Friday, March 15, 2013

A “Condição Humana” em Hannah Arendt!


“A Condição Humana é uma obra de grande originalidade, com concepções inesperadas e, em muitos aspectos, mais importante hoje do que na altura em que surgiu (1958). / Os problemas que Arendt identificou então, a partir de uma perspectiva histórica (…) são cada vez mais actuais”.

O Editor “Relógio d’Água”

Pelo simples facto do nome da filósofa norte-americana Hannah Arendt [N. Hanôver, 1906 – m. Nova Iorque, 1975] ter sido citado nas “Correntes d’Escritas” pelo poeta Vergílio Alberto Vieira (dissertação que nos comoveu profundamente), e porque muitos dos leitores das nossas crónicas insistem na auscultação da nossa opinião no que toca ao actual estado das nações (mesmo ao mais pequeno Estado do mundo, a tombos com problemas vários, de natureza ética e moral), procuramos algum discernimento – dado que temos evitado entrar pelos meandros tórpidos da política e da religião – de causa-efeito, por forma a reproduzirmos algo que seja útil à nossa condição, temática de pouco agrado para os fazedores do “capitalismo selvagem”, destruidor da própria condição humana. E é precisamente em Hannah Arendt que nos revemos, como condição “sine qua non” para reflectirmos sobre o tal estado das nações. Para isso, impôs-se-nos a releitura de Hannah Arendt dos tempos académicos.
Com a expressão vita activa, Hannah Arendt pretende designar três actividades humanas fundamentais: labor, trabalho e acção. Trata-se de actividades fundamentais porque cada uma delas corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na Terra. O labor é a actividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano; o trabalho é a actividade correspondente ao artificialismo da existência humana; e a acção, a única actividade que se exerce directamente entre os homens sem mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade. As três actividades e as suas respectivas condições estão intimamente relacionadas com as condições mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. Apesar do labor, do trabalho e da acção terem raízes na natalidade – na medida em que a sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo de recém-chegados que, segundo Hannah Arendt, vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de os prever e ter em conta –, a acção é a mais intimamente relacionada com a condição humana da natalidade. Por isso, todas as actividades humanas possuem um elemento de acção e, portanto, de natalidade. Para além disso, sendo a acção uma actividade política por excelência, a natalidade pode constituir a categoria central do pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.

Outro factor importante a ter em conta é que para Hannah Arendt os homens são seres condicionados, dado que tudo aquilo com o qual entram em contacto torna-se imediatamente uma condição da sua existência: O que quer que toque a vida humana ou entre duradoura relação com ela, assume imediatamente o carácter de condição da existência humana. É por isso que os homens são sempre seres condicionados.
A condição humana não é o mesmo que a natureza humana, e a soma total das actividades e capacidades humanas que correspondem à própria condição humana não constitui algo que se assemelhe à natureza humana. A condição humana diz respeito às formas de vida que o homem impõe a si mesmo para sobreviver. São condições que tendem a suprir a existência do homem: as condições da existência humana – a própria vida, a natalidade e a mortalidade, a mundanidade, a pluralidade e o planeta Terra – não podem «explicar» o que somos ou responder a perguntas sobre o que somos, pela simples razão de que não nos condicionam de modo absoluto. Segundo Hannah Arendt, esta sempre foi a opinião da filosofia, em contraposição às ciências – antropologia, psicologia, biologia, etc. – que também têm no homem o seu objecto de estudo. Outro facto relevante é que, embora vivamos (ou tenhamos que viver) sob condições terrenas, não somos meras criaturas terrenas.
Para a mesma filósofa, a expressão vita activa é perpassada e sobrecarregada de tradição. Com o desaparecimento da antiga cidade-estado a expressão vita activa perdeu o seu significado especificamente político e passou a denotar todo o tipo de envolvimento activo nas coisas deste mundo: Convém lembrar que isto não queria dizer que o trabalho e o labor tivessem alcançado posição mais elevada na hierarquia das actividades humanas e fossem agora tão dignos como a vida política. De facto, o oposto é que era verdadeiro: a acção passara a ser vista como uma das necessidades da vida terrena, de tal modo que a contemplação […] era o único modo de vida realmente livre. Apesar disso, a enorme superioridade da contemplação sobre qualquer outro tipo de actividade, inclusive a acção, não é de origem cristã, dado que encontramo-la na filosofia política de Platão. Sendo assim, a expressão vita activa compreendendo todas as actividades humanas e definida do ponto de vista da absoluta quietude da contemplação, corresponde mais à askholia grega («ocupação», «desassossego») com a qual Aristóteles designava toda a actividade, do que ao bios politikos dos gregos: O primado da contemplação sobre a actividade baseia-se na convicção de que nenhum trabalho de mãos humanas pode igualar em beleza e verdade o “Kosmos” físico, que se resolve em torno de si mesmo, em imutável eternidade, sem qualquer interferência ou assistência externa, seja humana ou divina. Daí, Hannah Arendt afirmar que, tradicionalmente, a expressão vita activa deriva o seu significado da vita contemplativa. Contudo, para a mesma filósofa, o enorme valor da contemplação na hierarquia tradicional obscureceu as diferenças e manifestações no âmbito da própria vita activa: o uso que dou à expressão “vita activa” pressupõe que a preocupação subjacente a todas as actividades não é a mesma preocupação central da “vita contemplativa”, tal como não lhe é superior nem inferior.
Desde que «os homens de pensamento e os homens de acção começaram a enveredar por caminhos diferentes», as várias formas de envolvimento activo nas coisas deste mundo, por um lado, e o pensamento puro que culmina na contemplação, por outro, passaram a corresponder a duas preocupações humanas inteiramente diferentes. A forma mais fácil de ilustrar estes dois princípios diferentes – e até conflituantes – é lembrar a diferença entre imortalidade e eternidade: Imortalidade significa continuidade no tempo, vida sem morte nesta terra e neste mundo, tal como foi dada, segundo o consenso grego, à natureza e aos deuses do Olimpo. Contra este pano de fundo – a vida perpétua da natureza e a vida divina, isenta de morte e de velhice – entravam-se os homens mortais, os únicos mortais num universo imortal mas não eterno, em comparação com as vidas imortais dos seus deuses mas não sob o domínio de um Deus eterno. Os homens, face às suas capacidades de realizar feitos imortais, e apesar da sua mortalidade individual, atingem o seu próprio tipo de imortalidade e demonstram a sua natureza «divina». A diferença entre o homem e o animal aplica-se à própria espécie humana. Para Hannah Arendt, só os melhores, que constantemente provam ser os melhores – e que «preferem a fama imortal às coisas mortais» –, são realmente humanos; os outros, porque satisfeitos com os prazeres que a natureza lhes oferece, vivem e morrem como animais. A experiência do eterno (tal como a tem o filósofo) só pode ocorrer fora da esfera dos negócios humanos e fora da pluralidade dos homens. E o exemplo é-nos dado pela alegoria da Caverna de Platão, na qual o filósofo tendo-se libertado dos grilhões que o prendiam aos seus semelhantes, emerge na caverna, em perfeita «singularidade», nem acompanhado nem seguido de outros: Politicamente falando, se morrer é o mesmo que «deixar de estar entre os homens», a experiência do eterno é uma espécie de morte; a única coisa que a separa da morte real é que não é final pois nenhuma criatura viva pode suportá-la durante muito tempo. Segundo Hannah Arendt é isto precisamente que separa a vita contemplativa da vita activa, nomeadamente no pensamento medieval.
        Para terminarmos, e porque seria incomportável – face à noção do espaço disponível – falar aqui de outros temas abordados por Hannad Arendt, reiteramos apenas um conselho para os políticos (?) de todas as nações: Leiam “A Condição Humana” de Hannah Arendt, sem procurarem “equivalências” ou coisas tais, tendo em conta que, segundo esta ilustre filósofa, o facto histórico decisivo é que a privacidade moderna, na sua função mais relevante – proteger aquilo que é íntimo – foi descoberta não como o oposto da esfera política, mas da esfera social, com a qual, no entanto, tem laços ainda mais estreitos e mais autênticos. Enquanto isso, continuamos a pensar que – bebendo em Hannah Arendt – “a nossa crença na realidade da vida e na realidade do mundo não são, com efeito, a mesma coisa”. Abyssus abyssum invocat!

Friday, March 08, 2013

Recordar Álvaro Feijó no 72.º aniversário da sua morte!


“Só numa coisa te enganaste, poeta. Aqui estamos nós a lembrar-te, nós os teus companheiros e os teus leitores. Porque abriste os olhos sobre o nosso mundo, porque cantaste a rua, a fome, o sofrimento, mas sobretudo porque os soubeste cantar, sem o que nunca conseguirias que toda a gente visse, sentisse e sofresse só de ver sofrer”.

João José Cochofel

Com apenas vinte e quatro anos de idade, mais precisamente a 9 de Março de 1941 – por isso, faz amanhã setenta e dois anos –, faleceu de tuberculose, em Coimbra, o poeta vianense Álvaro Feijó, de seu nome completo Álvaro de Castro e Sousa Correia Feijó, que havia nascido na “Princesa do Lima”, em 5 de Julho de 1916. Filho de Rui de Menezes de Castro Feijó e de D. Maria Luísa Malheiro de Faria e Távora Abreu e Lima, fez os estudos secundários no colégio dos jesuítas de La Guardia, na vizinha Galiza, inscrevendo-se seguidamente na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Influenciado pela obra de seu tio-avô António Feijó (1859-1917), introdutor e cultor exímio do “Parnasianismo” francês no nosso país, surgem os “Primeiros Versos” de Álvaro Feijó que, segundo os críticos, “constituem a manifestação de um talento poético embrionário, caracterizada por um ensaio de versificação parnasiana. Poemas de adolescência centram-se na subjectividade do «eu» e nos temas do amor, reeditando a tensão entre o amor espiritual e carnal, o cerne temático da lírica de Camões, mas com um pendor tendencial para o amor petrarquista”. Por outro lado, o poeta tenta a definição do próprio caminho poético, denunciando a sua crise de identidade, dividido entre a sua condição de aristocrata e as exigências da transformação social: “calcorreei a estrada, encadernado / de senhor feudal / e, quando eu passava, lentamente, / desbarretavam-se as gentes, temerosas / do meu guante ferrado, que abatia / iras incontenidas / sobre justos e injustos, num fatal / julgamento de morte e destruição!” ou “Da minha Torre branca de Marfim / há vinte anos parti, brilhante o olhar, / buscando o fim da estrada que, sem fim, / não sei, eu próprio, ainda, onde vai dar”.


Apesar de já conhecermos a poesia de Álvaro Feijó há cerca de três décadas e meia, altura em que adquirimos a 3.ª edição (Setembro de 1978) dos seus poemas (Os Poemas de Álvaro Feijó), Brasília Editora, muito recentemente, fomos contemplados com o maravilhoso livro com o mesmo título “Os Poemas de Álvaro Feijó”, edição de “Evoramons Editores” (Junho de 2005), numa gentil oferta da nossa particular amiga Andrea Pinto de Castro Feijó, prima em 2.º grau desta figura mítica da geração que, na Coimbra de finais dos anos trinta do século passado, e como se pode ler em sinopse na contracapa, “veio a lançar o movimento conhecido como neo-realismo. (…) Prova disso, a poesia que nos deixou, onde os temas de mais fundas raízes na cultura e literatura portuguesas se irmanam a uma consciência social em carne viva”. Esta obra, tal como a edição de 1978, reúne os “Primeiros Versos”, “Corsário” e o inacabado “Diário de Bordo”. E para que conste, por forma a acicatar os preconcebidos entorpecimentos, convenhamos em recordar que os versos de Álvaro Feijó foram publicados em revistas como “Sol Nascente”, “O Diabo”, “Altitude” e “Seara Nova” e, postumamente, no “Novo Cancioneiro”. Companheiro no exercício poético de Políbio Gomes dos Santos, Joaquim Namorado e José João Cochofel, formado nos princípios da escola neo-realista, a sua poesia sofre a trágica influência da guerra civil de Espanha, entre 1936-1939, e da segunda Grande Guerra. Não é por acaso que no “Corsário” (1940), o único livro que publicou em vida, há um apelo fundamental à reforma da sociedade e da justiça social e ao esvaziamento dos conteúdos religiosos, substituídos por temas laicos. No “Diário de Bordo”, que ficou incompleto devido à doença implacável, assistimos a uma nova estratégia temática: “são versos de sarcasmo feroz dirigidos à própria classe aristocrata, ridicularizada nos seus actos de mundanidade frívola, numa ironia ao nível queirosiano”. Mas, ainda segundo a crítica, “é no âmbito da temática religiosa que a poesia de Álvaro Feijó atinge uma perfeição notável de fundo e de forma”, como no poema «Nossa Senhora da Apresentação», que constitui uma súmula dos vectores temáticos do neo-realismo: “O altar as vagas, / o dossel a espuma! / Missas rezadas pelo vento, / ora pelos fiéis defuntos que se foram / noutras vagas, / ora pelas barcaças que, uma a uma, / buscaram as sereias na distância / e se foram com elas (…) O dossel a espuma. / O altar as vagas / – e que altar enorme! – / Entre círios de estrelas, / Nossa Senhora da Apresentação / e Justificação / – a Fome!” – assim se pode ler no início e na parte final do poema. Perpassam pelos poemas de Álvaro Feijó “caminhos de montanha”; o lançar “em linhas tortas / no branco do papel, sinceramente, / idas fragrâncias de ilusões já mortas, / desejos do presente”; a tão actual nau perdida (tendo em conta o lado visionário dos poetas), “na rota pelo Mundo / – ao deus-dará na vaga azul e infinda – / nós vamos – nau perdida em Mar profundo – / joguetes do tufão; / mas conservando, ainda, / na última Esperança a última Ilusão”; o temor; a transfiguração; a fraqueza, quando o poeta se encontra sozinho, “mas animado de uma força rara”; o credo; a fuga, mesmo quando “de nada serviu a fuga e o sacrifício”; o nascer “numa manhã com neblina de bronze / sobre o rio”; a rota sem fim; o marasmo que “há dentro de mim, como num búzio / a voz do Mar”; o apelo à “Senhora da Noite, deixa o Mundo / para que todo o mundo o possa ver”; o livro de horas, onde há a história do destino do poeta; o palhaço, sendo que o poeta foi palhaço de si mesmo; o poema da renúncia, no qual brada “que venha a noite e deixe o seu mistério / sobre nós, / e traga, sobre nós, o esquecimento!"; a gare de “choros e gritos! / Namoradas perdidas, / mães velhinhas / e os amigos, / numa espécie de inveja dolorida, / por não poderem partir”; o “Livro de Bordo de Corsário, deixa / que o tempo apague a tua prosa inútil / e escreve a história imensa / daquela frota em que tu vais partir / – como pobre navio auxiliar – / à demanda e à conquista / do Novo Continente!”; o “Diário de Bordo” onde “os cais são as esfinges / do Mar” e onde se questiona o “Piloto! / – De que serve o sextante / quando o não sabes usar?”; a largada; o claro-escuro; o sargaceiro; a varina e o porquê da existência: “Porque existes, não sei! / Mas sei para que existes”. Um poeta sublime, cujo trajecto vital seria tão curto como fulgurante.
Fica desde já aqui lançado o repto, em jeito de lembrete, nomeadamente aos agentes culturais de Viana do Castelo e Ponte de Lima, de que em 2016 se comemora o centenário do seu nascimento. Até lá, voltaremos a desentediar as indisposições dos que se têm pautado pela asfixia dos que, tal como Álvaro Feijó, não foram “feitos para andar ao sol, / continuamente, / nem para ter saudades do passado / ou para chorar um sonho que se esfolha”. Em memória de Álvaro Feijó, continuaremos a contar estrelas, ainda que elas morram, à medida que as contamos.
        Terminaremos aludindo ao que seu irmão Rui Feijó escreveu nesta magnífica edição de “Os Poemas de Álvaro Feijó”: “Lembro-me da alegria que ele teve quando saiu a primeira edição do Corsário e daquilo que escreveu no primeiro exemplar, que conservo, e que era todo um programa de futuro”. E interroga-se: “Qual seria hoje a sua alegria se pudesse saber que a sua poesia permanece no imaginário de várias gerações, que figura em todas as antologias responsáveis da poesia do tempo em que viveu e que continua a ser editado”. Diremos nós que – e complementando com a lisura do poeta – por mais que façam contra a poesia e contra os poetas, “a miséria é tão grande do meu lado / que me apetece ir combater / do lado dos inimigos” e “eu sinto / que vale mais morrer do outro lado, / onde se morre mais limpo”.

Friday, March 01, 2013

Correntes d’Escritas, Hélia Correia e “A Terceira Miséria”!


“De que armas disporemos, senão destas / Que estão dentro do corpo: o pensamento, / A ideia de polis, resgatada / De um grande abuso, uma noção de casa / E de hospitalidade e de barulho / Atrás do qual vem o poema, atrás / Do qual virá a colecção dos feitos / E defeitos humanos, um início”.

Hélia Correia

Já há muito que nos sentíamos atraídos pelas Correntes d’Escritas, ou simplesmente Correntes, como é conhecido o encontro anual de escritores de expressão ibérica que decorre todos os anos, durante o mês de Fevereiro, na Póvoa de Varzim, numa organização do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal local. Normalmente, os escritores que aqui participam, são provenientes de países e continentes onde se falam as línguas portuguesa e espanhola, desde a Península Ibérica, passando pela América Central e do Sul à África Lusófona. O primeiro encontro realizou-se em Fevereiro de 2000, ano em que se assinalou o Centenário da Morte de Eça de Queirós. A partir de 2004, passou a ser atribuído um prémio para novas obras em prosa ou poesia, em anos alternados, chamado Prémio Literário Casino da Póvoa. Este ano, decorreu a 14.ª Edição das Correntes d'Escritas e o tão “cobiçado” Prémio Literário foi atribuído à poetisa e dramaturga Hélia Correia, com o seu maravilhoso livro – um dos melhores de poesia, que lemos até hoje – “A Terceira Miséria”, num empolgante regresso desta filóloga românica à poesia, à memória e aos clássicos. De facto, e tal como diria Carlos Vaz Marques (TSF), a paixão pela Grécia, desde há muito presente na obra de Hélia Correia, desagua agora neste livro de poesia, onde a Grécia clássica surge como farol e como impossibilidade, similitude nossa na indigência: “Nós, os ateus, nós, os monoteístas, / Nós, os que reduzimos a beleza / A pequenas tarefas, nós, os pobres / Adornados, os pobres confortáveis, / Os que a si mesmos se vigarizavam / Olhando para cima, para as torres, / Supondo que as podiam habitar, / Glória das águias que nem águias tem, / Sofremos, sim, de idêntica indigência, / Da ruína da Grécia”.

A escritora Hélia Correia (ao centro) com Ana Cristina Moreira e Porfírio Silva

Impulsionados pela imperativa necessidade de nos encontrarmos com a Hélia Correia – por forma a sentirmos-lhe o “pulsar da glória” –, e, ao mesmo tempo, auscultarmos o questionável querer temático, aberto aos motes “de que armas disporemos, se não destas que estão dentro do corpo” e “só o que não se sabe é poesia”, lá rumamos até às Correntes d'Escritas, onde assistimos a dois extraordinários painéis, que redundaram num salutar e frutífero convívio, com os escritores: Helena Vasconcelos, Jesús del Campo, Luís Cardoso, Miguel Miranda, Maria Teresa Horta, Aurelino Costa, Ivo Machado, João Luís Barreto Guimarães, José Mário Silva, Lauren Mendinueta e Vergílio Alberto Vieira, magnanimamente moderados por João Gobern e Francisco José Viegas. Foi lá, no “interlúdio” das magníficas intervenções, que sentimos o cérebro como “um órgão fazedor de poesia” e que, normalmente, “funciona sob o garrote da lógica”, qual desafio aristotélico premeditaria, também, a poesia como provocadora da catarse. Tal como foi sugerido por Helena Vasconcelos, bom seria que “trocassem as doses maciças de austeridade por doses maciças de poesia”. E Maria Teresa Horta lá foi dizendo que os poetas são os alquimistas do futuro e a poesia cada vez mais se vai tornando numa arma mortífera para os ditadores. Daí, alguma alergia ao “Grândola, vila morena” e ao facto de ela se negar a receber o Prémio D. Dinis, das mãos do primeiro-ministro Passos Coelho: “Eu não recebi da mão do primeiro-ministro o prémio e não recebi nada. Nem uma côdea de pão, mesmo que estivesse a morrer de fome. Não recebo nada da mão desse senhor”, acrescentando “que bom seria se os fracos legisladores de agora trocassem a malfadada austeridade, a carga feroz sobre as nossas costas, que provoca o desequilíbrio, a queda e o desmembrar do tecido da polis, que trocassem as doses maciças de austeridade por doses maciças de poesia para nos purgar definitivamente”… Os poetas, os legisladores não reconhecidos do mundo. Definitivamente, voltamos ao brado de Hélia Correia: “Para que servem poetas se não podem / Nem delirar, se os textos do delírio / Serão tomados pelo seu contrário? / A bela rapariga dos cabelos / Cor de violeta, Atenas, onde está? / Quem escavará o monte até aos ossos / Para que dele ressurjam esses que / Nos deixaram sozinhos?”. Será que não há nada a dizer sobre a indigência?
   

          
          Para terminarmos da melhor maneira, e como não podia deixar de ser, o reencontro com Hélia Correia veio a acontecer, o que forçaria um agradável acrescento à dedicatória de Outubro de 2012: “Assinalando o reencontro nas Correntes de Escritas de 2013. Outro beijo...”. E registamos a inquietação de Hélia Correia: “Para quê, perguntou ele, para que servem / Os poetas em tempo de indigência? (p. 7)”. Ainda que seja para cantar o "Grândola, vila morena", diremos nós e disseram eles nas Correntes d'Escritas!

Monday, February 25, 2013

QUERIA UM DIA SER POETA...


Queria um dia ser poeta,
tocar as harpas, ouvir as musas;
cantar, chorar em rima certa,
e dos outros não ter recusas.


Queria um dia ser poeta
para compor meus lindos versos;
ver o mundo em linha recta,
como centro dos universos.
Mas como não sou poeta,
escrevo direito por linhas tortas,
à procura do meu sentir...
Tenho a vida como meta,
procuro abrir novas portas,
por onde possa vir a sair.

(In, SILVA, Porfírio Pereira da - «Proesiatando a Memória», a publicar em 2013)

Friday, February 22, 2013

Recordar o Poeta João Marcos no centenário do seu nascimento!


“Em termos de Astrologia Hermética, o neófito João Marcos apresentou-se, novamente, ao Serviço, sob o signo da Constelação de Taurus, do primeiro decanato (25 de Abril). Como não somos perito em Cartomancia, vamos usar dos nossos conhecimentos bibliográficos e culturais para caracterizar este nosso Taurino Irmão, nato e criado na Beira-Lima”.

João Gonçalves da Costa

No passado dia 6 de Janeiro de 2013 fez oito anos que desencarnou João Marcos, o grande poeta limiano da universalidade cósmica: “Eu canto deste canto do Universo / o canto da galáxia onde estou. / Procuro ouvir dos sóis e do Céu terso / resposta ao meu problema de quem sou”. Face à nossa amizade (não deixava de nos procurar, sempre que vinha a este “Lima enfeitiçado / pela vila feiticeira / que remoça a cada instante / e baila de feira em feira / para o rio enamorado”), e tão só por isso, em vida tivemos o grato prazer e privilégio de apresentar – numa imerecida tarefa – o seu brado poético “Balaio de camarinhas”, com prefácio de António Manuel Couto Viana, em cerimónia pública na Torre da Cadeia Velha (Ponte de Lima), em Agosto de 2001, cujo florilégio contou ainda com a presença de Cláudio Lima (Maçã p’ra dois, apresentado por Virgílio Alberto Vieira) e de José Ernesto Costa (Cheio do Rio Lima – Janeiro de 2001, apresentado por Franclim Castro Sousa). Na altura, aludindo à responsabilidade acrescida – para a qual não nos sentíamos devidamente dimensionados –, definimos João Marcos como o “sempre jovem e poeta” e, tal como acontecera em “Epopeia do Homem Cósmico”, a obra que ora apresentava realçava também o plano transcendente. E isso era evidente nos títulos que plasmava nas suas obras, como um “balaio cheio de palavras e um camarinho, repleto de saudade, nostalgia e retorno”. Para nós, João Marcos tinha o “tempo” – em benefício do ser – e sabia amar, para depois dar um sentido ao universo, não esquecendo a mulher, a eterna amada dos poetas: “quando Deus fez a mulher / era hora de inspiração”. A última vez que estivemos com João Marcos foi quando o acompanhamos à sua última morada – emparceirados por, entre outros, Alberto do Vale Loureiro, Álvaro Castro, Amândio Sousa Vieira, Cláudio Lima, Daniel Campelo, Fernando Aldeia, Florinda Costa, Franclim Castro Sousa, José Ernesto Costa, José Sousa Vieira, Lídia Aleixo, Maria Cândida Brandão, Maria Conceição Campos e Teresa Alves –, o espaço físico da sua Terra Natal, onde “trazem-me os dedos do vento / de mal contadas distâncias / as nostalgias difusas / sepultas num tempo informe. / E em fundo de pinhal verde / em face às verdes parreiras / agitam verdes perdidos / no espaço de espinho e rosas / morrendo em tempo insepulto”. Nesse dia, ouvimo-lo bradar: “Quero uma casa no céu / suspensa de alguma estrela / e que tenha uma janela / para o terraço que é o céu. / Suspensa de alguma estrela / fora do mundo que é meu”. Felizmente que João Marcos sempre a tivera!
   

Anos mais tarde, em homenagem póstuma a João Marcos, João Gonçalves da Costa lançou, em 25 de Abril de 2009, uma obra intitulada “João Marcos: vida e obra de um grande pensador da Beira Lima”, numa edição do jornal Cardeal Saraiva, que no passado dia 15 de Fevereiro completou cento e três anos de existência. É um livro diferente para pessoas diferentes, como diferente era João Marcos nesta vida terrena: “num documento que publicamos, em nome do próprio homenageado, que julgamos inédito, está patente o seu alto espírito de Aventura Terrestre e Epopeia Cósmica, na linha de alguns poemas que nos deixou. Por isso, devemos ser gratos para com aqueles que, tendo, embora, nascido em terras aparentemente atrasadas, dão-nos uma inusitada lição, não só de civismo e patriotismo, mas também, uma visão cósmica e uma profunda ânsia de conexão espiritual com a nossa Consciência Cósmica” – citamos João Gonçalves da Costa, limiano de Anais, Ponte de Lima, onde nasceu em Junho de 1934, profundo conhecedor das Gentes e dos Sítios, por onde tem viajado, desde há muito, muito tempo – como imagem móvel da eternidade –, onde aprendeu que a competição nem sempre é o melhor Caminho. Daí, preferir a partilha!
João (Marcos) Gonçalves Ribeiro (1913-2005) natural de Rebordões (Santa Maria), Ponte de Lima, possui uma vasta e importante obra literária, que se distribui por vários ramos e temas: Poesia, Romance, Novela, Crítica Literária e Artística, Análise Política; Intervenção Política e Sociológica, Literatura de Viagens, Defesa dos Valores da Natureza, etc. Segundo João Gonçalves da Costa, “cabe-nos, também, dar corpo aos seus Ideais, exemplos de bairrismo; ligação efectiva de amor ao torrão natal, ao Karma regional e nacional. Para além do seu labor literário, é de destacar o seu Amor à Terra Natal e a força anímica com que ele se deslocava, no seu vetusto Volkswagen, que já conhecia, de cor, os caminhos para Beira-Lima, sem nunca deixar mal o seu companheiro”. E João da Costa não deixa de agradecer ao José Ernesto Costa, “pelo convite e entusiasmo com que me envolveu neste movimento cívico e cultural, em Memória do Poeta e Escritor João Marcos, nascido a 25 de Abril, em Rebordões (Santa Maria)”. Também, há cerca de duas décadas a essa parte, havia sido o José Ernesto que nos tinha apresentado o poeta que deslizava “sob estrelas entre veigas e pomares / um Lima de magias faz-se areal no meu peito / sou feito e contrafeito / de pressas e vagares / em marcha sem sentido para um rumo sem regresso / um rio sai de mim a toda hora / em mim nasce uma fonte a cada instante”.
Na altura, aquando da saída deste maravilhoso livro – embora de difícil leitura para o comum dos mortais – de João Gonçalves da Costa, não podemos estar presentes (nem a ele aludirmos) porque, tal como houvera acontecido com Lobsang Rampa: “algum tempo mais tarde, as visões começaram a desvanecer-se. Gradualmente, a minha consciência, tanto astral como física, abandonou-me. Mais tarde ainda comecei a ficar desagradavelmente cônscio de sentir frio – o frio de jazer sobre uma laje na escuridão gelada de um túmulo. O meu cérebro sentia dedos tateantes de pensamento. Está voltando para nós. Aqui estamos! Minutos passados e uma luminosidade vaga aproximou-se. Lamparinas de manteiga. Os três velhos abades. Passaste a prova, meu filho. Aqui jazeste durante três dias. Agora viste. Morreste e tornaste a viver”. Foi assim que nos sentimos quando, “cognitivamente”, passamos por situação semelhante de 2008 a 2011, sem que tivéssemos dado pelo tempo!
Para terminarmos, e sabendo nós que outro dos grandes vates limianos (Cláudio Lima) há muito vem estudando a profícua e multifacetada obra de João Marcos (e de quem era um especial confidente), pensamos que já vai sendo tempo de perpetuarmos – de uma forma física, que bem poderá passar também pela edificação de um monumento – a memória deste grande POETA limiano, que teve a coragem de reconhecer que criava “a palavra para a transformar em amor infinito / mas a palavra se verga e contorce num doloroso grito” – simplesmente sublime. No ano em que se comemora o centenário do nascimento de João Marcos (25 de Abril), pensem nesta nossa sugestão, para a qual dispensaremos (se assim o entenderem) o nosso “precioso tempo”.
         Haja vontade!

Friday, February 15, 2013

As “mundanas” reflexões da jovem Natércia Barros


“A escrita é uma paixão e, como tal, temos desavenças. A escrita pode transformar-se numa obsessão. Imaginem o que é ressacar escrita, olhando para o teclado, frente ao computador, e nada escrever. É frustrante ter tanto para contar e, no preciso momento, nada conseguir articular, nada sair fluentemente”.

Natércia Barros

Dada a nossa propensão para acreditar na convergência de energias, em detrimento das “faces ocultas do acaso”, temos tido a felicidade de sermos bafejados com importantes encontros cognitivos, que em muito contrariam a apologia daqueles que têm vindo a afirmar que num mundo cada vez mais ocupado pela ciência e pelos modelos de pensamento que ela produz, pela tecnologia e pelos modelos de vida que ela desencadeia, o discurso filosófico perdeu a sua antiga força de verdade. Nem mesmo reforçando a ideia (deles) de que o filósofo parece estar prestes a perder o seu último privilégio: o de pensar, este tipo de gente tem conseguido resolver aquilo que preconizam como factor ameaçador da produção de sistemas ideológicos, condimentado pelas tão propalas ciências humanas. Estamos em dizer, tal como um dia escreveria Krishnamurti, que “a padronização do homem conduz à mediocridade”. É por isso que, sem hostilizarmos a ciência, continuaremos a apostar no autoconhecimento, admirando todos aqueles que se interessam (com seriedade) pelo exame dos problemas humanos, sem preconceitos ou padronizações.   
Hoje, impulsionados pelo “privilégio de pensar”, trazemos ao conhecimento dos “cultivadores do intelecto” as deambulações reflexivas – estamos cá para passar do ver ao sentir (N.B.) – de uma jovem ribatejana, com ancestralidade alto minhota. Trata-se de Natércia Barros que nasceu em Vila Franca de Xira, Ribatejo (local onde reside actualmente), a 26 de Maio de 1981. Estudou Humanidades, fez teatro amador durante dez anos, frequentou o Centro de Estudos do Autoconhecimento (C.E.A. – Fundado por Samuel Aun Weor), e trabalhou vários anos em logística. Apaixonada pela problemática existencial, e fascinada pelo ocultismo, escreve, principalmente, sobre temáticas que abordam o ser humano. Tem descendência Luso-Angolana, sendo o falecido avô materno, João Henrique de Sousa Barros, natural de Monserrate (Viana do Castelo), tio do poeta e nosso particular amigo, Fernando Castro e Sousa. Durante a infância, esta jovem ribatejana passou grande parte das férias em Viana do Castelo, que coincidiam com as Festas de Nossa Senhora da Agonia. Desses tempos, lembra-se vivamente do fogo-de-artifício, dos cabeçudos e das minhotas vestidas a rigor. Já durante a adolescência, não rara a vez que se sentou à beira rio, a contemplar a Ponte Eiffel, enquanto tirava apontamentos. Lançou o seu primeiro livro em 2010, intitulado “Mundano (Reflexões)”, ao qual não ficamos – e nem poderíamos ficar – indiferentes.


Impulsionada pelo princípio basilar de que, e extraindo das suas próprias palavras, “para se viver há que morrer vezes sem conta”, Natércia Barros revela-se-nos uma perspicácia criativa/literária que contraria os censores do “pensar”. Até mesmo Albert Einstein houvera contrariado os pseudo-pragmáticos da ciência quando um dia afirmou que “a imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro”. É nesse sentido que entendemos o livro de Natércia Barros, «MUNDANO (Reflexões)», tendo em conta que, como nos revela a “ciência da auto realização” (A. C. Bhaktivedantas Swami Prabhupãda), “recebemos esta forma humana de vida não apenas para trabalhar arduamente como o suíno ou o cão, mas também para alcançar a perfeição máxima da vida”. E mesmo que não queiramos alcançar essa perfeição, “teremos que trabalhar arduamente, pois seremos forçados a isso pelas leis da natureza”. Nesse sentido, estamos convictos de que Natércia Barros não vive indiferente à sua condição de “ser pensante” e aos desafios das leis da natureza.
Pelas páginas deste maravilhoso livro perpassam temas como o “mundano” – que dá título ao livro –, onde (a seu ver) “a vida é constituída por ciclos que duram apenas o tempo que têm de durar, duração essa que varia consoante as nossas próprias necessidades”; as “dores” física e psicológica, sendo que as primeiras “são um contínuo alerta das dores emocionais mais profundas”; o “líbido”, como o despertar de todo o sentido adormecido ou “a verdade escondida que nos dá a oportunidade de ver em nós o nosso melhor amigo”; “Deus”, tendo em conta que o mesmo “é quem nós quisermos que Ele seja: Na primeira, na segunda ou na terceira pessoa. Deus pode até ser o pior filho da mãe à face da terra e, quer queiramos ou não, até o pior dos filhos da mãe ama à sua maneira” – gostamos muito desta visão; os “espelhos”, onde a escritora se interroga: “Espelho meu, diz-me onde está o engano para que possa reparar todos os erros do passado”; as “birras”, onde Natércia considera “certas birras saudáveis, por mais estranho que pareça. A birra pode ser saudável à medida que doseamos com bom humor”; a “confiança” como “factor primordial à face da terra”; o “dinheiro”, monstro ao qual damos a vida, “composto por pequenos pedaços de papel, através dos quais se cometem vários atentados à dignidade humana”; a “Barracolândia”, terra do faz de conta ou “o Mundo do vale tudo, que na realidade pouco vale”; a “erótica”, tendo em conta que “o erotismo é o expoente máximo da sensualidade aliada ao prazer”; a “mentira”, como “ignóbil ferramenta de sobrevivência, nos dias de hoje”; a “gestão humana”, para a qual a jovem escritora ribatejana nos alerta que “quando nos habituamos a viver em concha, não sabemos lidar profundamente com os nossos semelhantes”; a “prostituição” como alegoria da alma, sendo que, para Natércia Barros – e porque não para muitos de nós – “o nosso lado obscuro é prostituto. A maior parte das pessoas vende a alma por meia dúzia de cêntimos”; o “desistir”, onde “devemos voltar as costas a sentimentos destrutivos, como a cólera ou a ira”, desistindo “das pessoas que me fazem mal, aquelas que me condenam sem entender o teor das minhas palavras”; as “vozes” em flecha que matam, “vozes ocas e esvoaçantes que penetram nos tímpanos e nos assolapam a memória”; as “pessoas como nós” que sentem e não têm pudor algum em chorar; a “resistência”, sendo a maior prova a própria vida; o “bullyng” como realidade cada vez mais atroz – do qual a autora foi vítima na primária –; o “visionário” que vê para além dos olhos; os “ignorantes”, mesmo aqueles que sendo “licenciados e nem por isso deixam de ser ignorantes”; a “bipolaridade” plasmada nas “bruscas e súbitas alterações de humor”; o “toque” porque sentimos; a “genialidade” impressa na atitude modesta, “serena e tranquila é uma mais que valia para o triunfo”; os “ossos” e “a festa do osso”, não querendo “passar a vida a roer ossos e a alimentar-me das sobras”; os “grilhões” com a ânsia por liberdade que pulsa em nós; a “mulher” que carrega “no ventre as dores do Mundo”; o “momento”, mesmo recuando no tempo vezes sem conta; o “adeus”, inspirando “pequenos sopros de vida tingida de guerra e de paz”; “o piano”, do qual adora o som, sem deixar de dizer que “carregamos as dores da Humanidade às costas, como não bastassem as nossas”; “a voz que nos fala”, sentindo “reflexos da verdadeira liberdade”; a “perplexidade da mente”, sendo que “o ser humano é o maior enigma terrestre, a maior cabala do cosmos e a máquina do tempo mais complexa”; as “crónicas de ensaio”, onde a autora solta “emoções exclusivas da alma”; as “empresas de trabalho temporário” utilizadas enquanto fachada, para branqueamento de capitais; a “magia planetária”, sabendo “que o amanhã é incerto e o presente doloroso, adormeço e vejo que passou mais um dia”; a “ilusão” onde “vivemos na sombra da própria existência”; o “discernimento” sem o qual “estamos aptos a perder a máxima racionalidade”; os “recursos humanos”, em cujos departamentos pouco ou nada tratam “relativamente a questões humanas”; o efeito “tábula rasa” e a ausência da gratidão; as “evasões”, partindo “em busca de uma vida rica em propósitos e saudade nenhuma sentir”; a “jornada interior”, sendo que a melhor viagem “é a que fazemos ao nível do ser”; o “viver”, como uma metamorfose extraordinária, deixando “o Sol invadir-nos o rosto e saborear o momento com descontracção”; a “chapada sem mãos”, dado que “devemos amar, principalmente, na adversidade”; a “lei do retorno”, aludindo ao facto de que “quanto mais damos, mais recebemos”; os “funerais” permitindo a existência de “pessoas que vão a funerais, como se fossem a casamentos”; a “quaresma” e a efemeridade do “ter”; as “medicinas alternativas”, qual cura os povos na antiguidade procuravam no seio da Natureza; a “cor”, moldada à vida “feita de luz e escuridão”; o “imaginário”, sendo que “o nosso Eu mais profundo é infantil e brincalhão” e, logo que chegados a adultos, “sem grande opção de escolha, gravitamos na lei do retorno do sonho, há muito esboçado no nosso imaginário”. Esta é a leitura que fazemos das maravilhosas e pertinentes reflexões da jovem escritora Natércia Barros.
         Para terminarmos, transcrevemos o que o actor João de Carvalho (filho do grande vulto Rui de Carvalho) escreveu a propósito deste «Mundano»: “Quando iniciei a leitura do Mundano, tive, como é hábito meu, de o folhear primeiro para o sentir. Deparei-me com um tipo de forma de escrita só comparável com um autor que muito me sensibiliza. O Dalai Lama. Escrever os próprios pensamentos implica uma libertação interior”. Subscrevemos inteiramente. Pena é o livro ser edição de autor, o que condiciona de certa forma a sua fácil aquisição. De resto, nota máxima!

Friday, February 08, 2013

Um ano depois, o “imperativo de memória” em recordar Amadeu Rodrigues Torres (Castro Gil)!


“Recordar a figura e a obra do Prof. Doutor Amadeu Rodrigues Torres é uma tarefa difícil, dada a sua enorme riqueza pessoal e vastíssima obra literária e científica que felizmente podemos apreciar”.

José Maria Costa

Foi no dia 9 de Fevereiro de 2012 – por isso, faz amanhã um ano – que Amadeu Rodrigues Torres (Castro Gil), professor catedrático, poeta em vernáculo e em latim, escritor e linguista, deixou esta atribulada vida terrena para viver hoje o eterno descanso dos justos, local onde nada pode ser medido pelo tempo, porque projecção do mesmo no infinito. Poderíamos hoje repetir o riquíssimo percurso vivencial deste nosso amigo/irmão – plasmado em dezenas de artigos e dissertações que publicamos a seu respeito, ao longo de mais de duas décadas –, mas somos forçados a acautelar esse pragmatismo, onde “toda a função do pensamento consiste em produzir hábitos de acção”, por forma a não banalizarmos a sua dimensão intelectual, recentemente muito mal tratada num maldizente “escanganho”, disfarçado de “geografia literária”, onde nem Domingos Tarrozo escapou à “degringolade”. Felizmente que Castro Gil partiu para a eternidade – quantas confidências, Deus meu!... –, sabendo desta ciumenta animosidade. Mas, para não cairmos na síndrome do espertalhão que “urde o desfalque e a falcatrua”, vamos mesmo ficar por aqui…


Como atrás referimos, não nos vamos repetir em minuciosas descrições biográficas – dado que já o fizemos em muitas e variadíssimas publicações periódicas –, porque temos o agradável privilégio de ter “entre mãos” a última obra publicada em vida (15 de Dezembro de 2011) deste ilustríssimo VATE universal, obra essa que nunca chegou a ser difundida pelos escaparates livreiros. Trata-se do quinto volume de “No espólio de Juvenal e noutros”, onde, sem máscaras ou subterfúgios, Amadeu Torres (Castro Gil) se nos revela um poeta sem “caruncho”, atento ao mundo que o rodeia e predisposto a descer do “pedestal” a que, meritoriamente, tinha direito. Apesar da cátedra e clerical função de cónego, ouvimo-lo bradar corajosamente o “escândalo de arromba num país de tanga, / Com cresos mil e mil que não ouço geniais; / Pulha administração-gestão, tropa-fandanga / Que, ao chupar tanta teta, ainda quer mamar mais” e, onde “A alta cultura é hoje a eureira nas hortas; / O espertalhão urde o desfalque e a falcatrua. / A corrupção é mais corrupta em gradas portas; / E o mole tribunal põe os ladrões na rua”. É precisamente aqui, por se achar inspirado em Décimo Júnio Juvenal – E faz já tempo / Em que os sufrágios não estão à venda, / Nem os assuntos públicos lhe importam. / O povo, esse que dava antes impérios, / Fáscios e legiões e tudo, hoje se cala; / E tendo apenas duas coisas, nada o rala, / Ou seja, pão e jogos (Sátira X, 77-81) –, que Amadeu Torres (Castro Gil) transcende os poetas de “escolho”, escondidos em mescladas e betesgas redondilhas (só para ser bonito), mas desprovidas de qualquer conteúdo cognitivo.
Rumando em sentido contrário aos trovadores de “ninhos e chilreadas”, Amadeu Torres (Castro Gil) acaba por nos dizer que “é tempo de acabar com governos «boyeiros», / Que esbanjam orçamento a proteger filhotes / Perante multidões, seiscentos mil obreiros, / Sem emprego nem mão que tu, amigo, notes”, sugerindo de imediato que “é tempo de acabar com benesses de tença / – Gasolina, telés, deslocações, almoços, / Carros topo-de-gama, senhas de presença – / Enquanto para os mais só restam os caroços”, beliscando ao mesmo tempo, de uma forma cirúrgica, os “milhões cerca de cento e mais cinquenta eurados / Custa-nos da República a magna Assembleia: / Um malbarato para cofres esvaziados / Depois das toneladas de ouro em conta alheia”. E nem mesmo os deputados escapam à sátira do MESTRE, como carinhosamente o sentíamos, por nos acharmos incondicionais peripatéticos: “Dos deputados, diz-se, ninguém tenha pena, / Que a um tal sentimento é-lhes tudo contrário: / Ao perceber-se a ânsia de subir à cena / Uns por amor ao povo, outros pelo eurário”, condimentado pela certeza que “de facto, carro à ordem, telefone e conta / Para deslocações, estadias, almoços, / Sem citar o ordenado não de pouca monta, / Fazem maço de notas muito além dos nossos” e apontando a solução para “com peso no orçamento a estoirar nas costuras, / Cento e quinze bastavam, sobejando até, / Se bancada nenhuma estivesse às escuras / Ou com nudez de gente a enraivecer o Zé”.
Nem a novela do navio “Atlântida” escapou às “alfinetadas” de Castro Gil, quando na altura se discutia “em Viana acerca de um navio / Que, se ainda vivo, dera a morte ao grão Cerqueira: / Gerou-o um cachalote enorme e luzidio… / E abandonou-o, ali, à geral pasmaceira”, indignando-se de tal forma que acaba por nos dizer que “é de arrepiar como, um ano já volvido, / O silêncio dos grandes se mantém idiota. / Ninguém sabe a quem novas dar do sucedido / Ou atribuir a culpa da grande anedota” – assim, textualmente. E “é no cais da vergonha que o «ATLÂNTIDA» aguenta, / Muito mais que o desprezo, o silêncio da malta / Que a sua construção orientou e hoje tenta / Convencer-nos que deles não há qualquer falta”, levando à indefinição de futuros vários, qual “after troika” inspiraria a profecia de Castro Gil: “Provocam-me grande asco os doutores lareiros / Que pensam saber mais que a Tróica, ideia tonta: / Porque encastelam no ar caminhos e carreiros / De pagar tantos milhões da eureira conta”. É verdade, isto é poesia de Amadeu Torres (Castro Gil), professor catedrático, poeta em vernáculo e em latim, escritor e linguista, e pode-se encontrar no quinto volume de “No espólio de Juvenal e noutros”. Juramos, por quanto há de mais sagrado, que não fomos nós que a fizemos.

        Um ano depois, aqui fica o nosso “imperativo de memória” em recordar a pena e a mente de Amadeu Rodrigues Torres (Castro Gil), sempre fiel, mesmo na eternidade, à “vox populi, vox Dei”!... 

Saturday, February 02, 2013

Doze anos depois: “In perpetuam rei memoriam” de Lucilo Valdez


“É tempo de agir, companheiro / e de não mais temeres falar / o tempo é de quem o agarrar / a vitória de quem for ligeiro”.

Lucilo Valdez

Pelas dezasseis horas do dia 21 de Janeiro último, fez doze anos que ficámos órfãos do bom amigo/irmão e camarada – como carinhosamente o tratávamos – Lucilo Valdez, homem da cultura e do teatro, a quem o distrito de Viana do Castelo muito ficou a dever e ainda não lhe prestou a devida homenagem. O seu corpo foi a sepultar no dia 23 de Janeiro de 2001 – pouco passava das 15 horas, quando o seu féretro desceu à terra –, no “campo santo” de Benfica, depois de ter estado em câmara-ardente no Cemitério de Carnide, junto às Telheiras, Sala 2B, em Lisboa. Infelizmente, muito poucos foram os altominhotos que o acompanharam até à sua última morada.
Recordar o Lucilo Valdez doze anos depois, é como permitirmo-nos à “presunçosa vaidade” de com ele – e a par de centenas de amigos comuns por esse Alto Minho, o que seria fastidioso enumera-los – termos partilhado confidências e ideais, sempre com a noção de que a sua forte personalidade fazia jus à velha máxima de que “as pessoas não valem por aquilo que escrevem ou dizem, mas por aquilo que são capazes de fazer pelo seu semelhante, no momento oportuno”. Escreveríamos por altura do seu passamento, e como reforço à definição desse homem bom (que, indiscutivelmente, o era), que a sua forte personalidade e carácter, advinha-lhe das suas próprias palavras, quando em 1988, nas manhãs poéticas da rádio, ele mesmo se nos revelaria: Sou um homem inquieto; um homem do meu tempo; de espírito aventureiro; um pouco rebelde; contra muita coisa, muitas vezes não importa que esteja sozinho, mas quando acho que tenho razão bato-me por ela; uma pessoa cheia de defeitos – às vezes eu digo que a minha qualidade é ter alguns defeitos que os gosto de ter, embora pese a muita gente, chateie muita gente. Há outras qualidades que gostava de ter, que não tenho; não sou uma pessoa perfeita; quanto a mim detesto os homens perfeitos, as pessoas que se julgam perfeitas… não há ninguém perfeito. É isto que penso que sou!... A realização pessoal era para ele outra das metas inatingíveis: Acho que um homem que se considera realizado, considerar-se-ia morto em vida, porque o que faz o homem avançar é haver sempre mais um degrau para subir, haver sempre um sonho por concluir, uma aspiração por satisfazer. No dia em que nos sentíssemos realizados, já não estaríamos cá a fazer nada, então, seria apenas limitarmo-nos a vegetar. Há muita coisa mais por alcançar que gostaria de conseguir para me sentir realizado. Mas, mesmo assim, mesmo que na prática todas as minhas ambições, todas as minhas aspirações, todos os meus sonhos fossem concretizados, fossem conseguidos, nessa altura descobriria outro degrau, alcançava uma estrela. Ao chegar a essa estrela, viria outra estrela mais além, que quando estava na primeira etapa não a tinha visto, e então procuraria alcançar essa estrela (…). Lucilo Valdez jamais aceitaria vegetar. Por isso deixou esta vida terrena, materialista, para hoje fazer parte do cosmos, lugar que sempre sonhou, aspirou e quis. Era um homem que acreditava – tal como nós (por sua influência) – nas regras cósmicas.
Mas, para que a memória não nos atraiçoe e para que os mais novos fiquem com uma percepção da vida e obra deste cidadão de mérito vianense (título atribuído pelo Município de Viana do Castelo, a 20 de Janeiro de 2001, um dia antes do seu falecimento, e que, felizmente, ele teve conhecimento), aqui fica uma síntese do seu percurso de vida: Lucilo Valdez nasceu na freguesia de S. Sebastião da Pedreira, na cidade de Lisboa, a 26 de Janeiro de 1938. Por imperativo da profissão do pai (funcionário da Direcção Geral da Aeronáutica Civil), quando tinha 9 anos de idade foi para os Açores, onde completou os ensinos primário e secundário na Ilha de Santa Maria, depois de fazer exames no Liceu de Ponta Delgada. Na altura frequentava um colégio particular. Possuindo um certo jeito para o desenho, desde miúdo a arte teatral despontou em si o entusiasmo necessário para que ainda muito novo construísse as suas próprias marionetas. Para além disso, foi um dos fundadores da “Rádio Clube Asas do Atlântico”, nos Açores, tendo participado nos Jogos Florais dessa mesma rádio, onde obteve uma “Menção Honrosa”. Mais tarde, convidaram-no para realizador de um programa de música clássica, e para participar num outro, com contos infantis, da sua autoria. Em 1959, quando tinha cerca de 21 anos de idade, regressa a Lisboa. É nesta cidade que vem a ser “desenhador-publicitário” e ilustrador do jornal português “Economia & Finanças” onde se destaca pelos retratos a tinta-da-china de políticos mundiais na altura em foco – dos quais guardamos religiosamente alguns – e pelas caricaturas e desenhos da capa. Para além do jornal “Economia & Finanças”, Lucilo Valdez participou em várias revistas humorísticas como caricaturista, com anedotas ilustradas. Deixou diversos contos publicados em jornais de Lisboa e de África e, nomeadamente, colaborou como “cartoonista” no jornal “Falcão do Minho”.
No campo artístico, Lucilo Valdez frequentou um curso de desenho e pintura de Belas-Artes, na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, e mais tarde foi para a Escola “António Arroios” onde, apesar disso, não viria a completar qualquer curso. Ainda no âmbito da sua formação cultural, não esperando com isso obter qualquer diploma, frequentou um pequeno curso de línguas. No campo criativo tem vários quadros pintados a aguarela, guache e tinta-da-china, tendo ilustrado dois dos nossos livros e, a nosso pedido, criado o boneco “O Biblocas” (Boletim Infanto-Juvenil da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo), em Julho de 1999.
Como nutria um carinho especial por todas as artes e ciências dedicadas ao estudo do homem, e vendo que as mesmas pareciam estar reunidas à volta do teatro, assim começou a sua longa caminhada em prol do teatro português. Em 1969 ingressa no “Clube Teatro I Acto de Algés”, clube esse que tinha estreitas ligações e uma certa afinidade com a “Casa da Comédia”. Frequentou um curso de teatro durante ano e meio, dirigido pela actriz Clara Joana, e outro de seis meses com o encenador Fernando Gusmão, que na altura estava a dirigir o “Grupo 4”. Por volta de 1971 começou a dirigir grupos de teatro amador de Lisboa e arredores e, como actor, foi dirigido por profissionais. Na altura trabalhava no Serviço de Pessoal do “Metropolitano de Lisboa”. Em fins de 1972 é convidado pela FNAT, hoje INATEL, para desempenhar as funções de animador de teatro em Viana do Castelo. E o percurso do Lucilo Valdez, ao longo dos cerca de vinte e oito anos que por aqui passou, foi escrito debaixo de um animado voluntariado, por vezes penoso, fazendo frutificar talentos e ajudando a desempoeirar as velhas casas do povo, que nessa mesma altura já albergavam algumas das novas associações. Ele mesmo nos ajudou a fundar, em 1975, o “Grupo de Acção Cultural e Desportiva de Mazarefes”, mais tarde fundido com a Casa do Povo, passando a denominar-se de “Associação Social, Cultural e Desportiva da Casa do Povo de Mazarefes”.
       A história da passagem do Lucilo Valdez pelo Alto Minho – de uma forma particular no que toca ao teatro – terá que um dia ser feita, pois todos nós sabemos que ele muito contribuiu para o desenvolvimento cultural da nossa região. Se não o fizermos, será uma manifesta e profunda ingratidão! 

Monday, January 28, 2013

30.º Aniversário de Actividade Literária (1983-2013)



O que mais me impressiona na personalidade de Porfírio Silva, como cidadão e tal como a sua escrita o reflecte, é a capacidade de conjugar a paixão com a objectividade.
Profundamente empenhado no mundo em que opera, a sua obra traduz, simultaneamente, o fito de mergulhar na vida e de dar testemunho comprometido, mas imparcial, dos tempos que correm.
Afrontando corajosamente contextos adversos, subjazem nas suas mensagens, não só a ânsia, amplamente conseguida, de se transcender a si próprio, como um largo sentimento de fraternidade, que o une ao seu semelhante no ânimo comum de participar na consumação de um melhor destino colectivo.
Se fosse de aceitar que todo o pensamento que não age é aborto ou traição, como dizia Romain Rolland, numa perspectiva de socialização da arte, que se gorou, Porfírio Silva escaparia sempre à condenação daquele juízo, já que a sua obra se vem afirmando, para além do intimismo que denuncia, como expressão acabada de uma autêntica solidariedade humana. 

(Opinião do Dr. Alberto Oliveira Silva [1924-2011], em 2001, quando, na altura, era Governador Civil de Viana do Castelo)

Thursday, January 24, 2013

As imaculadas opiniões de Carlos Abreu Amorim e a reorganização administrativa do território…


“Mas há um episódio que convirá relembrar aos governantes de hoje: a revolta da Janeirinha. Em 26 de Junho de 1867, foi publicada a Lei da Administração Civil que tentou extinguir 104 concelhos. No dia 1 de Janeiro de 1868 deu-se uma enorme manifestação espontânea de protesto no Porto (…) O governo caiu e foi revogado o decreto da reforma administrativa. / Talvez fosse bom que este governo à beira do fim passasse uma vista de olhos pela história…”.

Carlos Abreu Amorim

Se há pessoas que acicatavam a nossa predisposição cognitiva, no que concerne à opinião fundamentada e com alguma credibilidade intelectual, e a qual seguíamos amiúdas vezes, era precisamente – apesar de o sabermos ultraliberal – o professor universitário de Direito Carlos Abreu Amorim. A nossa afinidade prendia-se ainda ao facto de ele ser professor na nossa universidade (UM) – desculpem-nos este eufemismo académico – e, algumas vezes, concordarmos com as suas bem fundamentadas e elaboradas argumentações, porque eram (em algumas circunstâncias) consonantes com o nosso ideal democrático.
Estamos em recordar aquela “pedrada no charco” quando, em 19 de Janeiro de 2011, escreveria que pela primeira vez desde que fez 18 anos, não exerceria o direito de voto no domingo imediato: “Vou abster-me, num acto pensado que se sustenta na inutilidade do actual modelo de poderes presidenciais e na sua trágica discrepância com a elevação democrática que subjaz à eleição directa e universal do seu titular”. Para este ora ilustre deputado, “os poderes presidenciais constantes na Constituição constituem uma amálgama de elementos incoerentes sem sombra de identidade própria. Os seus defensores gostam de o nomear com uma expressão assaz reveladora desse insuperável estado de confusão: seria um modelo semipresidencial misto com pendor parlamentar!”, argumentando “a prior” – qual imperativo categórico kantiano – que na prática das últimas décadas percebeu-se que este é o lugar público onde se torna mais perceptível a directa relação entre a dimensão do cargo e a daquele que o exerce, acrescentando que “se o seu titular se reduzir a ser um «Presidente do Conselho Fiscal do Formalismo Constitucional», como sucedeu com Cavaco Silva (e com nove anos e meio dos dez de Jorge Sampaio), então não faz qualquer sentido persistir em elegê-lo por sufrágio directo e universal”. Para ele, nesta última década e meia, o nosso país andou sempre para trás, reforçando a ideia de que qualquer que fosse a questão nacional (educação, saúde, justiça, economia, finanças, credibilidade das instituições, o estado de depressão colectiva, etc.), Portugal está muito pior. E insurgia-se em tom crítico/acusatório contra a grande parte dos nossos constitucionalistas, bem como contra aqueles que ele denominava “cronistas da corte” que julgam fazer análise política, nenhuma responsabilidade pode ser assacada aos presidentes da República. Na altura, esta sua corajosa posição mereceu da nossa parte um forte aplauso. Em 2012, de uma forma mais convincente à sua “indisposição cavaquista” chega a afirmar publicamente – numa das suas deambulações como comentador televisivo – que Cavaco Silva está bem quando está calado. Se o cumpriu ou não, a sua consciência o dirá!
  

Mas à medida que o fomos lendo melhor, fomo-nos apercebendo de algumas incongruências naquilo que escrevia. A nossa maior decepção presente vai no sentido de ele se permitir ao facilitismo – com que facilidade se tornou no “correio-mor” na defesa da licenciatura fantoche de Miguel Relvas – de se augurar em defesa da reorganização administrativa territorial, quando ao tempo do governo de Sócrates se vangloriara de “profeta”, permitindo-se ao seguinte comentário, em artigo publicado no Diário de Notícias, em 2010: “Não há autarquias a mais em Portugal – em termos relativos, até temos o menor número de municípios da EU. O decreto de 11 de Julho de 1882 criou 785 municípios e 4086 juntas de paróquia (hoje são 4260 freguesias). Em 1836, Passos Manuel extingue 751 concelhos – passaram a ser 351 (hoje são 308 municípios). O número de municípios e freguesias tem-se mantido com uma constância impressionante. / Mas há um episódio que convirá relembrar aos governantes de hoje: a revolta da Janeirinha. Em 26 de Junho de 1867, foi publicada a Lei da Administração Civil que tentou extinguir 104 concelhos. No dia 1 de Janeiro de 1868 deu-se uma enorme manifestação espontânea de protesto no Porto (é daqui que vem o nome do matutino portuense) que alastrou para Braga, Coimbra e Lisboa. / O governo caiu e foi revogado o decreto da reforma administrativa. / Talvez fosse bom que este governo à beira do fim passasse uma vista de olhos pela história…” – assim, textualmente, sem tirar nem pôr.
Instalado no poder, porque eleito deputado por Viana do Castelo, e esquecendo-se dos recados dados ao anterior governo, eis que “dando o dito por não dito”, aparece a defender o que outrora rejeitara e até combatera: “Portugal não tem municípios a mais. Ao contrário, a relação população/território dos seus 308 municípios é uma das melhores da Europa (a França possui 36 682; a Itália 8094; a Espanha 8116; a Holanda 430; e a Bélgica 589). O mesmo já não pode ser dito a propósito das 4259 freguesias portuguesas. Embora as freguesias desempenhem um papel proeminente, mormente fora dos meios urbanos, é necessário agregá-las (sem prejuízo da sua identidade secular), muni-las de escala e massa crítica para que possam receber competências apropriadas”. As freguesias, como o elo mais fraco, colocando-se a jeito dos “pastores” e dos “boieiros”, aqueles que Sócrates (o filósofo) dizia velarem “pelo bem das ovelhas ou dos bois, e que os engordam e tratam deles com outro fim em vista que não seja o bem dos patrões ou o próprio” (A República: 343b). A sua intervenção sobre a Reorganização Administrativa do Território das Freguesias, no Plenário de 6 de Dezembro de 2012, foi de tal forma deplorável (tendo em conta o contraditório face às suas crónicas e comentários televisivos – jamais o conseguiremos ouvir –, antes de chegar a deputado), que somos forçados a ter alguma complacência para com aquele que um dia o definiu como uma pessoa que “para além da falta de humor e da propensão para um estilo caceteiro-armado-em-intelectual (…), é notória a falta de educação e a facilidade com que resvala para a ofensa de baixo nível”. Não era essa a percepção que tínhamos até o ouvirmos nas suas acutilantes (?) intervenções na Assembleia da República… Diem perdidi!

 
    
Começamos a ficar cansados da falta de coerência – para não dizermos de carácter – de muitos dos “forjadores” de opinião e principalmente daqueles que se têm deixado enredar pelas teias do poder pelo poder. Mazarefes, freguesia há mais de mil anos –Ittem freguezia de Sam Simon de Junqueira Mazarefes he provado que he couto de antaltares, per marcos e per divisões –, uma das freguesias que ajudou a eleger Carlos Abreu Amorim, vê-se agora unida a Vila Fria, enquanto outras de menor dimensão populacional e desprovidas de infra-estruturas suficientes, mantêm a sua identidade, e nós até sabemos bem porquê. Por certo que a “super união” das freguesias da Meadela, Santa Maria Maior e Monserrate, irá precisar de um “super presidente”, tendo em conta que será maior que os concelhos de Vila Nova de Cerveira e Paredes de Coura juntos.
Caro Carlos Abreu Amorim, ao escrever que “a reforma de que Miguel Relvas [outro caso indefensável, face às patranhadas académicas] é o principal propulsor não versa a quantidade – antes pondera o incremento da qualidade do nível de Estado que nos está mais próximo. Porque a defesa da autonomia local só pode ser feita com autarquias sustentáveis e modernas”, acabou por sentenciar a minha ruptura, enquanto leitor, com as suas imaculadas opiniões, dissimuladas na pretensa vaidade de se achar “objector de consciências”. Se um dia nos cruzarmos nos corredores da nossa universidade (UM), explicar-lhe-ei porquê. Isso se nos permitir e, como não podia deixar de ser, dentro das regras da boa educação e espírito democrático.

Até lá, olhe pelo distrito que o elegeu. Ainda vai a tempo de impedir as anunciadas “portagens” nas A27 e A28. Siga o exemplo da Comissão Política Regional da JSD Alto Minho que acaba por apelar “ao bom senso do Governo para repensar a colocação de mais portagens na A27 e A28”, levando em linha de conta “a conjuntura actual de retracção económica que afecta as famílias e as empresas”. Já que não podemos ter o pai que queremos, “is pater est quem nuptiae demonstrant”.

Friday, January 18, 2013

As boas intenções de Abebe Selassie e o nosso desgoverno…


“Os portugueses fizeram sacrifícios tremendos, com o aumento do desemprego, com o impacto no rendimento disponível. Temos consciência disso. Também me impressiona o diálogo social, com os parceiros sociais, no Parlamento”.

Abebe Selassie

O etíope Abebe Aemro Selassie, licenciado pela “London School of Economics”, director adjunto do Departamento Africano do Fundo Monetário Internacional (FMI) e chefe da missão da mesma instituição financeira internacional em Portugal, integrada na “Troika” – Abebe Selassie, do Fundo Monetário Internacional (FMI); Rasmus Ruffer, do Banco Central Europeu (BCE); e Jurgen Kroger, da Comissão Europeia (CE) –, tem-se desdobrado em canseiras, ideias e boas intenções para tentar resolver a situação económica de Portugal. Recordaríamos, ainda, que este “ilustre” economista – apesar de ter feito parte do governo do seu país (Etiópia), nunca conseguiu resolver o problema da fome e da miséria que tem grassado por aquelas bandas –, é aquilo que nós costumamos designar na gíria popular por “vendedor de banha de cobra”, tentando demonstrar “folha de serviço” que possa justificar o seu principesco ordenado (que varia entre os 13.994 e os 18.188 euros por mês) e de cada vez que se desloca a Portugal, tem direito a segurança paga pelo Estado português e desloca-se em carro de alta cilindrada. Falamos deste e não dos outros, porque é da sua “viva voz” que ouvimos, ostensivamente, os mais rasgados elogios aos nossos governantes, nomeadamente ao ministro Vítor Gaspar, e o sentimos orgulhoso nas suas variadíssimas previsões que, para mau grado dos injustiçados, têm redundado em autênticas falácias.
Apesar de Vítor Gaspar estar rotulado por Abede Selassie como “um ministro muito impressionante” lá vai dizendo que o trabalho de Portugal ainda não está completo, tendo espicaçado as nossas debilidades – quiçá psicossomáticas – ao anunciar que ainda existe margem para tornar a despesa pública mais eficiente. Com falácias atrás de falácias, ouvimo-lo vociferar que os ordenados em Portugal continuam demasiado “rígidos e altos”, e que isso impede que o desemprego baixe, quando uns meses antes admitira que a austeridade no nosso país poderia ter que abrandar se continuassem os problemas de execução orçamental, sobretudo devido à fraca receita. Chegou mesmo a vaticinar que o desempenho orçamental com as exportações estava a gerar menos impostos que a procura interna, o que implicaria eventualmente uma menor dose de ajustamento em 2012. Para este “estapafúrdio” economista, talvez numa ardilosa forma de fugir aos fracassos das suas periclitantes previsões e/ou deslustradas intenções “neoliberais”, fazendo – ou procurando fazer – dos portugueses “pacóvios”, acaba por constatar que o desemprego em Portugal também é mais elevado do que o previsto no programa da “Troika”. Di-lo com a mesma lata de “cabecinha pensadora” que o dinheiro emprestado a Portugal pela “troika” é muito barato, sugerindo que é chegada a hora das reformas “inteligentes” e que os portugueses devem escolher o seu futuro. E o nosso governo de cocaras, obedece cegamente ao prenúncio do “submarino” posto ao nosso serviço, para gaudio do grande capital, Vítor Gaspar. Só não percebe quem não quer… Se cair Vítor Gaspar, cai também o Governo!

Crédito: Adaptado de (http://imagens9.publico.pt/imagens.aspx/731039?tp=UH&db=IMAGENS)

Outro factor preocupante é constatarmos a permanente linguagem de “cobrador de impostos” em Abede Selassie, quando se aventa – articulando com a voz monocórdica de Vítor Gaspar – a urgência da definição do modelo social que melhor serve os portugueses, tendo sempre em conta “o tecido produtivo e no sentido de corrigir os desequilíbrios que levaram o país à situação de insustentabilidade financeira”. Selassie chega mesmo a sentenciar que “se quiserem ter um grande estado providência em Portugal, tudo bem, mas têm de saber como pagar por ele”. E as medidas não se fazem esperar… mais impostos, mais desemprego e mais cortes nos salários e reformas. O estado social para esta gente resume-se à preocupação da “racionalização do sector público ao nível salarial e do emprego, bem como pela reforma do sistema de pensões”. Daí estranharmos as letras garrafais “acopladas” a muitas das manchetes dos órgãos de comunicação sensacionalistas do nosso país: «O chefe da missão do FMI para Portugal rejeita um novo aumento de impostos como solução ideal para os problemas da economia portuguesa». Em Dezembro de 2012, qual iluminado palestrante a convite da Ordem dos Economistas, Abede Selassie apresentou dez ideias sobre a economia portuguesa, ideias essas que passam pela reestruturação da banca. Segundo ele “os bancos precisam de mudar o seu modelo de negócios se quiserem evitar mais um ciclo de elevada alavancagem”, acrescentando que os custos das operações dos bancos são elevados e é “muito importante a redução de custos” para melhorar as condições de financiamento dos bancos e do próprio país. Vai daí, e mesmo quando Selassie afirma que “é muito claro que o mecanismo de transmissão monetária não está a funcionar como devia”, vaticinando que isto “é algo que precisa de mudanças de política da zona euro”, o governo português injecta milhões na banca e vive acautelando possíveis incompetências, mascarando-as com as obrigações do “memorando da troika” e as conjunturas negativas internacionais.
Teremos que dar razão a Fernanda Cachão (Correio da Manhã) quando comutou a expressão “equilíbrio certo” de Selassie ao eufemismo em voga aqui há uns anos que borrava de modernidade a realidade nascida no retorno de 1960 – aos bairros clandestinos, chamaram-lhes “bairros de génese ilegal”. Para esta jornalista, o “equilíbrio certo” de Salassie é assim a moderna facilidade de se pensar que a competitividade das empresas só pode montar quem trabalha. No meio de todas estas “tretas” e fracassos das políticas económicas que nos impõem, Abebe Selassie ainda tem a lata de reconhecer – dizendo-o – que o abrandamento da actividade económica da Zona Euro “não tem ajudado Portugal de todo” e tem sido mais penalizador do desempenho ao abrigo do programa de ajuda externa do que se esperava há “um ano, um ano e meio”. Depois há quem se escandalize com o sarcasmo de Miguel Esteves Cardoso: “Para menos dinheiro não se pode ter princípios. O mal do português é ter princípios a mais. Como tem mais medo de passar por parvo do que passar mal, é incapaz de pagar mais por uma coisa perto dele do que pagar menos num lugar que fica mais longe”. Temos que lhe dar razão, pois já vai sendo tempo de sacrificar os nossos princípios e as nossas peneiras, pois, estas últimas, saem bastante caras.
Voltando a Abede Selassie, já que o mesmo, em tempos, rejeitaria a hipótese de um novo aumento de impostos como solução ideal para os problemas da economia portuguesa, estranhamos a pronta resposta ao relatório pedido pelo Governo, onde o FMI propõe reduções adicionais de funcionários e de salários no Estado, o aumento das taxas moderadoras, a dispensa de 50 mil professores e um corte em todas as pensões, com vista à redução de oitocentos milhões já este ano e um corte permanente na despesa de quatro mil milhões de euros a partir de 2014. Até nos dá um “travo” na língua ao falar em tais números. O documento refere ainda, e contrariando os apanágios de Paulo Portas quando deambulava pela oposição, que os polícias, os militares e os professores continuam a ser um grupo privilegiado na sociedade, que os médicos têm salários excessivamente elevados (principalmente devido ao pagamento de horas extraordinárias), os magistrados beneficiam de um regime especial que aumenta as pensões dos juízes em linha com salários e o sistema de protecção social, que diz ser “demasiado dispendioso, injusto e especialmente para os mais jovens”, defendendo que o “subsídio de desemprego continua demasiado longo e elevado”. Quanto às benesses e mordomias dos políticos, nem uma palavra…
Admitindo que se instalou um “nervoso miudinho” perante as anunciadas medidas de austeridade, vem o Governo, pela voz do seu primeiro, anunciar aos “quatro-ventos” que o relatório do FMI não é “a Bíblia do Governo”, apelando – ainda que demagogicamente – a um debate nacional o mais alargado possível sobre a redução da despesa pública e a reforma do Estado, louvando a voz activa do seu secretário de Estado adjunto, Carlos Moedas (vale a pena ver e ouvir as suas magníficas intervenções ao tempo do governo de Sócrates, para ver que a “bota não dá com a perdigota”), quando disse, e muito bem, que o relatório do FMI está muito bem feito, que contém informação muito relevante. Mas qual? – perguntamos nós.
Por último, ficamos a saber também que o Governo português, por forma a apaziguar “o formigueiro no carreiro”, recusa cortes de salários e avança com despedimentos, demonstrando claramente uma extraordinária vocação para a velha técnica de “vendedores de tapetes”.
Quanto a Abede Selassie, porque não enceta uma saga para salvar o seu país natal. Com todo este “arcaboiço” economicista, por certo que viríamos a Etiópia como uma grande potência mundial. A não ser que os polícias, os militares e os professores continuam a ser um grupo privilegiado na sociedade etíope, tirando visibilidade política aos bem-intencionados mentores das sociedades equilibradas pelo capitalismo selvagem, profeticamente anunciado por Karl Marx.

Estaremos em dizer que com gente desta “laia”, jamais alcançaremos a “salus populi”!...

Friday, January 11, 2013

«Figuras populares de Ponte de Lima» de Luís Dantas, uma pérola da literatura limiana


“Estamos perante um conjunto de importância primordial para a nossa memória colectiva – um quinhão de biografias que nos apresentam personagens únicos, com os seus amores e desamores, as suas paixões e a forma peculiar de existir e agarrar a vida”.

Daniel Campelo

Em jeito de prenda de Natal, complementada com um cartão de boas festas (onde em nome da verdadeira amizade, algumas deferências, não merecidas, se nos foram dirigidas), recebemos do grande poeta da imagem limiano Amândio de Sousa Vieira, o livro de Luís Dantas, «Figuras Populares de Ponte de Lima», editado em 2009, pelo Município de Ponte de Lima, mas só agora trazido ao nosso conhecimento.
A última vez que escrevemos a respeito de Luís Dantas foi em Outubro de 2008, numa das nossas crónicas semanais que “detínhamos” no jornal “Falcão do Minho” (com o título “Imperativos da Memória”), a propósito do seu magnífico livro «Os Limianos na Grande Guerra», onde sem dissimulações ou subterfúgios expressaríamos o maior respeito por este extraordinário historiador, poeta e escritor, que, infelizmente, nos deixou órfãos em 20 de Maio de 2011. Ainda a propósito – desculpem-nos o pleonasmo – da nossa visão crítica, no que concerne à dimensão intelectual do Luís Dantas, e como forma de separar águas (quantas chafurdices por aí se publicam), escrevemos: “Já por várias vezes escrevemos que não é historiador quem quer ou quem, circunstancialmente, o afirma. Não basta escrever para nos afirmarmos historiadores. Esta afirmação não carece de justificação, dado que se consultarmos as visitas à Torre do Tombo ou aos arquivos distritais, facilmente detectaremos a fraca assiduidade desses autodenominados eruditos, forjadores da história em decalques sucessivos. Até já se escusam à bibliografia, como se essa atitude fizesse denotar alguma modéstia ou presunçoso eruditismo. Repetem-se uns aos outros como crisálidas da palavra e da verdade histórica”. E acrescentaríamos: “O mesmo não acontece com Luís Dantas, esse limiano licenciado em História, professor em Lisboa, poeta e autor de várias obras, com colaboração dispersa em vários jornais e revista da especialidade. (…) Tal como os trabalhos anteriores, este é mais um ensaio que em muito veio enriquecer o panorama histórico de Ponte de Lima. Por se tratarem de trabalhos inéditos, fazem a diferença. Para se ser historiador – o pensar e agir cientificamente orientado – tal como escreveria Patrick Gardiner, é preciso orientar a atenção em questões a respeito da condição e da estrutura da mente humana. É nesse sentido que vemos e sentimos Luís Dantas trabalhar”. Passados quatro anos, e mesmo com o seu desaparecimento físico, mantemos a mesma convicção.
Falando agora de «Figuras Populares de Ponte Lima», e quando era suposto, em face do que o título nos sugere, ter entre mãos uma simples descrição de figuras sem a mínima importância – por de populares se tratarem –, eis que assistimos à produção de uma verdadeira pérola literária, onde o verdadeiro (desculpem-nos a redundância) sentido estético da palavra escrita se nos apresenta, face à sua beleza, como uma tela aguarelada… poeticamente aguarelada. Nesta maravilhosa obra, Luís Dantas acaba por reforçar o estatuto maior de um poeta e escritor, magnamente burilado na arte de bem escrever. Estamos em dizer que, face ao sistema ou conjunto de sinais que permitem a expressão ou comunicação, sem desprimor para a apreciação afectiva – sempre tomada pelo gosto pessoal – de outros escritores limianos e de suas obras, «Figuras Populares de Ponte de Lima» é uma obra inultrapassável, porque nos remete para uma prática colectiva, onde a linguagem não é concebida como um fenómeno privado. Daí Luís Dantas, logo no início desta sua preciosa obra, citar Jacques Le Goff: “… e a história (é) dos homens, de todos os homens, não unicamente dos reis e dos grandes”. De facto, e fazendo nossas as palavras do prefaciador, o nosso particular amigo João Alpuim Botelho, “o que torna este livro verdadeiramente especial é a capacidade de encontrar estas pessoas [populares], no meio da multidão anónima (cada vez mais globalizada e idêntica) e de perceber que os seus comportamentos, apontados como ridículos e considerados paródicos, representam um tempo e um modo de vida que desaparece”. Através da pena de Luís Dantas, sem ridicularizar os personagens (antes pelo contrário, revigora-lhes a memória) até o linguajar popular ganha expressão colegial, pois sempre ouvimos dizer que é a linguagem no seu todo, na sua função essencial, a realização do pensamento da própria humanidade. Não é por acaso que hoje muitas das expressões populares fazem parte dos dicionários.


Perpassam pelas páginas deste precioso livro figuras como Lourenço, “o Preto”, trazido para Ponte de Lima pela mão de um general que tinha acabado a sua campanha em África, “E nas festas? Ah! Senhor, nas festas, a música da sua flauta rebrilhava. Nas Feiras Novas, era cartaz”; Pinta Ratos, “tinha o chapéu de coco descaído para a nuca e o olhar assombrado”; Zé Pilauta, o último almocreve da vila, “todas as manhãs, fizesse chuva ou sol, vinha de São João da Ribeira, com passagem obrigatória pela mercearia do Gasparinho do Arrabalde, até ao Largo”; João da Luciana; Caetano Ferrajola; João da Bomba, com “arremedos do poeta Bocaje”; O Fazenda, “ensinou muitos lavradores a ler pelo jornal diário”; O João da Barca, mestre na arte de ferrar; A República, qual Aurora “ia-se embora pelo caminho de além da Ponte a mastigar pequenas raivas”; Joaquinzinho; O Sucateiro, “dizia-se que apareceu na vila vindo não se sabe bem de onde”; O Mário; O Guerrinha, “na trabuzana da vida, os versos de zombarias e escárnios foram a sua perdição. Saíam-lhe da alma, como uma chilreada”; O Zé Povo, “tido por muitos como um dos primeiros provadores de vinhos e aguardentes do lugar”; Zé Caraitas, mestre de barbearia; São Roque; Pai Quim, “só via o rio Lima”; Manel Cauteleiro; João da Mena; João Nabiça; Zé Ferreiro, “percorreu pequenas e grandes distâncias, trepou aos cumes das serras, esgaravatou nas minas de volfrâmio, viveu vastas aventuras com pegureiros, galegos e contrabandistas, venerou os santos em festas e romarias”; O Cachadinha, “lembro-me [também nós] dele beber uma, duas tigelas e botar flores nos cabelos das raparigas com quadras de redondilha maior”; O Se Luís, “era um mouro, mas tinhas as suas folgas”; Zé Brandão, “o estudante mais boémio do Externato”; O Néu Franquinha, morador no bairro das Pereiras; e, finalmente, as Lavradeiras do Rio Lima, citando a Bicocas e a Maria da Inês.
Só percorrendo as páginas desta maravilhosa pérola literária, poderemos constatar a falta que nos faz a pena e a memória de Luís Dantas. O Município de Ponte de Lima, ao editar «Figuras Populares de Ponte de Lima» prestou um extraordinário serviço à Cultura da região. Bem-haja por isso!