“Já tenho idade
suficiente para não ter tantas ilusões e não espero muito dos políticos”
José Miguel Júdice
A descredibilização da política está aí instalada e
pela voz sonante dos que se serviram da política para evoluírem, tão só,
financeiramente. Quando aqueles que se “masturbaram” através da política, e nos
deixaram neste estado de coisas, vêm agora a terreiro libertar “cobras e
lagartos” a propósito de conjunturas, imbróglios e cozinhados neoliberais,
estamos seriamente acometidos pela conflitualidade dicotómica entre o Estado de
Natureza – discernível através da razão – e o Estado de Guerra, sendo que o
primeiro, segundo John Locke, leva-nos a um estado de perfeita liberdade e de igualdade
“por nos encontrarmos inicialmente num estado de abundância, e não de escassez,
e com um pressuposto implícito de que, muitas vezes, as pessoas estarão
directamente motivadas para obedecer à lei moral", enquanto o segundo,
consequência negativa do primeiro, para os já por nós denominados “forjadores
da política”, assenta no direito de punir, ou seja, “o direito de fazer pagar
pela sua transgressão aquele que transpõe os limites da Lei da Natureza”. Mas,
por incrível que pareça, a transgressão moral é sempre atribuída aos mais
fracos, aqueles que alimentam as máquinas pesadas do Estado, astuto na
imunidade dos que detêm o próprio poder. Como escreveria Rui Tavares, mesmo
sabendo nós que as “máquinas eleitorais” – forma de branquear dependências – se
prestam ao engano e à mentira, “a democracia, mesmo para quem acredita nela,
não resolve os problemas todos. O que a democracia faz é criar uma maneira que
permite resolver problemas. Não é uma solução para tudo, mas uma forma de
encontrar soluções em conjunto”. Daí, a nossa apreensiva cautela no que toca a
defensores de indexações circunstanciais (nunca por culpa deles), esguios aos
princípios de justiça – premeditadamente situados entre a carência e a
abundância – defendidos por John Rawls: “Cada pessoa terá direito igual ao mais
vasto sistema total de liberdades básicas iguais compatível com o sistema
similar de liberdade para todos”. Antes pelo contrário, assiste-se ao
proliferar de uma paupérrima dialéctica, porque assente na má formação (ética e)
de carácter, milenarmente “moldado” pelas três disposições aristotélicas,
porque por ele pensadas: “duas são perversas, a que é por excesso e a que é por
defeito, e uma é a da excelência, a qual corresponde à posição intermédia”. Nos
tempos que correm, infelizmente, é essa disposição intermédia (excelência)
asfixiada pelas disposições do excesso e do defeito, forçando a negação da
máxima, também ela aristotélica, de que “o Humano enquanto prático é princípio
da acção”. Deveria ser no agir que o mesmo (Humano) se pode cumprir na sua
possibilidade extrema, como ser ético ou, tendo em conta as palavras do
político cabo-verdiano Abraão Vicente, reconhecer a política como arte e não como
ciência: “estou há pouquíssimo tempo na política activa mas posso garantir-vos
algo: tal como escreveu Otto Von Bismarck a política não é uma ciência, como
supõe a maioria dos senhores, mas uma arte”. E esse propósito ou “disposição” falta
a muitos dos nossos políticos, porque eticamente mal formados.
Muitos dos “reformados” da política – muito novos
na idade e principescamente remunerados – utilizam hoje o “palanque” da
palavra, por forma a serem os moralizadores da sociedade, que outrora ajudaram
a desmoronar-se. Defendem a necessidade da austeridade, mas sem mexer nos seus
salários; o aumento da produtividade e abaixamento de salários – referencial
propósito de um (multimilionário assalariado) conselheiro de Estado, o nominal António
Borges –, como se as palavras vociferadas fossem, por si só, extensivas à própria
produtividade; o choque estrutural no emprego, mas sempre acautelando as
condições do mercado e do perfil de empregabilidade; a condescendência
“patriótica” da privatização dos bens públicos, por forma a livrar-nos, segundo
as suas iluminadas mentes, do peso do Estado; a mão pesada para os pais, alunos
e escola, fazendo lembrar disciplinas de antanho: “os alunos devem cuidar da
sua higiene pessoal e apresentar-se com vestuário adequado, em função da idade,
dignidade do espaço e das actividades escolares”; leis de compromisso, mesmo
que se ponham em causa a estabilidade de instituições públicas, no que concerne
à quantidade e à qualidade (exemplo da Saúde); a luta contra a corrupção, mas
na prática envolvem-se (com secretas – para Catalina Pestana, qual sucedâneo da
PIDE – à mistura) em favores a empresas e amigos, levando a que Rui Tavares, no
Público de 4 de Junho, preconizasse a seguinte estigmatização: “Em Portugal
existe o «estado superficial». É uma espécie de babugem na qual fermentam
criaturas sem conhecimento, mas com «conhecimentos», sem cultura política mas
com cunhas metidas por políticos, com um percurso feito entre lojas maçónicas
manhosas e carreiras nas juventudes partidárias”. Se assim acontece somos
obrigados a concordar com John Stuart Mill quando, um dia, nos alertou para o
facto de eventuais ameaças à democracia representativa, sendo que uma delas “é
a possibilidade de que o sistema encoraje pessoas sem valor ou inaptas a
apresentarem-se a eleições”. Infelizmente, e cada vez vai sendo mais frequente,
razão tinha Platão quando vaticinara que “as pessoas mais bem equipadas para
governar serem aquelas que menos o quererão fazer. Ou, inversamente, as
características que mais provavelmente conduzem ao sucesso na política –
bajulação, duplicidade, manipulação – são aquelas que menos desejaríamos ver
nos nossos governantes”. Tal como ao tempo de Platão, permitam-nos questionar:
Como fazer para nos protegermos de líderes indesejáveis que cheguem ao poder?
A descredibilização da política está aí instalada, não por culpa de quem
vota, mas por culpa de quem, apesar de se saber incapaz, teima em procurar a
“estabilidade financeira” do seu próprio bolso. Por isso, tal como José Miguel
Júdice, também nós já vamos tendo idade suficiente para não termos tantas
ilusões e não esperarmos muito dos políticos. Ficando-nos pela nossa
insignificância – e quiçá, assumida “ignorância” (?) política –, mesmo quando
presumimos que a democracia é uma forma de tornar conhecidos os interesses ou
preferências individuais, terminaremos postulando o provérbio latino, por nos
acharmos indiferenciados na sabedoria da bajulação, da duplicidade e da manipulação,
tão em voga neste “Estado” de graças: Quae
sunt Caesaris Caesari!
1 comment:
Tomo como minhas as palavras de José Miguel Júdice, com que abre este post...e muitas vezes me interrogo: que política? que democracia? que futuro? Não só para mim, mas também, e principalmente, para os meus filhos!
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