Friday, September 21, 2018

OS DEZ ESPELHOS de BENJAMIN ZARCO, novo romance de Richard Zimler.

Leitura obrigatória de Richard Zimler, através do seu último romance Os dez espelhos de Benjamin Zarco (Porto: Porto Editora, 1.ª edição: setembro de 2018; tradução de Daniela Carvalhal Garcia do título original The Incandescent Threads. DEP. LEGAL 444946/18; ISBN 978-972-03129-7).


Sinopse:
«Benjamin Zarco e o seu primo Shelly foram os únicos membros da família a escapar ao Holocausto. Cada à sua maneira, ambos carregam o fardo de ter sobrevivido a todos os outros.
Benjamin recusa-se a falar do passado, procurando as respostas na cabala, que estuda com avidez, em busca daquilo a que chama os fios invisíveis que tudo ligam. E Shelly refugia-se numa hipersexualidade, seu único subterfúgio para calar os fantasmas que o atormentam.
Construído como um mosaico e dividido em seis peças, Os dez espelhos de Benjamin Zarco entretecem-se entre 1944, com a história de Ewa Armbruster, professora de piano cristã que arrisca a vida para esconder Benni em sua casa, e 2018, com o testemunho do filho de Benjamin acerca do manuscrito de Berequias Zarco, herança do pai, talvez a chave para compreender a razão por que Benjamin e Shelly se salvaram e o vínculo único que os une.
Um romance profundamente comovente e redentor, com personagens inesquecíveis. Uma ode à solidariedade, ao heroísmo e ao tipo de amor capaz de ultrapassar todas as barreiras, temporais e geográficas.»

Notas sobre o autor e a sua obra:
·         Richard Zimler, com cinzel e escopro, vai burilando com audácia criativa a dimensão intangível de um universo onírico. (Edite Estrela sobre O Evangelho segundo Lázaro)
·         Richard Zimler é um escritor emblemático e de indispensável leitura. (Helena Vasconcelos)
·         Richard Zimler tem um fulgor de génio que todos os romancistas ambicionam mas poucos alcançam. (The Independent)
·         O dom que Zimler possui de pôr a descoberto o horror das injustiças humanas e ainda assim encontrar verdades universais e poesia na existência do dia a dia […] faz dos seus livros uma leitura indispensável. (The Jerusalem Post)
·         Zimler usa a literatura para lembrar as terríveis abominações que levam o ser humano a destruir e a humilhar outros seres humanos […] e para apontar um caminho de redenção, de expiação e de ação jubilatória. (Público)

Wednesday, August 29, 2018

IX Congresso Internacional de História da Loucura, Psiquiatria e Saúde Mental

Depois do nosso inadvertido afastamento aqui do nosso blogue, por impedimento de razões (revestidas de alguns contratempos, mais ou menos graves) de ordem pessoal, três meses depois chegou finalmente a oportunidade para falarmos um pouco da nossa participação no IX Congresso Internacional de História da Loucura, da Psiquiatria e da Saúde Mental, numa organização da «Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde – SHIS» e coorganização científica e colaboração institucional do «Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do Centro de Estudos interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra — GHSCT-CEIS20», que teve lugar na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra. Este Congresso visou dar continuidade a temáticas apresentadas e aprofundar as frentes de discussão abertas desde a primeira edição, anteriormente denominadas de Jornadas, mas que face à dimensão e ao impacto atingidos no meio científico internacional teve que passar a vestir a roupagem de Congresso, que decorreu do dia 7 a 9 de Maio de 2018, e onde abordamos o tema «Os Programas das Lições do Curso Livre de Antropologia na Medicina e a incidência na Psiquiatria».
A nossa sucessiva participação (sexta) em jornadas desta natureza é fruto do desafio inicialmente lançado pela comissão científica, liderada pelos Professores Doutores Ana Leonor Pereira e João Rui Pita, da Universidade de Coimbra, que num primeiro momento, aquando da nossa primeira participação nas IV Jornadas Internacionais, em 2013, sentiu alguma apetência coloquial da nossa parte para os estudos interdisciplinares que ia de encontro à área de investigação institucionalizada no «Grupo de História e Sociologia de Estudos Interdisciplinares do Século XX» da Universidade de Coimbra, que desde a sua fundação e institucionalização, ocorrida em 1988, tem mantido com dinamismo esta área de pesquisa que se tem traduzido em projectos de investigação, teses de doutoramento, organização de reuniões e outras acções similares, e que, ao mesmo tempo, se traduz de uma forma positiva na existência de um conjunto de investigadores interessados nestas temáticas em Portugal e fora do nosso país.
Estas Jornadas, ora Congresso, têm funcionado como permuta, debate, interpretação e partilha da nossa actividade de carácter científico, onde emparceiramos com muitos dos bons especialistas ligados à temática da mente, foram razões, mais que suficientes, para que com eles tivéssemos o inevitável envolvimento em tão complexa matéria.
Como afirmamos ao jornal A Aurora do Lima, como antevisão ao referido Congresso, a nossa paixão, se é que assim poderemos dizer, pela Filosofia da Mente e/ou Ciências Cognitivas advém daquilo a que nos habituamos denominar de projecto de unificação da função psíquica que assegura a recolha, o armazenamento, a transformação e tratamentos das informações que recebemos do mundo exterior, partindo do pressuposto que daí poderemos elaborar o conhecimento do real. E tudo isto começou, de uma forma embrionária, enquanto académico, com a anuência e mestria do Professor Doutor Manuel Curado, um dos maiores especialistas da área, que conseguiu reconhecer em nós a amplitude e a ambição que nos motiva ao conhecimento do cérebro humano, pelos objectos privilegiados da reflexão filosófica: perceber, raciocinar, aprender, lembrar e falar, interagindo com as neurociências, nas quais se incluem a neurologia, neurofisiologia, psiquiatria, psicologia (tal como as outras ciências humanas, constituiu-se de maneira autónoma e separada da filosofia no final do século XIX) e a própria linguística, que nos fornecem elementos para o estudo dos mecanismos do pensamento.
Sempre firmamos o nosso propósito de continuar a aprofundar esta temática, não com o sentido de utilidade prática, mas como forma de adquirir o conhecimento, enquanto actividade teórica e desinteressada, isto é, satisfazer o puro desejo de saber, com vista a uma futura especialização na área das Ciências Cognitivas. Este cenário, não significa que a nossa participação ao longo destes seis anos consecutivos seja reflexo de algum facilitismo empático da parte da comissão científica, dado que apesar dos convites formulados de uns anos para os outros, tudo isto obedece sempre a uma certa crivagem científica.


Face às condicionantes de percurso (Viana a Coimbra de Expresso é sempre uma incógnita em termos de cumprimento de horários), apenas chegamos a tempo de assistir à 4.ª comunicação da 1.ª sessão (11:15), começando por ouvir Alfredo Rasteiro, Professor Associado Jubilado Oftalmologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, que trouxe ao debate neste Congresso a «Imagem do corpo, erotismo e dedaleiras em Josepha (1630-1684) em Óbidos». Josepha de Ayalla Cabrera y Figuera, de seu nome completo, nascida em Sevilha em 1630, desenhou, aos 18 anos de idade, a Insígnia da Universidade de Coimbra, trabalhou em Óbidos, e faleceu aos 54 anos, possivelmente de doença profissional, envenenamento por metais pesados. Em 1634, quando tinha apenas quatro anos de idade, os pais de Josefa regressam a Portugal, onde vieram a se estabelecer na Quinta da Capeleira, em Óbidos, quando a menina já tinha seis anos de idade. Ali a menina se educou, manifestando desde cedo, vocação para a pintura e para a gravura em metal, em lâminas de cobre e prata, num género denominado como pontinho. Foi especialista na pintura de flores, frutas e objectos inanimados. A influência exercida pelo barroco tornaram-na uma artista com interesses diversificados, tendo-se dedicado, além da pintura, à estampa, à gravura, à modelagem do barro, ao desenho de figurinos, de tecidos, de acessórios vários e a arranjos florais. Em 1653, aos 23 anos de idade, fez a gravura da edição dos Estatutos de Coimbra. Trabalhou em seguida como pintora para diversos conventos e igrejas. Na Capela do Noviciado do Convento de Varatojo havia uma excelente Nossa Senhora das Dores e, no coro, um Menino Jesus, quadros que lhe são atribuídos. Havia quadros seus no Mosteiro de Alcobaça, no Mosteiro da Batalha, em Vale Bem-Feito no Mosteiro de São Jerónimo, em Évora, onde existe um Cordeiro engrinaldado de flores, que passa por ser um dos seus melhores trabalhos.


Após um pequeno intervalo para Coffee break, seguiu-se a Conferência plenária por Maria do Rosário Neto Mariano, Professora Universitária da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sempre brilhante nas abordagens a que se propõe, trazendo-nos, desta vez, «A herança humanista das Luzes e o contraciclo eugenista face à Patologia Mental: das representações e práticas dignificantes à barbárie nazi e à D.U. dos Direitos Humanos», revelando-nos que a revolução cultural iluminista, cujos programas e objectivos privilegiavam as potencialidades da Razão ao serviço do conhecimento e, simultaneamente, a pessoa como foco essencial do seu combate pela dignificação universal do ser humano, acabou por nos deixar uma herança indelével respeitante às representações sócio-culturais e práticas médicas relativas às patologias mentais e seus pacientes. Referindo-se a dois dos mais notáveis médicos alienistas da época, Philippe Pinel (1745-1826) e Jean-Étienne Esquirol (1772-1840), acabou por salientar o facto de não só terem libertado os doentes mentais das correntes e dos espaços indignos ou insalubres onde vegetavam, mas sobretudo trabalharam contra os estigmas e estereótipos que os desumanizavam. E acrescentou: – Em contraciclo face a este movimento surgirá, em meados de oitocentos, o Eugenismo, teoria antropológica que, logo depois aliada ao Darwinismo social, haveria de constituir um dos pilares ideológicos e pseudo-científicos da barbárie nazi, perpetrada sobre deficientes, doentes mentais e vários outros grupos humanos, ao longo de quase duas décadas. – citamos. Para concluir realçou a importância da Filosofia (Séc. XVIII e XIX) na ajuda à Medicina na cura dos alienados e, nos países ocidentais, somente a vitória dos Aliados e, depois, a Declaração Universal dos Direitos Humanos tornarão interditas, e gravemente puníveis por lei, todas as práticas desumanas exercidas sobre a Pessoa, em nome de qualquer teoria ou ideologia.


Antes do almoço, e porque inserida na programação da actividade cultural do Congresso, realizou-se a abertura de uma Exposição Bibliográfica ligada à temática destas jornadas internacionais, na Biblioteca das Ciências da Saúde. Nesta exposição estavam representados autores como André Barbé, Henri Baruk, Charles Baudouin, E. Bleuler, Miguel Bombarda, José de Matos Sobral Cid, Henri Ey, P. Bernard, Ch Brisset, Barahona Fernandes, A. Fernandes da Fonseca, Basílio Augusto Soares da Costa Freire, Sigmund Freud, José Alves Garcia, José de Lacerda, Júlio de Matos, António Caetano d’Abreu Freire Egaz Moniz, Elysio Moura, Correia de Oliveira, O. L. Forel, José Saavedra, José Marques dos Santos, Henrique Carlos do Rosário Seixas, A. M. de Senna e Antonio Vallejo Nágera.


Após o almoço, pelas 14 horas, na Sala A, inserida ainda na actividade cultural do Congresso, realizou-se a apresentação do livro «Dor, sofrimento e saúde mental na Arquipatologia de Filipe Montalto», apresentado por Adelino Cardoso, um dos coordenadores desta magnífica obra, a par de Nuno Miguel Proença. Segundo os coordenadores, Fernando Elias Montalto é o nome adoptado pelo cristão-novo Filipe Rodrigues, após a sua adesão militante à religião judaica. Natural de Castelo Branco, onde nasceu em 1567, formou-se em Medicina na Universidade de Salamanca. Exerceu a profissão médica em Lisboa durante alguns anos, mas fugindo à perseguição aos judeus, rumou à Itália, onde notabilizou na área da oftalmologia, sobre a qual publicou a obra Optica intra philosophiae & medicinae aream, de visu, de visus organo, et objecto theoriam (Florença, 1606), bem como na área da psiquiatria. O prestígio alcançado e o facto de ter curado Leonor Galigai, aia e irmã de leite de Maria de Médicis, que sofria de perturbações mentais, levou a que a regente da França o convidasse para médico da corte parisiense, em 1612. Aí redigiu a Arquipatologia, publicada em 1614, que é porventura, até ao momento, a obra mais exaustiva sobre doenças mentais, entre as quais se destaca a melancolia e a mania. Esta magnífica obra contém trabalhos de Florbela Veiga Frade, Hervé Baudry, Joana Mestre Costa – Ciência a reconhecer o crádito da Filosofia: interdisciplinaridade –, Guido Giglioni, Miguel Ángel González Manjarrés, Sandra Silva, Margarida Esperança Pina, António Lourenço Marques, Adrian Gramary, Manuel Silvério Marques, Nuno Miguel Proença, Orlando von Doelinger, José Morgado Pereira, Inês de Ornellas e Castro e J. A. David de Morais.


Seguiu-se a primeira comunicação da 2.ª sessão (Sala A), 14:30, «Nostalgia – Uma viagem pela História dos Conceitos», apresentada por Sandra Nascimento, Interna de formação específica em Psiquiatria no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, mas um trabalho conjunto com Mariana Silva, também ela interna de formação específica em Psiquiatria, e Beatriz Lourenço, Psiquiatra especialista nesse mesmo Centro Hospitalar: A palavra Nostalgia surge do Grego, Nostos – desejo de voltar a casa e Algos – dor, sofrimento que acompanham esse desejo. Descrita como uma “doença neurológica de causa demoníaca” pelo médico Suíço Johannes Hofer em 1688. – citamos. Considerada uma doença relacionada com sintomas encontrados em soldados, pelo desejo em regressar a casa, acompanhado de dor. Durante os séculos que se adivinhavam, o termo Nostalgia continuou a ser entendido como uma patologia. Com esta comunicação, Sandra Nascimento, Mariana Silva e Beatriz Lourenço, não mais pretenderam do que debruçarem-se sobre a evolução na construção e reconstrução do conceito de Nostalgia ao longo da história da Humanidade, mergulhando na sua origem sociocultural até aos dias de hoje, atravessando conceitos de Doença Orgânica e Doença Mental até ao seu entendimento contemporâneo como um constructo psicológico. Destacando-se como categorias no decorrer da história se vão remodelando; analisando o paradigma de como um conceito de patológico num contexto histórico-socio-cultural se reforma com as mudanças ao longo dos tempos.


A segunda comunicação da 2.ª sessão coube a Cátia Fernandes Santos, Médica Interna de Formação Específica de Psiquiatria no Hospital Garcia de Orta, em Almada, com as «Obsessões e Compulsões: evolução conceptual na Psiquiatria Francesa do século XIX», onde a perturbação obsessivo-compulsiva (POC) caracteriza-se clinicamente por obsessões e compulsões, sendo que a revisão da sua história conceptual na Psiquiatria francesa do século XIX constituiu o objectivo da mesma comunicação: Na primeira metade do século XIX, os psiquiatras franceses consideravam os fenómenos obsessivo-compulsivos como uma variante da conhecida noção de monotonia. Por volta de 1850, estas manifestações ganham maior fisionomia clínica, tornando-se uma entidade autónoma: primeiro, como membro da antiga classe das neuroses; posteriormente, de forma breve, como variante do recém-formado conceito de psicose; e finalmente, como neurose obsessiva propriamente dita, reflectindo modificações dos constructos teóricos subjacentes à definição das principais categorias psiquiátricas. – citamos. Segundo Cátia Fernandes Santos, após 1860, hipóteses etiológicas para POC incluíam disfunções do sistema nervoso autónomo e do aporte sanguíneo cortical, enquanto que hipóteses psicológicas sugeriam perturbações volicionais, intelectuais ou emocionais, predominando as últimas depois de 1890. No final dos anos de 1880, a POC atingiu plena definição clínica e nosológica.


Seguiu-se a terceira comunicação, da qual gostamos bastante, sobre «Conflitos em torno das práticas de “Frenopatia” na Faculdade de Medicina de Santiago, 1908-1909 (No primeiro Ano Jacobeu do século XX)», apresentada por David Simón Lorda, Psiquiatra do Complexo Hospitalário de Ourense, coadjuvado pelos Médicos residentes de Psiquiatria, Pérez Triveño, Belén Zapata Quintela, Jessica Otilia, Cristina Carcavilla Puey, e Emilio González Fernández, Psiquiatra em Santiago de Compostela. Referindo-se a um conflito estudantil e social, que, em 1908-1909, surgiu na Universidade de Santiago, motivado para fazer as práticas de várias especialidades na Faculdade de Medicina, entre elas as práticas de “Frenopatia”. Através deste interessante estudo, as análises desse conflito permitir-lhes-ia redescobrir novos espaços assistenciais e académicos em torno da assistência psiquiátrica em Santiago de Compostela no primeiro Ano Jacobeu do século XX.


A 2.ª Sessão fechou com a comunicação de Helena da Silva, investigadora da FCT (IHC-NOVA-FCSH), trazendo à discussão a «Alienação Mental: Soldados Portugueses e Grande Guerra», recordando-nos, ao mesmo tempo, que a Primeira Guerra Mundial ficou conhecida pelo uso de meios de destruição em massa com consequências para a saúde mental dos soldados. Segundo a mesma investigadora, enquanto que noutros países o tema da psiquiatria de guerra já foi abordado, este tem passado despercebido em Portugal apesar das investigações desenvolvidas no contexto do centenário da Grande Guerra: Dos mais de 100.000 homens enviados de Portugal para os diferentes teatros de guerra, cerca de 7.000 foram dados como incapazes na sequência da guerra, incluindo por alienação mental. – citamos. E questiona-se: Quem eram estes soldados portugueses alienados e de que sofriam? No seu regresso a Portugal, quais as instituições para onde foram encaminhados? O Estado português ou organizações privadas interferiram de alguma forma a seu favor? Helena da Silva, tentou responder a estas questões usando fontes provenientes de diferentes arquivos portugueses, dando a conhecer alguns exemplos específicos e, assim abordando o tema da saúde mental dos soldados após a Primeira Guerra Mundial.


Após um pequeno intervalo para Coffee break, seguiu-se a primeira comunicação da 3.ª Sessão, Sala A, 16:30, subordinada ao tema «Psiquiatria Moderna: das influências do século XIX à transição no século XX», apresentada por José Alves Brás, Médico Interno de Psiquiatria do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra, mas em coautoria com Alexandre Duarte Mendes, Médico Psiquiatra do mesmo Centro Hospitalar. Segundo José Alves Brás, a Psiquiatria alcançou, no século XIX, atributos que a distinguem actualmente. Conquanto não tenha sido a especialidade pioneira a individualizar-se, as repercussões das enfermidades mentais estabeleceram diferenças relativamente a outras especialidades, pois eram diversos os tipos e locais de tratamento – mormente a instituição asilar. Nesta interessante comunicação foram abordadas a Medicina do século XIX, sendo que esta legou do precedente uma bifurcação entre os alienistas (dedicados aos “loucos” dos asilos públicos) e os outros clínicos (alocados a estâncias termais ou retiros privados para tratar as doenças “dos nervos”); as visões das patologias mentais; as diferentes escolas psiquiátricas; e a transição da Psiquiatria para o século XX, sendo que esta decorre numa postura de maturação enquanto disciplina e parte integrante da Medicina.


A segunda comunicação esteve a cargo de Stefanie Gil Franco, Mestre em Antropologia Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e doutoranda (Bolsista da CAPES/Brasil) em História da Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, que nos trouxe a pertinente questão de «Como se expressam os loucos? Leituras de Luís Cebola sobre as Almas Delirantes e as Mentalidades dos Epilépticos». Esta comunicação propôs-nos acompanhar a narrativa do médico alienista Luís Cebola (1876-1967) acerca da produção escrita e desenhada dos “loucos” e “alienados” em dois momentos da sua trajectória profissional. No primeiro, trata-se da sua tese inaugural, orientada por Miguel Bombarda, sobre a “Mentalidade dos Epilépticos” (1906); e no segundo, quando publicou “Almas Delirantes” (1925) já envolvido com teorias que chama de biopsicopatologia, que prevê uma narrativa acerca de textos, diálogos e desenhos de pacientes da Casa de Saúde do Telhal, material que o próprio médico recolheu para a criação de um “Museu de Loucura”.



Pelo facto do filósofo espanhol Francisco Molina Artaloytia não poder estar presente, a última comunicação da 3.ª Sessão coube a Ana Paula Araújo, investigadora do Lab 2PT (Laboratório de Paisagens, Património e Território) da Universidade do Minho, abordando o interessante tema «As respostas da Igreja ao Fenómeno da Loucura. O Exorcismo», através do qual nos diz que a incompreensão e o desconhecimento repugna o espírito humano. A loucura pode ser reconhecida como um conjunto heterogéneo de pensamentos e comportamentos habitualmente considerados como anormais por uma determinada sociedade num determinado momento histórico. Mas também tem de ser compreendida: À falta de explicações naturais, e até à Idade Moderna, a religião substituiu, por vezes, a ciência na sua inteligibilidade e no seu tratamento. Porque a religião era exactamente isso, uma forma de dar sentido ao mundo, até a esse mundo de insanidade. Quando uma linha muito ténue separava o natural do sobrenatural, a loucura estava associada ao divino, ao diabólico ou tão-somente ao distanciamento de uma vivência cristã. Os loucos tornaram-se então endemoninhados, pelo que as respostas terapêuticas eram encontradas no seio dos rituais católicos. Esses eram os tempos do exorcismo. – citamos.


O IX Congresso prosseguiu no dia seguinte, Terça-feira, 8 de Maio de 2018, sendo que na Sala A, a 4.ª Sessão iniciou-se às 10:00 com a comunicação «Vigiar e aprender a dominar: os enfermeiros e os alienados no século XIX», apresentada por Analisa Candeias, Professora Adjunta na Universidade do Minho – Escola Superior de Enfermagem; Centro de Investigação em Enfermagem – Universidade do Minho (CIEnf-UMinho); doutoranda em Enfermagem no Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, num trabalho coadjuvada por Alexandra Esteves Professora Auxiliar na Universidade Católica Portuguesa – Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais; Laboratório de Paisagens, Património e Território (Lab2pt), Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho; e Luís Sá, Professor Auxiliar na Universidade Católica Portuguesa – Instituto das Ciências da Saúde, Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde (CIIS). Esta comunicação acabou por realçar o facto de que a obediência e a experiência foram os principais aliados dos enfermeiros nos hospitais do século XIX. Segundo Analisa Candeias, ser enfermeiro implicava uma dedicação exclusiva às rotinas das instituições, tornando seus hábitos que estas pretendiam que fossem adoptados. Nas instituições de assistência aos alienados, os enfermeiros também estavam presentes, na condição de agentes cuidadores e vigilantes, como sucedia no Hospital de Rilhafoles, em Lisboa, no Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, no Porto, ou na Casa do Sagrado Coração de Jesus, no Telhal. A importância do papel dos enfermeiros, no que tocava aos recursos terapêuticos utilizados no tratamento dos alienados, estava no conhecimento e saber aplicar no âmbito dos seus compromissos o controlo dos sintomas e comportamentos.


A segunda comunicação da 4.ª Sessão coube a Silvia Piñeiro Otero, Enfermeira Residente de Saúde Mental no Hospital Universitario San Agustin, Avilés, Asturias, expressando a sua acutilância científica na «Evolução dos Cuidados na Saúde Mental Perinatal», representado assim, de uma forma interessante, suas companheiras de trabalho, Maria Esperanza Sánchez Vásquez, Natalia Suárez Guzmán, Tamara Cueto González e Elena Fernández Álvarez, todas elas enfermeiras no mesmo Hospital das Asturias. O objectivo deste trabalho de equipa foi o de contextualizar as necessidades de cuidados durante a etapa perinatal nos diferentes momentos históricos até chegar aos tempos de hoje, recuando ao tempo em que o ser humano, desde a sua criação, tem tentado minimizar o risco implícito pela maternidade. Independentemente da razão, religião, tradição, lugar e época, existiram e continuam a existir rituais para o momento da concepção. Durante a expansão do império romano é levada a cabo a profissionalização do conhecimento obstétrico, de que temos referência graças às parteiras como Trótula, que reconheceu a depressão pós-parto no seu livro “De Passionibus Mulerium Curandarum”. Após este período, na Europa há um declínio nos cuidados de saúde a todos os níveis, será no período da Renascença, quando o conhecimento da patologia pós-parto começa a despertar interesse. Para nós, uma interessante comunicação.


Seguiu-se Tamara Cueto González, Enfermeira especialista no Hospital Universitario San Agustin, Avilés, Asturias, que vincularia a sua comunicação à «História da Saúde Mental em Espanha: O Papel da Enfermaria», que nos reporta até à aparição da primeira casa de loucos em Bizancio e à publicação do livro “Relaciones Interpersonales en Enfermeria” de Hildegard Peplau, que estabelece as bases da enfermaria psiquiátrica; passando por corredores do Hospital dos Inocentes de Valencia, uma referência de assistência psiquiátrica à época, chegando ao ano de 2005 onde ocorre a profissionalização da enfermaria mediante o Real Decreto das especialidades. Segundo Tamara Cueto González, durante todos estes anos, pouco a pouco, tem variado o perfil do cuidador, avançando nas diferentes etapas da história assim como suas funções a desempenhar. O objectivo final do trabalho, que teve a coautoria das colegas e enfermeiras especialistas (Silvia Piñeiro Otero, Maria Luisa Curto Benito e Aurora Hervés Barcia), tal como a comunicação anterior, foi o de contextualizar a história da enfermaria de saúde mental em Espanha, assim como a sua evolução até ao momento presente.


A 4.ª Sessão terminou com a comunicação de João Feliz, Médico Interno de Psiquiatria na ULS da Guarda, centrada num trabalho em coautoria com os colegas da mesma Unidade Local de Saúde, Juliana Nunes, Tiago Ventura Gil e Diana Brigadeiro, fazendo uma cirúrgica e/ou oportuna abordagem a uma «Breve História da Proibição das Drogas», binómio Proibição/Legalização das drogas enquanto tópico recorrente de discussão no ideário da Modernidade. Segundo João Feliz, sem grande restrição ou regulação até ao século XIX, com o advento do século XX, as drogas passam a ser consideradas uma ameaça pública, que devem ser eliminadas da vida das sociedades contemporâneas, através da proibição progressiva da posse, venda ou consumo. Para tal, trava-se uma verdadeira cruzada global, encabeçada pelos Estados Unidos, com orçamentos na ordem dos biliões de dólares, na tentativa de erradicar um dos grandes males que consomem o homem moderno. E questiona-se, questionando-nos: Mas serão as drogas verdadeiramente um mal social? Será a Proibição o melhor meio de conseguir um consumo responsável e esclarecido das diversas drogas que acompanham a história e evolução humana? – Neste trabalho, os autores acabaram por apresentar uma resenha das ideias defendidas por Antonio Escohotado, filósofo espanhol, que editou, em 1983, a monumental obra, intitulada “Historia General de las Drogas”, que já conheceu 15 edições, servindo-se os autores da edição de 2008.







Após um breve intervalo (11:30) para Coffee break, passou-se à apresentação e discussão dos posters «Morfinómanos en el Manicómio de Conxo-Galicia, 1932. Algunos Apuntes sobre la morfinomania de los siglos XIX y XX (y sobre la epidemia de la oxicodona en el siglo XXI)», por Cristina Carcavilla Pucy, David Simón Lorda, Jessica Otilia Pérez Triveño, Belén Zapata Quintela e Mª Carmen Alonso García; «Influences of scientific treatises on the psychopathological Picture of the characters in the literary Works of Cervantes», por Francisco López-Muñoz e Francisco Pérez-Fernández; «The psychiatric diagnosis of Alonso Quijano Throughout History», por Francisco López-Muñoz e Francisco Pérez-Fernández; «The madness in Cervantes texts, beyond Don Quixote», por Francisco López-Muñoz e Francisco Pérez-Fernández; «Mitologemas y parafrenia (recordando al Doctor Sarró… Desde una Aldea de Galicia)», por Jessica Otilia Pérez Triveño, David Simón Lorda, Cristina Carcavilla Pucy e Belén Zapata Quintela; «Historical developmente of existential psychotherapy and phenomenology» e «The case of Ellen West: Ludwig Binswanger’s Historial Clinical case revisited», por João Pedro Lourenço, Rute Cajão, Carla Alves Pereira, Bruna de Melo, David Teixeira e Alberto Marques.



Após o almoço, e dentro da programação de animação cultural, fez-se uma visita guiada à extraordinária Exposição, de imagem e texto, sobre «A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL, A FARMÁCIA E OS FARMACÊUTICOS PORTUGUESES», magistralmente explanada pelos Professores Doutores da Universidade de Coimbra, João Rui Pita e Ana Leonor Pereira.


Pelas 14:30, na Sala A, deu-se início à 5.ª Sessão de comunicações, cabendo-nos (Porfírio Pereira da Silva) a abertura com o tema a que nos propomos sobre «Os Programas das Lições do Curso Livre de Antropologia na Medicina e a Incidência na Psiquiatria», aliando ao facto de no ano em que se celebra o 130.º aniversário (1888-2018) do nascimento de Mendes Correia, e o centenário da criação da SPAE (Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia), da qual é um dos principais impulsionadores, interessar saber como o mundo epistémico antropológico desta época, claramente marcado pela teoria evolucionista e pelo eugenismo, está nos programas académicos. Depois de analisados os programas, constatamos como essa Episteme estabelece a prática psiquiátrica. A grande preocupação em definir a distinção entre o “animalesco” e o “humano”, o “normal” e o “anormal” (patológico), a saúde e moral estabelecida pelo poder das “medidas” físicas e consensos psiquiátricos, e a morbilidade “natural”, étnica e de género, estabelecem-se como as principais preocupações científicas da época, para a construção de “tipologias morfológicas / étnicas / regionais” que justificam o diagnóstico clínico. Importa ver como as caraterísticas físico-morfológicas são interpretadas para estabelecer uma leitura das práticas sociais, com destaque nas “degenerações” mentais.


Seguiu-se Tânia Sofia Ferreira, Mestre em História Contemporânea da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – CITCEM, que trouxe à discussão «O caso Alberto da Cunha Dias: contestação ao Decreto de 11 de Maio de 1911 e ao redactor da “mais infame das leis», interessante comunicação que se debruçou Sobre um Decreto: uma campanha jornalística, coletânea de artigos reunidos e publicados por Alberto da Cunha Dias em diferentes publicações periódicas dos inícios do séc. XX, e que tinha como principal objectivo, segundo o autor, esclarecer a opinião pública “daquilo para que serve o Decreto de 11 de Maio de 1911 e da sua desarmonia com a Constituição da República Portuguesa” e denunciar aquilo que considerava ser um grave atentado às liberdades individuais. Paralelamente à crítica das disposições do decreto, Alberto da Cunha Dias, internado em 1916 no manicómio de Telhais, em Sintra, e depois no Hospital Conde Ferreira no Porto, com o diagnóstico de loucura lúcida, moveu uma intensa campanha contra Júlio de Matos, o redactor “da mais infame das leis”, que subscrevera um atestado em como padecia de uma “incurável e perigosa loucura”, ao mesmo tempo que denuncia a possível instrumentalização do saber psiquiátrico e as suas implicações.


Por fim, Nuno Borja-Santos, Médico assistente graduado de psiquiatria do Hospital Prof. Dr. Fernando Fonseca, num trabalho coadjuvado por Luís Afonso Fernandes e Mário João Santos, ambos Médicos internos de psiquiatria no mesmo Hospital, trouxe-nos «José Júlio da Costa: psicopatologia no magnicídio?», interrogação que após uma breve nota histórica sobre a presidência de Sidónio Pais, é feita, seguindo as referências históricas habituais, uma resenha dos acontecimentos que levaram ao seu assassinato. Esta é depois comparada com as notas clínicas e forenses recolhidas em internamento do homicida – José Júlio da Costa – no Hospital Miguel Bombarda, durante as admissões aí registadas (1921 e 1927), apurando-se nesse plano, algumas discrepâncias, nomeadamente sobre a eventual importância de conflitos laborais na sua terra natal. Segundo Nuno Borja-Santos, de acordo com estes registos, serão ainda discutidos os diagnósticos psiquiátricos e i(ni)mputabilidade no que diz respeito ao magnicídio, alvos de discordância clínica entre os responsáveis de ambos os internamentos.


No final desta série de comunicações travou-se um interessante debate com os três comunicadores, através de um painel moderado por Ana Paula Araújo, Investigadora do Lab 2PT (Laboratório de Paisagem, Património e Território) da Universidade do Minho.
Ainda houve tempo para o pequeno Coffee break, onde trocamos opiniões, contactos e promessas de para o ano voltarmos.
Na impossibilidade de estarmos presentes em todas as sessões e conferências plenárias, tendo em conta que as mesmas funcionaram, simultaneamente, em duas salas (A e B), procuramos, na medida possível, transmitir toda a dinâmica interdisciplinar e objectivos das temáticas abordadas neste Congresso.

Sunday, May 13, 2018

Imperativos da Memória (IV)

O rosto pela palavra!…

«Nós, as mulheres, o que nos faz amar um homem é aparentá-lo com tudo o que amamos – o tempo da crise, da puberdade, da gestação, do enigma; os primeiros rostos, as primeiras carícias, os primeiros medos.»

Agustina Bessa-Luís


Aprendemos através das nossas “obrigações” e incursões filosóficas que o rosto não é um simples fenómeno, enquanto aquilo que se mostra, que se manifesta à consciência quer seja directamente ou por intermédio dos sentidos, tendo em conta que ele é igualmente o significado de alteridade daquilo que nos escapa absolutamente.
Para Louis Aragon (1897-1982), poeta e escritor francês, por exemplo, “a literatura é um assunto sério para um país, pois é afinal de contas o seu rosto…”, significado de presença, e expressão da vida de uma outra interioridade, de um outro “eu” – o alter ego de uma liberdade. Aqui estaremos a falar do rosto assente na fenomenologia, ou seja, à boa maneira kantiana, aquilo que, para ele, correspondia à sensação, chamava-lhe matéria desse fenómeno; mas aquilo que fazia que o diverso que ele tinha em si fosse ordenado segundo certas relações, chamava-lhe forma do fenómeno. O rosto em david f. rodrigues expresso pela transcendência (e abertura) que recusa a identificação e a posse: se um dia der / a minha vida um livro / uma só página há de ter / o rosto. É na poesia que, numa aparente humildade, busca “só parcos e refinados sabores”, preparando os alimentos que maior prazer à língua lhe dão.


Tanta retórica da nossa parte, dirão os nossos leitores, para que de uma forma coerente e desinibida possamos reafirmar o nosso princípio “deontológico” de não cairmos na tentação de explicarmos a poesia, quando ela apenas se deve pautar pelo nosso sentir pessoal, enquanto postulado da razão prática. A leitura de cada um de nós é um acto de liberdade, como livre é o autor na descoberta, bem escorada nos seus recursos filológicos (recorrentes da morfologia, sintaxe e doutoramento em Linguística/Teoria do Texto), do rosto depurado pela poesia quando esta “…não é / o meu forte / a poesia é / o meu fraco / a poesia é / a força da minha fraqueza”, sem se refugiar nas sombras dos alicerces trazidos pela experiência e estudo adquiridos e transmitidos a centenas e centenas de discípulos, porque, para ele, “…todas as palavras à sombra / me perseguem em disputa acesa / por um lugar ao sol num poema / ou tão só num simples verso…”. A poesia em david f. rodrigues, mesmo quando expressa pelo efeito imponderável,  traz sempre consigo “o perfume de cada palavra / oculto que dia-a-dia persigo”, com a consciência plena de que “por natureza o poeta / não é um fala-barato”. Para que serve hoje a poesia? – pergunta que coloca para o nosso lado: sempre que me calo / poesia é contigo / ou será tão só comigo / que mais alto falo.  
De pouco valem as nossas palavras à excelsa criação poética de david f. rodrigues, tendo em conta que a possível ou merecida exaltação fica ao dispor dos detentores de pergaminhos e canhenhos de intelectualidade. A nossa apreciação vale apenas pela liberdade do exercício assente na “douta ignorância”, muito própria, de quem sabe naturalmente que à medida que vamos adquirindo conhecimento, acabamos por reconhecer a vastidão da nossa ignorância.
Nota máxima.

[Imperativos da Memória (IV) - O rosto pela palavra!... A Aurora do Lima, Ano 163, Número 16, Quinta-Feira, 10 de Maio de 2018, p. 16]

Thursday, April 12, 2018

Imperativos da Memória (III)

As margens da palavra!…

«As escritas quotidianas são, actualmente, fontes primárias de especial relevo para investigações transdisciplinares (História, Linguística, Antropologia, Sociologia, Psicologia, entre outras). Dos acervos pessoais e familiares gerados nos últimos séculos os investigadores têm à sua disposição uma parte do que foi, na verdade, produzido pelos agentes da História»

Maria Olinda Rodrigues Santana
Henrique Rodrigues


A PALAVRA sempre foi para nós um escudo, acção de defesa e, tal como um dia lemos no «Tratado da Ciência Cabala ou Notícia da Arte Cabalística», especulação natural da virtude das letras, mesmo contra aqueles que a utilizam como “arma de arremesso”, envolta na intriga, dissimulação e alcoviteirice em proveito próprio. Aí constamos que da eficácia e virtude das letras (caracteres que formam a palavra) resultam, muitas vezes, “vários e notáveis efeitos naturalmente; porque, como vemos e lemos, por elas se denota já honra, já vitupério, escravidão, liberdade, e causas semelhantes, e daqui procede a observação de algumas nações políticas”, que punham na face o S ao escravo, e nas costas o L ao ladrão… Honestidade pela PALAVRA deixou de ter o cunho de uma formalidade a cumprir, nomeadamente quando os que nos antecederam, acabaram por nos educar no culto do respeito de uns pelos outros, através da palavra dada sem ser, obrigatoriamente, exarada a tinta ferrosa. Daí, um dia, Manuel Rivas (Barrós), escritor, poeta, ensaísta e jornalista galego, ter afirmado que “a exaltação tem mais palavras que a calma”.   
Hoje e agora, AS MARGENS DA PALAVRA, o mote que Maria Olinda Rodrigues Santana e Henrique Rodrigues, no papel de coordenadores, encontraram para produzir uma extraordinária obra, aguarelada por palavras expressas em cartas, vozes e silêncios femininos, numa edição da Associação Portuguesa da História do Vinho e da Vinha (APHVIN/GEHVID), ser motivo para nós de exaltação intelectual e científica dos coordenadores (simultaneamente autores do prefácio) e dos que os acompanharam neste desvelar (revisitado) de escritas gravadas por gentes anónimas de várias classes sociais, escritas essas que “têm chamado a atenção dos historiadores, dos linguistas, dos etnógrafos, dos antropólogos e doutros investigadores”, uma vez que estas fontes primárias permitem aos mesmos lançar olhares sobre espólios documentais muitas vezes condenados ao desaparecimento.


Trata-se de um caso único e especial, resultante de um óptimo trabalho, complementado pelos tratados científicos dos seus autores, especialistas de várias áreas, a quem prestamos aqui o nosso reconhecimento e gratidão: Ana Sílvia Albuquerque – Da vida e obra da mãe: reconstrução de um itinerário existencial e educativo; António Barros Cardoso e Sílvia Trilho – A angústia da distância encurtada pela escrita; Chris Gerry e Filomena Morais – De Florbela a Judith, de Judith a Florbela: uma correspondência imaginada, 1924-1925; Ernesto Português – Escritas silenciosas no Colégio de Regeneração nos finais do séc. XIX; Henrique Rodrigues – Silêncios e tempos de escrita da emigração de oitocentos e Escritas e silêncios de “Madrinhas de Guerra”: abordagem à correspondência feminina para um militar da Guerra Colonial; José Ignacio Monteagudo Robledo – Poder silencioso e submissão feminina em uma correspondência hispana-argentina; Maria Beatriz Rocha-Trindade e Amílcar Baião Pinto – Apontamentos: uma Viagem a África - 1897-1898; Maria Izilda Matos – Saudades: Epistolário de e/imigrantes portugueses escritos e sensibilidades (Portugal-Brasil 1890/1930); Maria Olinda Rodrigues Santana e Assis Gaspar Machado Monteiro – Nas encruzilhadas da vida: memórias contadas, silêncios guardados…; Maria Olinda Rodrigues Santana – Escritas e representações de sabores no feminismo; Mila Simões de Abreu – O misterioso alfabeto do Alvão e a origem da escrita em Trás-os-Montes: como uma ideia falsa se espalha através das redes sociais; Pedro Javier Cruz Sánchez – Creencias sobre la pared, epistemologia y problemática del emblema de la cruz en el âmbito urbano tradicional; Salvador Magalhães Mota – As Cartas Pastorais como instrumento de comunicação e propaganda privilegiada de conservadores e de reformistas na Congregação dos Bernardos na segunda metade do século XVIII. Alguns contributos.
         Aqui fica um excelente trabalho que, por certo, nos motivará à reflexão, debate e divulgação da História social e cultural do tempo da comunicação à distância através do escrito. NOTA MÁXIMA!... (com apenas um senão: os 200 exemplares publicados).


[Imperativos da Memória (III) - As margens da palavra!... A Aurora do Lima (Viana do Castelo), Ano 163, Número 13, Quinta-Feira, 12 de Abril de 2018]

Wednesday, March 28, 2018

Imperativos da Memória (II)

Recorrendo ao silêncio!…

«Há duas coisas que é absolutamente necessário compreender: a natureza do espaço e a natureza do silêncio. Interessa sumamente descobrir o que significa "espaço". Não queremos referir-nos à distância entre a Terra e a Lua, porém ao espaço psicológico, o espaço interior. A mente em que não há espaço é uma mente estreita, insignificante, vulgar; está presa numa armadilha, e os movimentos que faz dentro dessa armadilha chama "viver". Mas, para se descobrir o que é esse espaço interior, é necessário observar o espaço exterior»

Krishnamurti


Há momentos em que necessitamos de recorrer ao silêncio, refugiando-nos na leitura e releitura das grandes referências que nos têm acompanhado ao longo da vida e são companhia permanente das nossas estantes, onde as obras nunca são adquiridas às suas medidas. É no silêncio, quase clandestino, que por vezes preenchemos tardes a “discutir” antagonismos, interactividades, destruição de mistificações, ausência de mensagens inequívocas, principais instrumentos de informação, falsos passadismos, consequências de mudança, servir ou obedecer ao jogo, sempre com a noção de que antes de qualquer acção existe a lealdade à nossa convicção.
É no silêncio, porque a esse exercício somos muitas vezes obrigados, que amamos a terra que nos pariu. Contudo, sentimos um enorme vazio e tentamos descortinar as concepções da razão, constituinte e constituída. Isto quando procuramos a capacidade de ascender ao mundo das ideias, quer como essências, quer como valores. Passamos a abominar o cliché de «O homem é um animal racional», porque admitido como a diferença específica.


Daí gravitarmos mais na “formulação madura” da “razão suficiente” leibniziana, tendo em conta que a mesma enuncia que nada é sem que haja uma razão para que seja ou sem que haja uma razão que explique que seja. Sentimos um vazio, mas, mesmo assim, amamos a nossa Terra Natal. Pena é que, circunstancialmente, a “orgânica” esteja à mercê dos “usurpadores”, crentes na “sabedoria superior”, dilacerante da natureza da substância, neste caso concreto, o modo do conhecimento da substância e essência da razão.
Foi para quebrar um pouco do silêncio (quiçá, a “monotonia do silêncio”) que resolvemos anuir ao convite do Raul Pereira, para assistirmos ao lançamento do seu livro «Dentro de um Cesto de Rosas (Vila Franca: Celebração e Notas)», uma sentida experiência científica, por se dar conta de iniciativas similares da Direcção Geral do Património Cultural, de salvaguarda do património imaterial português, pensando de imediato na terra onde cresceu e no seu mais alto valor cultural: a Festa das Rosas.
Há dias em que, impreterivelmente, necessitamos do silêncio, e dele nos afastarmos, como espaço dentro de nós, criado pelo observador, pelo censor: o espaço em que ele vive. Mas, de vez em quando, faz falta um banho de multidões. E o Raul Pereira teve-o, merecidamente: «Quanto a mim, Raul Alexandre da Rocha Pereira, fiz o que achei que me competia: retribuí, com aquilo que pude e sei, o que agora me parece um mero alfinete no cesto de rosas que constitui tudo o quanto de Vila Franca recebi enquanto cresci
Silêncio, humildade e acção… VERBUM PRO VERBO!

[Imperativos da Memória (II) - Recorrendo ao silêncio!... A Aurora do Lima (Viana do Castelo), Ano 163, Número 11, 29 de Março de 2018.]