Tuesday, April 15, 2014

Respostas filosóficas para problemas teológicos (II)

“Doutrinas tão básicas do cristianismo como a encarnação, morte, ressurreição e segunda vinda de Cristo dissipam-se numa interpretação existencialista da vida. A interpretação mítica dissolve-se num existencialismo que não deixa quase nada intacto no credo dos apóstolos”

Rudolf Bultmann (1884-1976)‏

Depois de no anterior apontamento termos falado da Trindade e da Transubstanciação, e tal como prometemos, na presente crónica, iremos abordar os dois outros problemas teológicos – segundo o nosso conceito, daí alguma subjectividade –, para os quais procuramos encontrar respostas na Filosofia: Embriologia (aborto) e Ressurreição. Quiçá, temas oportunos, porque vivemos o tempo da Páscoa, festa solene dos Hebreus, celebrada no 14.º dia da Lua de Março, e dos cristãos em memória da ressurreição de Cristo.
Debruçando-nos agora sobre a temática da Embriologia (aborto), e tendo em conta que para Aristóteles os seres animados distinguem-se dos inanimados porque possuem um princípio que lhes confere a vida, e esse princípio é a alma, transmite-nos a “certeza” de que tudo aquilo que está vivo tem alma. Assim, facilmente concluiremos que o sémen não pode estar vivo, mas apenas sob o aspecto potencial: os corpos vivos têm vida, mas não são vida e, portanto, são como um substrato material e potencial de que a alma é forma e acto – citamos Giovanni Reale. Tendo em conta que os fenómenos da vida – tal como pensava Aristóteles – supõem determinadas operações diferenciadas, ou por outras palavras, diríamos constantes e nitidamente diferenciadas, a alma, sendo princípio de vida, “deve ter também capacidades ou funções ou partes que presidem a estas operações e as regulam”. Para o Estagirita, os fenómenos e as funções da vida são: a) de carácter «vegetativo», como o nascimento, a nutrição, o crescimento; b) de carácter «sensitivo motor», como as sensações e o movimento; c) de carácter «intelectivo», como o conhecimento, a deliberação e a eleição, e por estas mesmas razões, Aristóteles introduz a distinção de Alma Vegetativa – a capacidade de tomar o alimento e tornar o alimento em si mesmo; Alma Sensitiva – a capacidade ter sensações e movimento; e, finalmente, Alma Intelectiva – a capacidade de pensar: em relação aquelas faculdades por nós referidas, algumas criaturas animadas […] possuem umas todas elas enquanto que outras, apenas algumas, e finalmente outras ainda, unicamente uma. Estas capacidades […] são respectivamente as faculdades nutritiva, desiderativa, sensitiva, de locomoção e de pensamento – citando Aristóteles, claro. Referindo-se a esta trilogia da alma, o ilustre docente de Filosofia Medieval, José Filipe Pereira da Silva, acaba por fazer transparecer o facto de que há quem defenda que a alma intelectiva é criada por Deus e colocada no ser que está em embrião – 45 dias para o sexo masculino e 90 dias para o sexo feminino –, deixando-se, a partir daí, de falar em embrião e passar-se a denominar de feto, a tal criatura animada antes de sair do ventre da mãe. Daí, nos tempos que correm, assistirmos a preocupações limitativas da prática de “interrupção voluntária de gravidez”. Tudo deriva duma relação das almas numa sucessão ou correlação, e porque não pode haver numa forma substancial várias coisas, ou seja, unicidade e pluralidade das formas.


Outro problema fulcral da filosofia medieval é sem dúvida a Ressurreição, mais um dos dogmas da fé cristã. Sendo que o corpo é corpo por causa da alma e tendo em conta que a alma tem que ser subsistente, mas não substância, Santo Agostinho, por exemplo, afirma que a morte voluntária jamais poderá constituir uma prova de fortaleza de ânimo: todos os que contra si próprios perpetraram este crime, talvez sejam dignos de admiração pela sua fortaleza de ânimo, mas não devem ser louvados pela sanidade da sua razão – citamos Santo Agostinho. Segundo o mesmo teólogo/filósofo, não se poderá chamar fortaleza de ânimo, pois ao entregarem-se à morte, mais não é do que pelo facto de não poderem suportar as contrariedades da vida ou os pecados alheios. Assim, a Ressurreição “empurra-nos”, por um lado, para unicidade: […] Creio no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna (“Credo: Símbolo dos Apóstolos”); e, por outro, suscita-nos a dúvida até que ponto a “forma intelectiva” – alma separada do corpo – pode reunir-se de novo à matéria desaparecida: comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado; porque tu és pó e em pó te hás-de tornar (Gn. 3, 19). Sendo assim, como se pode colmatar a separação do corpo e alma, de modo a juntá-los de novo? Segundo os pluralistas, tem causa na mente divina, o chamado “mínimo de matéria”, que ao nunca ser alterado, permite o «corpo ressuscitado». E quando se fala de fetos abortivos, aqueles que Santo Agostinho afirma que embora aí tenham vivido, morram no útero, embora eu não veja como é que a eles se não estende a ressurreição dos mortos, uma vez que não são excluídos do número dos mortos, apresenta-se-nos a razão causal, ínsita na matéria corporal de cada um, que, parece, de certo modo já se encontra a bem dizer esboçado o que ainda não é, ou antes, o que está latente mas, com o tempo, virá à existência, ou melhor, aparecerá (Agostinho, “A cidade de Deus” 22.13-14). Sem se confundir a «ressurreição cristã» – onde os corpos retomarão, não a sua forma, mas a de corpos gloriosos, doravante imortais – com a «reencarnação» – crença segundo a qual a chamada “alma humana”, passa para outro corpo –, na época medieval, o espectro da «ressurreição» marca a ponte para uma dicotomia, ainda que discutível, entre o sensível e o supra-sensível; o corpóreo e o incorpóreo; a substância e a ultra-substância; a potência e o acto; as funções da alma, etc. No fundo, o sentido da própria existência humana e até que ponto tudo termina aqui, substancialmente.
             E por aqui nos ficamos, no que toca a «Respostas Filosóficas para Problemas Teológicos», dado que eram estes quatro conceitos (Trindade, Transubstanciação, Embriologia [aborto] e Ressurreição) que martirizavam o nosso “parapente” antidogmático!

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