as actividades humanas e definida do ponto de vista da absoluta quietude da contemplação, corresponde mais à askholia grega («ocupação», «desassossego») com a qual Aristóteles designava toda a actividade, do que ao bios politikos dos gregos: O primado da contemplação sobre a actividade baseia-se na convicção de que nenhum trabalho de mãos humanas pode igualar em beleza e verdade o “Kosmos” físico, que se resolve em torno de si mesmo, em imutável eternidade, sem qualquer interferência ou assistência externa, seja humana ou divina. Daí, Hannah Arendt afirmar que, tradicionalmente, a expressão vita activa deriva o seu significado da vita contemplativa. Contudo, para a mesma filósofa, o enorme valor da contemplação na hierarquia tradicional obscureceu as diferenças e manifestações no âmbito da própria vita activa: o uso que dou à expressão “vita activa” pressupõe que a preocupação subjacente a todas as actividades não é a mesma preocupação central da “vita contemplativa”, tal como não lhe é superior nem inferior.
Desde que «os homens de pensamento e os homens de acção começaram a enveredar por caminhos diferentes», as várias formas de envolvimento activo nas coisas deste mundo, por um lado, e o pensamento puro que culmina na contemplação, por outro, passaram a corresponder a duas preocupações humanas inteiramente diferentes. A forma mais fácil de ilustrar estes dois princípios diferentes – e até conflituantes – é lembrar a diferença entre imortalidade e eternidade: Imortalidade significa continuidade no tempo, vida sem morte nesta terra e neste mundo, tal como foi dada, segundo o consenso grego, à natureza e aos deuses do Olimpo. Contra este pano de fundo – a vida perpétua da natureza e a vida divina, isenta de morte e de velhice – entravam-se os homens mortais, os únicos mortais num universo imortal mas não eterno, em comparação com as vidas imortais dos seus deuses mas não sob o domínio de um Deus eterno. Os homens, face às suas capacidades de realizar feitos imortais, e apesar da sua mortalidade individual, atingem o seu próprio tipo de imortalidade e demonstram a sua natureza «divina». A diferença entre o homem e o animal aplica-se à própria espécie humana. Para Hannah Arendt, só os melhores, que constantemente provam ser os melhores – e que «preferem a fama imortal às coisas mortais» –, são realmente humanos; os outros, porque satisfeitos com os prazeres que a natureza lhes oferece, vivem e morrem como animais. A experiência do eterno (tal como a tem o filósofo) só pode ocorrer fora da esfera dos negócios humanos e fora da pluralidade dos homens. E o exemplo é-nos dado pela alegoria da Caverna de Platão, na qual o filósofo tendo-se libertado dos grilhões que o prendiam aos seus semelhantes, emerge na caverna, em perfeita «singularidade», nem acompanhado nem seguido de outros: Politicamente falando, se morrer é o mesmo que «deixar de estar entre os homens», a experiência do eterno é uma espécie de morte; a única coisa que a separa da morte real é que não é final pois nenhuma criatura viva pode suportá-la durante muito tempo. Segundo Hannah Arendt é isto precisamente que separa a vita contemplativa da vita activa, nomeadamente no pensamento medieval.
        Para terminarmos, e porque seria incomportável – face à noção do espaço disponível – falar aqui de outros temas abordados por Hannad Arendt, reiteramos apenas um conselho para os políticos (?) de todas as nações: Leiam “A Condição Humana” de Hannah Arendt, sem procurarem “equivalências” ou coisas tais, tendo em conta que, segundo esta ilustre filósofa, o facto histórico decisivo é que a privacidade moderna, na sua função mais relevante – proteger aquilo que é íntimo – foi descoberta não como o oposto da esfera política, mas da esfera social, com a qual, no entanto, tem laços ainda mais estreitos e mais autênticos. Enquanto isso, continuamos a pensar que – bebendo em Hannah Arendt – “a nossa crença na realidade da vida e na realidade do mundo não são, com efeito, a mesma coisa”. Abyssus abyssum invocat!

Friday, March 08, 2013

Recordar Álvaro Feijó no 72.º aniversário da sua morte!


“Só numa coisa te enganaste, poeta. Aqui estamos nós a lembrar-te, nós os teus companheiros e os teus leitores. Porque abriste os olhos sobre o nosso mundo, porque cantaste a rua, a fome, o sofrimento, mas sobretudo porque os soubeste cantar, sem o que nunca conseguirias que toda a gente visse, sentisse e sofresse só de ver sofrer”.

João José Cochofel

Com apenas vinte e quatro anos de idade, mais precisamente a 9 de Março de 1941 – por isso, faz amanhã setenta e dois anos –, faleceu de tuberculose, em Coimbra, o poeta vianense Álvaro Feijó, de seu nome completo Álvaro de Castro e Sousa Correia Feijó, que havia nascido na “Princesa do Lima”, em 5 de Julho de 1916. Filho de Rui de Menezes de Castro Feijó e de D. Maria Luísa Malheiro de Faria e Távora Abreu e Lima, fez os estudos secundários no colégio dos jesuítas de La Guardia, na vizinha Galiza, inscrevendo-se seguidamente na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Influenciado pela obra de seu tio-avô António Feijó (1859-1917), introdutor e cultor exímio do “Parnasianismo” francês no nosso país, surgem os “Primeiros Versos” de Álvaro Feijó que, segundo os críticos, “constituem a manifestação de um talento poético embrionário, caracterizada por um ensaio de versificação parnasiana. Poemas de adolescência centram-se na subjectividade do «eu» e nos temas do amor, reeditando a tensão entre o amor espiritual e carnal, o cerne temático da lírica de Camões, mas com um pendor tendencial para o amor petrarquista”. Por outro lado, o poeta tenta a definição do próprio caminho poético, denunciando a sua crise de identidade, dividido entre a sua condição de aristocrata e as exigências da transformação social: “calcorreei a estrada, encadernado / de senhor feudal / e, quando eu passava, lentamente, / desbarretavam-se as gentes, temerosas / do meu guante ferrado, que abatia / iras incontenidas / sobre justos e injustos, num fatal / julgamento de morte e destruição!” ou “Da minha Torre branca de Marfim / há vinte anos parti, brilhante o olhar, / buscando o fim da estrada que, sem fim, / não sei, eu próprio, ainda, onde vai dar”.


Apesar de já conhecermos a poesia de Álvaro Feijó há cerca de três décadas e meia, altura em que adquirimos a 3.ª edição (Setembro de 1978) dos seus poemas (Os Poemas de Álvaro Feijó), Brasília Editora, muito recentemente, fomos contemplados com o maravilhoso livro com o mesmo título “Os Poemas de Álvaro Feijó”, edição de “Evoramons Editores” (Junho de 2005), numa gentil oferta da nossa particular amiga Andrea Pinto de Castro Feijó, prima em 2.º grau desta figura mítica da geração que, na Coimbra de finais dos anos trinta do século passado, e como se pode ler em sinopse na contracapa, “veio a lançar o movimento conhecido como neo-realismo. (…) Prova disso, a poesia que nos deixou, onde os temas de mais fundas raízes na cultura e literatura portuguesas se irmanam a uma consciência social em carne viva”. Esta obra, tal como a edição de 1978, reúne os “Primeiros Versos”, “Corsário” e o inacabado “Diário de Bordo”. E para que conste, por forma a acicatar os preconcebidos entorpecimentos, convenhamos em recordar que os versos de Álvaro Feijó foram publicados em revistas como “Sol Nascente”, “O Diabo”, “Altitude” e “Seara Nova” e, postumamente, no “Novo Cancioneiro”. Companheiro no exercício poético de Políbio Gomes dos Santos, Joaquim Namorado e José João Cochofel, formado nos princípios da escola neo-realista, a sua poesia sofre a trágica influência da guerra civil de Espanha, entre 1936-1939, e da segunda Grande Guerra. Não é por acaso que no “Corsário” (1940), o único livro que publicou em vida, há um apelo fundamental à reforma da sociedade e da justiça social e ao esvaziamento dos conteúdos religiosos, substituídos por temas laicos. No “Diário de Bordo”, que ficou incompleto devido à doença implacável, assistimos a uma nova estratégia temática: “são versos de sarcasmo feroz dirigidos à própria classe aristocrata, ridicularizada nos seus actos de mundanidade frívola, numa ironia ao nível queirosiano”. Mas, ainda segundo a crítica, “é no âmbito da temática religiosa que a poesia de Álvaro Feijó atinge uma perfeição notável de fundo e de forma”, como no poema «Nossa Senhora da Apresentação», que constitui uma súmula dos vectores temáticos do neo-realismo: “O altar as vagas, / o dossel a espuma! / Missas rezadas pelo vento, / ora pelos fiéis defuntos que se foram / noutras vagas, / ora pelas barcaças que, uma a uma, / buscaram as sereias na distância / e se foram com elas (…) O dossel a espuma. / O altar as vagas / – e que altar enorme! – / Entre círios de estrelas, / Nossa Senhora da Apresentação / e Justificação / – a Fome!” – assim se pode ler no início e na parte final do poema. Perpassam pelos poemas de Álvaro Feijó “caminhos de montanha”; o lançar “em linhas tortas / no branco do papel, sinceramente, / idas fragrâncias de ilusões já mortas, / desejos do presente”; a tão actual nau perdida (tendo em conta o lado visionário dos poetas), “na rota pelo Mundo / – ao deus-dará na vaga azul e infinda – / nós vamos – nau perdida em Mar profundo – / joguetes do tufão; / mas conservando, ainda, / na última Esperança a última Ilusão”; o temor; a transfiguração; a fraqueza, quando o poeta se encontra sozinho, “mas animado de uma força rara”; o credo; a fuga, mesmo quando “de nada serviu a fuga e o sacrifício”; o nascer “numa manhã com neblina de bronze / sobre o rio”; a rota sem fim; o marasmo que “há dentro de mim, como num búzio / a voz do Mar”; o apelo à “Senhora da Noite, deixa o Mundo / para que todo o mundo o possa ver”; o livro de horas, onde há a história do destino do poeta; o palhaço, sendo que o poeta foi palhaço de si mesmo; o poema da renúncia, no qual brada “que venha a noite e deixe o seu mistério / sobre nós, / e traga, sobre nós, o esquecimento!"; a gare de “choros e gritos! / Namoradas perdidas, / mães velhinhas / e os amigos, / numa espécie de inveja dolorida, / por não poderem partir”; o “Livro de Bordo de Corsário, deixa / que o tempo apague a tua prosa inútil / e escreve a história imensa / daquela frota em que tu vais partir / – como pobre navio auxiliar – / à demanda e à conquista / do Novo Continente!”; o “Diário de Bordo” onde “os cais são as esfinges / do Mar” e onde se questiona o “Piloto! / – De que serve o sextante / quando o não sabes usar?”; a largada; o claro-escuro; o sargaceiro; a varina e o porquê da existência: “Porque existes, não sei! / Mas sei para que existes”. Um poeta sublime, cujo trajecto vital seria tão curto como fulgurante.
Fica desde já aqui lançado o repto, em jeito de lembrete, nomeadamente aos agentes culturais de Viana do Castelo e Ponte de Lima, de que em 2016 se comemora o centenário do seu nascimento. Até lá, voltaremos a desentediar as indisposições dos que se têm pautado pela asfixia dos que, tal como Álvaro Feijó, não foram “feitos para andar ao sol, / continuamente, / nem para ter saudades do passado / ou para chorar um sonho que se esfolha”. Em memória de Álvaro Feijó, continuaremos a contar estrelas, ainda que elas morram, à medida que as contamos.
        Terminaremos aludindo ao que seu irmão Rui Feijó escreveu nesta magnífica edição de “Os Poemas de Álvaro Feijó”: “Lembro-me da alegria que ele teve quando saiu a primeira edição do Corsário e daquilo que escreveu no primeiro exemplar, que conservo, e que era todo um programa de futuro”. E interroga-se: “Qual seria hoje a sua alegria se pudesse saber que a sua poesia permanece no imaginário de várias gerações, que figura em todas as antologias responsáveis da poesia do tempo em que viveu e que continua a ser editado”. Diremos nós que – e complementando com a lisura do poeta – por mais que façam contra a poesia e contra os poetas, “a miséria é tão grande do meu lado / que me apetece ir combater / do lado dos inimigos” e “eu sinto / que vale mais morrer do outro lado, / onde se morre mais limpo”.

Friday, March 01, 2013

Correntes d’Escritas, Hélia Correia e “A Terceira Miséria”!


“De que armas disporemos, senão destas / Que estão dentro do corpo: o pensamento, / A ideia de polis, resgatada / De um grande abuso, uma noção de casa / E de hospitalidade e de barulho / Atrás do qual vem o poema, atrás / Do qual virá a colecção dos feitos / E defeitos humanos, um início”.

Hélia Correia

Já há muito que nos sentíamos atraídos pelas Correntes d’Escritas, ou simplesmente Correntes, como é conhecido o encontro anual de escritores de expressão ibérica que decorre todos os anos, durante o mês de Fevereiro, na Póvoa de Varzim, numa organização do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal local. Normalmente, os escritores que aqui participam, são provenientes de países e continentes onde se falam as línguas portuguesa e espanhola, desde a Península Ibérica, passando pela América Central e do Sul à África Lusófona. O primeiro encontro realizou-se em Fevereiro de 2000, ano em que se assinalou o Centenário da Morte de Eça de Queirós. A partir de 2004, passou a ser atribuído um prémio para novas obras em prosa ou poesia, em anos alternados, chamado Prémio Literário Casino da Póvoa. Este ano, decorreu a 14.ª Edição das Correntes d'Escritas e o tão “cobiçado” Prémio Literário foi atribuído à poetisa e dramaturga Hélia Correia, com o seu maravilhoso livro – um dos melhores de poesia, que lemos até hoje – “A Terceira Miséria”, num empolgante regresso desta filóloga românica à poesia, à memória e aos clássicos. De facto, e tal como diria Carlos Vaz Marques (TSF), a paixão pela Grécia, desde há muito presente na obra de Hélia Correia, desagua agora neste livro de poesia, onde a Grécia clássica surge como farol e como impossibilidade, similitude nossa na indigência: “Nós, os ateus, nós, os monoteístas, / Nós, os que reduzimos a beleza / A pequenas tarefas, nós, os pobres / Adornados, os pobres confortáveis, / Os que a si mesmos se vigarizavam / Olhando para cima, para as torres, / Supondo que as podiam habitar, / Glória das águias que nem águias tem, / Sofremos, sim, de idêntica indigência, / Da ruína da Grécia”.

A escritora Hélia Correia (ao centro) com Ana Cristina Moreira e Porfírio Silva

Impulsionados pela imperativa necessidade de nos encontrarmos com a Hélia Correia – por forma a sentirmos-lhe o “pulsar da glória” –, e, ao mesmo tempo, auscultarmos o questionável querer temático, aberto aos motes “de que armas disporemos, se não destas que estão dentro do corpo” e “só o que não se sabe é poesia”, lá rumamos até às Correntes d'Escritas, onde assistimos a dois extraordinários painéis, que redundaram num salutar e frutífero convívio, com os escritores: Helena Vasconcelos, Jesús del Campo, Luís Cardoso, Miguel Miranda, Maria Teresa Horta, Aurelino Costa, Ivo Machado, João Luís Barreto Guimarães, José Mário Silva, Lauren Mendinueta e Vergílio Alberto Vieira, magnanimamente moderados por João Gobern e Francisco José Viegas. Foi lá, no “interlúdio” das magníficas intervenções, que sentimos o cérebro como “um órgão fazedor de poesia” e que, normalmente, “funciona sob o garrote da lógica”, qual desafio aristotélico premeditaria, também, a poesia como provocadora da catarse. Tal como foi sugerido por Helena Vasconcelos, bom seria que “trocassem as doses maciças de austeridade por doses maciças de poesia”. E Maria Teresa Horta lá foi dizendo que os poetas são os alquimistas do futuro e a poesia cada vez mais se vai tornando numa arma mortífera para os ditadores. Daí, alguma alergia ao “Grândola, vila morena” e ao facto de ela se negar a receber o Prémio D. Dinis, das mãos do primeiro-ministro Passos Coelho: “Eu não recebi da mão do primeiro-ministro o prémio e não recebi nada. Nem uma côdea de pão, mesmo que estivesse a morrer de fome. Não recebo nada da mão desse senhor”, acrescentando “que bom seria se os fracos legisladores de agora trocassem a malfadada austeridade, a carga feroz sobre as nossas costas, que provoca o desequilíbrio, a queda e o desmembrar do tecido da polis, que trocassem as doses maciças de austeridade por doses maciças de poesia para nos purgar definitivamente”… Os poetas, os legisladores não reconhecidos do mundo. Definitivamente, voltamos ao brado de Hélia Correia: “Para que servem poetas se não podem / Nem delirar, se os textos do delírio / Serão tomados pelo seu contrário? / A bela rapariga dos cabelos / Cor de violeta, Atenas, onde está? / Quem escavará o monte até aos ossos / Para que dele ressurjam esses que / Nos deixaram sozinhos?”. Será que não há nada a dizer sobre a indigência?
   

          
          Para terminarmos da melhor maneira, e como não podia deixar de ser, o reencontro com Hélia Correia veio a acontecer, o que forçaria um agradável acrescento à dedicatória de Outubro de 2012: “Assinalando o reencontro nas Correntes de Escritas de 2013. Outro beijo...”. E registamos a inquietação de Hélia Correia: “Para quê, perguntou ele, para que servem / Os poetas em tempo de indigência? (p. 7)”. Ainda que seja para cantar o "Grândola, vila morena", diremos nós e disseram eles nas Correntes d'Escritas!